Resumo
Visivelmente existe uma crise do trabalho. Há diferentes proposições
sobre o futuro do trabalho que oscilam entre o pessimismo e o otimismo,
fazendo com que em alguns meios, se encontre uma reimpressão do ludismo,
ou seja, se a máquina vai substituir o homem favorecerá mais o tempo
livre, e em outros sombrias previsões onde a maquinização de quase tudo
é entendida como um rolo compressor sobre o trabalho, origem da
supressão de postos de trabalho. Por outro lado, o fanatismo homicida
pelo trabalho converte a máquina libertadora em instrumento de
escravização dos homens livres: sua produtividade os empobrece.Ao
aperfeiçoamento da máquina o homem dobra seu esforço como se quisesse
competir com ela. Estas perspectivas apontam para a necessidade de se
analisar de modo mais acurado a dinâmica do trabalho em direção ao
contexto da sociedade pós-industrial nascente e as implicações
decorrentes dessa nova ordem. O presente artigo propõe uma reflexão
sobre as mudanças nos conceitos de trabalho em meio a diversidade dos
fatores tecnológicos e econômicos e políticos, para repensar as
transformações sociais necessárias à inserção e a participação ativa das
pessoas do mundo do trabalho.
Em física, trabalho é o resultado de uma força que desloca um objeto a
uma distância mensurável, vencendo uma resistência. Então em física se
realiza um trabalho quando a força for suficiente para mover um objeto.
Em outras palavras, o trabalho é medido pela sua dimensão concreta, ou
seja, pelo que é realizado e não pelo esforço aplicado na tentativa de
mover um objeto. Esse é um conceito Newtoniano, praticado pelos
cientistas e pelos engenheiros. O conceito de mundo do trabalho é mais
amplo que a função laboral no sentido estrito. Incluem-se nele tanto as
atividades materiais, produtivas, como os processos sociais que lhe dão
forma e sentido no tempo e no espaço.
Ao olhar para o passado, através da história, não é difícil encontrar
registros na literatura da imagem usual do trabalho conquanto expressão
exaustiva, impositiva, condição de vida. Um recuo mais além no tempo,
contribui para um posicionamento presente com uma concepção mais clara
dos diferentes momentos históricos e da complexidade da relações atuais
de trabalho num cenário tecnológico mutante e de impensáveis
possibilidades. Tecnologias estas não menos decisivas que descoberta do
fogo ou a invenção da roda, apenas muda a rapidez dos acontecimentos.
Aquilo que hoje parece corriqueiro foi um dia uma inovação surpreendente
que mudou a forma de fazer e de pensar.
________________________________
* Professora do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da UNIOESTE,
campus de Francisco Beltrão, e mestranda do Programa de Pós-Graduação em
Engenharia da Produção da UFSC.
Na visão de Posner, Randolph e Wortman (apud Martins, 1994) nas
sociedades primitivas não existiu uma divisão entre trabalho e não-trabalho
e “trabalhar era tão natural quanto prazeiroso”, podendo ter uma
conotação de sagrado como ser comparado a um tipo de diversão. Para
Guerreiro Ramos (apud Martins, 1994), pessoas nas sociedades antigas
dispunham de todo o tempo e “eram donas de si mesmas, não um fator de
produção”. As pessoas trabalhavam para viver e sua liberdade lhes
garantia a possibilidade de expressar criativamente o potencial
individual.
Segundo Martins (1994, p. 5) e conforme ilustra a Figura 1, desde as
primeiras sociedades humanas até os dias atuais o trabalho assumiria os
seguintes significados:
· Na pré-história: Uma atividade lúdica;
· Na Antigüidade: Maldição divina ou do vencido e escravisado;
· Nos primórdios do cristianismo: Forma de expiação do pecado original e
meio de compaixão;
· No cristianismo da idade média: Remédio para as tentações;
· Com a reforma luterana: Um direito e dever ou um meio para a salvação;
· Na revolução industrial: Expressão da criatividade humana;
· No início do século XX: A maior obsessão;
· Nos dias correntes: Uma atividade em questionamento;
· No porvir: Resgatando seu sentido original. Uma prática tão natural
quanto lúdica.
É notável que a civilização se estruturou fundamentalmente em função do
trabalho humano. Nos diferentes momentos e sociedades o executor do
trabalho desempenhou diversos papéis em sua existência: de usuário da
energia física, depois operador de ferramentas, passando por organizador
da produção, para na era pós industrial ser um sintetizador da energia
mental, favorecendo a abstração e a criatividade.
“Em Atenas a vida cotidiana era feita de pequenas coisas.(...) Aos mais
cultos dos antigos bastava o frescor de uma fonte, o perfil de uma
colina, a sombra de um plátano para atingir um estado de graça muito
acima do que fornecem hoje mil passatempos mecânicos do consumismo de
massa (...) A verdadeira riqueza dos gregos não deriva da posse de
objetos úteis ou vistosos (...) mas da capacidade de captar e saborear
profundamente as sensações e os significados positivos inseridos nas
coisas, nos acontecimentos e nas idéias de todos os dias”(De
Masi:2000.p, 78).
Figura 1 - DISTINÇÃO ENTRE TRABALHO E NÃO-TRABALHO
Fonte: MARTINS, Paulo Emílio Matos: 1994, p. 6)
Antes de 1800 - e em muitos casos, depois – o emprego sempre teve a
conotação de execução de uma determinada tarefa e não uma função a ser
exercida. O trabalho temporário recebeu roupagem nova com o surgimento,
principalmente na Inglaterra, das indústrias chamados “os satânicos
moinhos escuros”. A grande mudança para as pessoas foi deixar de fazer
algo orientado pela vontade própria, orientado pelo “apito” da natureza
e então ser regido pelo tempo contado, um mundo novo, onde o emprego não
permitia a passagem de uma tarefa para outra livremente, nem agilizar a
sua conclusão para poder estar livre e isto comemorar. Também era
difícil aprender as regras do emprego.
Assim, do período da pré-Revolução Industrial até o início do século XX
o trabalho passa a assumir literalmente o sentido racional do mercado,
virando mercadoria. A mão-de-obra deslocada da agricultura pela
mecanização veloz encontra absorção no setor industrial onde o modelo do
trabalho assalariado é o trabalho fabril, ferramenta de produção, é o
trabalhador chamado operário que laborava por longas jornadas em
ambientes insalubres, mas cuja organização foi modelo numa época em que
não existia qualquer segurança ou garantia.
É o modelo minoritário, pois em nenhum lugar do mundo ao trabalhadores
de fábrica foram a maioria das pessoas que trabalham, era uma minoria
importante, muito organizada, muito ativa e combativa pelos seus
direitos, e pelos direitos em geral dos trabalhadores. Pode-se dizer que
no século XX os trabalhadores fabris foram uma espécie de vanguarda do
movimento operário (...) o que talvez mais importante é considerar, que
devido ao desenvolvimento da indústria fabril, se deu um enorme
desenvolvimento das atividades chamadas de controle (Singer: 2000, p.
34).
Na medida em que o trabalho direto, feito com esforço físico vai sendo
suprimido em decorrência da expulsão do homem da atividade produtiva
direta pela máquina, passa a existir um processo em prol da atividade de
cuidado sobre a máquina, em função do que cresce em importância a
atividade de controle. A grande maioria das pessoas embora ainda em
espaços específicos, já não trabalha na produção, e sim na programação,
na organização e no controle da produção. Passou haver uma certa
passividade que o controle da produtividade e do desempenho de cada um
era a medida quantitativa do trabalho, o que Capra (1982, p. 51)
confirma: “Nada mudou mais o nosso mundo que a obsessão dos cientistas
pela medição e quantificação”.
Conforme denotam os dados apresentados por Antunes (1999, p. 43-44), a
retração do trabalho na agricultura, na mineração e na indústria
manufatureira evidenciam uma nítida redução do trabalho manual e fabril,
especialmente nos países de economia capitalista, seja por decurso de um
panorama recessivo, mas de forma mais contundente em função da automação
e da microeletrônica, o que poderia caracterizar uma “desproletarização
relativa” se não viesse ampliar a taxa de desemprego estrutural. Esses
países viram decrescer os empregos em tempo integral e paralelamente o
surgimento de trabalhadores parciais, temporários, subcontratados, etc.
variantes essas que o autor denominou “subproletarização do trabalho”.
Esse movimento vem configurar uma propensão a individualizar as relações
de trabalho, modificando e desregulamentando padrões legais vigentes em
nome da competitividade.
Porém, na medida em que os postos de trabalho na indústria sucumbiam
também evidenciava-se o expressivo crescimento do setor terciário, ou
seja, do setor de serviços, que do início da década de 1960 ao início da
década de 1980, teve como efeito mais notável a maciça entrada das
mulheres no mundo do trabalho, caracterizando marcantes transformações
no interior das classes trabalhadoras. As inovações tecnológicas
permitem que aparelhos substituam o trabalho da mulher em atividades da
preparação da comida e de limpeza reduzindo o trabalho doméstico que
cada vez mais passa ser feito ou fora de casa, ou dentro de casa com as
máquinas, tornando a classe que vive do trabalho tanto masculina quanto
feminina.
Entretanto, embora o comprovado crescimento do setor de serviços, mesmo
neste, não se pode deixar de considerar o efeito da automação em muitas
áreas onde a tecnologia da informática em máquinas com inteligência
artificial são capazes de executar sem falhas muitas das tarefas mentais
até então realizadas pelo homem, o que em princípio evoca a idéia de
libertação de tarefas repetitivas sem sentido, de outra forma sinaliza
para a hipótese de um mundo de menos trabalho.
Se interesses ligados a fatores econômicos tinham destituído do trabalho
seus valores humanos, na sociedade pós-industrial que desabrocha com
gigantescos e desafiadores problemas sociais, o trabalho curiosamente
resgata um caráter multidimensional. Novas ocupações, com a função
utilitária perdendo importância, surgem das transformações tecnológicas
dando espaço para novos modelos de exercício do trabalho, com a morte do
controle centrado nas pessoas e despontar de um sentido de
responsabilidade social.. A gestão de desempenho requer uma mudança de
controle para o compromisso.
No mundo de mais trabalho e menos emprego as competências pessoais, a
disciplina, a curiosidade e a obsessão de aprender continuamente são
ingredientes que marcarão a passagem do tempo definido para o tempo
escolhido. Esse movimento nos leva a crer que o sentido do trabalho
possa novamente vir a se relacionar como uma prática libertária de seres
participativos numa sociedade aprendiz pois, conforme De Masi ( 200l,
p.14), “através do direito ao trabalho, o homem realizou a sua condição
industrial; através do direito ao ócio, o homem realizará sua condição
pós-industrial.”
A diminuição da necessidade do trabalho pela otimização do tempo da
máquina é a característica maior da sociedade pós-moderna ao que podemos
julgar haver uma abertura de espaço para novas possibilidades de uso do
tempo livre e uma retomada da autonomia no trabalho, apontando novamente
para o aprendizado criativo como nas sábias sociedades primitivas, onde
o trabalho deixa de ser um valor central, sobre o qual todos os demais
se hierarquizam e uma gama de outros valores tomam espaço. Além do que,
ao contrário da Era Industrial na qual a tecnologia exerceu intensa
pressão à padronização, não somente da produção, mas das atividades e
das pessoas que o realizavam, observa-se no presente o surgimento de
tecnologias opostas, isto é, que tornam possível um retorno à
despadronização, característica esta de antes da Revolução Industrial.
(Tofler:l985, p. 78). Processo esse que pode ser interpretado como uma
repartição social da inteligência entre o homem e a máquina.
Os escritos dos utópicos tecnológicos há muito já vêm defendendo que a
ciência e a tecnologia, adequadamente aproveitadas, finalmente
libertariam os seres humanos do trabalho formal. As suas visões e
perspectivas alertavam para um redirecionamento dos talentos dos seres
humanos e a reformulação da cultura de acordo com os exigentes padrões
das crenças da engenharia. Para estes, cujos escritos (ficção científica
na época) floresceram entre 1883 a 1933, a jornada de trabalho é vista
como uma imposição ao princípio hedonístico que representa o primeiro
pré-requisito para a liberdade. Em nenhum lugar esta opinião é mais
amplamente sustentada do que entre os campeões e defensores da revolução
da informação.
Os utopistas tecnológicos combinaram com êxito o conceito cristão da
salvação eterna e o etho utilitário americano numa nova e poderosa
síntese cultural. A idéia de que a ciência e tecnologia – utilizadas por
uma nação de trabalhadores dedicados e fiéis impregnados da moderna
ética do trabalho – nos levariam a um reino terrestre de grande
prosperidade e ociosidade que continua a servir de modelo social e
econômico predominante até os dias de hoje. (Rifkin: 1995, p. 48)
A questão porém, se desloca aqui para se pensar: após esta reengenharia
compulsória do trabalho pós-industrial, quantos terão oportunidade de
emprego ou de trabalho numa sociedade tão tecnologizada para poucos, mas
tão inacessível para muitos? “A introdução de tecnologias economizadoras
de tempo e de trabalho têm permitido às empresas eliminarem
trabalhadores em massa criando um exército de reserva de trabalhadores
desempregados com tempo ocioso, ao invés de tempo livre, à sua
disposição” (Rifkin:1995, p.48). Setor sucedendo setor, contudo o que se
verifica até este inicio de século é que nenhum novo setor iminente está
se desenvolvendo para reempregar a massa de demitidos pelas novas
tecnologias. A única perspectiva nitidamente percebida é o setor do
conhecimento que embora sua ampliação crescente, está longe de se
comparar ao tamanho do contingente de excluído cuja renda potencial e
poder de consumo precisam ser resguardados para manter a engrenagem da
economia de mercado.
Para mitigar os efeitos das demissões em massa, já em 1920, a classe
trabalhadora americana argumentava que o único antídoto para que todos
mantivessem o emprego é que os ganhos de produtividade deveriam ser
compartilhados na forma de redução da jornada de trabalho. Ultimamente,
a comunidade empresarial continua enfrentando a reivindicação dos
trabalhadores sobre os avanços da produtividade na forma de maiores
salários e redução das horas de trabalho, porém tem sido inflexível
contra essas tentativas. Infelizmente, os trabalhadores conforme o mesmo
autor acima citado, embora a pressão para reduzir a jornada de trabalho
em prol de uma redistribuição do trabalho disponível, salvos em
incursões de algumas representações políticas e em estratégias
empresariais isoladas, ainda não têm muita voz ativa sobre o modo como
suas economias compulsórias são investidas.
A história necessita repetir sempre suas lições porque os homens não
aprendem de vez. Se a redução da quantidade de tempo trabalhada
conquistada em períodos anteriores, notadamente nas duas primeiras
revoluções industriais, embora às custas da mobilização e reivindicação
da classe trabalhadora, servirem de argumento para disseminação do
trabalho entre um número maior de pessoas, é uma alternativa comprovada
de ajuste e inclusão a apreciar.
Os ganhos dramáticos de produtividade no primeiro estágio da Revolução
Industrial no século XIX foram seguidos por uma redução da jornada de
trabalho de 80 para 60 horas semanais. Da mesma forma, no século XX,
quando as economias industriais fizeram a transição da tecnologia do
vapor para as tecnologias do petróleo e da eletricidade, os constantes
aumentos de produtividade levaram a uma redução adicional da semana de
trabalho de 60 para 40 horas semanais (Rifkin: 1995, p. 244).
Mas, há dificuldade de mudar o paradigma de um estilo de vida baseado no
excesso de esforço da gestão arcaica e opressiva dos tempos e dos
espaços, as empresas preferem se prejudicar mantendo pessoas que nada
tem a produzir do que mudar seus próprios regulamentos.
Outra alternativa a ser avaliada sobre a manutenção do trabalho é que:
“Para encontrar trabalho para todos os inúteis da sociedade atual, e
para deixar o aparato industrial se desenvolver infinitamente, a classe
operária, tal como a burguesia, violentar a abstinência e desenvolver
infinitamente sua capacidade de consumo”( Di Masi: 2001, p. 166). Essa
ideologia encaixa-se com a idéia de que o grande problema da produção
capitalista não é mais o de encontrar produtores e aumentar sua força,
mas sim o de descobrir consumidores, excitar seus desejos e criar para
eles necessidades fictícias.
Na sociedade industrial o ambiente de trabalho e da vida pessoal eram
completamente distintos, um não poderia se justapor ao outro, agora as
relações entre o trabalho e a vida estão intimamente interligadas,
principalmente para os trabalhadores que atuam em atividades
intelectuais ou tarefas flexíveis que envolvam idéias, onde o cérebro é
a máquina. A formalidade do emprego consolidado na Revolução Industrial
com horários, salários e atribuições definidas cede lugar para a
informalidade e a flexibilidade da Era do Conhecimento. As sucessivas
transformações tecnológicas aperfeiçoaram o jogo das competências
individuais. “A vida penetrou na empresa e o trabalho difundiu-se pela
vida afora”. (De Masi:2001,p.26).
Desde a década de 1980 que Alvin Tofler figurava em sua obra “A Terceira
Onda”a importância preponderante do conhecimento no mundo atual,
situando-o como o “novo poder”, um poder maleável, flexível e
inesgotável, porém por suas mesmas características, volátil e
intangível. Indubitavelmente este é um tempo fértil para aqueles aptos e
que sabem cultivar as oportunidades, mas os perdedores verão tal mudança
como um problema com o qual devem lidar.
Parece simplista, mas o que seria novo e bem-vindo sinaliza para um
contexto de insegurança e incerteza se não for assegurado um tratamento
especial à massa excluída da tecnologia, pois a inaptidão da maioria não
se resume a uma questão pessoal, mas a um problema social. O problema
está às nossas portas. A grande questão é como fazer a transição para
esta nova era da história sem minar dramaticamente a estrutura do
trabalho, encurralando um exército de pessoas, empurrando-as para a fila
de desempregados, quando não tornando-as descartáveis.
Seria de se supor aqui uma visão redentora do trabalho: não rotineiro e
mais complexo e gratificante. Entretanto cabe uma análise se o trabalho
entendido como atividade criativa e como valor fundante da sociedade não
continuaria decadente e a abrir campo para o imperialismo das máquinas
agora potencializadas pela microeletrônica. A tecnologia não intensifica
o trabalho!! Que relação vencerá nessa metamorfose: a máquina como uma
ameaça de extermínio do trabalho do homem ou a máquina como meio de
libertação das agruras do trabalho?
É oportuno resgatar experiências vividas por outras sociedades para
compreender como as diferenças mudam e as soluções fluem ao longo da
história:
Qual era o maior medo da humanidade no ano de 999, às vésperas do
segundo milênio? O medo do além, da exclusão eterna do paraíso. (...)
Nunca se pintaram ou esculpiram figuras humanas tão desesperadas como no
século 10. (...) Há mil anos os homens se protegeram do medo da exclusão
eterna de duas maneiras: uma, imediatista e paliativa, criando o
purgatório e inúmeras formas de indulgência para garantir o paraíso;
outra, de longo prazo e definitiva, graças à filosofia moderna que
destruiu a dicotomia entre o mundo imanente e o transcendente, entre o
aquém e o além. A comparação entre o trauma dos homens do primeiro
milênio – medo do além – e o trauma dos homens do segundo milênio – medo
de exclusão do emprego e da cidadania – permite-nos tirar uma importante
lição. Embora as soluções paliativas (...) não sejam desprezíveis, a
solução definitiva e a longo prazo para a exclusão do emprego consiste
no rompimento da dicotomia entre o mundo do trabalho e o mundo do lazer
( Nosella: 1999, p. 142).
O mais brutal é que todo mundo é um trabalhador contingente, ou seja, o
trabalho é uma contingência dos resultados da organização e a saída para
os convertidos que conseguem permanecer no sistema de referência
tecnológico, cabe compartilhar uma conduta orientada para a redenção da
eficiência, isto é, tomando-se o conceito oriundo da termodinâmica, para
o máximo rendimento que pode ser produzido no menor tempo possível,
dispendendo a menor quantidade de energia, trabalho e capital no
processo (Rifkin:1995, p. 52). Além de resultados, as empresas precisam
de seus empregados senso de urgência e aceitação rápida da mudança que
aprendam continuamente novas habilidades e modos de fazer as coisas e
senso de colaboração dentro e fora da empresa, de pessoa a pessoa, em
equipes temporárias e permanentes.
O cenário no mundo empresarial brasileiro se assemelha ao das pessoas,
muitas empresas iniciaram uma corrida à modernização de seus processos
de gestão, implantando Programas de Qualidade Total, Reengenharia, redes
e outras tentativas. Podem ser encontradas três tipos de empresas: as
que não sabem para onde ir ou seguir; as que conseguem montar uma visão
estratégica, mas ficam apenas na visão; e as que tem a visão clara,
fazem opções coerentes e realizam as estratégias (Picarelli Fo.&Wood
Jr.,1999).
Ao tratar do aprimoramento das práticas gerenciais em decorrência das
imposições do ambiente, essencialmente aquelas conhecidas e voltadas
para a Qualidade Total, atentamos para a substituição do conceito de
trabalhador por “operador”: “Sujeito pensante que satisfaz suas
necessidades econômicas, sociais, culturais e profissionais na
organização para a qual trabalha. Deve desfrutar de plenas condições
para ser o motor do processo de aperfeiçoamento, ‘Parceiro’ dos
dirigentes da organização na missão de mantê-la competitiva” (Lobos:
1991, p. 18). O conceito apresentado evidencia um novo paradigma sobre a
organização do trabalho e sobre as pessoas.
Não se pode aceitar a explicação essencialista das vantagens e da
sedução deste novo momento. Ao compreender a superioridade da tecnologia
aliada à evolução das ciências organizacionais, vê-se que cada vez mais
e de forma contundente, a cada geração, homens e mulheres, vão depender
mais de si mesmos para sobreviver nesta arena e devemos estar preparados
para viver a necessidade de ultrapassar continuamente a nós mesmos. As
empresas se desfazem das pessoas como se fossem embalagens descartáveis
e não só de operários, mas de executivos também que, inermes, ao
contrário dos operários, nem protestar, quer individualmente ou
coletivamente, o fazem.
Ë plenamente justificável que será preciso uma nova ordem social que
leve em consideração as novas necessidades, um novo senso de bem comum
para justificar os sacrifícios que precisarão ser feitos para ajudar a
construir a inserção daqueles que são frutos da decomposição da
sociedade industrial e que acham o novo muito difícil, incapazes de
administrar sua situação.
Ao pensar quais são os elementos que contribuem para a criação de uma
base sustentável para a nova ordem, num tempo em que conhecer conta mais
do que o fazer, surge a economia social, até agora pouco considerada,
onde o terceiro setor desponta como uma alternativa mais humanizada de
absorver o contingente de desempregados, depois que o valor de mercado
de seu trabalho na economia formal tiver se tornado marginal ou sem
valor. Estamos passando por uma transformação em que a empresa social é
a verdadeira saída para que os projetos não percam a continuidade. Se o
Estado perdeu sua condição de gestor das condições sociais, ele deve
manter seu papel mediador. Aos empresários caberia emprestar seu
conhecimento, de diretores e conselheiros além de gestores. À sociedade
civil cooperaria com trabalho voluntário e técnico – este devidamente
remunerado.
Ao contrário da economia de mercado, que se baseia exclusivamente na
“produtividade” e, por isso, é receptiva à substituição do trabalho
humano por máquinas, a economia social está centralizada nas relações
humanas, em sentimento de intimidade, em companheirismo, em vínculos
fraternais – qualidades que não são facilmente redutíveis a, ou
substituíveis , por máquina. (Rifkin: 1995, p. 314).
Na gigantesca tarefa que o momento reserva às pessoas, onde a
expectativa é que o ser mecânico dê lugar ao ser liberto, o referencial
teórico freiriano oferece um poderoso instrumental a ser adaptado para
a reconstrução do mundo do trabalho:
Ninguém liberta ninguém
Ninguém se liberta sozinho.
Os homens se libertam em comunhão (Freire: 1987).
Assim sendo, o novo milênio nos anuncia que o trabalho é possível e
factível, desde que no contexto do trabalho criativo, cooperativo. A
exemplo do mundo empresarial em que toda a empresa lida de algum modo
com a incerteza, as alianças, compartilhamentos as inter-relações e
outras práticas organizativas favorecidas pela tecnologia, são
instrumentos de cooperação que claramente criam vantagem competitiva. O
homem é hábil em lidar com instrumentos, não só com aqueles usados como
meio de produção, mas tudo aquilo de que se serve para sua sobrevivência
física como social. Assim o homem é capaz de abstrair e criar os
mecanismos para, fora das soluções tradicionais, mesmo num cenário
hostil, estabelecer relações construtivas que incorporem as
reivindicações do mundo do trabalho. Neste ponto cabe pontuar uma
reavaliação do ócio.
O tempo sem trabalho ocupa um espaço cada vez mais central na vida
humana. As afirmações como “eu sou um trabalhador” ou “o trabalho
dignifica o homem” estão perdendo espaço para uma identidade traçada não
mais sobre o valor absoluto do trabalho, mas sobre valores multiformes,
fundamentados nos relacionamentos e numa racionalidade diferente daquela
baseada na ética do valor absoluto do dinheiro. “É necessário reeducar a
população de alta renda para que aprenda a ociar. E é necessário
reeducar a imensa massa de pobres do terceiro mundo , para que aprenda a
trabalhar” (De Masi: 2001, p.33). Ensinar não só o trabalho, mas também
as atividades ligadas ao tempo livre, aos cuidados e às atenções,
entendido como não-trabalho.
A educação para o trabalho e para o lazer já era debatida trezentos anos
antes de Cristo nas palavras de Aristóteles: “Muitos estados se
desagregam após a conquista do seu império; da mesma forma que o ferro
em desuso, perdem eles a têmpera em tempo de paz. O culpado é o
legislador, por não havê-los educado para usufruir o lazer” (Nosella:
1999, p.140).
Na reestruturação contemporânea do trabalho não é possível estar contra
a história, nem daria resultados, é preciso formular as respostas
necessárias num mundo cada vez mais em movimento, sem impor retorno ao
passado. A tecnologia serve para que se viva melhor. Elimina cansaço e
sofrimento. A mudança é que assusta. Há pessoas que prefeririam uma
cultura imóvel como a natureza, mas na prática parece difícil imaginar a
situação da saúde ainda sendo tratada apenas com os recursos que a
natureza disponibiliza. Rejeitar o arsenal tecnológico é regredir.
Observando-se o cenário global e questionando-se quais os objetivos do
homem em sua existência na face da terra, é difícil conceber e sustentar
tamanha evolução sem a efetiva correlação com o bem estar social. O
trabalho em si, é uma forma de integração da sociedade, de fazer parte
do todo. A saída para os milhões de desempregos, cujo trabalho vem sendo
cada vez menos necessário há muito tempo, se inscreve na possibilidade
de regular a abundância proveniente da revolução da produtividade e
repartí-la de forma que todos tenham acesso a um patamar básico. E mais,
é preciso refundar os modelos de vida, de produção e de distribuição. “A
partir daí, as escolhas seriam livres, inclusive para se tentar ser
milionário. (...) O limite seria a criatividade humana, o desejo de ser
diferente e a busca de se distinguir na multidão” (Silva:1999, p. 118).
Se a maioria das páginas de nossa história e os inúmeros fatos a que
assistimos diariamente alimentam o pessimismo, o futuro precisa de toda
a nossa criatividade e, por isso, de todo o nosso otimismo para que o
trabalhador sustente o seu papel de sujeito( parceiro) e não de mero
objeto(recurso).
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