Uma breve história da publicação da teoria geral de J.M. Keynes

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Uma Breve História da Publicação da Teoria
Geral de J.M. Keynes
Introdução
O interesse de Keynes sobre o ciclo dos negócios, datado historicamente,
retrocede a 1913, ano em que, a propósito da leitura da `fellowship dissertation`
de D.H. Robertson1, Keynes produz o ensaio " How far are the Banker responsible
for the alternations of crisis and depressions?”, problema ligado à regulação da
taxa de juro que posteriormente discutirá e incluirá no capítulo XIX do `Treatise`.
Desde aquele ensaio que é claramente visível a preocupação principal com
os aspectos monetários e financeiros do problema das flutuações económicas, e a
insatisfação com a opinião dominante representada por I. Fisher, `the real cash
balance approach`2. Keynes escreve " Not only is this theory somewhat lacking in
plausibility, but it cannot really be substantiated by fact3".
Irei a discutir estes aspectos, primeiro em relação ao Tratado da Moeda e a
seguir relacionados com os desenvolvimentos teóricos mas amplos relacionados
com a publicação da Teoria Geral.
1. O Tratado da Moeda
Retomando o problema do ciclo, Keynes propõe-se escrever o `Treatise`,
logo a seguir a publicação do `Tract`. O primeiro esquema data de 14 de Julho de
1924, dando lugar a contactos com Robertson para uma discussão sobre o seu
conteúdo. O esquema de Outubro é consideravelmente mais extenso, mantendo
porém a estrutura em duas partes: uma teórica e outra prática, num total de 23
capítulos, 14 dos quais dedicados à teoria do padrão ideal e 9 à prática do padrão
1
Esta dissertação foi publicada mais tarde com o nome " A study of Industrial Fluctuation" considerado por Keynes um
prodigioso volume de trabalho, a mais brilhante contribuição sobre o sujeito, uma contribuição que sugere " at first
sight a superb theory about fluctuations". Ver in CWJMK, vol. XIII, p.1, incluindo pé de página nº 2.
2Keynes escreve " Not only is this theory somewhat lacking in plausibility, but it cannot really be substantiated by fact",
J.M. Keynes, CWJMK, vol. XIII, p, 2.
3J.M. Keynes, CWJMK, vol. XIII, p, 2.
ideal. A partir dos vários projectos de esquemas sobreviventes desse ano, Keynes
começou a desenvolver as suas ideias, distribuindo `papers` entre várias pessoas,
incluindo Robertson, Sraffa. Keynes escreve a Sraffa: " You may be interested to
hear that I have now made a good start on my new book, and find that I like my
underlying theory quite as well when I begin4
Destes problemas teóricos destaca-se a importância atribuída por Keynes ao
papel das variações no capital de trabalho no ciclo do crédito, assim como dos
empréstimos ao exterior. Neste período o interlocutor privilegiado de Keynes foi
sem dúvida D. Robertson, que chegou a enviar-lhe notas críticas de alguns dos
capítulos postos em circulação. Salientando a oposição existente ao nível das
conclusões, ele escreve " Your final conclusion appears to be the opposite of mine!
i.e. at the crisis or the top of the boom your `working capital`is superabundant,
and my short lacking`is deficient. But perhaps we mean the same thing, i.e. that
the goods are abundant, but the power and will to wait deficient5".
Keynes estava à procura do melhor modo de expor a suas ideias, pelo que
novos esquemas foram surgindo, integrando na discussão inclusive o próprio A.
Pigou6. O interessante é que nesses novos esquemas, as mudanças introduzidas
têm a ver principalmente com a primeira parte- intitulada agora a teoria do
dinheiro crédito~ onde aparece pela primeira vez um capítulo dedicado às
equações fundamentais.
Nesse período estavam em gestação a publicação dos livros de A. Pigou, "
Industrial Fluctuations" e do próprio D. Robertson, " Banking Policy and the Price
Level”. Este último livro era de certo modo fruto da colaboração com Keynes,
como alias o próprio Robertson reconhece no capítulo introdutório do seu livro: " I
have had so many discussions with Mr Keynes J.M. on the subject-matter of
chapters V e VI, and have rewritten them so drastically at his suggestion, that I
4Keynes escreve a Sraffa: " You may be interested to hear that I have now made a good start on my new book, and find
that I like my underlying theory quite as well when I begin to develop it as I did at the start", in CWJMK, vol. XIII, p. 22.
5D. Robertson, " From D.H. Robertson, 27 February 1925, in CWJMK, vol. XIII, p. 24.
6Pigou escreve a Keynes: " many thanks for these which I kept until my proofs came. Your point about working capital is
of my lines. As I could`t discuss it properly at this stage, I`ve not said anything about it. As far as I can see, it is additive
to, not in conflic with, my stuff. In CWJMK, vol., XIII, p. 28.
think neither of us knows how much of the ideas therein contained is his and how
much is mine7".
Se dessa estreita colaboração entre Keynes e Robertson não restam
dúvidas, também não restam muitos elementos dela, como sugere D. Moggridge "
We will never know the full extent of this collaboration, if only because so much
was oral and because early draft do not survive8". Apesar do reconhecimento de
influência mútua, também não restam dúvidas de que Keynes não estava de
acordo com Robertson em questões fundamentais: " I have now read carefully the
rest of the book, and also your letter, and remain just unhappy about the whole
thing as I was before..This point is the following: I am not able to accept your
distinction between hoarding and forced effective short lacking. If there is no
increased hoarding, then in my opinion there is not increased short lacking
provided through the banking system. An act of inflation unaccompanied by any
change in the amount of hoarding represents a mere transference of existing
wealth without any necessary effect on the volume of consumtion. You think that
additional resources are released through the effect of inflation on consumtion. In
arguing this way I think you overlook the fact that there is no reduction of the
aggregate purchasing power measured in terms of real resources as a resultat of
inflation”9.
A confusão, segundo Keynes, derivava da falta de compreensão sobre a
relação que existia entre o stock permanente de dinheiro que o público mantém e
o fluxo correspondente ao seu rendimento e à despesa corrente, i.e., assumindo
Robertson que o público no seu todo tem que reduzir o seu consumo quando tem
lugar um processo inflacionário, este nãoo facto que alguns depositantes terão
menos recursos no banco enquanto outros depositantes terão mais. Disto resulta
claro uma perfeita ligação teórica à teoria quantitativa e uma apreciação crítica
7Citado in CWJMK, vol. XIII, p. 29.
8Idem, p. 29.
9J.M. Keynes, "To D.H. Robertson", 28 May 1925, op, cit., p. 34.
sobre a eficácia da política monetária inflacionária como modo de produzir novos
investimentos.
Da crítica resultou uma posterior revisão por parte de Robertson do capítulo
V que satisfez largamente a opinião de Keynes, como se verifica numa carta
datada de 10 de Novembro de 1925. A preocupação de Keynes virava-se para a
eventual crítica de Pigou e de Hawtrey.
O `Treatise` começa a ser trabalhado durante o verão de 1925, do qual se
encontra a evidência em novos esquemas em que se revela a constante mudança
sobre os capítulos de carácter mais teórico, salientando-se a existência de um
capítulo dedicado à especulação, que posteriormente é integrado
fundamentalmente no livro V do primeiro volume, mas que é largamente utilizado
na análise da política dos bancos sobre a taxa de juro no volume II. Do Verão
desse ano até começos de 1926 o trabalho foi interrompido pelo seu casamento e
viagem à Russia, tendo produzido no interregno um estudo sobre padrões
monetários antigos, que utilizará em parte nos capítulos I, XXX e XXXV10.
O trabalho retomado na Primavera de 1926 sobreviveu na forma de novos
esquemas sobre os seu conteúdo, com algumas notas que sugerem que teria
escrito 55.650 palavras e a indicação de visitas realizadas a Roy Harrod, material
que não sobreviveu. Entre Abril de 1926 e Setembro de 1927 conhecem-se 9
esquemas, com breves apontamentos sobre os seus conteúdos. Sobre o estado de
desenvolvimento dos capítulos, a própria obra final é também uma fonte,
porquanto é comum encontrar datas correlacionadas com o material tratado. Em
Setembro de 1928, o próprio Keynes avaliava ter escrito 4 quintos do total da obra
e revelava a esperança de publicá-la até à Pásqua de 1929, com uma extensão de
500 páginas. Dessa época data também um `paper` intitulado " Is there Inflation
in the United States?", sobre a situação nos E.U., em que é notória a utilização do
modo de análise que caracteriza o `Treatise`11.
10Esse estudo está publicado, juntamente com a correspondência no vol.ume XXIV das CWJMK.
11Na realidade e sobre o mesmo tema Keynes publicou dois artigos. O artigo aqui citado juntamente com a
correspondência é publicado na CWJMK, vol. XIII, pp. 52-77, tendo sido discutido com os economistas, funcionários do
Tesouro e banqueiros D. Robertson, R.Hawtrey, A. Joung, C. Bullock, W. Person, C Syder, J. Stam, R. Mckenna, W.
Burgues, B. Strong, O. Niemeyer e R. Hopkins.
Trata-se de um artigo eminentemente prático, em que se discute a política
monetária a ser seguida, dada a situação de inflação latente ou potencial devido
aos empréstimos dos bancos estarem a ocorrer com recurso às suas reservas e ao
perigo que se instalaria se através de uma política contraccionista se criasse uma
situação de `slump`. A análise, recorrendo à distinção entre circulação industrial e
financeira, pretende demonstrar que uma subida da taxa de juro tendo por
finalidade aplacar a circulação financeira, provocaria uma depressão.
Do carácter novo da análise produzida por Keynes da testemunho a carta
enviada por C. Snyder a Keynes, em que este refere " it is to me a novel and, I
confess somewhat alien point of view12". Na sua resposta, Keynes remete a
explicação definitiva do seu ponto de vista para a publicação do `Treatise` " which
shall be appropriate to the problem of modern monetary system and the credit
cycle", admitindo que "my reflections and researches have led me to a certain
extent into unfamilar ways of looking at the thing13.
Keynes chama substancialmente a atenção para outras funções do sistema
bancário, denotando uma outra caracterização do significado do dinheiro como
meio de pagamento, que leva necessariamente a ver o processo inflacionário em
termos diferentes de Snyder, i.e., para Keynes, um crescimento do crédito
bancário utilizado nas transacções provoca inflação quando este cresce mais
rapidamente que o crescimento das transacções. Isto implica que o crédito pode
crescer mais rapidamente se utilizado para outros fins sem provocar inflação, i.e.,
como meio de investimento das suas poupanças, que serão utilizadas pelos bancos
para comprar títulos ou emprestar a terceiros que comprarão títulos sem provocar
inflação.
Keynes utiliza a sua teoria da especulação para demonstrar justamente esse
processo, embora, como iremos ver, a sua análise da inflação irá a ser revista,
porquanto aqui trata exclusivamente a `commodity inflation`, enquanto que na
sua teoria, o ciclo é explicado mais em relação com a `profit inflation`. Os únicos
12C. Snyder, Form C Snyder, 20 September 1928, publicada in CWJMK, vol. XIII, p. 60.
13J.M. Keynes, " to C. Snyder, 2 October 1928, op. cit., p. 62. Nos mesmos termos é a correspondência com Charles
Bullock, director na época do `Harvard Economic Society´.
que pareceram concordar relativamente à situação inflacionária nos E.U. foram R.
Hawtrey e J. Stamp, embora discordando o primeiro sobre os elementos teóricos
que fundamentam a actividade especulativa. Porém, a discrepância com os
americanos e em parte com Hawtrey é sobretudo de natureza indutiva, i.e., sobe
as considerações a propósito do comportamento dos diferentes agentes nos
mercados e sobre a natureza dos tipos de depósitos a serem considerados como
crédito.
Em Outubro de 1928, Keynes elabora um esquema que na sua primeira
parte se aproxima bastante do esquema final do volume I, onde alguns capítulos
integram aspectos que depois serão relegados para o segundo volume, i.e., para a
teoria aplicada. Sabe-se que, tendo continuado o seu trabalho a fim de publicá-lo
no Outono de 1929, tinha em Agosto desse ano uma segunda prova do esquema
de conteúdo e uma primeira prova do prefácio, assim como dos primeiros 19
capítulos ( 320 páginas no total), enquanto que o resto estava ainda em rascunho.
Nada disto sobreviveu, para além do prefácio e do esquema, embora como
monstra D. Moggridge nas suas notas ao volume XIII, em Agosto de 1929
estivessem os capítulos finais redigidos, tendo Keynes procedido, a partir daí, as
correcções e preparação das versão final.." However, in the course of polishing he
became very dissatisfied with what he had done so far and began to attempt more
substantial revisions14".
Até à publicação definitiva datada de 14 de Setembro de 1930, Keynes
trabalhou uma nova apresentação da essência teórica da sua obra, i.e., das
equações fundamentais, deu a versão definitiva à crítica de Robertson, Kahn e do
próprio Pigou. Do que resta da correspondência com Robertson e Kahn15 salta à luz
que se discutia ainda bastante sobre os conteúdos dos conceitos macro-
económicos, tais como investimento, capital líquido, consumo(produtivo,
improdutivo), poupança, rendimento, lucros o que revela que se estava ainda
numa fase construtiva dos conceitos agregados familiares à macroeconomia.
14D. Moggridge, in op. cit. p. 117.
15Dessa correspondência conhecida estão publicadas as cartas de Robertson e Kahn, assim como as respostas de Keynes
no volume XIII das CWJMK, pp. 118-126.
Do grau de maturação das ideias teóricas de Keynes até a publicação do
`Treatise`, e porque não existem cópias completas das provas dos dois volumes,
para além do capítulo 21 e 25 que correspondem quase à versão final, corrigidos
no estilo, da-nos conta a sua participação no chamado `Committee on Finance and
Industry`, convocado pelo `Chancelor of Exchequer`, Philip Snowen, em 4
Novembro de 192916. Como comenta D.Moggridge: "Keynes`s effort to shape the
work of the Comitee led him in February and March 1930 to spend five sessions
elaborating his approach to monetary theory and policy, which reflect his work on
the final stages of his `Treatise on Money`17".
A participação de Keynes segue evidentemente as linhas do `Treatise` e
corresponde a um tipo de actividade pública a que o próprio Keynes costumava
chamar de persuasão, tendo como interlocutor mais importante no terreno teórico
R. Hawtrey.
Concordando Keynes com Hawtrey no sentido geral dos problemas
monetários, distancia-se deste nas considerações tecidas sobre as causas
monetárias e não-monetárias que influenciam as flutuações do nível dos preços.
Keynes Atribui a estas reflexões de Hawtrey uma linhagem que vem de Cournot,
Jevons e Edgeworth, com as quais Keynes se declara em desacordo.
O ponto de discórdia reside em que quando os preços relativos estão a
mudar não é praticável distinguir entre causas monetárias e não monetárias que
afectam essa mudança. Uma causa monetária era, segundo Hawtrey, uma causa
que tende a fazer com que todos os preços se movam do mesmo modo, enquanto
que uma causa não monetária provoca a mudança nos custos reais. Para Keynes
essas definições são incompreensíveis porquanto existem causas que não são nem
monetárias nem não monetárias nessa definição. Para ser consistente, segundo
Keynes, Hawtrey deveria definir como causa monetária aquela que afecta todos os
custos monetários por igual e não todos os preços e, se tivesse feito isso, surgiria
16Esse comité conhecido pelo nome do seu presidente Lord Macmillan, integrava políticos, banqueiros e professores
com a finalidade de investigar os factores internos e externos que determinavam as operações dos bancos, finanças e
crédito, a fim de retirar recomendações para promover os negócios, o comércio e o emprego de trabalho. O relatório foi
publicado em Julho de 1931; a participação de Keynes está publicada no vol. XX, capítulo 2, pp. 38-311 nas CWJMK.
17D. Moggridge, in CWJMK, vol. XX, p. 38.
necessariamente a ideia de que não existe algo que tende a afectar todos os
custos por igual, como sendo uma causa monetária por excelência.
Um segundo aspecto de discordância, que não está directamente ligado ao
anterior, é o modo ideal de estabilizar o poder de compra da moeda, se for
tomado em termos de meios de consumo ou de custo do esforço humano. Keynes
diz " For my own part, I have come to not clear conclusion. I believe that the idea
of stabilising incomes is a fruitful one and bears a great deal of thinking about; but
I suspect that the choice between the two standards ought not to be the same in
all circumstances. I doubt if I should come to the same conclusion in all sets of
conditions. For example, if we were to living in a age when real costs were
increasing-the opposite to an age of progress- I should be much more inclined to
adopt his conclusion than if I were living in a age of progress in which real costs
were diminishing18".
As críticas de Keynes ao standard em termos do esforço escolhido por
Hawtrey, delimitam-se em duas objecções. Primeiro, o standard não pode ser o
mesmo para diferentes países, porquanto os custos reais em cada pais evoluem
de modo diferente. Segundo, como o aumento dos preços reduz a exigência dos
rentiers e, portanto, o peso que as dívidas representam no presente, a
estabilização em termos de bens aumenta a exigência dos rentier, aumentando a
possibilidade da fricção social. Os receptores de salários, argumenta Keynes,
quando aumentam a sua eficiência, pretendem benefícios mais na forma de
salários superiores que na forma de preços mais baixos, o que é uma questão
puramente psicológica.."therefore, I am somewhat of the opinion that social
friction would be less if you allow wages to rise slowly than if you insist on keeping
wages steady and reducing prices19".
A opção de Hawtrey em utilizar o `wholesale index` é paradoxal. Sendo
este uma aproximação do índex do consumo, esse índice não contribui para a
estabilização dos salários dos factores de produção, porquanto eles se movem em
18Idem, p. 128.
19Idem, p. 129.
direcções opostas. Assim, o índice de Hawtrey não uma aproximação das
mudanças nos custos reais. Mas para Keynes a estabilização faz sentido mais no
curto que no longo prazo, e no curto prazo ambos métodos podem ser a mesma
coisa. O importante é que os partidários da estabilização actuem homogeneamente
na escolha de um método. Para Keynes era prioritária a estabilização, i.e.,
politicamente mais relevante que a escolha do método, colocando-se na disposição
de renunciar à escolha do método a fim de que a política da estabilização fosse
adoptada.
Provavelmente, pelo grau de concordância acerca de necessidade de
políticas de estabilização, Keynes envia a Hawtrey, a partir de Abril de 1930, partes
fundamentais do `Treatise`, começando por discutir fundamentalmente com este
o argumento de como uma mudança na taxa de juro bancária influencia mudanças
na taxa de juro em geral, problema que Keynes discute no capítulo 37 do segundo
volume, e posteriormente as ilustrações históricas que Keynes utiliza no capítulo
30. Mas da correspondência publicada no vol. XIII das JMKCW, que se estende de
Abril de 1930 a Junho de 1932, a discussão estende-se à obra no seu conjunto,
com incidência sobre os conceitos de consumo e capital líquido, mas também
sobre o processo inflacionário e os métodos de acção do sistema bancário.
An passant, Keynes relata a Hawtrey numa carta de 18 de Julho de 1930, as
dificuldades que encontra em dissuadir Robertson e Pigou da diferença entre
excesso de acumulação e excesso de poupança que o levou a reescrever o capítulo
das equações fundamentais. Dessa correspondência resulta evidente que o próprio
Keynes ainda não tinha clara uma definição sobre o conceito de gasto do
consumidor(`consumer`s outlay`) utilizado por Hawtrey, o que provavelmente
implica que este estava insatisfeito com a sua própria definição de consumo. Mas
esta discussão com certeza não influenciou modificações na publicação do `Trea-
tise` porquanto datam de Agosto de 1930, quando provavelmente o `Treatise`
estava na tipografia20, mas levará Keynes a reconsiderar a abordagem do
20Na carta de Keynes para Hawtrey de 27 de Agosto 1930, Keynes escreve "The final version will shortly be available,
and I naturally do not want misunderstanding to get about through uncorrected versions being in circulation. I have
considerably re-written the fundamental chapter, and enclose the revised version herewith. I doubt if the changes meet
your particular points. They were primary devised to what seemed to me misunderstandings on the part of Pigou and
problema, logo após a saída do livro, i.e., a reconsiderar como dado a
determinação do volume do output.
Em 14 de Setembro de 1930 escreve à sua mãe " My dearest Mother, This
evening, at last, I have finished my book. It has occupied me seven years off and
on...Artistically it is failure- I have changed my mind too much during the course of
it for it to be a proper unity. But I think it contains an abundance of ideas and
material21". Keynes deve ter enviado um exemplar a J. Schumpeter que responde
desde Harvard " I do not think that any scientific book has been looked for with so
universal an impatience-in our time at least-as yours is22".
Concluindo, Keynes propôs-se demonstrar no `Treatise` que o nível dos
preços do output dependem do nível dos rendimentos monetários relativamente à
eficiência do volume do investimento (medido em custos de produção) relativa-
mente à poupança e dos sentimentos `bearish` ou `bullnish` dos capitalistas
relativamente à oferta de depósitos de poupança disponível no sistema bancário.
Mesmo que estas dificuldades fossem superadas e o próprio Keynes dedica- desde
a sua óptica, o capítulo 38 do segundo volume do seu `Treatise` à construção de
propostas sobre a regulação internacional, na linha que o tornaram o co-autor dos
acordos de Bretton Wood-, eleprevê ainda uma dificuldade: é que este standard
compromete o mundo a um tipo particular de standard de valor que domina a
norma de longo prazo.
É que um standard de valor de longo prazo pode ser escolhido entre três
tipos. O primeiro é o standard do poder de compra da moeda ou standard do
consumo; o segundo é o standard do rendimento, cujo ratio relativamente ao
standard consumo cresce em proporção a cada incremento na eficiência dos
factores de produção; o terceiro é uma versão do padrão internacional, i.e., um
standard baseado nos preços dos principais bens que entram no comércio
Robertson. But they do, I think, make my own point of view a great deal clearer than it was before. To R.H.Hawtrey, 27
August 1930, CWJMK, vol. XIII, p. 138.
21J.M. Keynes, " To F.A. Keynes, 14 September 1930", CWJMK, vol. XIII, p. 176.
22J. Schumpeter " From a letter from J. Schumpeter, 18 October 1930", in op. cit., p. 176. No período, Schumpeter
estava a estudar também problemas monetários, cujos resultados foram publicados em 1970 pela sua esposa com o
nome de "Das Wesen des Geldes".
internacional, ponderados por ordem de importância no comércio internacional, na
prática não muito diferente do standard a retalho das matérias primas.
Se o standard deve ser do mesmo tipo do dos outros países, é-se obrigado
a escolher o terceiro tipo de standard, porquanto os outros tem um carácter
nacional, i.e., eles movem-se de modo diferente em diferentes países, pelo que o
standard internacional deste tipo pode não ser um standard ideal para cada pais
individual.
2. Da Teoria Monetária da Produção á Teoria Geral.
As duas conferências "Easter Term 1932" de Keynes em Cambridge foram
intituladas " The Pure Theory of Money", e contaram com a presença, para além
dos seus alunos, de R.Kahn, P. Sraffa e J. Robinson, na qualidade de espias, como
relata Keynes a sua esposa Lydia23.
A primeira conferência lida, a 25 de Abril de 1932, é uma incursão em
problemas terminológicos, conceitos económicos, dada a dificuldade que existe de
passar de uma terminologia dominantemente de longo prazo para uma de curto
prazo: " theoretical economics often has a formal appearance where the reality is
not strictly formal. It is not, and is no mean to be, logically watertight in the sense
in which mathematics. It is a generalisation which lacks precise statement of the
cases to which the generalisations applies24". Esta frase revela simplesmente o
carácter introdutório desta conferência, a preparação da audiência para uma
exposição crítica e aberta ao criticismo, sempre que este se exerça tomando em
consideração que: "a definition can often be vague within fairly wide limits and
capable of several interpretations differing slightly from one another, and still be
perfectly serviceable and free from serious risk of leading either the author or the
reader into error, provided that any of the alternative definitions will do so long as
it is used consistently within a given context25.
23Ver J.M. Keynes , CWJMK , vol. XIX, p. 35-42, seguida do manifesto de R. Kahn e J. Robinson sobre essa conferência,
pp. 42-45.
24Idem, p. 37.
25 Idem, p. 36.
A segunda conferência, de 2 de Maio, discute alguns conceitos tomando
como referência os usados no `Treatise`. Keynes esclarece: " The general upshot
of this and the previous chapter seems to be that the fluctuations of output and
employment for a given community over the short period, within the ranges of
fluctuations occur, depend almost entirely on the amount of current investment-
not indeed with logical necessity but with a high degree of provability26 in practice.
This goes beyond the contention of my Treatise, where it was meant to depend on
the amount of investment relatively to Saving-which has the advantage of logical
necessity, apart from the results of temporary miscalculation or of a policy which
deliberately ignored considerations of profit".."This less restricted generalisation is
the result of taking account of the provable effect on saving of a change in the
amount of investment27". Keynes parece inverter o raciocínio do `Treatise` no
sentido de que dado o existente nível de rendimento e a distribuição dos
rendimentos para um determinado nível de output, não existe uma mudança
espontânea na propensão a poupar. As mudanças na situação geral são
frequentemente iniciadas a partir de mudanças no investimento. É o investimento
o factor que gera a mudança de outros factores, embora.. " we cannot deduce
from observing changes in investment the exact amount of changes in other
factors, we can infer with a degree of provability approaching to certain the
direction of these other changes28". O grau de generalidade que Keynes pretende
dar a sua teoria está associada ao seu método de aceitar as suas proposições com
um grau de crença.
26Não esquecer que quando Keynes fala de um alto grau de probabilidade refere-se ao grau de racionalidade a atribuir
a um determinado fenómeno, do qual se deriva um grau de verdade. Keynes diz no `Treatise on Provality` que os termos
certeza o probabilidade descrevem os vários graus da crença racional sobre as proposições que diferentes quantidades
de conhecimentos nos autorizam a divagar. A probabilidade não é capricho humano, referida sobretudo a lógica. A
teoria da probabilidade é lógica, porque diz respeito com o grau de crença que é racional estimular em determinadas
circunstâncias. Dado um corpo de conhecimentos directos que constituem nossas últimas premissas, a teoria nos diz
que crenças racionais adicionais, certas ou prováveis, podem ser derivadas como argumentos válidos do nossos
conhecimentos directos. Isto envolve relações lógicas puras entre as proposições que incorporam nosso directo
conhecimento e as proposições sobre as quais procuramos conhecimento indirecto. Ver J.M. Keynes , CWJMK , vol. VIII,
pp. 3-4.
27 Idem, p.41.
28Idem.
Em resultado desta conferência, Keynes29 recebeu um manifesto de R.Kahn
e J.Robinson, como resposta ao desafio de Keynes no sentido de encontrar
objecções aos pressupostos que provam que quando se incrementa o
investimento, o output também se incrementa. Como sublinham os autores do
manifesto, " our difficulty however is not so much that we doubt your conclusion
( to which it would be difficult to object on ground of common sense) as the
method of formal logic which you pursued appears to hedge it round with
restrictions which detract unnecessary from generality without increasing its
plausibility30.
Nesta segunda conferência Keynes argumentava que D E` e D O teriam o
mesmo signo, condição a) no manifesto, e que DE`-D F e D E` m o mesmo
signo, condição b) do manifesto, e desde que D I = D E`-D F, as mudanças no
nível do investimento(I), no ouput (O) e emprego estariam positivamente
correlacionados, i.e., que D I e D O tem o mesmo signo31.
A primeira objecção no manifesto é uma objecção à condição b), i.e., que D
E`-D F e E` têm o mesmo signo. Se as despesas em consumo se incrementam
mais rapidamente que o rendimento, então D E`- F e E` não tem o mesmo
signo, ao que Keynes aponta que existe no manifesto uma confusão entre
rendimento e receitas, i.e., nos custos primos (`prime cost`). Kahn e Robinson
sublinham que de facto o problema na condição b) não é necessariamente
demonstrar que I e O se movem juntos, mas de assegurar que existe um equilíbrio
estável. Se a despesa em consumo se incrementasse mais rapidamente que o
rendimento o equilíbrio seria instável e que cada pequeno incremento de I poderia
causar um crescimento do output até o infinito ou até o ponto onde o incremento
na despesa de consumo e o incremento do rendimento tem efectivamente o
mesmo signo32.
29A notas que aparecem no vol. XIX das CWJMK não devem ser iguais às aulas, onde provavelmente este introduz
digressões e exemplos citados por Kahn e Robinson que não se encontram nas referidas notas.
30Idem, p. 42. A correspondência que dá lugar ao manifesto está publicada no vol. XIII, p. 376-380, concluindo Keynes
que "I had to revise my exposition to clear myself of just complaints of confused narration", p. 377.
31Os símbolos são os mesmos que no `Treatise´, F significa despesas não utilizada em consumo.
32 Esta discussão sobre as condições de estabilidade faz parte da discussão sobre o multiplicador, na disputa sobre a
extensão do emprego secundário associado com os trabalhos públicos e da confusão sobre a proveniência da poupança
Na crítica à condição a) Kahn e Robinson argumentam que a prova de
Keynes entra em colapso se o incremento do output for acompanhado pela queda
do seu valor, o que sendo improvável de acontecer, se acontecer, o incremento do
output será acompanhado de uma queda dos preços, o que aumenta o
pressuposto de que I e O se movem juntos. Do ponto de vista formal a prova está
correcta e desde que a proposição b) esteja preenchida, uma queda da proposição
conduz ao fracasso da condição a). O problema é que as condições são suficientes
mas não necessárias, i.e., que a verdade da proposição de que um incremento em
I indicia um incremento em O precisa de ser provada necessariamente através do
`simple minded method` porque o método formal apenas o prova suficiente-
mente. Um incremento em I conduzirá de per se a um crescimento na procura de
bens de consumo, i.e., que a procura de bens de consumo por parte dos
produtores de bens de capital será incrementada quando o valor do seu output se
incrementa; as condições da oferta de bens de consumo não são afectadas pela
mudança de I.
Quando estas condições se cumprirem, um incremento de I conduzirá a um
incremento na curva de procura de bens de consumo sem aumentar a curva de
oferta, e portanto conduzirá a um incremento do output de bens de consumo e a
fortiori a um incremento no output total. Se estas condições não se cumprirem é
possível que o output se possa incrementar. Se a) não se cumpre não existe
incremento em R ( produção de bens de consumo), mas existe um incremento em
C( produção de bens de capital ou investimento), excepto quando D I resulta de D
P`, e a menos que exista uma redução de R, o output é incrementado. É apenas
quando um incremento em I gerar um crescimento suficiente na curva de oferta
dos bens de consumo que este output diminuirá, e que este crescimento será
ainda maior se o declínio em R compensar o incremento de C. Um crescimento dos
custos de produção é certamente acompanhado de um crescimento na procura de
bens de consumo da parte dos factores de produção que são responsáveis pelo
necessária para o incremento nos trabalhos públicos e o modo de financiá-los. As condições de estabilidade precisam as
limitações das mudanças nas quasi rendas ou lucros sobre a extensão do emprego secundário e a fonte das poupanças.
Ver T. Rymes, " Keynes`s Lectures 1932-35: Notes of a Representative Student", MacMillan, 1988, p. 35.
crescimento dos custos, embora sublinhem os autores do manifesto:" It may be
concluded therefore that it is extraordinary unlikely that an increase in investment
should ever fail to increase output33". Esta discussão que segue em cartas e notas34
apenas serve como exemplo para três coisas: primeiro, que Keynes se encontra no
caminho da elaboração da teoria da procura efectiva ainda com um substrato
teórico similar ao `Treatise`; segundo, que na elaboração dessa teoria embora
manifeste abertura ao criticismo exterior está convencido que o seu caminho está
certo como o próprio escreve a Joan Robinson: " Finally there is the question
which is the best of two alternative exegetical methods. Here I open to conviction.
But to be convinced I should need to see the whole theory worked out your way,
and then compare it with what I am able to say in my language. I am not so
familiar with your way as with my own. But my present belief is that in general,
and apart possibly of handling of certain special problems, your way would be
much more difficult and cumbersome. At any rate I lack at present sufficient
evidence to the contrary to induce me to scrap all my present half-forget
weapons;-though that is no reason why you should not go on constructing your
own”35. Terceiro, a proposição de que uma mudança no gasto causará uma
mudança no output na mesma direcção era controversa e existiam pontos de vista
contrários, de que um aumento do consumo causaria uma queda do output, como
resulta das lembranças de J.Robinson sobre a exposição de Hayek do seu livro
«Prices and Production» na Marshall Society em Cambridge: " I very much
remember Hayek`s visit to Cambridge on his way to the London School. He
expounded his theory and covered a blackboard with his triangles. The whole
argument, as we could see later, consisted in confusing the current rate of
investment with the total stock of capital goods, but we could not make it out at
the time. The general tendency seemed to be to show that the slump was caused
by consumption. R. F. Kahn, who was at that time involved in explaining that the
33Idem, p. 44.
34Como escreve D. Moggridge " Keynes talked with Kahn and with Kahn and Joan on 8. May 1932. The argument took
all day, but Keynes told Lydia that he thought they had solved the problem amicably in the end. Ver J.M. Keynes ,
CWJMK , vol. XIX, p. 48.
35J.M. Keynes , " To Joan Robinson, 9 May 1932", CWJMK , vol. XIII, p. 378.
multiplier guaranteed that saving equals investment, asked in a puzzled tone,`Is it
your view that if I went out tomorrow and bought a new overcoat, that would
increase unemployment?` `Yes`, said Hayek. `But pointing to his triangles on the
board, `it would take a very long mathematical argument to explain why`36"
Keynes movia-se no sentido de estudar a relação entre os níveis de
investimento e lucros, investigando as possibilidades de que um incremento do
investimento cause o crescimento dos custos de produção na indústria de bens de
consumo e de capital( principalmente na indústria de consumo); se o investimento
e os lucros não se movessem no mesmo sentido, a estabilidade das relações entre
investimento e quase-rentas seria colocada em dúvida, se aumentasse o
investimento mas crescessem os custos de produção, a expansão seria colocada
em questão. Como argumenta Rymes os autores do manifesto não perceberam a
questão dinâmica de como um movimento no nível do output esassociado com
movimentos nos custos de produção " that is, shift in supply curves rather than
movement along them37".
A evolução do pensamento de Keynes espelha-se nos esquemas e
diferentes `draft` sobreviventes correspondentes a esse esquemas. Um dos
primeiros esquemas que sobrevivem neste período tem por título a teoria
monetária da produção, que apresenta uma divisão em quatro livros com uma
introdução. O livro I trata da interrelação entre o investimento, a despesa, o lucro
e o output, dividido em sete capítulos. O livro II dedica-se à taxa de juro, o livro
III à determinação do preço, dividido em 4 capítulos; o livro IV refere-se ao
controlo da taxa de despesa38.
Num esquema similar que apresenta posteriormente aparece agora o livro
segundo com o título "The Monetary Theory of Production", com os mesmo
capítulos e conteúdos que o esquema anterior. No livro III sobre a determinação
do preço aparece um capítulo dedicado à preferência pela liquidez, e o livro IV
36 Joan Robinson, Contributions to Modern Economics, Oxford, Blackwel, 1978, pp. 2-3.
37T. Rymes, " Keynes`s Lectures 1932-35: Notes of a Representative Student", MacMillan, 1988, p. 41.
38Não existe nenhum documento ou fragmento que certifique a realização deste plano, apenas fragmentos de duas
lições de Outubro desse ano, publicadas no vol. XIX, pp. 50-56, dedicados aos postulados de uma economia monetária
em contrapartida com uma economia de troca real.
muda para o controlo da produção através da taxa de despesa, indiciando os
capítulos uma dedicação aos assuntos de política económica. Embora em ambos os
esquemas apareça um capítulo dedicado à relação entre o investimento e o
comércio exterior, nenhuma alusão é feita ao conceito de procura efectiva. Numas
notas escritas antes destes esquemas aparecem os temas Mercantilismo e
Proteccionismo.
No primeiro dos esquemas de 193339, Keynes mantém o título dos
esquemas de 1932, dedicando o primeiro capítulo do livro I, agora sem título, à
natureza e significado da teoria de uma economia monetária, sendo o resto dos
capítulos dedicados a definições, à poupança. O livro dois engloba a teoria da taxa
de juro, mantém o capítulo da preferência pela liquidez e agrega um capítulo
sobre os factores que governam o investimento, com o que vislumbra a construção
de um capítulo sobre o ciclo económico. O livro terceiro dedicaria Keynes ao
emprego e aos salários, à influência da distribuição do rendimento, à influência das
mudanças do investimento sobre o emprego e à teoria dos preços.
Num segundo esquema40 o título do livro muda para "The General Theory
of Employment"; o capítulo primeiro muda para o significado e o contraste entre
uma economia cooperativa e uma economia empresarial, agrega um segundo
capítulo sobre as características da economia empresarial, adiciona um capítulo
que denomina `Fundamental Equations` e outro sobre definições e ideias relaci-
onadas com o capital41.
No esquema de Dezembro de 193342 existe uma tábua de conteúdos
completa. A teoria do Emprego é dividida em seis livros. O livro 1 dedicado a
39Deste esquema sobrevive o capítulo 6 no livro I, "A summary of an Argument So Far", publicado no vol. XIX, pp. 63-
66.
40Deste esquema mantêm-se fragmentos do primeiro capítulo, "The Nature and Significance of the Contrast between a
Co-operative and the Entrepeneur Economy", do capítulo V, " Certain Fundamental Equations" e do capítulo oito, "
Definitions and Ideas relating to Capital", publicados no vol XIX, pp. 63-75.
41Estes esquemas estão no vol. XIX das CWJMK, pp. 49-50 e 62-63, incluem fragmentos e notas sobre alguns ou partes
de alguns capítulos dos esquemas de 1933. Sobre o primeiro esquema de 1932 existem fragmentos e notas sobre a
teoria monetária da produção no vol. XIII, pp. 381 e seg., incluindo uma notas intituladas `The Parameters of a
Monetary Economy´, que não se encontram nos esquemas.
42Ver J.M. Keynes , CWJMK , vol XIII, pp. 421-422; existem fragmentos dos capítulos dois " The Distinction between a
Co-operative Economy and an Entrepreneur Economy", do capítulo 3, "The Characteristics of an Entrepreneur
Economy", que é uma segunda versão daquele citado anteriormente, publicados no vol XIX, pp. 76-102. Provavelmente
os fragmentos do capítulo 7, `Saving` e `Quasi-rent`and The Marginal Efficiency of Capital, que inclui uma nota sobre a
teoria do capital de Bõhm-Bawerk do capítulo 4 e do Excursus II, no livro III pertencem a este esquema. Publicados no
vol. XIX, pp. 102-120.
relação entre a teoria geral da economia com a teoria clássica, divide em 3
capítulos, sendo o capítulo 1 os postulados da teoria clássica, o capítulo dois as
distinções entre uma economia cooperativa e uma empresarial e, o terceiro
capítulo, as características da economia empresarial. O livro dois apresentaria os
conceitos fundamentais da Teoria Geral, subdivididos em quatro capítulos
independentes: quase-rendas, rendimento, despesa e poupança. O livro 3, o mais
extenso, é dedicado ao emprego como função dos motivos à despesa e ao
investimento, englobando os motivos ao investimento e à despesa, a teoria do
juro, a preferência pela liquidez como factor determinante da taxa de juro, a
natureza do capital, as condições de estabilidade, a teoria geral do emprego, e
duas excursões: uma sobre a taxa de juro em Marshall, e uma outra sobre a
eficiência marginal do capital. No livro IV reaparece a teoria dos preços, com cinco
capítulos: a função oferta; o multiplicador; salários reais e monetários; a equação
dos preços e; poupança forçada, entesouramento e a velocidade da moeda. No
livro V com o título `Sundry Observation`, aparecem a taxa de juro em casos
extremos, notas no ciclo do comércio e, notas na história de `cognate ideas`.
No esquema de meados de 193443 o livro de Keynes recebe o nome de "
The General Theory of Employment, Interest and Money"44. O livro I aparece como
na versão final da Teoria Geral, os postulados da economia clássica e o princípio
da procura efectiva. No livro dois, definições e ideias, existe um capítulo sobre as
expectativas e outro sobre as expectativas de longo prazo; os diferentes capítulos
antecipam com diferentes nomes o conteúdo do livro dois e três e parte do quatro
43Deste esquema existem fragmentos do capítulo 6, " Effective Demand and Income", do capítulo 9, "The Functions
relating to Employment, Consumption and Investment", do capítulo 10, " The propensity to spend", do capítulo 11, "
The Propensity to Invest", publicados no vol. XIII, pp. 424-456. Deste período existe um manuscrito completo que
Keynes apresentou ao `American Political Economic Club´, em 5 Junho de 1934, com o título `The Theory of Effective
Demand", um novo manuscrito do capítulo 9, " The Functions relating to Employment, Consumption and Investment",
um manuscrito sobre o capítulo 8, "Investment and Saving, e os indícios de um prefácio da Teoria Geral. Publicados no
mesmo volume, pp. 469-483.
44Keynes escreve uma elucidativa carta a R. Kahn, que ilumina a história das mudanças dos esquemas " I have been
making extensive changes in the early chapters of my books, to a considerable extent consequential on a simple and
obvious, but beautiful and important(I think) precise definition of what is meant by effective demand:-
Let W be the marginal prime cost of production when output is O. Let P be the expected selling price of this output.
Then O×P is the effective demand.
The fundamental assumption of the classical theory, `supply creates its own demand`, is that O×W = O×P whatever the
level of O, so that the effective demand is incapable of setting a limit of employment which consequently depends on
the relation between marginal product in wage-good industries and marginal disutility of employment. On my own
theory O×WÅ O×P for all values of O, and entrepreneurs have to choose a value of O for which it is equal;-otherwise the
equality of price and marginal prime cost is infringed. This is the real starting point of every thing", " From a letter to
R.F. Kahn, 13 April 1934, in J.M. Keynes , CWJMK , vol. XIII, pp. 422-423.
da versão final, mas desaparece qualquer menção à eficiência marginal do capital,
provavelmente diluída no capítulo sobre propensão a investir, expressão que como
sabemos Keynes não utiliza na sua versão final. O livro III, a teoria da taxa de
investimento, dedica-se à teoria da taxa de juro, à preferência pela liquidez, à taxa
de juro em casos especiais e, a considerações filosóficas sobra as propriedades
essenciais do capital, do juro e da moeda. O livro IV, contém os conteúdos do livro
V da Teoria Geral, embora apareçam misturados conteúdos de livros anteriores,
como por exemplo, o equilíbrio do consumo e o investimento, o multiplicador
relacionando emprego e investimento, que são tratados posteriormente no capítulo
10 e no capítulo 18 da versão final. O último livro, apresenta-se dividido em quatro
capítulos: notas no ciclo do comércio; notas sobre o mercantilismo, a balança de
pagamentos e o investimento estrangeiro; uma economia individualista capaz de
prover o pleno emprego, e notas na história de ideias similares. Resulta claro que
estes dois capítulos foram refundidos no capítulo final da versão de 1936.
Em Junho de 193545, a `table of contents`, cobre mais ou menos
exactamente o conteúdo da versão final. Da cópia enviada a R.Harrod, apenas
faltam os 4 capítulos do livro VI, que ainda mantem a estrutura do anterior
esquema. O livro I, submetido ainda a revisões, contém a estrutura final; o livro II,
definições e ideias, apresenta a cobertura do conteúdo da Teoria Geral, com
modificações na estrutura dos capítulos, passando de 12 na anterior versão para 9,
onde alguns capítulos desaparecem, outros são desviados para outros livros, como
o capítulo dedicado às expectativas de longo prazo, que aparece como capítulo 13,
no livro IV; o livro III, é dedicado agora exclusivamente à propensão ao consumo,
em dois capítulos e não três como na Teoria Geral, onde a relação propensão ao
consumo com o multiplicador faz parte do capítulo 22 no livro V. O livro IV, a
propensão ao investimento, e não o incentivo ao investimento como na Teoria
Geral, integra exactamente oito capítulos, embora o capítulo `The General Theory
45Numa carta a Harrod, Keynes escreve: " I am sending you at last galley proofs of almost the whole of my book. From
the table of contents which I am enclosing, you will see that you have here the whole thing with the exception of the
three concluding chapters".. "The different sections are in different states of revision, and you will find various internal
inconsistencies which will have to put right. Broadly speaking, the first six chapters and the last six are in a later stage
of revision than the intermediate ones", J.M. Keynes ," To R.F. Harrod, 5 June 1935, CWJMK , vol. XIII, pp. 526-527.
of Employment` seja integrado no capítulo 20, enquadrado, porém, no livro V,
com o nome `The Equilibrium of the Economic System`. O livro V, com capítulos
que na versão final são deslocados para livros anteriores, como referimos, é
exactamente igual à versão final, embora apresentados numa ordem diferente. O
capítulo das mudanças nos salários vem posteriormente ao capítulo sobre a função
do emprego e não aparece qualquer apêndice sobre a teoria de desemprego de
A.Pigou.
Pela correspondência com R. Harrod46, sabemos que Keynes, esteve a re-
escrever os primeiros 7 capítulos e o último livro no Verão de 1935. O mesmo
podemos retirar da correspondência com J.Robinson. Numa carta de Setembro de
1935 Keynes escreve.." I have been occupied for several weeks in somewhat re-
writing Book I and completely re-writing Book II. I the case of Book II practically
not a word of the version you have read has been left standing47". Faltava ainda os
últimos capítulos do livro VI, os que Keynes submeteu a Harrod, que objectou
fortemente a tentativa de no capítulo 26 glorificar imbecis; obviamente Harrod
referia-se aos mercantilistas. Este comentário contido na carta citada a J.
Robinson, sugere que nesse período Keynes estava a ultimar a Teoria Geral,
procedendo a mudanças no livro VI, o que de facto veio a acontecer, bastando
comparar os últimos dois esquemas com a versão final, onde Keynes refunda os
quatro capítulos originalmente previstos para os três da versão final. Em Agosto
de 1935 Keynes escreve a sua mãe.. " I began the last chapter of my book this
morning48". Em Dezembro desse ano escreve " I finished my book on Tuesday-it
has taken five years49"; em Janeiro escreve " My book is out of my hand and will
be published on Feb.450". O prefácio da Teoria Geral está, porém, datado de 13 de
Dezembro, tendo-o acabado Keynes na terça feira dia 23 de Dezembro de 1935. A
primeira carta registada que Keynes recebe sobre a Teoria Geral data de 15 de
46A correspondência com Harrod está publicada no vol. XIII, das CWJMK, pp. 525-564, estendendo-se por um período
de Junho a Outubro de 1935.
47Ver J.M. Keynes , " To J. Robinson, 3 September 1935", CWJMK, vol. XIII, p. 650.
48J.M. Keynes , " Fromm a letter to Florence Keynes, 9 August 1935", CWJMK , vol XIII, p. 653.
49 J.M. Keynes , " From a letter to Florence Keynes, 26 December 1935", CWJMK , vol XIII, p. 653.
50J.M. Keynes , " From a letter to Florence Keynes, 19 January 1936", CWJMK , vol XIII, p. 653.
Abril de 1936, do seu colega de Cambridge G.F. Shove51, e o primeiro artigo de
seis páginas, " Mr Keynes on Employment and Output" aparece no volume 7(1) da
The Manchester School52. Nos `draft` do capítulo 7, " The Monetary Theory of
production", e o capítulo 8 " The Instability of Profit-Seeking Organisations of
Production53", Keynes discute o caso de um decréscimo do investimento associado
com uma queda das quasi-rendas. É devido às condições dos custos, que chama
de salários de eficiência, que surge o problema da instabilidade. No `draft` do
capítulo 9 `The effects of Changes in the Rate of Earning`, Keynes partindo duma
situação de declínio no investimento associado com uma queda dos salários
monetários, lança a pergunta sobre se esse declínio trava o declínio nos lucros do
output associado com uma redução do investimento, concluindo " on the balance
of considerations, that there is no presumtion that all around reduction in variable
cost of production will prove favourable to the volume of employment54". Esta
afirmação tinha Keynes produzido nas discussões sobre política económica, sem a
conseguir demostrar teoricamente.
3. A Teoria Geral
As conferências " Michaelmas Term" desenvolvem-se durante o período de
Outubro a Novembro dos anos 1932 a 1935, que são justamente os anos em que
Keynes escreve a Teoria Geral. Nestas conferências, publicadas por T. Rymes na
base dos apontamentos dos alunos de Keynes, Keynes utiliza as provas do prelo
da sua obra55. Cada série de conferências está constituída por 7 a 8 lições, lidas
com a distância de uma semana. Aliás Keynes utilizava a provas da Teoria Geral
para dar as suas aulas. As `lectures` do ano 1935 intitulavam-se "The General
Theory of Employment- The Theory of the Output as a Whole", embora nos
51 Publicada no J.M. Keynes , CWJMK , vol. XIV, p. 1.
52 Publicado in John Cunningham Wood (ed.), " John Maynard Keynes: Critical Assessments", Croom Helm, London &
Camberra, Vol. II, pp. 13-18.
53Ver J.M. Keynes , CWJMK , vol. XIII, pp. 381-389.
54 J.M. Keynes , CWJMK , vol. XIII, p. 394.
55Farei referência sempre que isso se verifique de acordo as notas de D. Moggridge nos volumes XIII e XIX das CWJMK .
esquemas a partir de 1934 apareça o nome " The General Theory of Employent,
Interest and Money", que é o título definitivo da sua obra.
A primeira desta série de conferências intitula-se: " The Monetary Theory of
Production", que indica uma mudança de atitude em Keynes. O objectivo destas
lições é mostrar como as manipulações monetárias influenciam mais a produção
que os preços. No início destas lições Keynes diz que estava a escrever um novo
livro sobre o funcionamento de uma economia monetária56.
Estas lições permitem ver que Keynes se movia na direcção de um modelo
teórico em que os câmbios no output dependem das mudanças nas relações entre
despesa e rendimento, sendo despesa igual ao investimento mais os gastos em
consumo ( os lucros são um resíduo). Até aqui não se vislumbra nenhuma relação
com o multiplicador, sendo claro, porém, que os blocos que constituem o conjunto
de teorias começam a ser delineados na forma de parâmetros, com grande relevo
para a preferência pela liquidez e as expectativas sobre os lucros. A preferência
pela liquidez distingue-se da `bearishness`, na medida em que esta última mistura
activos e dívidas contra moeda enquanto que a primeira concentra-se em dívidas
contra dinheiro. O modelo contém uma determinação dos valores dos activos
(lucros de curto prazo) através do fluxo das quase-rendas e da taxa de juro, com
uma referência à determinação desta pela preferência pela liquidez. O volume de
investimento aparece como uma função das expectativas sobre as quase-rendas
prospectivas, da taxa de juro e do custo de produção dos bens de capital, todos os
elementos que compõem a sua teoria da eficiência marginal, da qual nada se
refere, assim como da procura efectiva, para além da referência a A. Smith na
última lição. Neste sistema, conclui Keynes, não existe uma tendência de longo
prazo para o pleno emprego, como supõe a teoria da economia neutral.
No período a seguir às lições de Outono em Cambridge, Keynes escreve o
panfleto " The Means to Prosperity"57, o conhecido panegírico sobre a política de
56Os fragmentos dos manuscritos que aparecem no vol. XIX, pp. 50-57, correspondem em parte ao material exposto
nestas oito lições.
57Ver J.M. Keynes , CWJMK , vol. IX, pp. 335-364 ( a edição nos `Essay in Persuasion` corresponde à edição americana
que para além de quatro artigos que apareceram no `The Times`, inclui um artigo sobre o multiplicador). Keynes
estabelece que o problema da pobreza era um problema de natureza económica no sentido de que deveria unir " a
blend of economic theory with the art of statesmanship, a problem of political economy", p. 336.
trabalhos públicos em que apresenta a sua versão do multiplicador aplicado ao
emprego58. Este panfleto não discute apenas este problema, resume toda a política
económica discutida nos anos prévios contra o desemprego (tarifas, subsídios,
desvalorização, política bancária e taxa de juro) mas também as consequências
das políticas de trabalhos públicos sobre os preços, a balança comercial à luz das
objecções levantadas. A proposição inclui a organização de uma conferência
internacional, porquanto o único modo de aumentar os preços mundiais será um
`loand-expenditure` em todo o mundo59.
Juntamente com este trabalho, Keynes publica o célebre ensaio sobre
Malthus, nos `Essays in Biography`60 em que sublinha o carácter relevante da
teoria da procura efectiva61, porquanto Malthus era um investigador que se
interessava com a determinação do nível do output "day by day in the real
world62". Como não existem relativamente a 1933 manuscritos de Keynes que
atestem as suas preocupações teóricas, estes dois textos constituem um bom
indicador das preocupações de Keynes.
Uma recapitulação destas lições leva-nos a pensar que Keynes tinha em
Dezembro de 1933, o corpo central da Teoria Geral, i.e., os `buildings blocks` : a
crítica à teoria do emprego e do juro clássicos, a teoria da procura efectiva, com as
determinantes do consumo e o investimento, a teoria da preferência pela liquidez
e a taxa de juro. Faltavam alguns elementos de precisão, como a eficiência
marginal do capital e a melhor integração desta na teoria do investimento, e a
58Como Keynes escreve: " Our problem it is to ascertain the total employment, primary and secondary together, created
by a given amount of additional loan-expenditure, i.e, to ascertain the multiplier relating the total employment to the
primary employment, idem, p. 341.
59Esta proposta de Keynes representa uma actualização da sua proposta contida no `Treatise`, que inclui a criação de
um centro de emissão internacional. Interessante é que Keynes pretendia que fosse discutida a abolição de tarifas e
quotas, que se eliminassem os entraves ao comércio, que se dê-se reanimação aos mercados financeiros, ou que por
vezes é interpretado como um recuo relativamente as propostas anteriores, i.e., em 1929-1930.
60Ver J.M. Keynes , CWJMK , vol. X, pp. 71-108.
61Tanto como se sabe Keynes reescreveu este ensaio a partir de um texto de 1922, em que corrigiu e adiciono uma
parte nova que começa com uma frase muito reveladora do seu espírita em 1933 " Economics is a very dangerous
science", idem, p. 91.
62Idem, p. 97. Aliás Keynes compara Ricardo com Malthus, colocando Malthus como um investigador que se interessa
pela economia monetária na qual vivemos, contrariamente a Ricardo que se preocupa com a teoria da distribuição em
condições de equilíbrio, com a abstracção de uma economia monetária neutral. Certamente que Keynes é Malthus e
Ricardo a teoria ortodoxa, numa extrapolação histórica um tanto ou quanto exagerada. Keynes escreve " He points
out(Malthus) that the trouble was due to the diversion of resources previously devoted to war, to the accumulation of
saving; that in such circumstances deficiency of saving could not possibly be the cause, and saving, though a private
virtue, had ceased to be a public duty; and that public works and expenditure by landlords and persons of property was
the appropriate remedy", Idem, p 101.
integração nas várias teorias do efeito das expectativas, mas faltava sobretudo
explicar a relação entre a eficiência marginal e a taxa de juro e porque esta última
era recalcitrante à baixa. A teoria dos preços resulta das anteriores teorias. Mas, o
marco histórico da caracterização sobre o que Keynes pensava ser a situação do
capitalismo estava traçado: uma crise na abundância, por isso o seu optimismo
relativamente ao seu futuro: " The evils of capitalism could be gradually and
effectively eliminated by the process of evaporation of the rate of interest. In
pioneering times, capital is scarce and highly productive so that it will earn large
rates. As capitalisation approaches completion, its productivity approaches to zero.
The ownership of capital ceases to confer wealth and power and inequality of
income, and the entrepreneur`s motive of business as a game of skill, already
evident as notable one, would stand out as the governing one. The tendency for
this to occur is offset by the presence of convention as to interest and saving63".
Não existem dúvidas que Keynes estava produzindo uma outra teoria geral,
começando por problemas terminológicos, outras explicações sobre os fenómenos
e o reconhecimento sobre o carácter e importância das instituições e práticas
sociais, i.e. procurando uma compreensão do funcionamento da máquina, não
para derrotá-la, mas servir os seus propósitos: a prosperidade.
Nas suas leituras durante as `Michaelmas Term` de 193464, Keynes
basicamente esteve a ler os primeiros 14 capítulos das provas da primeira versão
da Teoria Geral, pelo que seria redundante considerar os seus conteúdos. O estado
da investigação é relatado por Keynes numa carta de 18 de Setembro de 1934 a
R.Kahn: "I`m working very hard and have found out one or two interesting
novelties. In particular, I think I`ve solved the riddle of how to define income in
some sort of a net sense-and it comes out very near to the money value of the
Prof`s national dividend. The deduction from the gross sales proceeds of the
output of a given equipment necessary to yield income is that part of the quasi-
rent which is necessary to induce entrepreneur not to leave his equipment idle.
63Idem, pp. 127-128. Correspondem as notas de Fallgater.
64Repare-se que Keynes tinha pronto um esquema com o título " The General Theory of Employment" em Dezembro de
1933, na base do qual desenvolveu os capítulos que fazem parte das suas lições no outono de 1934.
This works just as well when the initial equipment is half-finished machine or a ton
of copper. In other words the appropriate depreciation allowance is the sacrifice
involved in used the equipment as compared with postponing its use, as estimated
by the entrepreneur itself65". O conceito se sustém, excluído os bens perecíveis ou
de muita curta duração. Mas, como sabemos, Keynes continuou a trabalhar nesse
conceito66.Nas 'Michaelmas Term Lectures' Keynes utiliza várias versões das
minutas da Teoria Geral, mas provavelmente utilizando as veres semelhantes à
vero final da Teoria Geral que apareceria apenas uns meses mais tarde67. As
'lectures' desse ano intitulavam-se "The General Theory of Employment- The Theory
of the Output as a Whole", embora nos esquemas a partir de 1934 apareça o nome "
The General Theory of Employent, Interest and Money68.
65J.M. Keynes , CWJMK , vol. XIII, pp. 484-485. O conteúdo das cartas está citado nas notas de D. Moggridge nessa
página.
66Idem, p. 485. As referências a esta discussão terminológica estão contidas na lição de 12 de Novembro de 1934, ver "
Michaelmas Term 1934", in T. Rymes, " Keynes`s Lectures 1932-35: Notes of a Representative Student", MacMillan,
1988, pp. 141-145.
67As lições se realizaram como lito no trimestre de Outuno. A Teoria de Keynes estive pronta em finais de Dezembro,
sujeita durante esses meses as últimas revisões. Existe uma comparação dos diferentes esbos das diferentes versões de
1934 e 1935 que evidenciam as principais coreões introducidas nos catulos sobre definições e terminologia.
Nessas minutas não aparece nenhuma versão dos catulos que constituem o livro VI, o qual estava, como sabemos da
carta a Joan Robinson anteriormente citada, as ser re-escrito. Ver Keynes J.M., JMKCW, vol. XIV, Appendix, pp. 351-512.
68Para Keynes dado um corpo de conhecimentos directos que constituem as nossas últimas premissas, a teoria nos diz
que crenças racionais adicionais, certas ou prováveis, podem ser derivadas como argumentos válidos dos nossos
conhecimentos directos. Isto envolve relações lógicas puras entre as proposições que incorporam nosso directo
conhecimento e as proposições sobre as quais procuramos conhecimento indirecto. As proposições particulares que
seleccionamos como as premissas dos nossos argumentos dependem dos factores subjectivos particulares e peculiares a
nós próprios, mas as relações, sobre as quais outras proposições estão sobre estas, e que intitulamos de relações
prováveis são objectivas e lógicas. Consideremos que as nossas premissas consistem num conjunto de proposições h, e a
conclusão consiste num conjunto de proposições a, então, se o conhecimento de h justifica uma crença em a num grau,
podemos dizer que existe uma probabilidade-relação de grau alfa entre a e h. ( escreve-se a/h=α).
Isto é, notamos e cremos que existe uma relação objectiva entre a teoria, na apresentação entre as evidências e as
conclusões, que são independentes do simples facto da nossa crença, e que é justa e objectiva.
Mas adiante assegura-se que o grau mais alto de crença racional, "which is termed in certain rational belief",
corresponde ao conhecimento,...o conhecimento de uma proposição sempre corresponde a certeza da crença racional e
ao mesmo tempo à actual verdade na proposição, ela própria. O conhecimento das proposições parece ser obtido de
dois modos: como o resultado da contemplação dos objectos do conhecimento pessoal e indirectamente, ´by argument`,
através da percepção da relação de probabilidade, acerca das quais procuramos o conhecimento e das outras
proposições.
Pela contemplação de uma proposição da qual temos conhecimento directo, somos capazes de passar indirectamente de
ou a outras proposições. O processo mental através do qual nós passamos de um conhecimento directo a um
conhecimento indirecto é em alguns casos e em alguns graus, capaz de produzir análise. Passamos da proposição
a
ao
conhecimento acerca da proposição pela percepção lógica entre elas. Com a relação lógica temos um conhecimento
pessoal. A lógica do conhecimento é principalmente ocupada com o estudo das relações lógicas da proposição
secundária fortemente declarada da relação de probabilidade, e do conhecimento indirec to acerca, e em alguns casos,
da proposição primária. Keynes distingue entre conhecimento directo e indirecto, entre a parte de nossa crença
racional na qual baseamos no conhecimento directo e aquela parte baseada no argumento. Temos conhecimentos
directos e verdades, não temos conhecimentos indirectos. De modo a termos uma crença racional numa proposição p de
um grau de certeza, é necessário que uma das condições seja cumprida i) que o nosso conhecimento de p seja directo,
ou ii) que conheçamos um conjunto de proposições h, e também algumas proposições q que consintam uma relação de
certeza entre p e h. No último caso h deveria incluir-se sejam as proposições secundárias ou primárias, mas é
necessário que todas as proposições q sejam conhecidas. "In order that we may have rational belief in p of a lower
degree of provability than certainty, it is necessary that we know some secondary proposition h, and also know some
secondary propositions q asserting a provability-relation between p and h".
Alguma parte do nosso conhecimento, conhecimento de nossa própria existência ou das nossas sensações, é claramente
uma experiência individual. Não podemos falar do conhecimento de uma única pessoa. Outras partes do
conhecimento-conhecimento dos axiomas da lógica, por ex. podem ser mais objectivos, mas devemos admitir que é
também relativo à constituição da mente humana que pode variar de homem para homem. `What is self-evident to me´
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Keynes J.M., " From a letter to Florence Keynes, 26 December 1935", CWJMK, vol.
XIII, p. 653.
e o que realmente sei, pode ser uma crença provável para ti, "or may form no part of your rational beliefs at all. And
this may be true only of such think as my existence", mas também alguns axiomas lógicos. " Some men ..may have a
greater power of logical intuition than others". Mais, a diferença entre algumas classes de proposições sobre a qual a
intuição humana parece ter poder, e alguma sobre a qual não tem, pode depender totalmente da constituição das nossas
mentes e não tem significado para a lógica objectiva. Não podemos assumir que todas as proposições secundárias
verdadeiras são ou podem ser mais universalmente conhecidas que todas as proposições primárias as quais são
conhecidas." The perceptions of some relations of provability may be outside the powers of some or all of us", CWJMK
VIII, capítulos I, II e III.
Keynes J.M., " From a letter to Florence Keynes, 19 January 1936", CWJMK , vol
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Keynes J.M., CWJMK , vol. IX, 1971-1983, pp. 335-364
Keynes J.M., CWJMK , vol. X, 1971-1983, pp. 71-108.
Keynes J.M., CWJMK , vol. XIII, 1971-1983, pp. 484-485.
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Snyder C., Form C Snyder, 20 September 1928, in CWJMK, vol. XIII, p. 60.
Wood John Cunningham(ed.), " John Maynard Keynes: Critical Assessments",
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Aportado por: Mario Gómez Olivares ISEG/UTL

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Gómez Olivares Mario. (2001, abril 1). Uma breve história da publicação da teoria geral de J.M. Keynes. Recuperado de https://www.gestiopolis.com/uma-breve-historia-da-publicacao-da-teoria-geral-de-j-m-keynes/
Gómez Olivares, Mario. "Uma breve história da publicação da teoria geral de J.M. Keynes". GestioPolis. 1 abril 2001. Web. <https://www.gestiopolis.com/uma-breve-historia-da-publicacao-da-teoria-geral-de-j-m-keynes/>.
Gómez Olivares, Mario. "Uma breve história da publicação da teoria geral de J.M. Keynes". GestioPolis. abril 1, 2001. Consultado el 23 de Febrero de 2018. https://www.gestiopolis.com/uma-breve-historia-da-publicacao-da-teoria-geral-de-j-m-keynes/.
Gómez Olivares, Mario. Uma breve história da publicação da teoria geral de J.M. Keynes [en línea]. <https://www.gestiopolis.com/uma-breve-historia-da-publicacao-da-teoria-geral-de-j-m-keynes/> [Citado el 23 de Febrero de 2018].
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