1. Introdução
A visão económica de Keynes sobre o capitalismo sustenta-se na
precariedade da acção de mecanismos reguladores que garantissem uma
tendência re-equilibradora das forças indutoras do investimento no
sentido de um óptimo de produção e emprego.
Keynes admite que existem forças de reequilibro, mas contesta o seu
carácter automático e duvida que sem a utilização deliberada de
mecanismos de intervenção colectiva se consigam situações de equilíbrio,
distinguindo entre situações de equilíbrio e situações óptimas de
equilíbrio. Contesta também que os teóricos do laissez-faire tenham dado
uma correcta visão do modo como essas forças actuam. Keynes escreveu que
as velhas receitas à la laissez-faire não servem:
“the doctrines of laissez faire have ceased to be aplicable to modern
conditions"..." the nineteenthcentury laissez-faire system was passing
away”[1].”The trouble today is that we are violently out of equilibrium,
and we cannot wait long enough for laissez-faire remedies to bring
their reward”[2].
No `Historical Retrospect`, esboço escrito em 1932 de preparação da
Teoria Geral, Keynes escreve:
“The orthodox equilibrium theory of economics has assumed, or at least
not denied, that there is natural forces tending to bring the volume of
the community´s output, and hence its real income, back to the optimum
level whenever temporary forces have led it to depart from this level.
..it now seems to me that the economist, in their devotions to a theory
of self adjusting equilibrium, have been, on the whole, wrong in their
practical advice and the instinct of practical men have been, on the
whole, the sounder”[3].
Keynes nega o carácter natural das forças do reequilibro e contesta a
justeza dos conselhos baseados na não intervenção. Numa esplêndida
alocução radial para a BBC, intitulada "Poverty in Plenty", Keynes
delineia o mesmo argumento[4]
Keynes desmente a tendência inerente, natural ao reequilibro do sistema
serva como uma justificação apenas para os erros e omissões do sistema
no longo prazo. Na Teoria Geral esta visão manifesta-se na demonstração
de que no mundo capitalista as decisões dos agentes económicos são
inevitavelmente tomadas na base de expectativas sobre o futuro económico
em condições de incerteza, que a instabilidade do capitalismo reside na
variabilidade da taxa de investimento, o que provoca em última
instância a variabilidade do nível do emprego:
“ it is an outstanding characteristic of the economic system in which we
live that, whilst it is subject to severe fluctuations in respects of
output and employment, it is not violently unstable. Indeed it seems
capable of remaining in a chronic condition of sub-normal activity for a
considerable period without any marked tendency either towards recovery
or towards complete collapse”[5].
A existência de um nível de equilíbrio com subemprego é uma
característica do capitalismo: “Thus for a society such as we have
supposed, the position the equilibrium, under conditions of
laissez-faire, will be one in which employment is low enough and the
standard of life sufficiently miserable to bring saving to zero. More
probably there will be a cyclical movement round this equilibrium
position”[6].
Associada a esta situação de persistência do desemprego está a
impossibilidade da taxa de juro descer o suficiente, quando a eficácia
marginal do capital tende a zero:
“In fact, however, institutional and psychological factors which set a
limit much above zero to the practicable decline in the rate of interest.
In particular the cost of bringing borrowers and lenders together and
uncertainty as to the future of the rate of interest set a lower limit”...”
than the rate of interest can fall in the face of the prevailing
institutional and psychological factor, can interfere, in conditions
mainly of laissez-faire, with a reasonable level of employment and with
the standard of life which the technical conditions are capable of
furnishing”[7].
Se por alguma razão, sublinha Keynes, a taxa de juro não pudesse descer
mais rapidamente que a eficiência marginal do capital, de modo que a
acumulação de riqueza correspondesse àquela que coincide com a
quantidade de poupança da comunidade à taxa de juro que iguala a
eficiência marginal do capital, o pleno emprego não pode ser atingido.
Sendo o capital escasso, o estado deve intervir de modo assegurar que o
equipamento produtivo atinja o ponto de saturação, e a taxa de juro
deverá ser aquela que assegure o investimento de pleno emprego, em tal
situação, conclui Keynes.
A determinação do nível do output e do emprego como um todo é o
objectivo da Teoria Geral. O modo como se determina é independente da
afirmação que esse nível pode manter-se:
”round an intermediate position appreciably below full employment and
appreciably above the minimum employment a decline below which would
endanger life”[8].
Mas esta posição intermédia abaixo da posição de pleno emprego não está
determinada por tendências naturais nem existem princípios que impeçam
que não se tomem medidas a fim corrigir as falhas do sistema. Neste
sentido, em consonância com a sua previsão, Keynes propõe-se na Teoria
Geral, não apenas estudar as determinantes do nível do equilíbrio do
output e do emprego, como elucidar porque a teoria dita clássica
ancorada nas ideias de laissez-faire não consegue ser uma teoria geral,
i.e., porque o salário monetário é rígido à baixa, o que invalida a
política de redução dos salários nominais para conseguir mais emprego e,
porque a taxa de juro é recalcitrante, quando a eficiência marginal do
capital desce, o que reduz ou elimina as virtudes da política monetária.
Da visão da inexistência de mecanismos automáticos, forças, naturais
re-equilibrantes do sistema resulta um alento muito importante e
positivo para a teoria de Keynes, permite-lhe avançar para o estudo da
capacidade inerente ao sistema económico de produzir em condições de
laissez-faire desemprego de modo permanente como uma característica
substantiva do capitalismo[9].
O Fim do laissez-faire
Keynes descreve a Europa emergente da Primeira Grande Guerra, como uma
Europa do descalabro, da desorganização, da penúria e miséria dos
povos. O fim do laissez-faire aparece sobretudo como resultado do
processo de involução da civilização contemporânea Os políticos dos
países vencedores que negociavam o futuro dos países vencidos não
mostravam preocupação com a vida económica, mas quase exclusivamente com
as indemnizações reparatórias e o botim de guerra. A guerra tinha
desorganizado a frágil e complexa organização económica europeia,
desarticulado as finanças públicas e o comércio entre as nações e
sobretudo retirado a base de sustentação da vida nos territórios
atingidos pela guerra. Os seus alicerces: o carvão, o aço, os
transportes, o comércio com produtos têxteis e matérias primas, deixavam
de ser a base de um nível de vida próspero para uma boa parte dos
cidadãos. Europa regredia em vez de progredir, sendo o problema da fome
e do emprego o que mais urgente se colocava[10]. Os novos fenómenos como
o desemprego, não encontravam resposta nem teórica, nem prática,
deixando a sociedade capitalista sem flexibilidade e prestes a sucumbir
às hordas irracionais. Mas numa situação de nova crise os trabalhadores
estariam prontos para o assalto revolucionário antes que perecer de
fome:“Men will not always die quietly”[11]. A existência de um princípio
válido que garantisse a regulação automática do sistema económico,
gerando desse modo coordenação dos mecanismos económicos tem o seu mais
claro desmentido no vasto e massivo desemprego que afectou a Inglaterra
nos anos 20`s.
Keynes, desde muito cedo, estava convencido que da mudança de século
tinham resultado novos comportamentos dos agentes económicos, pelo que
as velhas receitas do laissez-faire estavam caducas e as velhas
instituições paralisavam a actividade. Em segundo lugar, servindo-se do
exemplo da deflação Keynes argumenta que os mecanismos automáticos não
tinham a supremacia reguladora anteriormente atribuída pelos políticos,
economistas e empresários. A a discussão sobre a re-introdução do padrão
ouro põe em relevo que Keynes associava a falta de mecanismos
automáticos com as consequências económicas e sociais que o preocupavam:
a ordem social e o desemprego. Este era um problema britânico, derivado
das condições de Inglaterra como praça financeira mundial, que ao optar
por uma libra forte, condenava a industria exportadora à recessão e os
trabalhadores ao desemprego.
A política económica de Keynes punha em causa teoricamente o
laissez-faire, pois admitindo que os ajustamentos no sentido do
equilíbrio seriam muito lentos, a intervenção externa ao sistema seria
inevitável. Por exemplo, uma redução dos salários monetários iria nesse
sentido: "a reduction of money wages by 10 per cent will ease
unemployment in five year`s time. In the meanwhile you must grin and
bear it”[12], pelo que seria inevitável implementar a crítica às
hipótese que auxiliavam a aceitação dos tipos de ajustamentos
consentidos como válidos, no pressuposto que persistem forças que
equilibrariam os mercados. Essa urgência crítica permite o fabrico de um
novo modelo teórico posto de pé no lugar da velha teoria. Mas é preciso
deixar claro quais alicerces estão podres para que depois a nova
arquitectura seja colocada em evidência. Bem no início da Teoria Geral
Keynes sublinha que a teoria `clássica` constitui um `caso especial` que
não têm como sustrato a sociedade em que actualmente vivemos, pelo que o
seu ensino é desacertado e desastroso quando se procura aplica-lo aos
factos de post guerra[13]. Por isso a crítica à teoria de juro e do
mercado de trabalho representam um aspecto fulcral. Se a teoria clássica
não funciona é necessário uma outra teoria
2. A crítica ao mercado de trabalho neoclássico
Na período de preparação da Teoria Geral Keynes crítica a teoria
clássica do mercado de trabalho de modo enérgico, colocando em evidência
o carácter desacertado de determinado dos seus postulados.
Os argumentos clássicos sobre as forças que determinam o volume de
emprego assentavam em dois postulados: primeiro, o salário é igual ao
produto marginal. O salário de uma pessoa empregada é, em qualquer tipo
de equilíbrio, curto ou longo, igual ao produto que seria perdido se o
emprego fosse reduzido em uma unidade; segundo, em equilíbrio a
utilidade do salário, quando é dado o volume de trabalho empregado, é
igual a utilidade marginal desse volume empregado[14]. O primeiro
postulado dá-nos a função procura de trabalho, o segundo a oferta.
Quando a oferta Ns iguala a procura Nd o emprego da teoria clássica é
determinado.
O primeiro postulado significa que, dada uma técnica, existe uma
correlação única entre salários reais e o volume de emprego, de modo que
um incremento no emprego pode apenas resultar de uma descida da taxa de
salário real. Isto não significa que para reduzir o salário real se
reduz o salário monetário e que por essa via se aumente o emprego.
A teoria clássica da determinação do volume dos recursos disponíveis
empregáveis não foi desenvolvida mais ela é óbvia, conseguintemente o
aumento do emprego apenas é possível se a) aumenta a produtividade
marginal do trabalho, b) se diminui a desutilidade do trabalho e c) se
aumentam os preços dos bens não-salariais em relação aos preços dos bens
salariais do que resulte um aumento da procura das pessoas
não-assalariadas de bens não-salariais em relação aos bens
salariais[15]. Certos tipos de desemprego são compatíveis com estes
postulados o desemprego friccional, desemprego voluntário e friccional,
também o sazonal ou casual. O desemprego é voluntário devido à recusa de
uma unidade de trabalho em aceitar uma recompensa inferior ao seu
produto marginal.
A explicação da teoria clássica sobre o desemprego é baseada na
suposição de que uma redução do salário monetário é a mesma coisa que
uma redução do salário real. Keynes nega que o salário real seja
determinado pelo salário monetário, alias ambos estão determinados por
outras forças[16]. O verdadeiro teste não é saber se os trabalhadores
aceitam um salário monetário inferior, mas se abandonam o trabalho
quando o salário monetário é inferior ao seu produto marginal,
considerando que no mundo actual os salários são salários monetários. Os
trabalhadores não abandonam o seu serviço quando o produto real dos seus
salários é inferior, uma redução dos salários não provoca uma descida da
oferta de trabalho existindo então desemprego involuntário.
Keynes não nega que uma diminuição dos salários reais afecte
positivamente o emprego, o que afirma é que os salários reais vem
determinados por outras forças e que essas forças determinam o volume de
emprego apenas se os trabalhadores aceitam os concomitantes salários
reais.
Como a teoria clássica assume que a recusa em aceitar um salário
monetário mais baixo é a mesma coisa que a recusa em aceitar um salário
real mais baixo, o trabalho como um tudo pode fazer com que os salários
reais desçam, comprimindo suficientemente os salários monetários. Se não
é o caso, argumenta Keynes, o volume do emprego não depende do nível dos
salários monetários.
O problema é que quando os lucros e os preços caem na mesma proporção
que os salários monetários, a menos que os empresários gastem mais dos
seus rendimentos ou que as condições no mercado monetário façam descer a
taxa de juro( se os preços caem e a taxa de juro desce, menos dinheiro é
necessário para as transacções), acontece que o valor do dinheiro muda
sem nenhum cambio no salário real. Mas se o artifício de uma queda dos
salário monetários não resulta, o argumento formal de que uma queda nos
salários monetários é associado com uma queda dos salários reais não se
mantêm .
A luta pêlos salários monetários é realmente uma luta pela distribuição
do montante total dos salários entre os assalariados. Os sindicatos
opõem-se a uma descida dos salários monetários, mas não se opõem a
pequenas reduções nos salários reais através de um aumento dos preços.
O argumento clássico pressupõe que os factores são remunerados em termos
de uma predeterminada parte do produto total da indústria, e não como
sumas de dinheiro, a teoria clássica pressupõe uma economia cooperativa.
Numa economia cooperativa existe uma tendência para uma recompensa
óptima, as desviações são causa da intervenção do sindicatos o falhas
nos governos. Os economistas pensam em CÞMÞC1 enquanto que os
negociantes pensam MÞCÞM1. Isto é como M1- M tende para ser negativo,
existirá uma tendência para a deflação e o desemprego. Para a teoria
clássica M1= M.
As flutuações na relação entre rendimentos obtidos através do output
corrente e rendimentos gastos em consumo pode-se chamar flutuações na
procura efectiva. Um maior gasto provoca um excesso de procura
efectiva(inflação), um gasto menor gera um déficit de procura
efectiva(deflação). Se os factores são pagos em moeda e gastam todo o
seu rendimento monetário comprando o output corrente a economia é
neutral. A essência de uma economia neutral é de que os rendimentos que
resultam do output corrente são complemente gastos no output corrente.
Numa economia neutral, não existe nem excesso nem déficit, pelo que os
preços, o emprego e os salários reais são estáveis.. Que a oferta cria a
sua própria procura é verdade, no pressuposto de uma procura efectiva
constante O problema está na flutuação da procura efectiva. Keynes emite
a sentença: a despesa cria o seu próprio rendimento
A teoria clássica apenas pode admitir que as não reduções do salário
real são fruto das acções combinadas dos sindicatos. Keynes rechaça que
os trabalhadores possam determinar o salário real através da negociação
de diferentes salários nominais e por essa via mudar o salário, admite
pelo contrário que as pessoas se mantém a trabalhar aos salários actuais
Keynes rejeita que os trabalhadores possam determinar o salário real
através da negociação de diferentes salários nominais e por essa via
mudar o salário real. Os assalariados como um todo não podem fazer isso
porque eles decidem do seu salário nominal, e se os salários descem,
descem os lucros e os preços, deixando a salário real desafectado. Não
existe nenhuma força no mercado de trabalho que faça com que os salários
reais igualem a desutilidade marginal do trabalho.
Quando Keynes escreve posteriormente a Teoria Geral reelabora a sua
crítica sem porém mudar o essencial. Continua aceitar sem grandes
reparos o primeiro postulado dessa teoria: o salário deve ser igual ao
produto marginal do trabalho[17]. Isto pode interpretar-se como
aceitação e aplicação da análise marshalliana de curto prazo, em que as
condições técnicas e a quantidade de meios de produção não mudam e, em
que o produto marginal diminui com o aumento do emprego
Mas Keynes rejeita de maneira definitiva a validade do segundo
postulado, segundo o qual a utilidade do salário, quando se usa um
determinado volume de trabalho, é igual à desutilidade marginal desse
mesmo volume de emprego. Segundo a teoria clássica, o trabalhador
arbitra entre aceitar um salário que aumenta a sua utilidade marginal ou
dedicar mais tempo ao lazer se essa utilidade é inferior ao salário
recompensado, em concordância com a hipótese de agente maximizador[18].
Assim somente existe desemprego voluntário.
Keynes rejeita que uma descida do salário real, pelo aumento dos preços
quando os salários monetários permanecem inalterados, iria forçar uma
descida da oferta de trabalho disponível ao nível de salário corrente,
abaixo do volume de emprego anterior à subida dos preços. O postulado
clássico sobre a conduta dos trabalhadores equivale a dizer que aqueles
desejosos de trabalhar ao salário corrente se retiram do mercado se o
custo de vida se eleva ligeiramente. Ele sublinha que no caso de descida
dos salários nem os empregados nem os desempregados diminuem a sua
oferta de trabalho. O salário monetário equivalente na forma de bens de
consumo não representa a desutilidade do trabalho, pois os
trabalhadores estariam dispostos a trabalhar por um salário mais
baixo[19].
Keynes objecta fundamentalmente que os contratos e negociações entre
empresários e trabalhadores determinem o nível do salário real. Os
trabalhadores não estariam contra a redução do salário real, não fazem
oposição à descida do seu salário real quando existe um aumento do
volume total da ocupação, a menos que exista uma ameaça extrema de uma
descida do salário real abaixo da desutilidade do trabalho do volume de
emprego existente. Isto implica que o sindicatos resistem à descida dos
salários reais, mais que podem aceita-los se isto contribuir para
aumentar o emprego[20], alias:
“ The traditional theory maintains, in short, that the wage bargains
between the entrepreneur and the workers determine the real wage; so
that, assuming free competition amongst employers and no restrictive
combination among workers, the latter can, if they wish, bring their
real wages into conformity with the marginal disutility of the amount of
employment offered by the employers at that wage”[21].
Este pressuposto não é consistente com a própria teoria clássica, que
faz depender os preços do custo primo marginal medido em dinheiro e do
facto dos salários nominais influenciarem esse custo. Se os salários
monetários mudam, mudam também os preços, deixando os salários reais no
mesmo nível anterior, o que os clássicos não assentem, em parte porque
pressupõem que os trabalhadores fixam o nível de salário real compatível
com o pleno emprego nas negociações colectivas e em parte porque
acreditam que os preços são determinados pela quantidade de moeda. Seja
dito que aqui Keynes esquece na Teoria Geral de dizer que os lucros
devem descer juntamente com os preços, apenas assim faz sentido a sua
afirmação de que quando descem os salário monetários e os preços, os
salários reais se mantêm inalterados. Esta falsa confusão criada por
Keynes deixa inalterado o facto que uma descida do salário nominal tem
efeitos sobre as expectativas do consumo e por essa via sobre a procura
efectiva. Não existe um mecanismo que diminuindo os salários reais
aumente a procura efectiva, pois uma diminuição dos salários reais
deveria provocar uma descida da taxa de juro e incentivar o
investimento. Keynes sabia da rigidez dos salários monetários, admite
que uma descida da unidade salarial aliviaria os custos primos
marginais, mas contesta que esse alívio levaria a taxa de juro a descer,
pelo qual considera a rigidez dos salários nominais menos importante que
a rigidez da taxa de juro. A primeira objecção é mais fundamental que a
por Keynes chamada fundamental: os trabalhadores não abandonam o seu
emprego cada vez que o salário real diminui, i.e., quando a desutilidade
do trabalho é maior que o salário.
A objecção ao 2º postulado clássico, mais teórica e fundamental, de que
o nível dos salários está directamente determinado pelas negociações
colectivas, obrigará Keynes a uma explicação teórica sobre as forças que
determinam esse nível.
A atenção dos trabalhadores estaria mais centrada na manutenção dos seus
salários reais relativos ao salário de outras categorias profissionais.
A razão é que não existe mobilidade perfeita do trabalho que faça com
que os níveis de salários se igualem, o que é por si razão suficiente
para opor-se à descida dos salários monetários.
Keynes pretendeu sobre tudo demonstrar a existência do desemprego
involuntário, que os clássicos não admitiam:
“ Men are involuntary unemployed if, in the event of a small rise in the
price of wage-goods relatively to the money-wage, both the aggregate
supply of labour willing to work for the current money wage and the
aggregate demand for it at that wage would be greater than the existing
volume of employment”[22].
Esta definição coloca em relevo que tanto a oferta agregada de trabalho
como a procura agregada de trabalho aos níveis de salário corrente,
estão acima do volume de emprego[23].
Para Keynes a teoria clássica representa um caso especial; os
trabalhadores se comportam de tal modo que um crescimento dos preços dos
bens salários não induz uma queda do desemprego. O paradoxo está em que
os trabalhadores actuariam correctamente ao abandonar transitoriamente o
mercado de trabalho, contudo do abandono do trabalho resultam enormes
problemas, pelo que aplicar a teoria clássica às situações de desemprego
involuntário é um artifício.
Se o mercado de trabalho no sentido neoclássico explica apenas o
desemprego voluntário numa situação de desemprego massivo e persistente,
tal implicará a adopção de outras hipóteses sobre a conduta dos
indivíduos e sobretudo discutir as causas do desemprego e as forças que
determinam o nível do emprego.
Keynes elabora a suas hipóteses como resultado da sua mudança de opinião
relativamente à doutrina ortodoxa, nomeadamente a sua apreciação
contrária à possibilidade da descida dos salários monetários e à
eficácia da política monetária. Esta teoria formula a teoria do emprego
considerando que eficácia marginal do capital determina o investimento,
variável fundamental que juntamente com a propensão ao consumo
determinam a procura efectiva. O desemprego resulta de uma falta de
procura efectiva num mundo de incerteza, em que se conjugam a obstinação
da taxa de juro de longo prazo, a desconfiança do mundo dos negócios
juntamente com a ineficácia da política monetária.
A Teoria Geral é uma teoria do emprego de todos os factores de produção,
enquanto que a teoria clássica analisa apenas um caso particular: o
pleno emprego. Nesse sentido a Teoria Geral é uma teoria que põe em
evidência a relação entre teoria e política económica, pelo que é um
repto às concepções políticas ortodoxas.
A abordagem teórica de Keynes considera para além dos factores dados, as
três leis psicológicas fundamentais: a propensão psicológica a
consumir, a atitude psicológica referente à liquidez e a expectativa
psicológica dos rendimentos futuros dos bens de capital( a eficiência
marginal do capital), a unidade salário, tal como se determina nos
convénios colectivos e, a quantidade de moeda, fixada pela acção do
banco central. Estes factores determinam o rendimento nacional e o
volume de emprego.
Isto não significa senão que o objecto a descobrir, o volume de emprego,
em cada instante de tempo, depende do estudo de um complexo de factores
nos quais se destacam aqueles que principalmente mudam no tempo de
análise, seleccionando finalmente aqueles e as variáveis que se possam
deliberadamente controlar ou regular por uma autoridade central.
A Teoria Geral responde a um problema para o qual a teoria económica não
encontrava uma resposta: o desemprego involuntário; formula um quadro
teórico: uma teoria do output e do emprego, e, um modelo que capta no
essencial os princípios que pautam as condutas dos indivíduos, grupos
sociais numa economia monetária. Numa outra circunstância, a relação
entre as variáveis é determinada em consonância com o objecto a estudar.
No prefácio a Teoria Geral Keynes explica-se:
“This book, on the other hand, has evolved into a primary a study of the
forces which determinate changes in the scale of output and employment;
and, whilst it is found that money enters into the economic scheme in an
essential and peculiar manner, technical monetary details falls into the
background”[24].
A posição dos clássicos: A.C. Pigou
A posição dos clássicos assentava em que, em princípio, nada acontece
aos rendimentos não-salariais. Por hipótese, uma redução das taxas dos
salários monetários de W para W-K e uma queda dos salário monetários no
total de WSYMBOL 215 \f "Symbol" N, para (W-K)SYMBOL 215 \f "Symbol" N,
com N a quantidade de emprego. Por hipótese os rendimentos monetários
dos não-assalariados Q1 e Q2 , Q2e a quantidade de rendimento dos não
assalariados despendidos em bens-salários, então, em princípio, os
custos variáveis marginais dos bens de consumo cairão mais que os
preços. Os custos variáveis marginais cairão em W - K/W. Na indústria de
bens de capital, os preços não caem enquanto Q1 é gasto em bens de
capital. Na indústria de bens salários os preços cairam em: [Q²+(W
-K/N)]/(Q²+WSYMBOL 215 \f "Symbol" N) e os custos em W - K/W. Por
conseguinte, os preços não caem tanto como os custos marginais, pelo
que pressupõe-se que o output cresce, todavia existe pressão através a
concorrência para uma queda dos preços na direcção dos custos marginais.
Pelo que: " the non-wage good industries receipt fall of.[ At the
outset], in the non wage industries there was a rise in profit of
N1SYMBOL 215 \f "Symbol" K while in the wage goods industries there was
a fall in profits of N1SYMBOL 215 \f "Symbol" K...As prices begin to
fall both sums are reduced. The non-wage earners`income will have to
fall off in the same proportion[as the fall in money wages]”... " there
is no reason to suppose that the second postulates would arise in
practice”[25].
O paradoxo está em que os trabalhadores actuam correctamente ao
abandonar transitóriamente o mercado de trabalho, contudo do abandono do
trabalho resultam enormes problemas, pelo que aplicar a teoria clássica
às situações de desemprego involuntário é uma artimanha.
Keynes reitera a contestação ao principio de Say, o qual se define como
o axioma das paralelas clássico, em que todo acto de poupança individual
conduz a um acto de investimento, de que os custos de produção se cobrem
exactamente com as vendas derivadas da procura, que para um volume de
produção considerado, o preço da oferta global é sempre igual ao preço
da procura global:
" Those who think in this way are deceived, nevertheless, by an optical
illusion, which makes two essentially different activities appear to be
the same. They are fallaciously supposing that there is a nexus which
unites to abstain from present consumption with decisions to provide
future consumption; whereas the motives which determine the latter are
not linked in any simple way with the motives which determine the
former”[26].
Se a lei de Say de que o preço de oferta é sempre igual ao preço de
procura for verdade, isto significa que não existe nenhum obstáculo para
o pleno emprego. O resto da história clássica também se mantém: a
parcimónia privada e nacional tém vantagens sociais, a actitude
tradicional relativamente á taxa de juro é correcta, as vantagens do
laissez-faire em matéria de comércio livre é considerável, etc. Se o
princípio de Say não for verdadeiro, não for verdade que o preço da
procura e da oferta global se igualam, existirá a necessidade de
desenvolver devidamente a teoria do emprego e reconsiderar as doutrinas
sobre a taxa de juro.
3. A teoria da procura efectiva
“This book, on the other hand, has evolved into a primary study of the
forces which determinate changes in the scale of output and employment;
and, whilst it is found that money enters into the economic scheme in an
essential and peculiar manner, technical monetary details falls into the
background”[27].
Keynes pretendeu construir uma teoria da procura efectiva como uma
teoria das expectativas dos rendimentos a receber a longo prazo,
partindo de uma situação, que é aquela que contempla a decisão de
consumir ou poupar, ou de manter dinheiro líquido para especular em
títulos ou investir produtivamente. Discutiremos assim a seguir os
conceitos de oferta e procura agregadas e, em seguida, a relação entre
estes e o volume de emprego.
3.1.1. A oferta agregada e a procura agregada
As decisões de investimento dos empresários, que proporcionam os
rendimentos aos produtores individuais, os quais por sua vez decidem
sobre como empregar esses rendimentos, e as decisões dos indivíduos
trabalhadores que utilizam parte do rendimento em consumo, determinam as
condições de procura. O preço de oferta global da produção é determinado
pelo volume de emprego cujos custos serão cobertos pela expectativa dos
resultados a obter. O estado da técnica, o nível dos salários, os
montantes dos meios de produção e da mão- de- obra não- empregue e as
condições da concorrência nos mercados, determinam as condições de
oferta para os produtores individuais e no seu conjunto. Assim, se a
técnica, os recursos e o custo dos factores por unidade de emprego forem
conhecidos , o montante deste para a firma e a indústria no seu
conjunto, dependerão do produto que os empresários esperarem receber
pela sua produção, dado que os empresários se esforçam por fixar o
volume da ocupação no nível em que a diferença entre o valor do produto
e os custos dos factores seja máximo. Encontramo-nos de maneira muito
clara e inequívoca numa situação de curto prazo[28].
Designando por Z o preço de oferta global da produção que depende de N
homens empregados, a relação Z = F(N) representa a função de oferta
global. Sendo D o montante do produto que os empresários esperam receber
pelo emprego de N homens, a relação D = f(N) representa a função de
procura global. Se D for maior que Z, existirão condições para que os
empresários ampliem a produção e o emprego, existirá o estímulo para que
N cresça para além do nível actual, mesmo em situação de concorrência
pelos factores, até ao ponto em que Z = D. O volume de ocupação será
determinado pela intersecção de Z e D, quando Z(FN) = Df(N),
correspondente ao ponto em que as expectativas de lucro do empresário
sejam máximas:
“ The value of D at the point of the aggregate demand functions, where
it is intersect by the aggregate supply function, will be called the
effective demand”[29].
Assim, a procura efectiva, em vez de ter um valor de equilíbrio único,
tem uma escala infinita de valores todos igualmente admissíveis
consoante o ponto de intersecção entre Z e D, que não é obrigatório ser
Z = D, pelo que o volume do emprego fica indeterminado, excepto no caso
em que a desutilidade do trabalho marque um limite superior.
Se a um aumento de Z correspondesse um aumento em D, os empresários
levariam a produção e o emprego até ao ponto em que Z se tornasse
inelástico. Quando um aumento na procura efectiva não é acompanhada por
um crescimento da produção e do emprego, não há pleno emprego:
O nível de emprego não depende do nível preexistente dos rendimentos,
mas sim das decisões de investir e das estimativas actuais dos montantes
de consumo correntes e futuros. Este carácter antecipado e estimativo
das decisões, unido ao carácter probabilístico das previsões dos agentes
sobre o futuro, representa uma inovação fundamental da teoria da procura
efectiva. Se em Walras as categorias têm um carácter ideal, em Keynes
estas têm um carácter antecipado.
A existência deste equilíbrio múltiplo é uma novidade teórica que
decorre do carácter antecipado das decisões dos empresários e da própria
incerteza do volume do emprego a utilizar. Uma vez determinado esse
volume, o equilíbrio tornar-se-à único, embora possa ser um equilíbrio
de subemprego.
3.1.2. O volume de emprego
Dada a propensão ao consumo da comunidade, o nível de equilíbrio do
emprego depende exclusivamente da quantidade de investimento corrente,
a qual por sua vez depende do incentivo ao investimento, dependendo este
da eficiência marginal do capital em relação ao complexo de taxas de
juro dos empréstimos de vários prazos e riscos.
Sendo assim, dada a propensão ao consumo e a taxa de novo investimento,
não existirá senão um nível de emprego compatível com o equilíbrio, pois
um outro equilíbrio produziria uma desigualdade entre o preço da oferta
global da produção no seu conjunto e o preço da sua procura global[30].
A procura efectiva de pleno emprego é um caso especial, que se realiza
apenas quando a propensão marginal ao consumo e o incentivo ao
investimento se encontram numa relação mútua particular, óptima, como
pressupõem os clássicos:
“ (...)it can only exist when, by accident or design, current investment
provides an amount of demand just equal to the excess of the aggregate
supply price of the output resulting from full employment over what the
community will choose to spend on consumption when it is fully
employed”[31].
O sistema económico pode encontrar-se num equilíbrio estável com o
emprego inferior ao pleno emprego. Isto é, ao nível dado pela
intersecção da função de procura global e da função de oferta global,
que não corresponde ao pleno emprego excepto no pressuposto, defendido
pela teoria neoclássica, segundo o qual existem forças capazes de fazer
com que o investimento D2 cresça o suficiente de modo a que a poupança Z
- D1 seja igual a zero.
Se a propensão ao consumo e a taxa de novo investimento se traduzir por
uma insuficiência da procura efectiva, o volume de emprego reduzir-se-á,
permanecendo a um nível inferior à oferta de mão-de-obra potencial
disponível ao salário real actual, e o salário real de equilíbrio será
maior que a desutilidade marginal do nível de equilíbrio do emprego. Uma
insuficiência de procura efectiva travará o processo de produção, embora
o produto marginal da mão-de-obra exceda ainda em valor a desutilidade
marginal do emprego, e, nesse caso, os trabalhadores não terão opção de
emprego.
A propensão ao consumo e a taxa de novo investimento determinam o volume
de emprego, ao qual se encontra associado um nível determinado de
salários reais. Se o volume de emprego for determinado pela procura
efectiva, então não será fixado pela desutilidade marginal, medida em
salários reais, excepto no caso em que a oferta disponível de
mão-de-obra para uma dada magnitude de salários reais indique um nível
máximo de emprego.
Encarando os factos deste modo, as causas do desemprego estão
dependentes das flutuações na procura efectiva. Por que razões a procura
efectiva flutua? Para Keynes, essa flutuação parece ser uma doença do
capitalismo da maturidade. O facto de uma comunidade possuir uma riqueza
considerável leva-la-á a aumentar a poupança, debilitando a propensão ao
consumo. Desse modo, as oportunidades de novos investimentos tornam-se
menores, a eficácia marginal do capital cai, a menos que a taxa de juro
desça suficientemente depressa a fim de amplificar o incentivo a
investir, porque a natureza capitalista começa a ficar corrompida e
corroída pelo lucro fácil.
O facto da procura efectiva flutuar e não regressar aos níveis de pleno
emprego implica, para Keynes, que a lei de Say nem sempre se verifica, o
que obriga a uma dupla investigação. Em primeiro lugar, pressupõe
esclarecer como se utiliza o rendimento em consumo e investimento. Em
segundo lugar, convida a encontrar uma explicação para a despesa, i.e.
explicar por que esta não se realiza em consumo e investimento, por que
o não-consumo não se transforma em investimento. Para Keynes, esta
situação acontece apenas numa economia monetária, onde a moeda, para
além de servir como medida de troca e circulação, serve como meio de
pagamento, podendo ser entesourada.
A ideia de entesouramento ocupa, efectivamente, um lugar central na
reflexão de Keynes sobre as funções do dinheiro e a determinação da taxa
de juro, embora seja apenas uma das determinantes da incerteza sobre a
procura de moeda ou a preferência pela liquidez, problemas teóricos que
estão associados ao comportamento de determinados agentes.
A teoria de Keynes reflecte a tentativa de dar conta da mudança
comportamental de um grupo social que, na época da concorrência pura e
perfeita, assegurava- aceitando como convencionalmente ajustada a taxa
de juro vigente- a acumulação necessária aos investimentos. Numa
economia monetária a moeda deve ter, por definição, a capacidade de ser
detida na qualidade de reserva de riqueza é não é a ligação perfeita
entre Poupança e Investimento.
O primeiro aspecto a investigar é a insuficiência de procura efectiva,
pelo que a construção do modelo de Keynes se concentra nos factores que
induzem as flutuações da procura agregada. Do estudo do consumo
infere-se uma tendência de longo prazo que actua no curto prazo, na qual
a propensão marginal ao consumo é decrescente, embora o nível de consumo
possa ser estável, e da análise do investimento resulta o maior
condicionamento para a procura agregada, pois o investimento é instável,
incerto e limitado pelas forças egoístas da especulação.
A procura efectiva de pleno emprego é um caso especial que se realiza
apenas quando a propensão marginal ao consumo e o incentivo ao
investimento se encontram numa relação óptima, onde a utilidade do
salário real é igual à desutilidade do trabalho. Tal como numa economia
de troca ou de moeda neutral, na qual o salário real e o emprego estão
correlacionados, os rendimentos gerados em pleno emprego permitem a
realização da procura, sob a vigência da lei de Say . Dada a propensão
ao consumo e a taxa de novo investimento, existe um nível de emprego
compatível com o equilíbrio, pois um outro equilíbrio produziriria uma
desigualdade entre o preço da oferta global da produção e o preço da sua
procura global. Se esse nível puder ser inferior ao nível de pleno
emprego, o salário não poderá ser inferior à desutilidade do trabalho.
Nesse caso, os preços da oferta deverão descer e os rendimentos deverão
adequar-se. Se isso não for possível, se o ajustamento pelos preços não
funcionar, o nível de emprego descerá, pressionando o preço do trabalho
a baixar e gerando desemprego involuntário.
4.2. A procura e o consumo
A procura global é constituída pela procura de bens de consumo, que é
uma função relativamente estável do rendimento, e pela procura de bens
de investimento, que é uma função da eficácia marginal do capital, o
qual pelo contrário é instável, dependendo das expectativas de longo
prazo dos investidores relativamente aos rendimentos futuros, e da taxa
de juro. Embora Keynes considere que a função de consumo é estável, o
seu estudo está directamente relacionado com a poupança, pelo que, ao
analisar brevemente esta categoria e o seu relacionamento com outras,
nos apercebemos das razões que levaram Keynes a afirmar a importância da
lei psicológica fundamental, uma espécie de lei conducente a um estádio
estacionário permanente (a menos que a vontade colectiva seja dominada
pela razão dos seus argumentos e pela persuasão).
4.2.1. A propensão marginal ao consumo decrescente e o rendimento.
. Keynes estava interessado em determinar qual é a soma despendida em
consumo quando o emprego está a um certo nível ou, dito de outro modo,
como se relaciona em sentido estrito o consumo com o volume de
emprego[32]. Definindo a relação funcional SYMBOL 97 \f "Symbol" entre
Yw, um nível de rendimento dado, medido em unidades - salário, e Cw, a
despesa em consumo para um nível de rendimento, representa a propensão
para consumir. Dito de outro modo: Cw = SYMBOL 97 \f "Symbol" (Yw) ou C
= S SYMBOL 97 \f "Symbol" ( Y).
Existem duas classes de factores ou razões que impelem os indivíduos à
despesa, os factores subjectivos e os factores objectivos[33]. Os
principais factores objectivos que influenciam a propensão ao consumo
são: 1) uma mudança na unidade - salário[34]; 2) uma mudança na
diferença entre o rendimento bruto e o rendimento líquido[35]; 3) as
mudanças imprevistas no valor dos bens de capital, não consideradas no
cálculo do rendimento líquido[36]; 4) as mudanças na taxa de desconto do
futuro em relação à troca entre bens presentes e futuros[37]; 5) as
mudanças na política fiscal[38]; 6) as mudanças nas expectativas sobre a
relação entre o nível presente e o nível futuro do rendimento[39].
Assim, no pressuposto de salários constantes, as variações no consumo
dependerão de outros factores que determinam a procura efectiva[40]. Um
raciocínio tipicamente marshalliano.
Dada a situação económica geral, a despesa de consumo, medida em termos
de unidades - salário, depende principalmente do volume da produção e do
emprego[41]. Considerando que a propensão ao consumo é estável e que as
variações na propensão ao consumo são de importância secundária, o
problema está em saber qual será a forma dessa função, que lei expressa
a relação entre C e Y. Keynes recorre a uma lei geral e de carácter
psicológico:
“(...)men are disposed, as a rule and on the average, to increase their
consumption as their income increases, but not by as much as the
increase in their income. That is to say, if Cw is the amount of
consumption and Yw is income (both measured in wage unit ) DCw has the
same sign as DYw but is smaller in amount, i. e. dCw/ dYw is positive
and less than unity”[42].
Keynes não nos diz explicitamente se esta lei se aplica apenas a uma
situação de depressão do emprego, ou é valida também para o caso de
expansão da produção. Se for válida neste caso, o sistema será instável
permanentemente, pois o aumento da propensão ao consumo pressiona a
oferta e o investimento, isto é, os preços e o output. Dado o seu
carácter psicológico, esta lei não depende de mecanismos económicos
individuais, mas sim de mecanismos colectivos de natureza variada.
4.2.2. O consumo e a poupança
Quando Y é incrementado, a comunidade no seu conjunto não gasta esse
incremento totalmente em consumo. Esta lei psicológica não é apenas
importante para a estabilidade do sistema, significa também que se a
propensão ao gasto for de tal modo que SYMBOL 68 \f "Symbol" C < SYMBOL
68 \f "Symbol" Y, então SYMBOL 68 \f "Symbol" Y só poderá ser positivo
se SYMBOL 68 \f "Symbol" I for positivo. Mas isso implicaria que o não C
se transformasse em I .
O argumento de Keynes para demonstrar a dificuldade derivada da conduta
dos consumidores, é de que um acto de consumo diferido não é um acto
simultâneo de poupança. A natureza da poupança supõe que: i) existe uma
procura futura não especificada, ii) existe uma data não - especificada
de aceitação do reembolso e iii) não existe garantia de que a procura se
verifique. O efeito da poupança nos empresários é negativa:
No equilíbrio, o rendimento é fixo na medida em que se poupa uma
quantidade igual àquela que se investe: Y = I + C e Y = S + C, pelo que
Keynes observa que poupança e investimento são sempre iguais. O sistema
empresarial oferece a cada momento a quantidade de emprego suficiente
para criar uma quantidade de rendimento, o que faz com que as equações
sejam verdadeiras. Só se altera o rendimento mudando as expectativas dos
empresários:
" This roughly gives the mechanics of the Entrepreneur economic
system”[43].
O ponto de vista tradicional sobre a poupança é de que, quando se gasta
menos que o rendimento, a poupança aumenta, e existe um incremento da
procura de meios de investimento. Uma queda no consumo provoca um
aumento do investimento porque os preços dos bens de investimento
aumentam. A ideia é que, se uma pessoa se abstém de consumir, utiliza o
dinheiro na compra de um título (Consols) o que conduz à descida da taxa
de juro. Essa abstenção de consumo hoje representa a substituição de um
consumo futuro, pelo que o incremento no investimento é feito em
substituição de um consumo esperado. Para além das mutações no curto
prazo, uma variação positiva do rendimento implicará uma variação do
consumo no mesmo sentido, só que a variação do consumo implicará por sua
vez uma variação da poupança mais do que proporcional. O aumento da
poupança absoluta é maior que o aumento do consumo absoluto, a menos que
aconteça uma variação inusitada dos outros factores.
Se a descida do nível de emprego implicar que o nível de consumo deverá
baixar, mas que a variação do consumo será menor que a variação do nível
de emprego, ou da proporção de rendimento real, devido à política dos
governos ou à conduta habitual dos indivíduos, será difícil o caminho a
seguir para atingir uma nova posição de equilíbrio com flutuações de
pequena amplitude. Mas esta situação seria benéfica para o emprego, caso
contrário, a queda do nível de emprego e do rendimento poderiam ser
maiores. Assim, há que reconhecer que, em situação de depressão, a
rigidez das remunerações é estabilizante, contrariando os que afirmam
que uma descida dos rendimentos é um mecanismo de ajustamento.
As oportunidades de emprego estão limitadas pela extensão da procura
total. Estas só podem derivar do consumo presente e das reservas para o
consumo futuro. O consumo que se pode conseguir, na base do seu
financiamento adiantado, não poderá perpetuar-se indefinidamente no
futuro. Não se pode financiar o consumo futuro através de expedientes
financeiros, mas unicamente através da produção física corrente. O facto
de a organização social e económica separar as reservas financeiras para
o futuro da sua provisão física, não significa que as reservas
transportem a existência das provisões físicas. Por outro lado, quanto
maior for a provisão adiantada para o consumo, maior será a dificuldade
em encontrar os meios de fornecê-la e mais forte será a dependência do
consumo presente como fonte da procura. Todavia, quanto maiores forem os
rendimentos, maior será a margem entre este e o consumo[44].
O significado do multiplicador e o emprego
A ideia de recorrer ao multiplicador de Kahn permite a Keynes encontrar
um argumento técnico considerável para as políticas de emprego,
particularmente na execução das obras públicas, como medida para
acrescentar ao emprego global o aumento do chamado emprego primário. Não
é possível um aumento do investimento medido em unidades salariais, a
menos que o público esteja disposto a aumentar as suas poupanças,
computadas em unidades salariais. Mas os indivíduos só o farão quando o
seu rendimento aumentar.
Um aumento do emprego apenas ficaria restrito ao emprego primário, se a
sociedade mantivesse o mesmo nível de consumo, pela melhoria do emprego
e, portanto, do rendimento. Em termos normais, se a propensão ao consumo
cair, produzir-se-à uma queda do consumo. O multiplicador também nos diz
que, se o incremento de rendimento for totalmente consumido, não
existirà estabilidade e os preços aumentarão (caetaris paribus).
O aumento do emprego por efeito das variações do investimento, estimula
necessariamente as indústrias que produzem para o consumo, ocasionando
assim um aumento no volume total do emprego, que é um múltiplo do
emprego primário exigido pelo investimento propriamente dito.
Se o multiplicador e a propensão ao consumo confirmam a regra geral, o
aumento do emprego incrementa a proporção do rendimento recebido pelos
empresários, devido ao efeito dos rendimentos decrescentes; a propensão
ao consumo dos empresários é menor que a propensão ao consumo em média.
Por outro lado, o desemprego diminui a poupança, seja nos indivíduos,
nas empresas ou nos governos, dado que o desemprego é financiado pelos
recursos resultantes da poupança de terceiros, próprios ou
institucionais, ou pelos empréstimos[45].
O multiplicador pode ainda explicar como as flutuações no volume de
investimento, comparativamente pequenas face ao rendimento nacional, são
capazes de gerar flutuações no emprego total e no rendimento numa
amplitude maior. Formulando a lei de que o aumento do emprego, através
do multiplicador, pode ser atribuída apenas às empresas que produzem
bens de consumo, o aumento do emprego pressupõe também que as
antecipações previstas das indústrias de bens de consumo contribuem para
o aumento do investimento total, e que não existem variações dos preços,
mas sim um aumento nas quantidades produzidas, em condições de
rendimentos decrescentes.
A discussão sobre o multiplicador do emprego serve para demonstrar que,
quanto maior é a propensão ao consumo, maior é o multiplicador. Daqui
se conclui que o financiamento do emprego através de investimento
público é positivo para o emprego total e gera virtuosamente um emprego
adicional..
Sendo o consumo uma função do rendimento, e o rendimento uma função do
emprego, a conclusão mais importante a retirar da teoria da propensão
marginal ao consumo decrescente de Keynes é que, com cada descida na
propensão marginal ao consumo de hoje, aumentando a poupança marginal,
não se provoca uma subida do capital no futuro; pelo contrário, cada
debilitamento na propensão marginal ao consumo, considerada como hábito
permanente, faz quebrar a procura de capital e, portanto, do consumo, do
rendimento e do emprego[46], uma espécie de destruição ex-post da
poupança. A moral smithiana é posta em causa, a propensão à poupança
como sentimento inato dos indivíduos não conduz ao aumento da riqueza.
O multiplicador é um recurso técnico capaz de determinar as variações do
rendimento quando varia o emprego, pondo em evidência que, quanto maior
for o consumo, caetaris paribus, maior serão o multiplicador, o
investimento, o rendimento e o emprego.
4.3. A incerteza do investimento e as expectativas da classe empresarial
Com a definição da eficiência marginal do capital, Keynes demarca-se da
visão estática da economia clássica, incorporando o futuro na avaliação
do investimento. Keynes utiliza uma definição que realça a relação em
termos de expectativas dos rendimentos prováveis e do conhecimento do
preço de oferta corrente do bem capital. Deste modo distancia-se dos
conceitos de produtividade marginal do capital e de taxa natural de
juro.
4.3.1. A eficiência marginal do capital
Keynes define a eficiência marginal do capital, como a relação entre o
rendimento provável de um bem capital e o seu preço de oferta ou
reposição, i. e. a relação entre o rendimento provável de mais uma
unidade dessa classe de capital e o custo da respectiva produção.
Calcula-se a taxa de rendimento que se espera obter do dinheiro
investido num bem apenas produzido e não dos rendimentos históricos que
um bem tem rendido sobre o seu custo original.
Utilizando um raciocínio muito clássico, Keynes considera que, de acordo
com o princípio dos rendimentos decrescentes, a eficiência marginal do
capital virá a reduzir-se-à consoante o aumento do investimento. Em
parte porque o rendimento provável irá baixar, se a sua oferta aumentar,
e, em parte porque a pressão para produzir esse tipo de capital fará com
que o seu preço de oferta seja maior.
No curto prazo, a influência do preço de oferta predomina sobre a
diminuição dos rendimentos. Quanto maior o período a considerar, maior
será a influência do segundo factor. Assim, para cada classe de capital
pode traçar-se uma curva que mostra em que proporção terão deaumentar os
investimentos durante esse período, de modo a que a eficiência marginal
do capital baixe até à cifra envolvida:
“ Thus for each type of capital we can build up a schedule, showing by
how much investment in it will have to increase within the period, in
order that its marginal efficiency should fall to any given figure. We
can aggregate these schedules for all the different types of capital,
so as to provide a schedule relating the aggregate investment to the
corresponding marginal efficiency of capital in general which the rate
will establish. We shall call this the investment demand-schedule; or,
alternatively, the schedule of the marginal efficiency of capital”[47].
Resultará evidente, que a taxa real de investimento corrente será puxada
até o ponto em que a eficiência marginal do capital não exceda a taxa
corrente de juros para as diferentes formas de capital. Sendo Qr o
rendimento provável de um activo no tempo r, e d é o valor presente de
uma unidade monetária ao prazo de t anos, descontada a taxa corrente de
juro. O somatório Qtdt será o preço de procura do investimento, que será
levado a ser igual ao preço de oferta de investimento. Se Qr dr for
menor que o preço de oferta, não existirá investimento no bem de
capital.
A inexactidão tradicional consiste em considerar a eficiência marginal
do capital em termos do rendimento corrente do equipamento de produção,
o que apenas seria correcto numa situação estática em que não existissem
mudanças futuras que influenciassem o presente. A curva de eficiência
marginal do capital é de fundamental importância, porque as expectativas
do futuro influenciam o presente através deste factor, mais do que
através da taxa de juro.
Se a eficiência marginal do capital fosse reduzida ao estatuto da taxa
da juro, que é um fenómeno corrente, fechar-se-ia a possibilidade de
considerar a influência do futuro na análise do equilíbrio presente. A
restituição dessa possibilidade faz-se considerando o modo como as
expectativas do futuro afectam o presente, através dos preços da procura
do equipamento duradouro.
Keynes clarifica, assim, que a decisão sobre a taxa de investimento
depende da relação que existe entre a curva de eficiência marginal do
capital e a taxa de juro correspondente a diversas escalas do
investimento corrente. Como a eficiência marginal do capital mede a
relação dos rendimentos esperados de um bem de capital actual com o
preço de oferta ou reposição desse bem de capital, é necessário
investigar mais profundamente os factores esperados futuros que
modificam essa relação presente, i.e. os factores que influenciam as
decisões dos empresários no sentido de ampliar ou reduzir a produção .
4.3.2. A eficiência marginal do capital e as expectativas dos
empresários
A integração das expectativas é vital, como percepção por parte dos
empresários sobre os acontecimentos futuros do funcionamento
económico[48]. Se considerarmos o efeito da expectativa de descida do
custo previsto de um equipamento sobre a eficiência marginal do
capital, sejam as expectativas produzidas por modificações no custo do
trabalho, por modificações na unidade de salários, ou por efeito da
evolução tecnológica, a produção resultante do equipamento actual terá
que concorrer com a produção obtida com um equipamento de menor custo, a
qual poderá vender os bens mais baratos. Os lucros provenientes das
vendas do equipamento novo e antigo reduzir-se-ão, se toda a produção se
tornar mais barata, pelo que a eficiência marginal descerá.
A expectativa de uma descida no preço do dinheiro estimula o
investimento e, por consequência o preço do dinheiro influencia o nível
do emprego, porque eleva a curva de eficiência marginal do capital,
deslocando a curva de procura de investimentos à alta. Pelo contrário,
uma subida no valor do dinheiro implica uma descida da curva de
eficiência marginal do capital.
A importância de tais alterações nas expectativas deriva dos efeitos que
estas mutações provocam sobre o desejo de produzir novos bens. Um efeito
estimulante de preços maiores nas expectativas, não é devido à
diminuição da taxa de juros, mas sim ao facto de que se eleva a eficácia
marginal de um volume dado de capital.
Se a taxa de juro se elevar pari passu à previsão de aumentos dos
preços, não existirão efeitos estimulantes sobre a produção de novos
bens de capital, porque o incentivo para a produção dependerá de um
aumento da eficiência marginal do capital relativamente à taxa de juro,
pelo que o efeito estimulante de expectativas de preços maiores apenas
fará sentido se a eficiência marginal do capital aumentar, e não porque
uma variação antecipada no valor do dinheiro modifique a taxa de juro
monetária, pois nesse caso a taxa de juro subiria, mantendo a situação
inalterada:
“If the rate of interest were to rise pari passu with the marginal
efficiency of capital, there would be no stimulating effect from the
expectations of rising prices”[49].
A expectativa de uma descida da taxa de juro, pode fazer baixar a
eficiência marginal do capital, se a produção resultante do equipamento
actual for concorrer com o equipamento novo, o qual requer uma
recompensa menor. Esta hipótese só será valida se a procura estiver a
descer para esse tipo de bem.
É importante entender a dependência entre a eficiência marginal do
capital de um volume determinado de capital e as expectativas, pois é
essa dependência que faz com que a eficiência marginal do capital fique
sujeita a certas flutuações violentas que explicam o ciclo económico, na
medida em que o auge e a depressão podem ser descritos como flutuações
da eficiência marginal do capital relativamente à taxa de juro.
4.3.3. A eficiência marginal do capital e o risco
Dois tipos de riscos afectam o volume do investimento. O primeiro é o
risco do empresário ou detentor efectivo do dinheiro, perante a
possibilidade de obter realmente rendimentos prováveis esperados. O
segundo tipo de risco, num sistema de crédito, é o risco do prestamista,
pois se as expectativas do empresário não se verificam quando pede
dinheiro em empréstimo, este não cumprirá as obrigações contraídas. Uma
terceira causa, não mencionada como risco, mas que afecta o
investimento, são as mudanças no padrão monetário, que faz dos
empréstimos em dinheiro um risco adverso, diminuindo a segurança, pela
eventual depreciação dos activos reais, embora estas mudanças possam
reflectir-se na alteração dos preços dos bens reais duradouros.
O primeiro dos riscos, como custo social real, diminui na média social,
ou quando aumenta a exactidão das previsões e da informação. O segundo é
uma adição ao custo do investimento, inexistente quando o prestamista e
empresário coincidem. O risco duplica-se pois o empresário agrega ao
tipo de juro, o suficiente para obter um rendimento mínimo provável,
que o induzirá a investir. Este risco leva a aumentar a margem entre as
expectativas relativamente aos rendimentos e a taxa de juro à qual se
pretende contrair uma dívida. Por isso mesmo, as relações de força entre
o empresário e o prestamista determinarão essa margem de segurança. A
apreciação desse risco dependerá do nível da actividade económica.
4.3.4. As expectativas contraditórias dos investidores e produtores e o
nível do emprego
As expectativas são o modo como os agentes económicos interrelacionam o
presente com o futuro. Sendo a economia capitalista uma economia de
mercado, em que a produção é intertemporal - não apenas porque a
produção leva tempo, mas sobretudo porque o investimento em bens de
capital reflecte necessidades futuras de consumo - as expectativas de
todos os agentes, mas sobretudo de empresários e investidores, são de
vital importância para o emprego.
Por outro lado, as expectativas são a forma como as previsões sobre o
futuro incidem sobre as decisões dos agentes económicos; nesse sentido,
as expectativas dependem do modo como as previsões sobre os negócios
incidem sobre essas decisões e do modo como elas se realizam.
Mas as expectativas exercem uma influência recíproca sobre as previsões
não apenas objectivamente, pela qualidade da informação, mas também
psicologicamente, pela relevância da informação. Como existem dois tipos
de decisões básicas dos agentes encarregues do investimento, a decisão
de produzir com um determinado equipamento e a decisão de adicionar
equipamento ao existente, as expectativas serão de curto prazo, na
medida em que influenciam a produção corrente, ou serão expectativas de
longo prazo, que influenciam a produção futura, embora seja evidente que
existem decisões na base de expectativas de longo prazo que levam a
modificar as decisões de produzir no presente, pelo que a linha
divisória entre os dois tipos de expectativas é difícil de traçar.
Um empresário que decida produzir um determinado bem ou ampliar a
produção desse tipo de bem, deverá considerar não apenas os rendimentos
presentes da utilização de um determinado equipamento, mas sobretudo os
rendimentos futuros.
No presente, a produção de um bem deve considerar os custos de produção
para uma determinada procura, tomando em conta várias escalas possíveis
de produção, assim como o valor das vendas a realizar, e considerando a
elasticidade da procura. As expectativas reflectem essas previsões na
perspectiva de que a situação manter-se-á como dantes. Por isso o volume
de produção e de emprego actual depende dessas expectativas. A
realização da produção e das vendas originará um processo de revisão ou
confirmação das expectativas que levará a novas previsões.
A formação das expectativas depende da efectivação da informação
considerada relevante, pelo que a produção e o emprego serão
influenciados subsequentemente. As expectativas que levaram a comprar
um determinado equipamento ou à formação de existências, podem não
influenciar directamente a formação de novas expectativas sobre o volume
de produção a realizar e não terão consequências sobre o emprego.
O que quer dizer que não será das expectativas actuais que resultará
uma mudança no volume de emprego, mas será da mudança das expectativas
de longo prazo que resultarão variações no emprego. Assim, as variações
de expectativas de curto prazo não tornam as mudanças no emprego
violentas ou rápidas, estas influenciam gradualmente a produção e o
emprego. Assim se explica a lentidão das mudanças no volume de emprego,
em situações de depressão ou de recuperação, pelo que, para cada estado
das expectativas, existirá sempre um nível variável da produção e do
emprego. No entanto:
“(...) a mere change in expectations is capable of producing an
oscillation of the same kind of shape as a cyclical movement, in the
course of working itself out.. But the actual course of events is more
complicated still. For the state of expectation being superimposed long
before the previous change has fully worked itself out”[50].
O nível do emprego depende, em cada momento e situação, não apenas do
estado actual das expectativas, mas também das expectativas passadas,
na medida em que estas se reflectem na existência de um volume e
qualidade do equipamento actual:
“(...) so that the economic machine is occupied at any given time with a
number of overlapping activities, the existence of which is due to
various past states of expectations”[51].
O processo de formação das expectativas de curto prazo é gradual e
contínuo, e a sua realização depende quase exclusivamente dos resultados
obtidos. Alias, é sensato que os produtores determinem as suas decisões
de produzir na base de expectativas de curto prazo, quando não se
esperam grandes mudanças que alterem as previsões sobre os rendimentos
futuros e sobre os custos dos factores, nem originem antecipações não
esperadas.
Outro é o caso quando se trata de bens de equipamento, os quais serão
produzidos, seja quando a procura aumenta, o que implica antecipar
rendimentos maiores esperados, seja pelo aumento do rendimento por
unidade de output, seja por aumento do emprego. Neste caso, as
expectativas dos produtores baseiam-se nas expectativas de longo prazo
dos investidores, as quais pela sua própria natureza não podem ser
obtidas com a lucidez de um determinado resultado, para além de que as
expectativas de longo prazo podem ser revistas imprevistamente[52].
Posto isto, há que considerar mais em detalhe o estado das expectativas
de longo prazo, as quais são vitais numa economia monetária em que as
decisões do produtor e do investidor são de natureza diversa e por vezes
antinómica, sobretudo se os objectivos a alcançar forem diferentes e
contraditórios.
Keynes chama a atenção para os factores que determinam as previsões
sobre os rendimentos futuros, porquanto estão na base das decisões
sobre a procura de investimentos em bens de capital. Este é um exercício
que os empresários realizam com base em factos que podem ser previstos
com maior ou menor certeza e em acontecimentos futuros sobre os quais se
pretende obter informação de relativa confiança. As expectativas de
longo prazo dependem das mudanças futuras de determinados
acontecimentos, tais como as mudanças futuras nas existências de tipo e
quantidade de bens de equipamento, das preferências intertemporais dos
consumidores, da força da procura efectiva durante um determinado
período, sobre o qual incide a utilização de um equipamento, das
mudanças nas unidades - salário em termos monetários.
Na formação das expectativas, o empresário orienta-se por factos que
inspirem certa confiança, mesmo que esses factos tenham uma importância
menor. Quando se planeiam as expectativas não devem ser considerados os
aspectos sobre os quais não existe um grau de certeza. Deste modo, os
factos do presente encontram uma congruência desproporcionada na
formação das expectativas, sendo hábito projectá-los no futuro,
modificando-os segundo os motivos que tenhamos para esperar alguma
variação. As expectativas planeadas baseiam-se, sobretudo, na confiança
dos factos conhecidos, que servem como projecção futura, e portanto,
assentam na probabilidade e confiança na previsão.
O estado de confiança tem uma importância crucial sobre a curva de
eficiência marginal do capital, podendo ser considerado um factor que
influencia a taxa de investimentos, porque é um dos factores que
determina a eficiência marginal do capital. O estado de confiança,
resulta da observação empírica dos mercados e da psicologia dos
negócios. O principal problema reside no facto de a base dos
conhecimentos na qual assenta a informação dos empresários sobre os
rendimentos esperados futuros ser precária.
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