Resumo
O movimento gnosiológico ostentado nos quatro últimos séculos pela
contabilidade, sempre emitiu um caráter comum concernente à essência do
seu objeto: o patrimônio das células sociais. A policromia de conteúdo
cultural produzida pelas diversas doutrinas apresentaria pouca benesse
na ostentação da essência contábil, quando se coteja todo este mosaico
com a proposta emitida pelo patrimonialismo de Vincenzo Masi. O
patrimonialismo foi a doutrina responsável para enaltecer a
contabilidade, defendendo o seu método, objeto, partes, finalidade e
tarefas. Aquilo que Aristóteles (384- 322) seria para a filosofia;
Einstein (1879-1955) para a física e Comte (1798- 1857) para a
sociologia, Masi seria para a contabilidade, devido ao seu vigor
intelectual que produziu um efeito prolífico. O neopatrimonialismo
contábil é, portanto, este efeito prolífico criado por Antonio Lopes de
Sá, para aperfeiçoar as idéias patrimonialistas e garantir o futuro da
contabilidade na filosofia do conhecimento. Por este motivo que o
neopatrimonialismo, representa realmente, o ponto central de um
progresso de nossa gnose, constituindo ser a verdadeira evolução masiana.
1 – INÍCIO DO CONHECIMENTO RACIONAL: DO MITO À FILOSOFIA
O primeiro intelectual, que a história registra, senão o primeiro
filósofo que preconizou as atitudes racionais que ladeiam o espírito e o
conhecimento epistemológico, foi Tales de Mileto (640-548) que não se
apegava nos mitos como base de idéias, pois, eram um tanto insuficientes
para com lógica se obter sinceras e rigorosas explicações dos fenômenos
naturais, extranaturais e sobrenaturais, que existem no mundo visível.
Sabe-se que Homero (VIII a.C.) no auge de sua criatividade (Apud -
Aranha e Martins, 1996) criou as epopéias (tal palavra significa “aquilo
que se conta”; “lenda contada”) que eram uma personificação de seres,
criados pela mente para explicação dos fatos sensíveis que provocam
fascínios ao espírito. As historias Homéricas foram, como ainda são,
importantes para a formação humana, contudo, se afiguram muito bem no
caráter literário e imaginativo de obras escritas.
As lendas, epopéias, e mitos eram histórias criadas para explicar as
coisas reais e visíveis, porém, se originaram da imaginação que em muito
destoa do real, atarantando, por conseguinte, aquilo que é próprio para
a razão estudar, comprovar e decifrar. O movimento imaginativo merecia
ser aperfeiçoado, por uma atitude de sabedoria, ou amor à inteligência,
que com auspicio, aspirava os efeitos sublimes das coisas que se
dinamizavam e agiam no ambiente provocando diversos questionamentos.
A filosofia surge com este escopo: almejar e encontrar realmente as
explicações dos fenômenos, em causa e efeito, decifrando e descrevendo
como ocorrem e porque ocorrem; quais as suas características e qual a
sua importância; a sua procedência ou derivação; tudo isto para usufruir
e apropriar a essência das coisas, os acontecimentos e os objetos que se
estuda. A filosofia foi uma evolução da mitologia; de certa forma, a sua
substituição, porque se demonstrava mais proficiente na satisfação das
necessidades humanas, principalmente, aquelas sublimes, relativas ao
talento divino dado ao espírito humano racional.
Portanto Tales de Mileto (640 - 548) foi o primeiro filosofo que se tem
noticia (também o primeiro racionalista, positivista, critico e
cientista), dele provinha as primeiras emanações gnosiológicas, que
fomentam a vida humana na perquirição rigorosa dos fatos ou fenômenos
diversos em um ambiente específico.
Se cotejarmos Homero com Tales, veríamos grande distância de pensamento,
porém, cada um foi nitidamente importante para a sua época; Homero
contribuiu para a literatura; Tales para a ciência; um foi o progresso
do outro, mas, ambos importantes para a vida humana, contudo, tudo se
centralizou naquilo que buscamos: a razão científica e sua evolução.
A filosofia foi o primeiro naipe de evolução do conhecimento e sua
lógica, em comparação com as epopéias da mitologia. A filosofia nasce
com o cérebro humano, que postergando o inverossímil formal, busca o
verossímil essencial, pela razão que se empenha em estudar as relações
de um fenômeno fundamental. A proposta filosófica foi primogênita nas
concepções cientificas, presente em todos os séculos, principalmente na
idade moderna quando o estupendo talento racional extinguia a esdrúxula
explicação vulgar das coisas terrestres pertencentes a este mundo
sensível.
2 - EVOLUÇÃO DO CONHECIMENTO
A filosofia foi a representante da gnose científica em épocas antanhas,
pois, com extrema relevância destacava os “primeiros passos” lógicos,
sendo o alfa e o ômega do saber organizado, e continua, diuturnamente, o
seu papel no aperfeiçoamento das concepções científicas, da qualidade
lógica, interpretativa, axiológica e teórica do conhecimento; da
metodologia científica e das ontologias diversas da “razão de ser” de
uma ciência com nível superior.
A diferença de níveis cognitivos demonstra a evolução do conhecimento.
Se compararmos os primeiros ensaios filosóficos com a aspiração atual,
encontraríamos larga diferença; o nível de descobertas e comprovações do
mundo atual denota um progresso muito grande no saber organizado.
Quando o bisneto de Charles Darwin (1803 – 1883) esteve no Brasil - o
biofísico Richard Keynes (2005)- ele abordou que seu bisavô apesar dos
poucos recursos tecnológicos de sua época comprovava a cinemática da
crosta terrestre, mesmo quando não existia a mínima noção das placas
tectônicas; a evolução existiria não somente nas coisas, mas, antes de
tudo no conhecimento (O conhecimento evoluído comprovou mais tarde a
teoria darwiniana, definindo, inclusive, características peculiares dos
fenômenos de hereditariedade e genética, que seriam aspectos desta
evolução).
Acreditava-se que a terra era o centro de tudo, contudo, Copérnico (1473
- 1543) considerava que a terra girava em torno do Sol; Kepler (1571 –
1630) concordava com tal tese e descobriu que a terra girava, porém de
modo elíptico; por sua vez, Newton (1642-1727) descobriu também que a
terra se movimentava em elipses, contudo, de forma assimétrica; portanto,
três cientistas definiram fatores e fatos importantes; cada descoberta
era essencial para a perfeição da outra, pois, representava uma evolução.
Cada um deles aprimorou a idéia do outro resultando objetivamente no
progresso do conhecimento e o maior beneficiado com tudo isto era o ser
humano.
O estudo das menores partes derivou-se na descoberta das “figuras” - os
átomos- na filosofia grega o que daria estudos meticulosos e formidáveis
no futuro: as pesquisas empreendidas por John Dalton (1766 – 1844),
resultaram na primeira teoria experimental sobre o átomo, contudo, as
ilações de Joseph Thomson (1856- 1840), com as experiências realizadas
no laboratório “Cavendish”, descobriu-se que o átomo não era indivisível,
portanto, possuía também partículas; eram os prolegômenos da era atômica,
da física nuclear; e, se observarmos a qualidade de conclusão desses
dois pesquisadores, verificaríamos a existência de uma grande diferença
no nível da descoberta, locupletando a evolução do conhecimento.
Se avaliássemos a diferença do pensamento e sua evolução em números
matemáticos, presente, desde a descoberta da estrutura do átomo, até as
partículas dos átomos mais definidas por Hideki Yukama (1935) veríamos
grande progresso, ainda mais quando esta pesquisa passava a provocar
inquirições de Ne`eman e Gell-man (1961), que propuseram a busca de uma
partícula denominada “Ômega menos”, pois, esta auxiliaria na explicação
das relações do átomo e da existência do universo. Foi uma grande
evolução na física nuclear.
Um dos maiores epistemológicos do século passado: Gaston Bachelard (1884
- 1962) dizia que o novo espírito cientifico deveria buscar bases na
matemática euclidiana e não euclidiana; Newtoniana e não-Newtoniana;
Cartesiana e não-Cartesiana; não para anular as concepções antigas, mas,
para aperfeiçoar o que já estava descoberto.
Realmente, uma das maiores mentes do século passado, o alemão Albert
Einstein (1879- 1955), ganhador do prêmio Nobel em 1921, quando criava a
sua teoria da relatividade, propunha quatro dimensões, ao invés das três
já consagradas pelos cientistas anteriores; e para esta teoria, Einstein
teve que se basear em uma matemática não-euclidiana, para assim
conseguir revolucionar a ciência garantindo-lhe uma nova faceta.
O próprio Pascal (1623 - 1662) - gênio desde tenra idade, que provocava
inveja devido à sua produção tecnológica e literária - quando escrevia
sobre o vácuo, abordava que não existiria nada de novo que não já
estivesse oculto nos livros antigos, portanto, dizia que só era possível
aperfeiçoar e ultrapassar imitando aquilo que já estava proposto pelos
antecessores da ciência.
A busca da substância das coisas e dos fenômenos sempre foi inquirida
por grandes estudiosos que não se ocupavam da forma para embrenhar
estudos, mas, da essência para fazer valer os esforços em conclusões
eternas e não - perecíveis pelas discrepâncias do tempo. Apesar das
verdades não serem sujeitas ao depauperamento, elas sempre foram
aperfeiçoadas.
Se apropriarmos a descoberta dos raios-x feita por Rontgen (1845 - 1923)
e as características destes mesmos raios em diversos elementos feita por
Barkla (1917) verificaríamos uma prosperidade do conhecimento, uma
evolução; a temática, porém, foi a mesma: ambos estudaram os raios-x; um
foi a base para o outro, um progrediu mais do que o outro, um
aperfeiçoou o outro; a distância de descoberta, do nível de observação e
qualidade científica foi enorme, mormente isto não prejudicou aos dois
na laureação do prêmio Nobel: Rontgen o ganhou em 1901(foi o primogênito
no prêmio) e Barkla em 1917.
Aquilo, portanto, que foi esboçado e encetado por Tales, no final da
idade média seria aperfeiçoado por Copérnico, Kepler, Pascal, Newton; na
idade moderna por Hume, Locke, Bacon, Kant, Comte e na idade hodierna
por Bachelard, Rontgen, Barkla, Gell-man, Ne`eman, Yukama, Einstein e
outros; todos estes esforços só demonstravam uma inebriante evolução
derivada do ímpeto de aspiração da verdade; o maior beneficiado foi o
homem e a sociedade. Cada um destes gênios imputou à ciência um estado
de apoteose; todos contribuíram com a razão dada divinamente ao homem
para o seu próprio beneficio.
3 - EVOLUÇAO DA CONTABILIDADE
A contabilidade surgiu com o homem. Mesmo quando a raça humana estava
incrustada no antropóide a contabilidade existia; mesmo quando ele era
um hominídeo havia a contabilidade; mesmo quando estava ele desprovido
de dotes perfeitamente racionais existia a contabilidade, na prática no
sentimento, na necessidade. A ciência contábil sempre existiu com o seu
agente criador.
O uso de instrumentos, de coisas para satisfazer as necessidades
humanas, eram as riquezas, como também a primeira noção patrimonial. A
contabilidade era trivial nas práticas humanas.
A pré-história se divide em: idade da pedra e idade dos metais, ambas
com a presença do homem inteligente e da contabilidade; a primeira
destas manifestações contábeis é marcada pelo uso da pedra, a segunda
pelo uso dos metais extraídos de rochas; todos estes períodos
apresentavam resquícios da contabilidade.
Conforme a afirmação de Goody, Besta, Checherelli, Masi, Zappa, Figuier,
Esteban, Cosenza, D`auria, Antinori, Mattesich, Vianna, Franco, Sá e
muitos outros, a contabilidade se expressa concomitamente com as
descrições mentais do homem e sua atividade patrimonial, portanto, digo
que nossa ciência apareceu junto com o homem.
Na época clássica a contabilidade (Apud – Masi 1971) seria elevada a
“logos” (lógica, conhecimento) sendo depois uma “rationandi scientia” (ciência
racional) no estudo de suas contas, nas aplicações de orientação aos
empreendimentos de capital público e privado; no auxilio governamental e
privado nas trapezas de acordo com D`auria (1959) - tal como eram
chamados os bancos na Grécia antiga - e nas famílias que também
escrituravam e praticavam os registros contábeis conforme nos relata
Cosenza (2003).
A idade média foi marcada pelo “método doppio” (método das partidas
dobradas); vemos a presença de balancetes, demonstrações, balanços que
expressavam os sistemas patrimoniais com os seus respectivos estados,
demonstrando também fenômenos e fatos diversos derivados de ambientes
específicos conforme nos mencionou Amorim (1970; 1996). A relevação, o
levantamento patrimonial alcançava destaque e positivo relevo; os modos
de se produzir balanços exigia o rigor da técnica, da apuração
aritmética, da experiência que eram bases do conhecimento contábil. Como
a informação era difícil de ser produzir ser tornava mais importante a
sua realização, portanto, o objetivo da contabilidade era informar, já
que se estava na “Era da informação”.
Contudo, no século XIX os estudos contábeis passariam a ser realmente “estudos”,
porque se consolidava o pensamento que não era suficiente informar sem
entender o que significava a informação. Traduzindo os informes
penetrava-se melhor na essência patrimonial, porque o objeto da
contabilidade não era a informação, mas, o fenômeno que a causava.
Ou seja, o que a ciência estuda não são as informações, mas, os
fenômenos como dizia Masi (1968): as ciências estudam os “Fenômenos
físicos”; “Fenômenos químicos”; “Fenômenos estatísticos”; “Fenômenos
sociais”; “Fenômenos jurídicos”; “Fenômenos sociais”; “Fenômenos
administrativos”, e, possivelmente “Fenômenos contábeis” que mais tarde
seriam designados também de “Fenômenos patrimoniais”.
A informação poderia ser objeto de uma ciência, quando esta não
utilizasse aquela como instrumento ou meio de finalidade, mas, objeto. O
francês Le coadic (1996) dizia que existe uma ciência da informação e
esta não seria a contabilidade. A contabilidade não é uma ciência da
informação, pois, não tem esta como objeto.
O objeto de estudo da contabilidade não é a informação, porque esta é
utilizada como meio, ou seja: a informação na contabilidade é um caminho
para se chegar ao seu fim cientifico. A informação na contabilidade é
uma simples forma de uma essência que transparece os chamados “Fenômenos
Patrimoniais”.
Quando se destacou esta verdade, a contabilidade evoluiu, deixando a
prática de informar para os “cérebros eletrônicos” - na concepção de
Masi (1968)-, imputando ao mesmo tempo a atividade de raciocinar sobre
os fenômenos patrimoniais para o cérebro dos contadores.
Portanto, se cotejarmos este estofo de evolução na contabilidade -
primeiramente no instinto e prática vulgar, depois elevada a “logos” e
raciocínio de contas, logo entendida como relevação, para a ciência dos
fenômenos patrimoniais - encontraríamos um mosaico de diferentes
posições marcadas em ordem crescente por um grau de progresso que nos
causa espaventos de satisfação.
Se compararmos a evolução contábil na idade da pedra para a idade dos
metais, desta para a época clássica, depois para idade média, moderna e
contemporânea, teríamos um largo diferencial de pensamentos que assumem
diversos naipes de acordo com os tempos específicos. Muitas vezes os
períodos apresentavam um progresso disfarçado, porque de real
transformação existia pouca conspicuidade.
As doutrinas contábeis, a maioria delas – aquelas nitidamente
cientificas- em vez de preconizarem o verdadeiro objeto contábil,
aduziram a este uma matéria correlata, instrumental, parcial e negativa
muitas vezes; faziam isto às vezes até inconscientemente para defenderem
com espartanismo a forma (algumas vezes sem distinguirem esta), mais do
que a essência contábil.
Foi o fato de preconizarem os “Fenômenos jurídicos”; “Fenômenos
econômicos”; “Fenômenos estatísticos”; “Fenômenos sociais”; “Fenômenos
instrumentais”; “Fenômenos administrativos” (e estes muito semelhante
aos fenômenos contábeis) mais do que os fenômenos de nossa ciência,
aqueles nitidamente patrimoniais, que a autonomia da contabilidade não
existiu nas doutrinas pré-patrimonialistas ou pré-masianas de maneira
ostensiva.
A riqueza dos empreendimentos sempre motivou os registros e os critérios
da informação, e não os registros que motivaram a movimentação da
riqueza - se faço uma folha de pagamento esta nunca motiva a
movimentação patrimonial, pelo contrário esta somente existirá porque
haverá uma movimentação de bens numerários, alterando a riqueza e o
fluxo de bens-; o registro é histórico, porém a ocasião de ocorrência de
fenômenos não é intermitente.
Uma confusão entre as matérias instrumentais e correlatas que se
centralizavam na forma, eram mescladas com a essência contábil,
permutando esta com aquela (a forma); este amalgama só conseguiria
provocar um roldão na mentalidade contábil, imputando a esta até os
méritos cósmicos, como se fosse um ramo da astronomia.
A filosofia da ciência que faz a contabilidade ser uma gnose pura, não
permite posições ecléticas, derivadas de um sincretismo cientifico
devocional; a ciência existe, mas, de maneira lógica e não proveniente
de uma “pseudológica” que acontece quando se utiliza a extralógica sem
as cautelas necessárias.
Assim nesta mistura ou “mexido” intelectual as doutrinas contábeis
surgiram e alcançaram grande vislumbrância cientifica, porém, não
conseguiram adentrar totalmente na essência com o ímpeto principal dos
seus discursos - apesar de ostentarem pontos da pura contabilidade - a
matéria contábil passaria a não ser contábil quando se tratava da mesma.
Tudo isto derivou naqueles importantes movimentos já consagrados do
personalismo, aziendalismo e controlismo que ultrapassaram a forma
contábil, contudo, sem penetrar na sua essência que seria retratada no
exaustivo e grandioso estudo dos infinitos fenômenos patrimoniais.
4 - O PATRIMONIALISMO
Das doutrinas do século XX, a que mais destacou a essência contábil
inclinada para os fenômenos patrimoniais, utilizando as informações como
instrumentos, sem confundir nossa gnose com as disciplinas correlativas,
ganhando desta maneira inúmeros adeptos em todo o mundo com profunda
supremacia foi o patrimonialismo de Vincenzo Masi.
Masi nasceu em rimini em 1893(Apud - Guimarães 2005); lutou na primeira
guerra mundial; foi discípulo de Fábio Besta (1845 - 1922) criador do
controlismo (Apud - Sá 1997); Vincenzo foi autor de inúmeros livros que
incluíam as suas idéias patrimonialistas; dedicou a sua vida à
contabilidade cientifica vindo a falecer aos 84 anos de vida em 1977.
A teoria de Masi provocou estrépito nas cadeiras cientificas da
contabilidade, do mesmo modo que a teoria Pavloviana causaria
repercussão na fisiologia e psicologia, e a teoria einstaniana causaria
na física, portanto, cabe dizer conforme aconselhamento de Sá (1997) que
o patrimonialismo é uma teoria Masiana.
O que Masi provocou no mundo contábil foi privilegiar a essência
patrimonial acima de qualquer caráter formal, pois, o patrimônio sempre
foi o objeto da contabilidade, porque ele que motivava o registro; tal
foi uma das categóricas afirmações do mestre (1968, Pág 33):
“É bem sabido que da contabilidade “foi dado um grandíssimo número de
definições e de modo muito diferentes foram entendidas a sua tarefa, o
seu objeto, as suas partes, os seus método, as suas relações como os
outros ramos do saber: todavia, através da diversidade das direções e
dos sistemas, ela conservou um caráter fundamental... Desde os tempos
mais longínquos teve por objeto o patrimônio aziendal...”
Defender a contabilidade de posições esdrúxulas, de conceituações
diversas, de caráter confuso, que não permitiam que ela fosse uma
ciência, mas, uma “sub-ciência”, um “pseudoconhecimento”, uma
“semiciência” que só consistia em informar foi a missão de Masi. A
doutrina masiana se empenhava em solidificar a contabilidade em um
rosmaninho cientifico alheio às rugosidades que atentavam contra a sua
estrutura, que queriam firma-la como prática e não como um conhecimento.
Uma das afirmações de Masi (1968, Pág 33) que dignificava o ramo
contábil como um conhecimento que realmente estudava e não praticava
singelamente as contas, registros e demonstrações como única proposta,
para também analisar, investigar, comprovar, explicar e entender o
patrimônio foi a seguinte:
“... o aprofundamento das pesquisas de contabilidade, que tiveram
acentuadamente na Itália na segunda metade do século transacto, uma
grande renovação, evidenciou-se bem depressa que, limitar a
contabilidade nos confins da assim chamada “ciência das contas”, como
antes foi definida... era querer limitar o objeto e as finalidades de um
ordem de conhecimentos que, com a ampliação das aziendas, com a
multiplicação das trocas, o desenvolvimento da indústria e dos
tráficos... tornaram-se sempre mais vastas e complexas... Daqui a
necessidade de estudar o patrimônio e os fenômenos que apresenta...”
Destarte, penetrando na essência do patrimônio, no âmago da sabedoria
contábil, Masi (Apud - Viana 1971, Pág 86-87) definiu aspectos de
observação do patrimônio aziendal:
Estática Patrimonial= estudo da estrutura patrimonial em dado momento
Dinâmica Patrimonial= estudo dos movimentos e fenômenos patrimoniais
Relevação Patrimonial= estudo dos critérios, métodos e instrumentos para
mensuração e levantamento das demonstrações patrimoniais.
Para Masi (1968) a revelação patrimonial era um meio para se fazer
conhecer os fenômenos estáticos e dinâmicos, a fim de prover conclusões
dos seus diversos estados de sanidade, seja com relação à capacidade
financeira, seja na capacidade lucrativa, no desempenho de giros, nos
aspectos de definhamento ou prosperidade, no escopo de capitalização e
fortalecimento do capital; como que no estudo dos comportamentos das
dividas e financiamentos; tal como os demais fenômenos que causam
efeitos diversos na substância patrimonial.
Defendia então o mestre italiano (1969, pág 22) criticando especialmente
os aziendalistas, na figura de Zappa (a critica na Itália se realiza
pelas idéias ou incompatibilidades de pensamentos e não de pessoas,
porque Zappa também foi um grande mestre da contabilidade) que queria
“dignificar” a contabilidade deixando-a no terreno exclusivo da
relevação esquecendo inclusive da “ciência contábil” preconizando a
“informação contábil” acima do produto intelectual que desta se poderia
derivar. Quando se permuta aquilo que é essencial à contabilidade para
imputar a sua forma instrumental, o que se faz é lança-la num enxurdeiro
fétido: “A Contabilidade, a verdadeira Contabilidade, a grande
Contabilidade, portanto, está por isto morta: Zappa, Itália, é bem
sabido, quase a não denomina Contabilidade, mas “relevação”, como
capítulo daquela maior ciência que seria a Economia Aziendal.”
Quando Masi já possuía larga idade, estava querendo aperfeiçoar o
patrimonialismo e a contabilidade, sentira ele a morte chegar - porque
pouco era o seu tempo nesta realidade - expondo o seu problema a Sá
(1997), disse que queria uma ampliação em sua doutrina, nos seus
aspectos principais; evolução que se encontrava facilmente em outras
ciências como resultado do aprofundamento indagativo e das posições
intelectuais que se aprimoram com o tempo e a modernidade.
5 - A EVOLUÇAO MASIANA E O NEOPATRIMONIALISMO LOPESISTA
O conhecimento contábil deveria ultrapassar as barreiras do tempo e do
espaço de maneira a ser invulnerável às transformações sociais e se
tornar uma “maneira de pensar, entender e explicar” cientificamente sem
ser vetusta ou incapaz de atender às necessidades sociais e do capital,
neste intuito que foi criada a “Teoria Geral do Conhecimento Contábil”
na década de 90 do século XX como base de um neopatrimonialismo.
A escola patrimonialista de Masi há mais de quinze anos após a sua morte
necessitava de um estuque para se fortalecer mais, considerando que o
aziendalismo já quase extinto não ofereceria perigos, porém o
pragmatismo anglo-saxão se tornava extremamente pernicioso, porque fazia
regredir o conteúdo gnosiológico contábil na forma patrimonial: a
informação.
Como a informação é um instrumento a serviço da contabilidade e existia
também em outras ciências que não a estuda como objeto, o pragmatismo
agredia a essência contábil apresentando um viés: em vez da informação
estar a serviço da contabilidade, esta passava a ser submissa àquela.
A informação era um instrumento a serviço da contabilidade, contudo, o
pragmatismo acredita que a contabilidade é que está a serviço da
informação. A contabilidade serve a informação, portanto, submissa, só
informa, e esta tem sido a concepção dos pragmatistas, que confundem a
sabedoria do conhecimento contábil com os informes, desconhecendo as
idéias de Masi e muitos outros.
Para complicar o roldão, como se não fosse suficientemente absurdo,
progrediram os pragmatistas no estudo superficial das contas e
classificações do Patrimônio, oferecendo conclusões suspeitosas por nada
concluírem embaralhando ainda mais o conteúdo contábil conforme
denunciou Nepomuceno (2003; 2005). A conclusão dos pragmáticos propõe
mais dúvida do que certeza, por objetarem a quimera como meio empírico
de alcance sub-ínfimo.
E, para completar a quizila, tais pragmáticos tem os cargos de gala nos
órgãos internacionais normativos cuja autoridade foi imposta sem
fundamento ou justificativa, pelo próprio punho de seu país de origem:
os estados Unidos da América, onde participam diversos membros sendo a
maioria norte-americana, todavia, temos a participação de outros países,
porém, não sei como é processado o controle de produção de normas,
mormente, quem tenha o real direito de voto.
Portanto, caro leitor, querido colega, a contabilidade rotunda neste
ambiente perigoso; estranho, sujeita às normas de informação subjetiva,
que acabam deformando as demonstrações contábeis - como bem expressou
Parma (2002) definindo a “escola” pragmática como “ocaso” por formarem
os maiores cultores do pedantismo do mundo (basta lembrar o escândalo da
empresa Artur Andersen, firma de auditoria, que foi acusada de atos
ilícitos na camuflagem das informações contábeis).
Porém, apesar das afirmações feitas anteriormente, que expressam as
tentativas de se macular a ciência contábil, na década de 90 do século
XX, Sá (1992) lança as bases do Neopatrimonialismo doutrina que busca as
essências dos estudos contábeis, ou seja: os fenômenos patrimoniais. Tal
escola surgiu para aperfeiçoar as idéias de Masi como um produto da
evolução de nosso conhecimento e também para fazer rigorosa oposição aos
pragmatistas que gostariam de depreciar a contabilidade (o que não
conseguem fazer).
O neopatrimonialismo busca aprofundar a doutrina patrimonialista naquilo
que é atinente aos aspectos de observação dos fenômenos patrimoniais: a
estática, a dinâmica e a relevação. Tal doutrina aprofundou a dinâmica
patrimonial de Masi que a definia como um conjunto de fenômenos que
provocavam transformação e variação.A doutrina Neopatrimonialista
imprimiu na dinâmica uma posição mais holística, sistemática e
funcional. A dinâmica patrimonial é um processo de movimentação que se
interage sistematicamente criando e agilizando oito funções, a saber: a
liquidez (função de pagamento), resultabilidade (função lucrativa),
estabilidade (função de equilíbrio), economicidade (função de
vitalidade), elasticidade (função de crescimento), invulnerabilidade
(função de proteção), produtividade (função de aproveitamento),
socialidade (função de corroboração com o ente-humano e social); todas
estes exercícios são sistemáticos e acontecem ao mesmo tempo de forma
hereditária e interativa.
Para o neopatrimonialismo a estática como era definida pela doutrina
masiana foi aperfeiçoada: a estrutura era estudada por relações, agora
se utiliza os “modelos proporcionais” produzidos pelo método de
identidade; tal meio racional é um passo muito grande para a definição
de modelos ideais de comportamento patrimonial e representa, portanto,
um avanço substancial e significativo na prosperidade do capital de
funcionamento.
A relevação não é excluída pela doutrina neopatrimonialista que
preconiza o estudo dos fenômenos patrimoniais pelas relações que o
formam; são três: as essenciais (que definem a natureza do fenômeno),
dimensionais (que mensuram o fenômeno) e ambientais (que originam o
fenômeno). A informação contábil possui o seu valor, mas o
neopatrimonialimo não dá a contabilidade o epíteto de “ciência da
informação”, porque seria uma pelintra para os informes; para tal
doutrina, a informação é uma medida aritmética e dimensional da riqueza
e não pode ser camuflada para atender aos seus usuários ou utentes.
Portanto, retratei logicamente e com absoluto epítemo algumas questões
básicas sem esgotar o assunto, sobre os aspectos da doutrina contábil
patrimonialista e neopatrimonialista, no campo da contabilidade pura;
uma teoria aperfeiçoa a outra; uma ultrapassa a outra melhorando; o novo
patrimonialismo é realmente a doutrina moderna da contabilidade que
substitui a doutrina masiana sem exclui-la. Posso considerar realmente
que o neopatrimonialismo é produto da evolução masiana senão seu próprio
progresso.
6 - NEOPATRIMONIALISMO E O FUTUDO DA CONTABILIDADE
Aquilo que Masi (Apud - Sá 1997) havia sonhado: em ter um
patrimonialismo melhorado que não se contivesse na célula social, mas,
que a ultrapasse a mesma sem exclui-la; de aprofundar as idéias
patrimonialistas escrutinando as razões dos fenômenos patrimoniais; de
manter a gnosiológica contábil centralizada no estudo, orientação e
explicação em vez da rotina prática; de manter o centro da atividade
profissional no intelecto e não nos papéis; de ter uma posição que
formasse o pensar perdurando a razão ou o raciocínio do espírito, foi
concretizado no Neopatrimonialismo.
A doutrina Neopatrimonialista garante uma forma de pensar, entender,
estudar e explicar o objeto da ciência contábil como nunca antes foi
feito e nunca depois será desfeito, mas, melhorado pela contafilosofia.
Qualquer neopatrimonialista, ou melhor- com mais ousadia- qualquer aluno
sem experiência em escritórios poderá adentrar nestes ambientes e saber
mais contabilidade do que qualquer outro individuo que possua a prática,
porque o conhecimento puro independe dessas condições.
Os dados “frios” sem conceitos não possuem valor algum, isto quem
afirmou não foi eu ou qualquer outro profissional contábil, mas, um dos
maiores filósofos de todos os tempos, pois, apesar de não ser contador,
Kant (1724-1804) dizia tais palavras em sua critica ao conhecimento
porque valorizava a alma e o espírito e não a carne ou a forma.
Tudo isto, porque, não basta ter informações se não decifra o seu
conteúdo ou o dimensionaliza corretamente, porque o contador não
gerencia a informação, mas, o conhecimento; o contador não é “Gestor da
informação” e sim “Gestor do conhecimento” patrimonial baseado nas mais
modernas doutrinas da riqueza.
A fundamentação da razão de uma ciência, de sua lógica, permanece
imperecível durante os tempos. O caráter essencial da ciência nunca se
perde. No direito ao observarmos os esforços filosóficos de Miguel Reale
(1998) em garantir fundamentos sólidos de sua disciplina, veríamos
tamanha deferência à ciência (falo sobre este mestre brasileiro por
homenagem ao seu labor para o conhecimento geral, para a academia, e a
intelectualização de nossos patriotas, em razão do seu falecimento no
dia 13 de abril deste ano; tal mestre foi um dos maiores das ciências
jurídicas brasileiras e internacionais).
A contabilidade amparada pela doutrina neopatrimonialista tende a
refutar as mazelas que interferem no seu conhecimento puro e essencial
para almeja a filosofia, garantindo um futuro próspero na análise
multidimensional dos fenômenos ou fatos patrimoniais no sentido
holístico e infinitesimal.
O futuro da contabilidade consiste nisto: na apropriação da evolução
Masiana que se solidifica no neopatrimonialismo, para assim buscar e
manter em vigas sólidas as verdades de nossa ciência, na
intelectualização de nossos profissionais no esboço estrutural e
dinâmico de modelos de comportamentos da riqueza e do funcionamento do
capital organizado das empresas e entidades sociais, do organismo
econômico.
7 – CONCLUSÃO
A evolução gnosiológica existe em todos os conhecimentos organizados,
que se estratificam em ramos e escalonam a ciência geral; todos
movimentos doutrinários, teorias, hipóteses, leis científicas provinham
de uma base que era fundamentalmente contestável, que, por conseguinte,
providenciava novas verdades ou concepções melhoradas sempre em auxilio
do homem e da humanidade e da perfeição de idéias.
Na contabilidade não foi diferente: a distância de pensamento existiu em
todas as épocas na ordem crescente, contudo, a essência patrimonial foi
destacada pelo patrimonialismo como auge de um evolução, que necessitava
também de aperfeiçoamento somente encontrado na doutrina
neopatrimonialista, que busca o ápice das razões dos fenômenos
patrimoniais.
O neopatrimonialismo é o resultado lucrativo ou positivo da evolução
masiana que garantirá o futuro da contabilidade, não nos meios de
relevação que lhe servem como instrumento e demonstração, mas, no estudo
racional e organizado dos comportamentos patrimoniais, auscultando o seu
estado e definindo decisões para o perspícuo funcionamento do capital, a
fim de que alcance a eficácia constante, garantindo a prosperidade e
satisfação das necessidades humanas e sociais.
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Rodrigo Antônio Chaves da Silva
Contador e Pesquisador
Membro da Associação Científica Internacional Neopatrimonialista (ACIN)
Membro do Clube Tablero Comando de Balanced Scorecard da Argentina
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