O pensamento económico de J.M. Keynes

Autor: Mario Gómez Olivares

Comercio internacional

01-2001

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1. Introdução

A visão económica de Keynes sobre o capitalismo sustenta-se na precariedade da acção de mecanismos reguladores que garantissem uma tendência re-equilibradora das forças indutoras do investimento no sentido de um óptimo de produção e emprego.

Keynes admite que existem forças de reequilibro, mas contesta o seu carácter automático e duvida que sem a utilização deliberada de mecanismos de intervenção colectiva se consigam situações de equilíbrio, distinguindo entre situações de equilíbrio e situações óptimas de equilíbrio. Contesta também que os teóricos do laissez-faire tenham dado uma correcta visão do modo como essas forças actuam. Keynes escreveu que as velhas receitas à la laissez-faire não servem:

“the doctrines of laissez faire have ceased to be aplicable to modern conditions"..." the nineteenthcen­tury laissez-faire system was passing away”[1].”The trouble today is that we are violently out of equilibri­um, and we cannot wait long enough for laissez-faire reme­dies to bring their reward”[2].
 
  No `Historical Retrospect`, esboço escrito em 1932 de preparação da Teoria Geral, Keynes escreve:
“The orthodox equilibrium theory of economics has assumed, or at least not denied, that there is natural forces tending to bring the volume of the community´s output, and hence its real income, back to the optimum level whenever temporary forces have led it to depart from this level. ..it now seems to me that the economist, in their devotions to a theory of self adjusting equilibrium, have been, on the whole, wrong in their practical advice and the instinct of practical men have been, on the whole, the sounder”[3].

Keynes nega o carácter natural das forças do reequilibro e contesta a justeza dos conselhos baseados na não intervenção. Numa esplêndida alocução radial para a BBC, intitulada "Poverty in Plenty", Keynes delineia o mesmo argumento[4]

Keynes desmente a tendência inerente, natural ao reequilibro do sistema serva como uma justificação apenas para os erros e omissões do sistema no longo prazo. Na Teoria Geral esta visão manifesta-se na demonstração de que no mundo capitalista as decisões dos agentes económicos são inevitavelmente tomadas na base de expectativas sobre o futuro económico em condições de incerteza, que a instabili­dade do capitalismo reside na variabilidade da taxa de inves­timento, o que provoca em última instância a variabilidade do nível do emprego:

“ it is an outstanding characteristic of the economic system in which we live that, whilst it is subject to severe fluctuations in respects of output and employment, it is not violently unstable. Indeed it seems capable of remaining in a chronic condition of sub-normal activity for a considerable period without any marked tend­ency either towards recovery or towards complete collapse”[5].

A existência de um nível de equilíbrio com subemprego é uma característica do capitalismo: “Thus for a society such as we have supposed, the position the equilibrium, under condi­tions of laissez-faire, will be one in which employment is low enough and the standard of life sufficiently miserable to bring saving to zero. More probably there will be a cyclical movement round this equilibrium position”[6].

Associada a esta situação de persistência do desemprego está a impossibilidade da taxa de juro descer o suficiente, quando a eficácia marginal do capital tende a zero:

“In fact, however, institutional and psychological factors which set a limit much above zero to the practicable decline in the rate of interest. In particular the cost of bringing borrowers and lenders together and uncertainty as to the future of the rate of interest set a lower limit”...” than the rate of interest can fall in the face of the prevailing institutional and psychological factor, can interfere, in conditions mainly of laissez-faire, with a reasonable level of employment and with the standard of life which the technical conditions are capable of furnishing”[7].

Se por alguma razão, sublinha Keynes, a taxa de juro não pudesse descer mais rapidamente que a eficiência marginal do capital, de modo que a acumulação de riqueza correspondesse àquela que coincide com a quantidade de poupança da comuni­dade à taxa de juro que iguala a eficiência marginal do capital, o pleno emprego não pode ser atingido. Sendo o capital escasso, o estado deve intervir de modo assegurar que o equipamento produtivo atinja o ponto de saturação, e a taxa de juro deverá ser aquela que assegure o investimento de pleno emprego, em tal situação, conclui Keynes.

A determinação do nível do output e do emprego como um todo é o objectivo da Teoria Geral. O modo como se determina é independente da afirmação que esse nível pode manter-se:

”round an intermediate position appreciably below full employment and appreciably above the minimum employment a decline below which would endanger life”[8].

Mas esta posição intermédia abaixo da posição de pleno emprego não está determinada por tendências naturais nem existem princípios que impeçam que não se tomem medidas a fim corrigir as falhas do sistema. Neste sentido, em consonância com a sua previsão, Keynes propõe-se na Teoria Geral, não apenas estudar as determinantes do nível do equilíbrio do output e do emprego, como elucidar porque a teoria dita clássica ancorada nas ideias de laissez-faire não consegue ser uma teoria geral, i.e., porque o salário monetário é rígido à baixa, o que invalida a política de redução dos salários nominais para conseguir mais emprego e, porque a taxa de juro é recalcitrante, quando a eficiência marginal do capital desce, o que reduz ou elimina as virtudes da política monetária.

Da visão da inexistência de mecanismos automáticos, forças, naturais re-equilibrantes do sistema resulta um alento muito importante e positivo para a teoria de Keynes, permite-lhe avançar para o estudo da capaci­dade inerente ao sistema económico de produzir em condições de laissez-faire desemprego de modo permanente como uma característica substantiva do capitalismo[9].
 
O Fim do laissez-faire
 
Keynes descreve a Europa emer­gente da Primeira Grande Guerra, como uma Europa do descala­bro, da desorganização, da penúria e miséria dos povos. O fim do laissez-faire aparece sobretudo como resultado do processo de involução da civilização contemporânea Os políticos dos países vencedores que negociavam o futuro dos países vencidos não mostravam preocupação com a vida económica, mas quase exclusivamente com as indemnizações reparatórias e o botim de guer­ra. A guerra tinha desorganizado a frágil e complexa organização económica europeia, desarticulado as finanças públicas e o comércio entre as nações e sobretudo retirado a base de sustentação da vida nos territórios atingidos pela guerra. Os seus alicerces: o carvão, o aço, os transportes, o comércio com produtos têxteis e matérias primas, deixavam de ser a base de um nível de vida próspero para uma boa parte dos cidadãos. Europa regredia em vez de progredir, sendo o problema da fome e do emprego o que mais urgente se colocava[10]. Os novos fenómenos como o desemprego, não encontravam resposta nem teórica, nem prática, deixando a sociedade capitalista sem flexibilidade e prestes a sucumbir às hordas irracionais. Mas numa situação de nova crise os trabalhadores estariam prontos para o assalto revolucionário antes que perecer de fome:“Men will not always die quietly”[11]. A existência de um princípio válido que garantisse a regulação automática do sistema económico, gerando desse modo coordenação dos mecanismos económicos tem o seu mais claro desmentido no vasto e massivo desemprego que afectou a Inglaterra nos anos 20`s.

Keynes, desde muito cedo, estava convencido que da mudança de século tinham resultado novos comportamentos dos agentes económicos, pelo que as velhas receitas do laissez-faire estavam caducas e as velhas instituições paralisavam a actividade. Em segundo lugar, servindo-se do exemplo da deflação Keynes argumenta que os mecanismos automáticos não tinham a supremacia reguladora anteriormente atribuída pelos políticos, economistas e empresários. A a discussão sobre a re-introdução do padrão ouro põe em relevo que Keynes associava a falta de mecanismos automáticos com as consequências económicas e sociais que o preocupavam: a ordem social e o desemprego. Este era um problema britânico, derivado das condições de Inglaterra como praça financeira mundial, que ao optar por uma libra forte, condenava a industria exportadora à recessão e os trabalhadores ao desemprego.

A política económica de Keynes punha em causa teoricamente o laissez-faire, pois admitindo que os ajustamentos no sentido do equilíbrio seriam muito lentos, a intervenção externa ao sistema seria inevitável. Por exemplo, uma redução dos salários monetários iria nesse sentido: "a reduction of money wages by 10 per cent will ease unemployment in five year`s time. In the meanwhile you must grin and bear it”[12], pelo que seria inevitável implementar a crítica às hipótese que auxiliavam a aceitação dos tipos de ajustamentos consentidos como válidos, no pressuposto que persistem forças que equilibrariam os mercados. Essa urgência crítica permite o fabrico de um novo modelo teórico posto de pé no lugar da velha teoria. Mas é preciso deixar claro quais alicerces estão podres para que depois a nova arquitectura seja colocada em evidência. Bem no início da Teoria Geral Keynes sublinha que a teoria `clássica` constitui um `caso especial` que não têm como sustrato a sociedade em que actualmente vivemos, pelo que o seu ensino é desacertado e desastroso quando se procura aplica-lo aos factos de post guerra[13]. Por isso a crítica à teoria de juro e do mercado de trabalho representam um aspecto fulcral. Se a teoria clássica não funciona é necessário uma outra teoria  
 
2. A crítica ao mercado de trabalho neoclássico

Na período de preparação da Teoria Geral Keynes crítica a teoria clássica do mercado de trabalho de modo enérgico, colocando em evidência o carácter desacertado de determinado dos seus postulados.

Os argumentos clássicos sobre as forças que determinam o volume de emprego assentavam em dois postulados: primeiro, o salário é igual ao produto marginal. O salário de uma pessoa empregada é, em qualquer tipo de equilíbrio, curto ou longo, igual ao produto que seria perdido se o emprego fosse reduzido em uma unidade; segundo, em equilíbrio a utilidade do salário, quando é dado o volume de trabalho empregado, é igual a utilidade marginal desse volume empregado[14]. O primeiro postulado dá-nos a função procura de tra­balho, o segundo a oferta. Quando a oferta Ns iguala a procura Nd o emprego da teoria clássica é determinado.

O primeiro postulado significa que, dada uma técnica, existe uma correlação única entre salários reais e o volume de emprego, de modo que um incremento no emprego pode apenas resultar de uma descida da taxa de salário real. Isto não significa que para reduzir o salário real se reduz o salário monetário e que por essa via se aumente o emprego.

A teoria clássica da determinação do volume dos recursos disponíveis empregáveis não foi desenvolvida mais ela é óbvia, conseguintemente o aumento do emprego apenas é possível se a) aumenta a produtividade marginal do trabalho, b) se diminui a desutilidade do trabalho e c) se aumentam os preços dos bens não-salariais em relação aos preços dos bens salariais do que resulte um aumento da procura das pessoas não-assalariadas de bens não-salariais em relação aos bens salariais[15]. Certos tipos de desemprego são compatíveis com estes postulados o desemprego friccional, desemprego voluntário e friccional, também o sazonal ou casual. O desemprego é voluntário devido à recusa de uma unidade de trabalho em aceitar uma recompensa inferior ao seu produto margin­al.

A explicação da teoria clássica sobre o desemprego é baseada na suposição de que uma redução do salário monetário é a mesma coisa que uma redução do salário real. Keynes nega que o salário real seja determinado pelo salário monetário, alias ambos estão determinados por outras forças[16]. O verdadeiro teste não é saber se os trabalhadores aceitam um salário monetário inferior, mas se abandonam o trabalho quando o salário monetário é inferior ao seu produto marginal, considerando que no mundo actual os salários são salários monetários. Os trabalhadores não abandonam o seu serviço quando o produto real dos seus salários é inferior, uma redução dos salários não provoca uma descida da oferta de trabalho existindo então desemprego involuntário.

Keynes não nega que uma diminuição dos salários reais afecte positivamente o emprego, o que afirma é que os salários reais vem determinados por outras forças e que essas forças determinam o volume de emprego apenas se os trabalhadores aceitam os concomitantes salários reais.

Como a teoria clássica assume que a recusa em aceitar um salário monetário mais baixo é a mesma coisa que a recusa em aceitar um salário real mais baixo, o trabalho como um tudo pode fazer com que os salários reais desçam, comprimindo suficientemente os salários monetários. Se não é o caso, argumenta Keynes, o volume do emprego não depende do nível dos salários monetários.

O problema é que quando os lucros e os preços caem na mesma proporção que os salários monetários, a menos que os empresários gastem mais dos seus rendimentos ou que as condições no mercado monetário façam descer a taxa de juro( se os preços caem e a taxa de juro desce, menos dinheiro é necessário para as transacções), acontece que o valor do dinheiro muda sem nenhum cambio no salário real. Mas se o artifício de uma queda dos salário monetários não resulta, o argumento formal de que uma queda nos salários monetários é associado com uma queda dos salários reais não se mantêm .

A luta pêlos salários monetários é realmente uma luta pela distribuição do montante total dos salários entre os assalariados. Os sindicatos opõem-se a uma descida dos salários monetários, mas não se opõem a pequenas reduções nos salários reais através de um aumento dos preços.

O argumento clássico pressupõe que os factores são remunerados em termos de uma predeterminada parte do produto total da indústria, e não como sumas de dinheiro, a teoria clássica pressupõe uma economia cooperativa. Numa economia cooperativa existe uma tendência para uma recompensa óptima, as desviações são causa da intervenção do sindicatos o falhas nos governos. Os economistas pensam em CÞMÞC1 enquanto que os negociantes pensam MÞCÞM1. Isto é como M1- M tende para ser negativo, existirá uma tendência para a deflação e o desemprego. Para a teoria clássica M1= M.

As flutuações na relação entre rendimentos obtidos através do output corrente e rendimentos gastos em consumo pode-se chamar flutuações na procura efectiva. Um maior gasto provoca um excesso de procura efectiva(inflação), um gasto menor gera um déficit de procura efectiva(deflação). Se os factores são pagos em moeda e gastam todo o seu rendimento monetário comprando o output cor­rente a economia é neutral. A essência de uma economia neutral é de que os rendimentos que resultam do output corrente são complemente gastos no output corrente. Numa economia neutral, não existe nem excesso nem déficit, pelo que os preços, o emprego e os salários reais são estáveis.. Que a oferta cria a sua própria procura é verdade, no pressuposto de uma procura efectiva constante O problema está na flutuação da procura efectiva. Keynes emite a sentença: a despesa cria o seu próprio rendimento
A teoria clássica apenas pode admitir que as não reduções do salário real são fruto das acções combinadas dos sindicatos. Keynes rechaça que os trabalhadores possam determinar o salário real através da negociação de diferentes salários nomi­nais e por essa via mudar o salário, admite pelo contrário que as pessoas se mantém a trabalhar aos salários actuais

Keynes rejeita que os trabalhadores possam determinar o salário real através da negociação de diferentes salários nominais e por essa via mudar o salário real. Os assalariados como um todo não podem fazer isso porque eles decidem do seu salário nominal, e se os salários descem, descem os lucros e os preços, deixando a salário real desafectado. Não existe nenhuma força no mercado de trabalho que faça com que os salários reais igualem a desutilidade marginal do trabalho.

Quando Keynes escreve posteriormente a Teoria Geral reelabora a sua crítica sem porém mudar o essencial. Continua aceitar sem grandes reparos o primeiro postulado dessa teoria: o salário deve ser igual ao produto marginal do trabalho[17]. Isto pode interpretar-se como aceitação e aplicação da análise marshalliana de curto prazo, em que as condições técnicas e a quantidade de meios de produção não mudam e, em que o produto marginal diminui com o aumento do emprego

Mas Keynes rejeita de maneira definitiva a validade do segundo postulado, segundo o qual a utilidade do salário, quando se usa um determinado volume de trabalho, é igual à desutilidade marginal desse mesmo volume de empre­go. Segundo a teoria clássica, o trabalhador arbitra entre aceitar um salário que aumenta a sua utilidade marginal ou dedicar mais tempo ao lazer se essa utilidade é inferior ao salário recompensado, em concordância com a hipótese de agente maximiza­dor[18]. Assim somente existe desemprego voluntário.

Keynes rejeita que uma descida do salário real, pelo aumento dos preços quando os salários monetários permanecem inalterados, iria forçar uma descida da oferta de trabalho disponível ao nível de salário cor­rente, abaixo do volume de emprego anterior à subida dos preços. O postulado clássico sobre a conduta dos trabalhadores equivale a dizer que aqueles desejosos de trabalhar ao salário corrente se retiram do mercado se o custo de vida se eleva ligeiramente. Ele sublinha que no caso de descida dos salários nem os empregados nem os desempregados diminuem a sua oferta de trabalho. O salário monetário equivalente na forma de bens de consumo não repre­senta a desutilidade do trabalho, pois os trabalhadores estariam dispostos a trabalhar por um salário mais baixo[19].

Keynes objecta fundamentalmente que os contratos e negociações entre empresários e trabalhadores determinem o nível do salário real. Os trabalhadores não estariam contra a redução do salário real, não fazem oposição à descida do seu salário real quando existe um aumento do volume total da ocupação, a menos que exista uma ameaça extrema de uma descida do salário real abaixo da desutilidade do trabalho do volume de emprego existente. Isto implica que o sindicatos resistem à descida dos salários reais, mais que podem aceita-los se isto con­tribuir para aumentar o emprego[20], alias:

“ The traditional theory maintains, in short, that the wage bargains between the entrepreneur and the workers determine the real wage; so that, assuming free competition amongst employers and no restrictive combination among workers, the latter can, if they wish, bring their real wages into conformity with the marginal disutility of the amount of employment offered by the employers at that wage”[21].

 Este pressuposto não é consistente com a própria teoria clássica, que faz depender os preços do custo primo marginal medido em dinheiro e do facto dos salários nominais influenciarem esse custo. Se os salários monetários mudam, mudam também os preços, deixando os salários reais no mesmo nível anterior, o que os clássicos não assentem, em parte porque pressupõem que os trabalhadores fixam o nível de salário real compatível com o pleno emprego nas negociações colectivas e em parte porque acreditam que os preços são determinados pela quantidade de moeda. Seja dito que aqui Keynes esquece na Teoria Geral de dizer que os lucros devem descer juntamente com os preços, apenas assim faz sentido a sua afirmação de que quando descem os salário monetários e os preços, os salários reais se mantêm inalterados. Esta falsa confusão criada por Keynes deixa inalterado o facto que uma descida do salário nominal tem efeitos sobre as expectativas do consumo e por essa via sobre a procura efectiva. Não existe um mecanismo que diminuindo os salários reais aumente a procura efectiva, pois uma diminuição dos salários reais deveria provocar uma descida da taxa de juro e incentivar o investimento. Keynes sabia da rigidez dos salários monetários, admite que uma descida da unidade salarial aliviaria os custos primos marginais, mas contesta que esse alívio levaria a taxa de juro a descer, pelo qual considera a rigidez dos salários nominais menos importante que a rigidez da taxa de juro. A primeira objecção é mais fundamental que a por Keynes chamada fundamental: os trabalhadores não abandonam o seu emprego cada vez que o salário real diminui, i.e., quando a desutilidade do trabalho é maior que o salário.

A objecção ao 2º postulado clássico, mais teórica e fundamen­tal, de que o nível dos salários está directamente determi­nado pelas negociações colectivas, obrigará Keynes a uma explicação teórica sobre as forças que determinam esse nível.

A atenção dos trabalhadores estaria mais centrada na manutenção dos seus salários reais relativos ao salário de outras categorias profissionais. A razão é que não existe mobilidade perfeita do trabalho que faça com que os níveis de salários se igualem, o que é por si razão sufi­ciente para opor-se à descida dos salários monetários.
Keynes pretendeu sobre tudo demonstrar a existência do desemprego involuntário, que os clássicos não admitiam:
“ Men are involuntary unemployed if, in the event of a small rise in the price of wage-goods relatively to the money-wage, both the aggregate supply of labour willing to work for the current money wage and the aggregate demand for it at that wage would be greater than the existing volume of employment”[22].
 
Esta definição coloca em relevo que tanto a oferta agregada de trabalho como a procura agregada de trabalho aos níveis de salário corrente, estão acima do volume de emprego[23].

Para Keynes a teoria clássica representa um caso especial; os trabalhadores se comportam de tal modo que um crescimento dos preços dos bens salários não induz uma queda do desemprego. O paradoxo está em que os trabalhadores actuariam correctamente ao abandonar transitoriamente o mercado de trabalho, contudo do abandono do trabalho resultam enormes problemas, pelo que aplicar a teoria clássica às situações de desemprego involuntário é um artifício.

Se o mercado de trabalho no sentido neoclássico explica apenas o desemprego voluntário numa situação de desemprego massivo e persistente, tal implicará a adopção de outras hipóteses sobre a conduta dos indivíduos e sobretudo discutir as causas do desemprego e as forças que determinam o nível do emprego.

Keynes elabora a suas hipóteses como resultado da sua mudança de opinião relativa­mente à doutrina ortodoxa, nomeadamente a sua apreciação contrária à possibilidade da descida dos salários monetários e à eficácia da política monetária. Esta teoria formula a teoria do emprego consid­erando que eficácia marginal do capital determina o investimento, variável fundamental que juntamente com a propensão ao consumo determinam a procura efectiva. O desem­prego resulta de uma falta de procura efectiva num mundo de incerteza, em que se conjugam a obstinação da taxa de juro de longo prazo, a desconfiança do mundo dos negócios juntamente com a ineficácia da política monetária.

A Teoria Geral é uma teoria do emprego de todos os factores de produção, enquanto que a teoria clássica analisa apenas um caso particular: o pleno emprego. Nesse sentido a Teoria Geral é uma teoria que põe em evidência a relação entre teoria e política económica, pelo que é um repto às concepções políticas ortodoxas.

A abordagem teórica de Keynes considera para além dos factores dados, as três leis psicológicas fundamen­tais: a propensão psicológica a consumir, a atitude psicológica referente à liquidez e a expectativa psicológica dos rendimentos futuros dos bens de capital( a eficiência marginal do capital), a unidade salário, tal como se deter­mina nos convénios colectivos e, a quantidade de moeda, fixada pela acção do banco central. Estes factores determi­nam o rendimento nacional e o volume de emprego. 

Isto não significa senão que o objecto a descobrir, o volume de emprego, em cada instante de tempo, depende do estudo de um complexo de factores nos quais se destacam aqueles que principalmente mudam no tempo de análise, seleccionando finalmente aqueles e as variáveis que se possam deliberada­mente controlar ou regular por uma autoridade central.

A Teoria Geral responde a um problema para o qual a teoria económica não encon­trava uma resposta: o desemprego involuntário; formula um quadro teórico: uma teoria do output e do emprego, e, um modelo que capta no essencial os princípios que pautam as condutas dos indivíduos, grupos sociais numa economia monetária. Numa outra circunstância, a relação entre as variáveis é determinada em consonância com o objecto a estudar. No prefácio a Teoria Geral Keynes explica-se:

“This book, on the other hand, has evolved into a primary a study of the forces which determinate changes in the scale of output and employment; and, whilst it is found that money enters into the economic scheme in an essential and peculiar manner, technical monetary details falls into the background”[24].

A posição dos clássicos: A.C. Pigou

A posição dos clássicos assentava em que, em princípio, nada acontece aos rendimentos não-salariais. Por hipótese, uma redução das taxas dos salários monetários de W para W-K e uma queda dos salário monetários no total de WSYMBOL 215 \f "Symbol" N, para (W-K)SYMBOL 215 \f "Symbol" N, com N a quantidade de emprego. Por hipótese os rendimentos monetários dos não-assalariados Q1 e Q2 , Q2e a quantidade de rendimen­to dos não assalariados despendidos em bens-salários, então, em princípio, os custos variáveis marginais dos bens de consumo cairão mais que os preços. Os custos variáveis marginais cairão em W - K/W. Na indústria de bens de capital, os preços não caem enquanto Q1 é gasto em bens de capital. Na indústria de bens salários os preços cairam em: [Q²+(W -K/N)]/(Q²+WSYMBOL 215 \f "Symbol" N) e os custos em W - K/W. Por conse­guinte, os preços não caem tanto como os custos marginais, pelo que pressupõe-se que o output cresce, todavia existe pressão através a concorrência para uma queda dos preços na direcção dos custos marginais. Pelo que: " the non-wage good industries re­ceipt fall of.[ At the outset], in the non wage industries there was a rise in profit of N1SYMBOL 215 \f "Symbol" K while in the wage goods industries there was a fall in profits of N1SYMBOL 215 \f "Symbol" K...As prices begin to fall both sums are reduced. The non-wage earners`income will have to fall off in the same proportion[as the fall in money wages]”... " there is no reason to suppose that the second postulates would arise in practice”[25].

 O paradoxo está em que os trabalhadores actuam correctamente ao abandonar transitóriamente o mercado de trabalho, contudo do abandono do trabalho resultam enormes problemas, pelo que aplicar a teoria clássica às situações de desemprego involuntário é uma artimanha.

Keynes reitera a contestação ao principio de Say, o qual se define como o axioma das paralelas clássico, em que todo acto de poupança individual conduz a um acto de investimento, de que os custos de produção se cobrem exac­tamente com as vendas derivadas da procura, que para um volume de produção considerado, o preço da oferta global é sempre igual ao preço da procura global:

" Those who think in this way are deceived, nevertheless, by an optical illu­sion, which makes two essentially different activities appear to be the same. They are fallaciously supposing that there is a nexus which unites to abstain from present con­sumption with decisions to provide future consumption; where­as the motives which determine the latter are not linked in any simple way with the motives which determine the former”[26].
Se a lei de Say de que o preço de oferta é sempre igual ao preço de procura for verdade, isto significa que não existe nenhum obstáculo para o pleno emprego. O resto da história clássica também se mantém: a parcimónia privada e nacional tém vantagens sociais, a actitude tradicional relativamente á taxa de juro é correcta, as vantagens do laissez-faire em matéria de comércio livre é considerável, etc. Se o princípio de Say não for verdadeiro, não for verdade que o preço da procura e da oferta global se igualam, existirá a necessidade de desenvolver devidamente a teoria do emprego e reconsiderar as doutrinas sobre a taxa de juro.
3. A teoria da procura efectiva
 
“This book, on the other hand, has evolved into a primary study of the forces which determinate changes in the scale of output and employment; and, whilst it is found that money enters into the economic scheme in an essential and peculiar manner, technical monetary details falls into the background”[27].  
 
Keynes pretendeu construir uma teoria da procura efectiva como uma teoria das expectativas dos rendimentos a receber a longo prazo, partindo de uma situação, que é aquela que contempla a decisão de consumir ou poupar, ou de manter dinheiro líquido para especular em títulos ou investir produtivamente. Discutiremos assim a seguir os conceitos de oferta e procura agregadas e, em seguida, a relação entre estes e o volume de emprego.
3.1.1. A oferta agregada e a procura agregada
 
As decisões de investimento dos empresários, que proporcionam os rendimentos aos produtores individuais, os quais por sua vez decidem sobre como empregar esses rendimentos, e as decisões dos indivíduos trabalhadores que utilizam parte do rendimento em consumo, determinam as condições de procura. O preço de oferta global da produção é determinado pelo volume de emprego cujos custos serão cobertos pela expectativa dos resultados a obter. O estado da técnica, o nível dos salários, os montantes dos meios de produção e da mão- de- obra não- empregue e as condições da concorrência nos mercados, determinam as condições de oferta para os produtores individuais e no seu conjunto. Assim, se a técnica, os recursos e o custo dos factores por unidade de emprego forem conhecidos , o montante deste para a firma e a indústria no seu conjunto, dependerão do produto que os empresários esperarem receber pela sua produção, dado que os empresários se esforçam por fixar o volume da ocupação no nível em que a diferença entre o valor do produto e os custos dos fac­tores seja máximo. Encontramo-nos de maneira muito clara e inequívoca numa situação de curto prazo[28].

Designando por Z o preço de oferta global da produção que depende de N homens empregados, a relação Z = F(N) representa a função de oferta global. Sendo D o montante do produto que os empresários esperam receber pelo emprego de N homens, a relação D = f(N) representa a função de procura global. Se D for maior que Z, existirão condições para que os empresários ampliem a produção e o emprego, existirá o estímulo para que N cresça para além do nível actual, mesmo em situação de concorrência pelos factores, até ao ponto em que Z = D. O volume de ocupação será determinado pela intersecção de Z e D, quando Z(FN) = Df(N), correspondente ao ponto em que as expectativas de lucro do empresário sejam máximas:
 
“ The value of D at the point of the aggregate demand func­tions, where it is intersect by the aggregate supply func­tion, will be called the effective demand”[29].

Assim, a procura efectiva, em vez de ter um valor de equilíbrio único, tem uma escala infinita de valores todos igualmente admissíveis consoante o ponto de intersecção entre Z e D, que não é obrigatório ser Z = D, pelo que o volume do emprego fica indeterminado, excepto no caso em que a desutilidade do trabalho marque um limite superior.

Se a um aumento de Z correspondesse um aumento em D, os empresários levariam a produção e o emprego até ao ponto em que Z se tornasse inelástico. Quando um aumento na procura efectiva não é acompanhada por um crescimento da produção e do emprego, não há pleno emprego:

O nível de emprego não depende do nível preexistente dos rendimentos, mas sim das decisões de investir e das estimativas actuais dos montantes de consumo correntes e futuros. Este carácter antecipado e estimativo das decisões, unido ao carácter probabilístico das previsões dos agentes sobre o futuro, representa uma inovação fundamental da teoria da procura efectiva. Se em Walras as categorias têm um carácter ideal, em Keynes estas têm um carácter antecipado.

A existência deste equilíbrio múltiplo é uma novidade teórica que decorre do carácter antecipado das decisões dos empresários e da própria incerteza do volume do emprego a utilizar. Uma vez determinado esse volume, o equilíbrio tornar-se-à único, embora possa ser um equilíbrio de subemprego.
 
3.1.2. O volume de emprego
 
Dada a propensão ao consumo da comunidade, o nível de equilíbrio do emprego depende exclusivamente da quantidade de investi­mento corrente, a qual por sua vez depende do incentivo ao investimento, dependendo este da eficiência marginal do capital em relação ao complexo de taxas de juro dos empréstimos de vários prazos e riscos.

Sendo assim, dada a propensão ao consumo e a taxa de novo investimento, não existirá senão um nível de emprego compatível com o equilíbrio, pois um outro equilíbrio produziria uma desigualdade entre o preço da oferta global da produção no seu conjunto e o preço da sua procura global[30]. A procura efectiva de pleno emprego é um caso especial, que se realiza apenas quando a propensão marginal ao consumo e o incentivo ao investimento se encon­tram numa relação mútua particular, óptima, como pressupõem os clássicos:

“ (...)it can only exist when, by accident or design, current investment provides an amount of demand just equal to the excess of the aggregate supply price of the output resulting from full employment over what the community will choose to spend on consumption when it is fully employed”[31].
 
O sistema económico pode encontrar-se num equilíbrio estável com o emprego inferior ao pleno emprego. Isto é, ao nível dado pela intersecção da função de procura global e da função de oferta global, que não corresponde ao pleno emprego excepto no pressuposto, defendido pela teoria neoclássica, segundo o qual existem forças capazes de fazer com que o investimento D2 cresça o suficiente de modo a que a poupança Z - D1 seja igual a zero.

Se a propensão ao consumo e a taxa de novo investimento se traduzir por uma insuficiência da procura efectiva, o volume de emprego reduzir-se-á, permanecendo a um nível inferior à oferta de mão-de-obra potencial disponível ao salário real actual, e o salário real de equilíbrio será maior que a desutilidade marginal do nível de equilíbrio do emprego. Uma insuficiência de procura efectiva travará o processo de produção, embora o produto marginal da mão-de-obra exceda ainda em valor a desutilidade marginal do emprego, e, nesse caso, os trabalhadores não terão opção de emprego.

A propensão ao consumo e a taxa de novo investimento determinam o volume de emprego, ao qual se encontra associado um nível determinado de salários reais. Se o volume de emprego for determinado pela procura efectiva, então não será fixado pela desutilidade marginal, medida em salários reais, excepto no caso em que a oferta disponível de mão-de-obra para uma dada magnitude de salários reais indique um nível máximo de emprego.
Encarando os factos deste modo, as causas do desemprego estão dependentes das flutuações na procura efectiva. Por que razões a procura efectiva flutua? Para Keynes, essa flutuação parece ser uma doença do capitalismo da maturidade. O facto de uma comunidade possuir uma riqueza considerável leva-la-á a aumentar a poupança, debilitando a propensão ao consumo. Desse modo, as oportunidades de novos investimentos tornam-se menores, a eficácia marginal do capital cai, a menos que a taxa de juro desça suficientemente depressa a fim de amplificar o incentivo a investir, porque a natureza capitalista começa a ficar corrompida e corroída pelo lucro fácil.

O facto da procura efectiva flutuar e não regressar aos níveis de pleno emprego implica, para Keynes, que a lei de Say nem sempre se verifica, o que obriga a uma dupla investigação. Em primeiro lugar, pressupõe esclarecer como se utiliza o rendimento em consumo e investimento. Em segundo lugar, convida a encontrar uma explicação para a despesa, i.e. explicar por que esta não se realiza em consumo e investimento, por que o não-consumo não se transforma em investimento. Para Keynes, esta situação acontece apenas numa economia monetária, onde a moeda, para além de servir como medida de troca e circulação, serve como meio de pagamento, podendo ser entesourada.

A ideia de entesouramento ocupa, efectivamente, um lugar central na reflexão de Keynes sobre as funções do dinheiro e a determinação da taxa de juro, embora seja apenas uma das determinantes da incerteza sobre a procura de moeda ou a preferência pela liquidez, problemas teóricos que estão associa­dos ao comportamento de determinados agentes.

A teoria de Keynes reflecte a tentativa de dar conta da mudança compor­tamental de um grupo social que, na época da concorrência pura e perfeita, assegurava- aceitando como convencional­mente ajustada a taxa de juro vigente- a acumulação necessária aos investimentos. Numa economia monetária a moeda deve ter, por definição, a capacidade de ser detida na qualidade de reserva de riqueza é não é a ligação perfeita entre Poupança e Investimento.

O primeiro aspecto a investigar é a insuficiência de procura efectiva, pelo que a construção do modelo de Keynes se concentra nos factores que induzem as flutuações da procura agregada. Do estudo do consumo infere-se uma tendência de longo prazo que actua no curto prazo, na qual a propensão marginal ao consumo é decrescente, embora o nível de consumo possa ser estável, e da análise do investimento resulta o maior condicionamento para a procura agregada, pois o investimento é instável, incerto e limitado pelas forças egoístas da especulação.
A procura efectiva de pleno emprego é um caso especial que se realiza apenas quando a propensão marginal ao consumo e o incentivo ao investimento se encon­tram numa relação óptima, onde a utilidade do salário real é igual à desutilidade do trabalho. Tal como numa economia de troca ou de moeda neutral, na qual o salário real e o emprego estão correlacionados, os rendimentos gerados em pleno emprego permitem a realização da procura, sob a vigência da lei de Say . Dada a propensão ao consumo e a taxa de novo investimento, existe um nível de emprego compatível com o equilíbrio, pois um outro equilíbrio produziriria uma desigualdade entre o preço da oferta global da produção e o preço da sua procura global. Se esse nível puder ser inferior ao nível de pleno emprego, o salário não poderá ser inferior à desutilidade do trabalho. Nesse caso, os preços da oferta deverão descer e os rendimentos deverão adequar-se. Se isso não for possível, se o ajustamento pelos preços não funcionar, o nível de emprego descerá, pressionando o preço do trabalho a baixar e gerando desemprego involuntário.
 
4.2. A procura e o consumo
 
A procura global é constituída pela procura de bens de consumo, que é uma função relativamente estável do rendimento, e pela procura de bens de investimento, que é uma função da eficácia marginal do capital, o qual pelo contrário é instável, dependendo das expectativas de longo prazo dos investidores relativamente aos rendimentos futuros, e da taxa de juro. Embora Keynes considere que a função de consumo é estável, o seu estudo está directamente relacionado com a poupança, pelo que, ao analisar brevemente esta categoria e o seu relacionamento com outras, nos apercebemos das razões que levaram Keynes a afirmar a importância da lei psicológica fundamental, uma espécie de lei conducente a um estádio estacionário permanente (a menos que a vontade colectiva seja dominada pela razão dos seus argumentos e pela persuasão).

4.2.1. A propensão marginal ao consumo decrescente e o rendimento.
 
. Keynes estava interessado em determinar qual é a soma despendida em consumo quando o emprego está a um certo nível ou, dito de outro modo, como se relaciona em sentido estrito o consumo com o volume de emprego[32]. Definindo a relação funcional SYMBOL 97 \f "Symbol" entre Yw, um nível de rendimento dado, medido em unidades - salário, e Cw, a despesa em consumo para um nível de rendimento, representa a propensão para consumir. Dito de outro modo: Cw = SYMBOL 97 \f "Symbol" (Yw) ou C = S SYMBOL 97 \f "Symbol" ( Y).
Existem duas classes de factores ou razões que impelem os indivíduos à despesa, os factores subjectivos e os factores objectivos[33]. Os principais factores objectivos que influenciam a propensão ao consumo são: 1) uma mudança na unidade - salário[34]; 2) uma mudança na diferença entre o rendimento bruto e o rendimento líquido[35]; 3) as mudanças imprevistas no valor dos bens de capital, não conside­radas no cálculo do rendimento líquido[36]; 4) as mudanças na taxa de desconto do futuro em relação à troca entre bens presentes e futuros[37]; 5) as mudanças na política fiscal[38]; 6) as mudanças nas expectativas sobre a relação entre o nível pre­sente e o nível futuro do rendimento[39]. Assim, no pressuposto de salários constantes, as variações no consumo dependerão de outros factores que determinam a procura efectiva[40]. Um raciocínio tipicamente marshalliano.

Dada a situação económica geral, a despesa de consumo, medida em termos de unidades - salário, depende principalmente do volume da produção e do emprego[41]. Considerando que a propensão ao consumo é estável e que as variações na propensão ao consumo são de importância secundária, o problema está em saber qual será a forma dessa função, que lei expressa a relação entre C e Y. Keynes recorre a uma lei geral e de carácter psicológico:

“(...)men are disposed, as a rule and on the aver­age, to increase their consumption as their income in­creases, but not by as much as the increase in their income. That is to say, if Cw is the amount of consumption and Yw is income (both measured in wage unit ) DCw has the same sign as DYw but is smaller in amount, i. e. dCw/ dYw is positive and less than unity”[42].

Keynes não nos diz explicitamente se esta lei se aplica apenas a uma situação de depressão do emprego, ou é valida também para o caso de expansão da produção. Se for válida neste caso, o sistema será instável permanentemente, pois o aumento da propensão ao consumo pressiona a oferta e o investimento, isto é, os preços e o output. Dado o seu carácter psicológico, esta lei não depende de mecanismos económicos individuais, mas sim de mecanismos colectivos de natureza variada.
 
4.2.2. O consumo e a poupança
 
Quando Y é incre­mentado, a comunidade no seu conjunto não gasta esse incremento total­mente em consumo. Esta lei psicológica não é apenas importante para a estabilidade do sistema, significa também que se a propensão ao gasto for de tal modo que SYMBOL 68 \f "Symbol" C < SYMBOL 68 \f "Symbol" Y, então SYMBOL 68 \f "Symbol" Y só poderá ser positivo se SYMBOL 68 \f "Symbol" I for positivo. Mas isso implicaria que o não C se transformasse em I .

O argumento de Keynes para demonstrar a dificuldade derivada da conduta dos consumidores, é de que um acto de consumo diferido não é um acto simultâneo de poupança. A natureza da poupança supõe que: i) existe uma procura futura não especificada, ii) existe uma data não - especif­icada de aceitação do reembolso e iii) não existe garantia de que a procura se verifique. O efeito da poupança nos empresários é negativa:
No equilíbrio, o rendimento é fixo na medida em que se poupa uma quantidade igual àquela que se investe: Y = I + C e Y = S + C, pelo que Keynes observa que poupança e investimento são sempre iguais. O sistema empresarial oferece a cada momento a quanti­dade de emprego suficiente para criar uma quantidade de rendimen­to, o que faz com que as equações sejam verdadeiras. Só se altera o rendimento mudando as expectativas dos empresários:
 
" This roughly gives the mechanics of the Entrepreneur economic system”[43].

O ponto de vista tradi­cional sobre a poupança é de que, quando se gasta menos que o rendimento, a poupança aumenta, e existe um incremento da procura de meios de investimento. Uma queda no consumo provoca um aumento do investimento porque os preços dos bens de investimento aumentam. A ideia é que, se uma pessoa se abstém de consu­mir, utiliza o dinheiro na compra de um título (Consols) o que conduz à descida da taxa de juro. Essa abstenção de consumo hoje representa a substituição de um consumo futuro, pelo que o incremento no investimento é feito em substituição de um consumo esperado. Para além das mutações no curto prazo, uma variação positiva do rendimento implicará uma variação do consumo no mesmo sentido, só que a variação do consumo implicará por sua vez uma variação da poupança mais do que proporcional. O aumen­to da poupança absoluta é maior que o aumento do consumo absoluto, a menos que aconteça uma variação inusitada dos outros factores.

Se a descida do nível de emprego implicar que o nível de consumo deverá baixar, mas que a variação do consumo será menor que a variação do nível de emprego, ou da proporção de rendimento real, devido à política dos governos ou à conduta habitual dos indivíduos, será difícil o caminho a seguir para atingir uma nova posição de equilíbrio com flutuações de pequena amplitude. Mas esta situação seria benéfica para o emprego, caso contrário, a queda do nível de emprego e do rendimento poderiam ser maiores. Assim, há que reconhecer que, em situação de depressão, a rigidez das remunerações é estabilizante, contrariando os que afirmam que uma descida dos rendimentos é um mecanismo de ajustamento.

As oportunidades de emprego estão limitadas pela extensão da procura total. Estas só podem derivar do consumo presente e das reservas para o consumo futuro. O consumo que se pode conseguir, na base do seu financiamento adiantado, não poderá perpetuar-se indefinidamente no futu­ro. Não se pode financiar o consumo futuro através de expe­dientes financeiros, mas unicamente através da produção física corrente. O facto de a organização social e económica separar as reservas financeiras para o futuro da sua provisão física, não significa que as reservas transportem a existência das provisões físicas. Por outro lado, quanto maior for a provisão adiantada para o consumo, maior será a dificuldade em encontrar os meios de fornecê-la e mais forte será a dependência do consumo presente como fonte da procura. Todavia, quanto maiores forem os rendi­mentos, maior será a margem entre este e o consumo[44].
 
O significado do multiplicador e o emprego
 
A ideia de recorrer ao multiplicador de Kahn permite a Keynes encontrar um argumento técnico considerável para as políticas de emprego, particularmente na execução das obras públicas, como medida para acrescentar ao emprego global o aumento do chamado emprego primário. Não é possível um aumento do investimento medido em unidades salariais, a menos que o público esteja disposto a aumentar as suas poupanças, computadas em unidades salariais. Mas os indivíduos só o farão quando o seu rendimento aumen­tar.

Um aumento do emprego apenas ficaria restrito ao emprego primário, se a sociedade mantivesse o mesmo nível de consumo, pela melhoria do emprego e, portanto, do rendimento. Em termos normais, se a propensão ao consumo cair, produzir-se-à uma queda do consumo. O multiplicador também nos diz que, se o incremento de rendimento for totalmente consumido, não existirà estabilidade e os preços aumentarão (caetaris paribus).

O aumento do emprego por efeito das variações do investimento, estimula necessariamente as indústrias que produzem para o consumo, ocasionando assim um aumento no volume total do emprego, que é um múltiplo do emprego primário exigido pelo investimento propriamente dito.

Se o multiplicador e a propensão ao consumo confirmam a regra geral, o aumento do emprego incrementa a proporção do rendimento recebido pelos empresários, devido ao efeito dos rendimentos decrescentes; a propensão ao consumo dos empresários é menor que a propensão ao consumo em média. Por outro lado, o desemprego diminui a poupança, seja nos indivíduos, nas empresas ou nos governos, dado que o desemprego é financiado pelos recursos resultantes da poupança de terceiros, próprios ou institucionais, ou pelos empréstimos[45].
O multiplicador pode ainda explicar como as flutuações no volume de investimento, comparativamente pequenas face ao rendimento nacional, são capazes de gerar flutuações no emprego total e no rendimento numa amplitude maior. Formulando a lei de que o aumento do emprego, através do multiplicador, pode ser atribuída apenas às empresas que produ­zem bens de consumo, o aumento do emprego pressupõe também que as antecipações previstas das indústrias de bens de consumo contribuem para o aumento do investimento total, e que não existem variações dos preços, mas sim um aumento nas quantidades produzidas, em condições de rendimentos decrescentes.

A discussão sobre o multiplicador do emprego serve para demonstrar que, quanto maior é a propensão ao consumo, maior é o multiplica­dor. Daqui se conclui que o financiamento do emprego através de investimento público é positivo para o emprego total e gera virtuosamente um emprego adicional..

Sendo o consumo uma função do rendimento, e o rendimento uma função do emprego, a conclusão mais importante a retirar da teoria da propensão marginal ao consumo decrescente de Keynes é que, com cada descida na propensão marginal ao consumo de hoje, aumentando a poupança marginal, não se provoca uma subida do capital no futuro; pelo contrário, cada debilitamento na propensão marginal ao consumo, considerada como hábito permanente, faz quebrar a procura de capital e, portanto, do consumo, do rendimento e do emprego[46], uma espécie de destruição ex-post da poupança. A moral smithiana é posta em causa, a propensão à poupança como sentimento inato dos indivíduos não conduz ao aumento da riqueza.

O multiplicador é um recurso técnico capaz de determinar as variações do rendimento quando varia o emprego, pondo em evidência que, quanto maior for o consumo, caetaris paribus, maior serão o multiplicador, o investimento, o rendimento e o emprego.
 
4.3. A incerteza do investimento e as expectativas da classe empresarial

Com a definição da eficiência marginal do capital, Keynes demarca-se da visão estática da economia clássica, incorporando o futuro na avaliação do investimento. Keynes utiliza uma definição que realça a relação em termos de expectativas dos rendimentos prováveis e do conhecimento do preço de oferta corrente do bem capital. Deste modo distancia-se dos conceitos de produtividade marginal do capital e de taxa natural de juro.
 
4.3.1. A eficiência marginal do capital

Keynes define a eficiência marginal do capital, como a relação entre o rendimento provável de um bem capital e o seu preço de oferta ou reposição, i. e. a relação entre o rendimento provável de mais uma unidade dessa classe de capital e o custo da respectiva produção. Calcula-se a taxa de rendimento que se espera obter do dinheiro inves­tido num bem apenas produzido e não dos rendimentos históricos que um bem tem rendido sobre o seu custo origi­nal.

Utilizando um raciocínio muito clássico, Keynes considera que, de acordo com o princípio dos rendimentos decrescentes, a eficiência marginal do capital virá a reduzir-se-à consoante o aumento do inves­timento. Em parte porque o rendimento provável irá baixar, se a sua oferta aumentar, e, em parte porque a pressão para produzir esse tipo de capital fará com que o seu preço de oferta seja maior.

No curto prazo, a influência do preço de oferta predomina sobre a diminuição dos rendimentos. Quanto maior o período a considerar, maior será a influência do segundo factor. Assim, para cada classe de capital pode traçar-se uma curva que mostra em que proporção terão deaumentar os investimen­tos durante esse período, de modo a que a eficiência marginal do capital baixe até à cifra envolvida:
 
“ Thus for each type of capital we can build up a schedule, showing by how much investment in it will have to increase within the period, in order that its marginal efficiency should fall to any given figure. We can aggregate these schedules for all the differ­ent types of capital, so as to provide a schedule relating the aggregate investment to the corresponding marginal efficiency of capital in general which the rate will estab­lish. We shall call this the investment demand-schedule; or, alternatively, the schedule of the marginal efficiency of capital”[47].
 
Resultará evidente, que a taxa real de investimento corrente será puxada até o ponto em que a eficiência marginal do capital não exceda a taxa corrente de juros para as diferentes formas de capital. Sendo Qr o rendimento provável de um activo no tempo r, e d é o valor presente de uma unidade monetária ao prazo de t anos, descontada a taxa corrente de juro. O somatório Qtdt será o preço de procura do investimento, que será levado a ser igual ao preço de oferta de investimento. Se Qr dr for menor que o preço de oferta, não existirá investimento no bem de capital.

A inexactidão tradicional consiste em considerar a eficiência marginal do capital em termos do rendimento corrente do equipamento de produção, o que apenas seria correcto numa situação estática em que não existissem mudanças futuras que influenciassem o presente. A curva de eficiência marginal do capital é de fundamental importância, porque as expectativas do futuro influenciam o presente através deste factor, mais do que através da taxa de juro.

Se a eficiência marginal do capital fosse reduzida ao estatuto da taxa da juro, que é um fenómeno corrente, fechar-se-ia a possibilidade de consid­erar a influência do futuro na análise do equilíbrio pre­sente. A restituição dessa possibilidade faz-se considerando o modo como as expectativas do futuro afectam o presente, através dos preços da procura do equipamento duradouro.

Keynes clarifica, assim, que a decisão sobre a taxa de investimento depende da relação que existe entre a curva de eficiência marginal do capital e a taxa de juro correspondente a diversas escalas do investimento corrente. Como a eficiência marginal do capital mede a relação dos rendimentos esperados de um bem de capital actual com o preço de oferta ou reposição desse bem de capital, é necessário investigar mais profundamente os factores espera­dos futuros que modificam essa relação presente, i.e. os factores que influenciam as decisões dos empresários no sentido de ampliar ou reduzir a produção .
 
4.3.2. A eficiência marginal do capital e as expectativas dos empresários
 
A integração das expectativas é vital, como percepção por parte dos empresários sobre os acontecimentos futuros do funcionamento económico[48]. Se considerarmos o efeito da expectativa de descida do custo previsto de um equi­pamento sobre a eficiência marginal do capital, sejam as expectativas produzidas por modificações no custo do trabalho, por modificações na unidade de salários, ou por efeito da evolução tecnológica, a produção resultante do equipamen­to actual terá que concorrer com a produção obtida com um equipamento de menor custo, a qual poderá vender os bens mais baratos. Os lucros provenientes das vendas do equipamento novo e antigo reduzir-se-ão, se toda a produção se tornar mais barata, pelo que a eficiência marginal descerá.

A expectativa de uma descida no preço do dinheiro estimula o investimento e, por consequência o preço do dinheiro influencia o nível do emprego, porque eleva a curva de eficiência marginal do capital, deslocando a curva de procura de investimentos à alta. Pelo contrário, uma subida no valor do dinheiro implica uma descida da curva de eficiência marginal do capital.

A importância de tais alterações nas expectativas deriva dos efeitos que estas mutações provocam sobre o desejo de produzir novos bens. Um efeito estimulante de preços maiores nas expectativas, não é devido à diminuição da taxa de juros, mas sim ao facto de que se eleva a eficácia marginal de um volume dado de capital.
Se a taxa de juro se elevar pari passu à previsão de aumen­tos dos preços, não existirão efeitos estimulantes sobre a produção de novos bens de capital, porque o incentivo para a produção dependerá de um aumento da eficiência marginal do capital relativamente à taxa de juro, pelo que o efeito estimulante de expectativas de preços maiores apenas fará sentido se a eficiência marginal do capital aumentar, e não porque uma variação antecipada no valor do dinheiro modi­fique a taxa de juro monetária, pois nesse caso a taxa de juro subiria, mantendo a situação inalterada:
 
“If the rate of interest were to rise pari passu with the marginal efficiency of capital, there would be no stimulating effect from the expectations of rising prices”[49].
 
A expectativa de uma descida da taxa de juro, pode fazer baixar a eficiência marginal do capital, se a produção resultante do equipamento actual for concorrer com o equipamento novo, o qual requer uma recompensa menor. Esta hipótese só será valida se a procura estiver a descer para esse tipo de bem.

É importante entender a dependência entre a eficiência marginal do capital de um volume determinado de capital e as expectativas, pois é essa dependência que faz com que a eficiência marginal do capital fique sujeita a certas flutuações violentas que explicam o ciclo económico, na medida em que o auge e a depressão podem ser descritos como flutuações da eficiência marginal do capital relativamente à taxa de juro.
 
4.3.3. A eficiência marginal do capital e o risco
 
Dois tipos de riscos afectam o volume do investimento. O primeiro é o risco do empresário ou detentor efectivo do dinheiro, perante a possibilidade de obter realmente rendimentos prováveis esperados. O segundo tipo de risco, num sistema de crédito, é o risco do prestamista, pois se as expectativas do empresário não se verifi­cam quando pede dinheiro em empréstimo, este não cum­prirá as obrigações contraídas. Uma terceira causa, não mencionada como risco, mas que afecta o investimento, são as mudanças no padrão monetário, que faz dos empréstimos em dinheiro um risco adverso, dimi­nuindo a segurança, pela eventual depreciação dos activos reais, embora estas mudanças possam reflectir-se na alteração dos preços dos bens reais duradouros.

O primeiro dos riscos, como custo social real, diminui na média social, ou quando aumenta a exactidão das previsões e da informação. O segundo é uma adição ao custo do investimento, inexistente quando o prestamista e empresário coincidem. O risco duplica-se pois o empresário agrega ao tipo de juro, o suficiente para obter um rendimen­to mínimo provável, que o induzirá a investir. Este risco leva a aumentar a margem entre as expectativas relativamente aos rendimentos e a taxa de juro à qual se pretende contrair uma dívida. Por isso mesmo, as relações de força entre o empresário e o prestamista determinarão essa margem de segurança. A apreciação desse risco dependerá do nível da actividade económica.
 
4.3.4. As expectativas contraditórias dos investidores e produtores e o nível do emprego
 
As expectativas são o modo como os agentes económicos interrelacionam o presente com o futuro. Sendo a economia capitalista uma economia de mercado, em que a produção é intertemporal - não apenas porque a produção leva tempo, mas sobretudo porque o investimento em bens de capital reflecte necessidades futuras de consumo - as expec­tativas de todos os agentes, mas sobretudo de empresários e investidores, são de vital importância para o emprego.

Por outro lado, as expectativas são a forma como as previsões sobre o futuro incidem sobre as decisões dos agentes económicos; nesse sentido, as expectativas dependem do modo como as previsões sobre os negócios incidem sobre essas decisões e do modo como elas se realizam.

Mas as expectativas exercem uma influência recíproca sobre as previsões não apenas objectivamente, pela qualidade da informação, mas também psicologicamente, pela relevância da informação. Como existem dois tipos de decisões básicas dos agentes encarregues do investimento, a decisão de produzir com um determinado equipamento e a decisão de adicionar equipamento ao existente, as expectativas serão de curto prazo, na medida em que influenciam a produção corrente, ou serão expectativas de longo prazo, que influenciam a produção futura, embora seja evidente que existem decisões na base de expectativas de longo prazo que levam a modificar as decisões de produzir no presente, pelo que a linha divisória entre os dois tipos de expectativas é difícil de traçar.
Um empresário que decida produzir um determinado bem ou ampliar a produção desse tipo de bem, deverá considerar não apenas os rendimentos presentes da utilização de um determi­nado equipamento, mas sobretudo os rendimentos futuros.

No presente, a produção de um bem deve considerar os custos de produção para uma determinada procura, tomando em conta várias escalas possíveis de produção, assim como o valor das vendas a realizar, e considerando a elasticidade da procura. As expectativas reflectem essas previsões na perspectiva de que a situação manter-se-á como dantes. Por isso o volume de produção e de emprego actual depende dessas expec­tativas. A realização da produção e das vendas originará um processo de revisão ou confirmação das expectativas que levará a novas previsões.

A formação das expectativas depende da efectivação da informação considerada relevante, pelo que a produção e o emprego serão influenciados subse­quentemente. As expectativas que levaram a comprar um deter­minado equipamento ou à formação de existências, podem não influenciar directamente a formação de novas expectativas sobre o volume de produção a realizar e não terão consequências sobre o emprego.

O que quer dizer que não será das expectativas actuais que resultará uma mudança no volume de emprego, mas será da mudança das expectativas de longo prazo que resultarão variações no emprego. Assim, as variações de expectati­vas de curto prazo não tornam as mudanças no emprego violen­tas ou rápidas, estas influenciam gradualmente a produção e o emprego. Assim se explica a lentidão das mudanças no volume de emprego, em situações de depressão ou de recuperação, pelo que, para cada estado das expectativas, existirá sempre um nível variável da produção e do emprego. No entanto:
 
“(...) a mere change in expectations is capable of producing an oscilla­tion of the same kind of shape as a cyclical movement, in the course of working itself out.. But the actual course of events is more complicated still. For the state of expecta­tion being superimposed long before the previous change has fully worked itself out”[50].
 
O nível do emprego depende, em cada momento e situação, não apenas do estado actual das expecta­tivas, mas também das expectativas passadas, na medida em que estas se reflectem na existência de um volume e qualidade do equipamento actual:
 
“(...) so that the economic machine is occupied at any given time with a number of overlapping activities, the existence of which is due to various past states of expectations”[51].
 
O processo de formação das expectativas de curto prazo é gradual e contínuo, e a sua realização depende quase exclusivamente dos resultados obtidos. Alias, é sensato que os produtores determinem as suas decisões de produzir na base de expectativas de curto prazo, quando não se esperam grandes mudanças que alterem as previsões sobre os rendimentos futuros e sobre os custos dos factores, nem originem antecipações não esperadas.
Outro é o caso quando se trata de bens de equipa­mento, os quais serão produzidos, seja quando a procura aumen­ta, o que implica antecipar rendimentos maiores esperados, seja pelo aumento do rendimento por unidade de output, seja por aumento do emprego. Neste caso, as expectativas dos produtores baseiam-se nas expectativas de longo prazo dos investidores, as quais pela sua própria natureza não podem ser obtidas com a lucidez de um determinado resultado, para além de que as expectativas de longo prazo podem ser revistas imprevistamente[52].
Posto isto, há que considerar mais em detalhe o estado das expectativas de longo prazo, as quais são vitais numa economia monetária em que as decisões do produtor e do investidor são de natureza diversa e por vezes antinómica, sobretudo se os objec­tivos a alcançar forem diferentes e contraditórios.

Keynes chama a atenção para os factores que determinam as previsões sobre os rendi­mentos futuros, porquanto estão na base das decisões sobre a procura de investimentos em bens de capital. Este é um exercício que os empresários realizam com base em factos que podem ser previstos com maior ou menor certeza e em acontecimentos futuros sobre os quais se pretende obter informação de relativa confiança. As expectativas de longo prazo dependem das mudanças futuras de determinados acontecimentos, tais como as mudanças futuras nas existências de tipo e quantidade de bens de equipamento, das preferências intertemporais dos consumidores, da força da procura efectiva durante um determinado período, sobre o qual incide a utilização de um equipamento, das mudanças nas unidades - salário em termos monetários.

Na formação das expectativas, o empresário orienta-se por factos que inspirem certa confiança, mesmo que esses factos tenham uma importância menor. Quando se planeiam as expectativas não devem ser considera­dos os aspectos sobre os quais não existe um grau de certeza. Deste modo, os factos do presente encontram uma congruência desproporcionada na formação das expectativas, sendo hábito projectá-los no futuro, modificando-os segundo os motivos que tenhamos para esperar alguma variação. As expectativas planeadas baseiam-se, sobretudo, na confiança dos factos conhecidos, que servem como projecção futura, e portanto, assentam na probabilidade e confiança na previsão.

O estado de confiança tem uma importância crucial sobre a curva de eficiência marginal do capital, podendo ser considerado um factor que influen­cia a taxa de investimentos, porque é um dos factores que determina a eficiência marginal do capital. O estado de confiança, resulta da observação empírica dos mercados e da psicologia dos negócios. O principal problema reside no facto de a base dos conhecimentos na qual assenta a informação dos empresários sobre os rendimentos esperados futuros ser precária.  

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Mario Gómez Olivares - Departamento de Economia, Instituto Superior de Economia e Gestão Universidade Técnica de Lisboa - www.iseg.utl.pt\~hpe\html - magolivarrobaiseg.utl.pt

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