FUNÇÃO E DISFUNÇÃO DA LIQUIDEZ
A função básica da liquidez é transformar meios patrimoniais em
numerário para suprir a necessidade de pagamento da riqueza da célula
social. É a de pagar em dia o compromisso assumido com terceiros.
Objetivo essencial, pois, do comportamento sistemático, no caso, é o do
suprimento da necessidade de realizar pagamentos, nos locais e tempos
certos, na quantidade e com as qualidades pertinentes.
A eficácia da liquidez depende da condicionante referida. Não ocorrendo
o pagamento dentro das dimensões referidas, não se satisfaz a
necessidade e, então, o que ocorre é a ineficácia.
O pagamento é um fenômeno patrimonial, pois, sempre que um fato modifica
a riqueza ocorre tal evento. Por exemplo, o pagamento de uma duplicata,
a compra de uma mercadoria, a venda deste meio patrimonial, o pagamento
de juro, um empréstimo bancário etc. O pagamento de uma duplicata em seu
vencimento é um fenômeno patrimonial que resultou em eficácia, sendo
essa a condição desejável e também natural. O seu pagamento com atraso é
um fenômeno indesejável e antinatural. A falta de dinheiro para pagar
tempestivamente os fornecedores, na data de vencimento de uma obrigação
é antinatural.
A contabilidade, todavia, tanto estuda o natural como o antinatural em
relação ao patrimônio, mas, os modelos que objetiva são os de eficácia.
O modelo contábil, deve, ser constituído tendo por base a ocorrência
normal e que resulta em eficácia. O mesmo ocorre na medicina onde o
corpo humano que se tem por base é aquele de um ser normal. Para os
casos anormais tem-se um estudo específico e que é o da Patologia. A
contabilidade não exclui o estudo e a análise do fato inatural, mas,
como na medicina, o estuda no campo das anormalidades, como se fosse uma
patologia patrimonial.
O desejável na célula social é que ocorra o fenômeno patrimonial natural
e que o sistema da liquidez seja eficaz
Liquidez eficaz é a capacidade de transformar meio patrimonial para
satisfazer a necessidade de pagar encargo assumido com terceiro. O Prof.
Lopes de Sá (1998 p. 225) leciona: “Uma liquidez é eficaz quando os
meios de pagamento suprem tempestivamente as necessidades de pagamento,
ou seja, quando tais meios se convertem rapidamente em dinheiro a tempo
de socorrerem as saídas de numerários que a azienda necessita cobrir” .
E Sá (1992 p. 179) quanto a eficácia nos diz: “A eficácia do sistema (EaS)
ocorrerá, se e somente se, o patrimônio meio (Pm) em função, conseguir
anular a necessidade patrimonial (Pn)”. Para que a liquidez tenha
eficácia é necessário que tenha mais meio de pagamento que necessidade
de pagamento. Possuir dinheiro em depósito bancário não significa
liquidez eficaz. Esta disponibilidade de numerário é parte do sistema da
liquidez. Disponibilidade não é o mesmo que liquidez.
Cecherelli, pai das idéias que gerariam a Escola Aziendalista, insistia
na diferença conceptual entre disponibilidade e liquidez. Lecionava que
disponibilidade eram os meios líquidos e aptos para uma função imediata
e os realizáveis para os mesmos atos, mas mediatos, estes os que se
podem transformar em dinheiro e a liquidez todo o conjunto de uma
correlação tempestiva entre meios e necessidades em face da função do
dinheiro.
Segundo Souza (2000) disponibilidade é o conjunto de bens patrimoniais
representados pelo dinheiro e elementos do capital circulante que
rapidamente se transforma em numerário.
E assim podemos dizer que disponível é o elemento patrimonial e liquidez
é a capacidade deste elemento de ser eficaz em pagar o compromisso da
célula social. Por compromisso entendemos encargos sociais, taxas,
impostos, fornecedores, empréstimos, juros etc.
Quando há uma compra de um computador para uso pessoal com dinheiro do
caixa, houve um desvio de função o que chamamos de disfunção de
liquidez. O meio de pagamento não foi usado corretamente. Houve, sim,
uso indevido do dinheiro da empresa. O disponível do caixa é para
encargos da célula social e não suprir necessidade particular. Isto
ocorre principalmente na empresa individual, empresa de pequeno porte ou
com tradição familiar. A realidade nos tem demonstrado o uso indevido da
liquidez. Onde o empresário usa meio de pagamento para saldar dívida
pessoal ou familiar. Não separa o caixa da empresa com o caixa da
família. Todo pagamento efetuado em caso particular e não da empresa
constitui uma disfunção da liquidez. Pois esta tem função de saldar
compromissos da célula social. Aja visto que um dos fatores da falência
de empresa está no desvio de dinheiro para caso particular. Esta
anomalia afeta os outros sistemas como a resultabilidade, estabilidade,
economicidade, produtividade, invulnerabilidade e elasticidade. Cada
sistema é autônomo mas há interação constante entre os mesmos. A
eficácia ou ineficácia de um dos sistemas vai influenciar os outros
sistemas.
INFLUÊNCIA AMBIENTAL ENDÓGENA E EXÓGENA NA LIQUIDEZ
A influência ambiental endógena que é da administração e do pessoal é
interna na célula social. Ela pode causar eficácia ou ineficácia no
sistema básico da liquidez. A compra ou a venda de meio patrimonial pelo
gerente influenciará a liquidez. Pois tanto na compra como na venda de
mercadoria haverá mutação no caixa. Na compra de meio patrimonial haverá
diminuição e na venda aumento de numerário.
O sistema da liquidez tenderia à inércia se não houvesse influência
ambiental endógena ou exógena. São estas que constantemente dinamizam a
liquidez. Por exemplo, o dono de uma loja de roupas compra camisas para
vender. Paga a vista.
Saiu dinheiro do caixa. Houve uma modificação de numerário por
influência ambiental endógena. Na venda da camisa há entrada de dinheiro
no caixa por influência ambiental exógena. Assim também ocorre
constantemente com outro meio patrimonial. O fenômeno patrimonial vai
ocorrendo sempre que houver mutação no meio de pagamento. Cada vez que
sai ou entra dinheiro no caixa ocorre o fenômeno patrimonial. A
ocorrência deste fenômeno é numeroso diariamente, principalmente em
Bancos onde, a cada momento, é depositado ou retirado dinheiro. Num
grande Supermercado ocorre também inúmeros fenômenos patrimoniais no
sistema da liquidez. Também a influência ambiental exógena vai criando
fenômeno patrimonial na liquidez. Por exemplo, a alta do dólar, é uma
influência ambiental exógena, vai gerar mutação no sistema de pagamento.
Aumentando o dólar é necessário mais dinheiro para pagar o fornecedor
que vendeu nesta moeda. Há uma diminuição na capacidade do meio de
pagamento.
Por exemplo, uma caixa de óleo de girassol custa 12 dólares. Em moeda
nacional o dólar a R$ 1,80 vai custar R$ 21,60. Subindo o dólar a R$
2,00 precisa de R$ 24,00 para pagar a mesma caixa. Aumentou assim a
necessidade de mais dinheiro para a mesma mercadoria. Assim ocorre com
outro meio patrimonial; a influência ambiental exógena cria variação no
meio de pagamento. Esta mutação interessa à Contabilidade e é importante
saber a repercussão nos outros sistemas. A escrituração do fato contábil
é importante, mas, o que é mais importante é saber a repercussão do fato
na dinâmica patrimonial para assim poder criar modelo contábil eficaz
para a gestão da célula social.
A liquidez sofre influência também do mercado, do governo, da intempérie
etc.
Quando há diminuição de compra ou serviço há diminuição de liquidez.
Isto quer dizer que quando diminui a procura de meio patrimonial e
serviço há obviamente a diminuição de entrada de dinheiro e com isto a
dificuldade de pagamento.
O governo quando aumenta o imposto cria problema de caixa na empresa e
com isto afeta a dinâmica do pagamento.
A intempérie tem influência na liquidez. Ela pode gerar um aumento de
liquidez ou diminuição da liquidez. Vai depender do setor de atividade
da empresa e em algumas é de alta relevância, como as do meio rural.
Observando e analisando num curto espaço de tempo a intensificação do
frio na região sul, houve influência do mesmo no aumento da venda do
meio patrimonial para se resguardar do frio, houve assim, acréscimo de
venda nas lojas de roupas, no comércio de fogões a lenha, de ar
condicionado, de aquecedores, de vinho, de chocolate, de chás, etc.
Houve uma dinamização destes meios patrimoniais em virtude do aumento do
frio.
Verificou-se também, uma diminuição da atividade de outros setores
patrimoniais como: refrigerantes, sorvetes, sucos de frutas, cachorro
quente, gelo, água mineral, ventilador, horticultura etc.
Quando há aumento de venda tende a existir, normalmente, a dinamização
da liquidez. Existem, é óbvio, também, casos anormais como os dos
calotes, desonestidades do cliente, inadimplências etc e isso faz parte
do risco empresarial, considerável, na teoria lopesista da Contabilidade,
no sistema da invulnerabilidade.
Quando há diminuição de venda tende a existir diminuição na liquidez,
ainda que temporária. Quando há aumento de venda há aumento da liquidez
ainda que possa ser também temporário.
A influência ambiental exógena do fenômeno natural do frio tem
influência em alguns meios patrimônios.
INFLUÊNCIA DA LIQUIDEZ NO ENTORNO
Numa célula social onde há eficácia da liquidez há influência positiva
no entorno patrimonial, quer direta, quer indiretamente. O pagamento
eficaz dos encargos sociais, de fornecedores, de impostos, etc. tende a
gerar a satisfação do empregado. O empregado satisfeito produzirá mais e
melhor. O fornecedor terá confiança que o pagamento será efetuado no
vencimento e poderá planejar novos investimentos e os governadores
públicos poderão dispor de dinheiro para novas obras em beneficio da
população (quando não desviam os recursos, como os tem feito segundo tem
noticiado a imprensa a cada dia).
Havendo diminuição da função da liquidez a célula social terá
dificuldade financeira para pagar seus compromissos. Esta dificuldade
poderá ser causada por inadimplência que é falta de pagamento do
cliente, diminuição das vendas, aumento de impostos e taxas etc.
A disfunção do sistema da liquidez, quando ocorre a dificuldade em
saldar compromissos gera problemas no setor pessoal, muitas vezes com
diminuição do quadro, no estoque com diminuição das compras, atraso no
pagamento a fornecedor, imposto etc. Cria-se assim, também, influência
negativa na comunidade.
Um dos problemas sociais gerados por crise na liquidez é o desemprego.
Em casos graves pode ocorrer a falência da célula social.
LIQUIDEZ E A CORRENTE CIENTÍFICA DO NEOPATRIMONIALISMO
A observação e a análise do que ocorre no interior e no exterior da
riqueza aziendal é matéria importante para a gestão da liquidez. O
Neopatrimonialismo de forma competente vem observando, estudando e
criando novas teorias para a eficácia do sistema da liquidez bem como
para o patrimônio.
Uma legião de professores, profissionais, escritores, universitários
qualificados, compõe hoje uma das maiores correntes de pensamento
científico da Contabilidade, a primeira em toda a história do Brasil e
que pela primeira vez também na comunidade intelectual internacional
apresenta uma doutrina deveras holística.
Essa importante corrente analisa diversos teoremas, bases para modelos
de liquidez, mas, com rigores científicos.
Não são modelos empíricos de aplicação parcial, mas, como convém à
ciência, de valor universal.
Neopatrimonialismo de Lopes de Sá, ao qual nos filiamos, conta com
milhares de adeptos em todo mundo, e a seriedade dos estudos dessa
corrente científica é que a consagrou (está hoje em páginas da
Comunidade Européia e em diversas outras das Américas).
De acordo com essa corrente, o sistema da liquidez é um sistema básico e
merece teoria específica.
O teorema de Sá (1998) enuncia que: A liquidez só tem condições de
crescer efetivamente quando aumentam os meios de pagamentos, sem que
ocorra um equivalente acréscimo das dívidas e especialmente quando o
aumento se opera com a retenção dos lucros líquidos finais. É um dos
mais importantes para os estudos da questão.
Relaciona, fatores de relações importantes: o quantitativo dos
componentes do sistema e a origem do aumento quantitativo dos meios.
Estabelecer os modelos que determinam essa relação de harmonia é uma
grande tarefa que os neopatrimonialistas estudam em bases científicas e
que vem fazendo evoluir a doutrina da Contabilidade.
BIBLIOGRAFIA
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São Paulo: Atlas, 1978
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Horizonte: IPAT-UNA, 1992
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www.lopesdesa.com.br, 1999
SOUZA, Edmilson Patrocinio de. Liquidez: muito mais que disponibilidade.
Internet, 2000
WALTER, Milton Augusto. Introdução à análise de balanços. Rio de
Janeiro: Saraiva, 1978.
Contador.
Membro da Academia Brasileira de Ciências Contábeis.
Membro da Associação Científica Internacional Neopatrimonialista.
Membro da Corrente Científica Brasileira do Neopatrimonialismo.
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