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UMA BREVE HISTÓRIA DA PUBLICAÇÃO DA TEORIA GERAL DE J.M. KEYNES

Autor: Mario Gómez Olivares

Comercio internacional

04-2001

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Uma Breve História da Publicação da Teoria Geral

Introdução
O interesse de Keynes sobre o ciclo dos negócios, datado historicamente, retrocede a 1913, ano em que, a propósito da leitura da `fellowship dissertation` de D.H. Robertson , Keynes produz o ensaio " How far are the Banker responsible for the alternations of crisis and depressions?", problema ligado à regulação da taxa de juro que posteriormente discutirá e incluirá no capítulo XIX do `Treatise`. 
Desde aquele ensaio que é claramente visível a preocupação principal com os aspectos monetários e financeiros do problema das flutuações económicas, e a insatisfação com a opinião dominante representada por I. Fisher, `the real cash balance approach` . Keynes escreve " Not only is this theory somewhat lacking in plausibility, but it cannot really be substantiated by fact ". 
Irei a discutir estes aspectos, primeiro em relação ao Tratado da Moeda e a seguir relacionados com os desenvolvimentos teóricos mas amplos relacionados com a publicação da Teoria Geral.
1. O Tratado da Moeda
Retomando o problema do ciclo, Keynes propõe-se escrever o `Treatise`, logo a seguir a publicação do `Tract`. O primeiro esquema data de 14 de Julho de 1924, dando lugar a contactos com Robertson para uma discussão sobre o seu conteúdo. O esquema de Outubro é consideravelmente mais extenso, mantendo porém a estrutura em duas partes: uma teórica e outra prática, num total de 23 capítulos, 14 dos quais dedicados à teoria do padrão ideal e 9 à prática do padrão ideal. A partir dos vários projectos de esquemas sobreviventes desse ano, Keynes começou a desenvolver as suas ideias, distribuindo `papers` entre várias pessoas, incluindo Robertson, Sraffa. Keynes escreve a Sraffa: "You may be interested to hear that I have now made a good start on my new book, and find that I like my underlying theory quite as well when I begin"
Destes problemas teóricos destaca-se a importância atribuída por Keynes ao papel das variações no capital de trabalho no ciclo do crédito, assim como dos empréstimos ao exterior. Neste período o interlocutor privilegiado de Keynes foi sem dúvida D. Robertson, que chegou a enviar-lhe notas críticas de alguns dos capítulos postos em circulação. Salientando a oposição existente ao nível das conclusões, ele escreve " Your final conclusion appears to be the opposite of mine! i.e. at the crisis or the top of the boom your `working capital`is superabundant, and my short lacking`is deficient. But perhaps we mean the same thing, i.e. that the goods are abundant, but the power and will to wait deficient ". 
Keynes estava à procura do melhor modo de expor a suas ideias, pelo que novos esquemas foram surgindo, integrando na discussão inclusive o próprio A. Pigou . O interessante é que nesses novos esquemas, as mudanças introduzidas têm a ver principalmente com a primeira parte- intitulada agora a teoria do dinheiro crédito~ onde aparece pela primeira vez um capítulo dedicado às equações fundamentais. 
Nesse período estavam em gestação a publicação dos livros de A. Pigou, " Industrial Fluctuations" e do próprio D. Robertson, " Banking Policy and the Price Level". Este último livro era de certo modo fruto da colaboração com Keynes, como alias o próprio Robertson reconhece no capítulo introdutório do seu livro: " I have had so many discussions with Mr Keynes J.M. on the subject-matter of chapters V e VI, and have rewritten them so drastically at his suggestion, that I think neither of us knows how much of the ideas therein contained is his and how much is mine ". 
Se dessa estreita colaboração entre Keynes e Robertson não restam dúvidas, também não restam muitos elementos dela, como sugere D. Moggridge " We will never know the full extent of this collaboration, if only because so much was oral and because early draft do not survive ". Apesar do reconhecimento de influência mútua, também não restam dúvidas de que Keynes não estava de acordo com Robertson em questões fundamentais: " I have now read carefully the rest of the book, and also your letter, and remain just unhappy about the whole thing as I was before..This point is the following: I am not able to accept your distinction between hoarding and forced effective short lacking. If there is no increased hoarding, then in my opinion there is not increased short lacking provided through the banking system. An act of inflation unaccompanied by any change in the amount of hoarding represents a mere transference of existing wealth without any necessary effect on the volume of consumtion. You think that additional resources are released through the effect of inflation on consumtion. In arguing this way I think you overlook the fact that there is no reduction of the aggregate purchasing power measured in terms of real resources as a resultat of inflation" . 
A confusão, segundo Keynes, derivava da falta de compreensão sobre a relação que existia entre o stock permanente de dinheiro que o público mantém e o fluxo correspondente ao seu rendimento e à despesa corrente, i.e., assumindo Robertson que o público no seu todo tem que reduzir o seu consumo quando tem lugar um processo inflacionário, este não vê o facto que alguns depositantes terão menos recursos no banco enquanto outros depositantes terão mais. Disto resulta claro uma perfeita ligação teórica à teoria quantitativa e uma apreciação crítica sobre a eficácia da política monetária inflacionária como modo de produzir novos investimentos. 
Da crítica resultou uma posterior revisão por parte de Robertson do capítulo V que satisfez largamente a opinião de Keynes, como se verifica numa carta datada de 10 de Novembro de 1925. A preocupação de Keynes virava-se para a eventual crítica de Pigou e de Hawtrey. 
O `Treatise` começa a ser trabalhado durante o verão de 1925, do qual se encontra a evidência em novos esquemas em que se revela a constante mudança sobre os capítulos de carácter mais teórico, salientando-se a existência de um capítulo dedicado à especulação, que posteriormente é integrado fundamentalmente no livro V do primeiro volume, mas que é largamente utilizado na análise da política dos bancos sobre a taxa de juro no volume II. Do Verão desse ano até começos de 1926 o trabalho foi interrompido pelo seu casamento e viagem à Russia, tendo produzido no interregno um estudo sobre padrões monetários antigos, que utilizará em parte nos capítulos I, XXX e XXXV . 
O trabalho retomado na Primavera de 1926 sobreviveu na forma de novos esquemas sobre os seu conteúdo, com algumas notas que sugerem que já teria escrito 55.650 palavras e a indicação de visitas realizadas a Roy Harrod, material que não sobreviveu. Entre Abril de 1926 e Setembro de 1927 conhecem-se 9 esquemas, com breves apontamentos sobre os seus conteúdos. Sobre o estado de desenvolvimento dos capítulos, a própria obra final é também uma fonte, porquanto é comum encontrar datas correlacionadas com o material tratado. Em Setembro de 1928, o próprio Keynes avaliava ter escrito 4 quintos do total da obra e revelava a esperança de publicá-la até à Pásqua de 1929, com uma extensão de 500 páginas. Dessa época data também um `paper` intitulado " Is there Inflation in the United States?", sobre a situação nos E.U., em que é notória a utilização do modo de análise que caracteriza o `Treatise` . 
Trata-se de um artigo eminentemente prático, em que se discute a política monetária a ser seguida, dada a situação de inflação latente ou potencial devido aos empréstimos dos bancos estarem a ocorrer com recurso às suas reservas e ao perigo que se instalaria se através de uma política contraccionista se criasse uma situação de `slump`. A análise, recorrendo à distinção entre circulação industrial e financeira, pretende demonstrar que uma subida da taxa de juro tendo por finalidade aplacar a circulação financeira, provocaria uma depressão. 
Do carácter novo da análise produzida por Keynes da testemunho a carta enviada por C. Snyder a Keynes, em que este refere " it is to me a novel and, I confess somewhat alien point of view ". Na sua resposta, Keynes remete a explicação definitiva do seu ponto de vista para a publicação do `Treatise` " which shall be appropriate to the problem of modern monetary system and the credit cycle", admitindo que "my reflections and researches have led me to a certain extent into unfamilar ways of looking at the thing . 
Keynes chama substancialmente a atenção para outras funções do sistema bancário, denotando uma outra caracterização do significado do dinheiro como meio de pagamento, que leva necessariamente a ver o processo inflacionário em termos diferentes de Snyder, i.e., para Keynes, um crescimento do crédito bancário utilizado nas transacções provoca inflação quando este cresce mais rapidamente que o crescimento das transacções. Isto implica que o crédito pode crescer mais rapidamente se utilizado para outros fins sem provocar inflação, i.e., como meio de investimento das suas poupanças, que serão utilizadas pelos bancos para comprar títulos ou emprestar a terceiros que comprarão títulos sem provocar inflação. 
Keynes utiliza a sua teoria da especulação para demonstrar justamente esse processo, embora, como iremos ver, a sua análise da inflação irá a ser revista, porquanto aqui trata exclusivamente a `commodity inflation`, enquanto que na sua teoria, o ciclo é explicado mais em relação com a `profit inflation`. Os únicos que pareceram concordar relativamente à situação inflacionária nos E.U. foram R. Hawtrey e J. Stamp, embora discordando o primeiro sobre os elementos teóricos que fundamentam a actividade especulativa. Porém, a discrepância com os americanos e em parte com Hawtrey é sobretudo de natureza indutiva, i.e., sobe as considerações a propósito do comportamento dos diferentes agentes nos mercados e sobre a natureza dos tipos de depósitos a serem considerados como crédito.
Em Outubro de 1928, Keynes elabora um esquema que na sua primeira parte se aproxima bastante do esquema final do volume I, onde alguns capítulos integram aspectos que depois serão relegados para o segundo volume, i.e., para a teoria aplicada. Sabe-se que, tendo continuado o seu trabalho a fim de publicá-lo no Outono de 1929, tinha em Agosto desse ano uma segunda prova do esquema de conteúdo e uma primeira prova do prefácio, assim como dos primeiros 19 capítulos ( 320 páginas no total), enquanto que o resto estava ainda em rascunho. Nada disto sobreviveu, para além do prefácio e do esquema, embora como monstra D. Moggridge nas suas notas ao volume XIII, em Agosto de 1929 estivessem os capítulos finais redigidos, tendo Keynes procedido, a partir daí, as correcções e preparação das versão final.." However, in the course of polishing he became very dissatisfied with what he had done so far and began to attempt more substantial revisions ". 
Até à publicação definitiva datada de 14 de Setembro de 1930, Keynes trabalhou uma nova apresentação da essência teórica da sua obra, i.e., das equações fundamentais, deu a versão definitiva à crítica de Robertson, Kahn e do próprio Pigou. Do que resta da correspondência com Robertson e Kahn salta à luz que se discutia ainda bastante sobre os conteúdos dos conceitos macro-económicos, tais como investimento, capital líquido, consumo(produtivo, improdutivo), poupança, rendimento, lucros o que revela que se estava ainda numa fase construtiva dos conceitos agregados familiares à macroeconomia. 
Do grau de maturação das ideias teóricas de Keynes até a publicação do `Treatise`, e porque não existem cópias completas das provas dos dois volumes, para além do capítulo 21 e 25 que correspondem quase à versão final, corrigidos no estilo, da-nos conta a sua participação no chamado `Committee on Finance and Industry`, convocado pelo `Chancelor of Exchequer`, Philip Snowen, em 4 Novembro de 1929 . Como comenta D.Moggridge: "Keynes`s effort to shape the work of the Comitee led him in February and March 1930 to spend five sessions elaborating his approach to monetary theory and policy, which reflect his work on the final stages of his `Treatise on Money` ". 
A participação de Keynes segue evidentemente as linhas do `Treatise` e corresponde a um tipo de actividade pública a que o próprio Keynes costumava chamar de persuasão, tendo como interlocutor mais importante no terreno teórico R. Hawtrey. 
Concordando Keynes com Hawtrey no sentido geral dos problemas monetários, distancia-se deste nas considerações tecidas sobre as causas monetárias e não-monetárias que influenciam as flutuações do nível dos preços. Keynes Atribui a estas reflexões de Hawtrey uma linhagem que vem de Cournot, Jevons e Edgeworth, com as quais Keynes se declara em desacordo. 
O ponto de discórdia reside em que quando os preços relativos estão a mudar não é praticável distinguir entre causas monetárias e não monetárias que afectam essa mudança. Uma causa monetária era, segundo Hawtrey, uma causa que tende a fazer com que todos os preços se movam do mesmo modo, enquanto que uma causa não monetária provoca a mudança nos custos reais. Para Keynes essas definições são incompreensíveis porquanto existem causas que não são nem monetárias nem não monetárias nessa definição. Para ser consistente, segundo Keynes, Hawtrey deveria definir como causa monetária aquela que afecta todos os custos monetários por igual e não todos os preços e, se tivesse feito isso, surgiria necessariamente a ideia de que não existe algo que tende a afectar todos os custos por igual, como sendo uma causa monetária por excelência. 
Um segundo aspecto de discordância, que não está directamente ligado ao anterior, é o modo ideal de estabilizar o poder de compra da moeda, se for tomado em termos de meios de consumo ou de custo do esforço humano. Keynes diz " For my own part, I have come to not clear conclusion. I believe that the idea of stabilising incomes is a fruitful one and bears a great deal of thinking about; but I suspect that the choice between the two standards ought not to be the same in all circumstances. I doubt if I should come to the same conclusion in all sets of conditions. For example, if we were to living in a age when real costs were increasing-the opposite to an age of progress- I should be much more inclined to adopt his conclusion than if I were living in a age of progress in which real costs were diminishing ". 
As críticas de Keynes ao standard em termos do esforço escolhido por Hawtrey, delimitam-se em duas objecções. Primeiro, o standard não pode ser o mesmo para diferentes países, porquanto os custos reais em cada pais evoluem de modo diferente. Segundo, como o aumento dos preços reduz a exigência dos rentiers e, portanto, o peso que as dívidas representam no presente, a estabilização em termos de bens aumenta a exigência dos rentier, aumentando a possibilidade da fricção social. Os receptores de salários, argumenta Keynes, quando aumentam a sua eficiência, pretendem benefícios mais na forma de salários superiores que na forma de preços mais baixos, o que é uma questão puramente psicológica.."therefore, I am somewhat of the opinion that social friction would be less if you allow wages to rise slowly than if you insist on keeping wages steady and reducing prices ". 
A opção de Hawtrey em utilizar o `wholesale index` é paradoxal. Sendo este uma aproximação do índex do consumo, esse índice não contribui para a estabilização dos salários dos factores de produção, porquanto eles se movem em direcções opostas. Assim, o índice de Hawtrey não dá uma aproximação das mudanças nos custos reais. Mas para Keynes a estabilização faz sentido mais no curto que no longo prazo, e no curto prazo ambos métodos podem ser a mesma coisa. O importante é que os partidários da estabilização actuem homogeneamente na escolha de um método. Para Keynes era prioritária a estabilização, i.e., politicamente mais relevante que a escolha do método, colocando-se na disposição de renunciar à escolha do método a fim de que a política da estabilização fosse adoptada.
Provavelmente, pelo grau de concordância acerca de necessidade de políticas de estabilização, Keynes envia a Hawtrey, a partir de Abril de 1930, partes fundamentais do `Treatise`, começando por discutir fundamentalmente com este o argumento de como uma mudança na taxa de juro bancária influencia mudanças na taxa de juro em geral, problema que Keynes discute no capítulo 37 do segundo volume, e posteriormente as ilustrações históricas que Keynes utiliza no capítulo 30. Mas da correspondência publicada no vol. XIII das JMKCW, que se estende de Abril de 1930 a Junho de 1932, a discussão estende-se à obra no seu conjunto, com incidência sobre os conceitos de consumo e capital líquido, mas também sobre o processo inflacionário e os métodos de acção do sistema bancário. 
An passant, Keynes relata a Hawtrey numa carta de 18 de Julho de 1930, as dificuldades que encontra em dissuadir Robertson e Pigou da diferença entre excesso de acumulação e excesso de poupança que o levou a reescrever o capítulo das equações fundamentais. Dessa correspondência resulta evidente que o próprio Keynes ainda não tinha clara uma definição sobre o conceito de gasto do consumidor(`consumer`s outlay`) utilizado por Hawtrey, o que provavelmente implica que este estava insatisfeito com a sua própria definição de consumo. Mas esta discussão com certeza não influenciou modificações na publicação do `Treatise` porquanto datam de Agosto de 1930, quando provavelmente o `Treatise` estava já na tipografia , mas levará Keynes a reconsiderar a abordagem do problema, logo após a saída do livro, i.e., a reconsiderar como dado a determinação do volume do output.
Em 14 de Setembro de 1930 escreve à sua mãe " My dearest Mother, This evening, at last, I have finished my book. It has occupied me seven years off and on...Artistically it is failure- I have changed my mind too much during the course of it for it to be a proper unity. But I think it contains an abundance of ideas and material ". Keynes deve ter enviado um exemplar a J. Schumpeter que responde desde Harvard " I do not think that any scientific book has been looked for with so universal an impatience-in our time at least-as yours is ".
Concluindo, Keynes propôs-se demonstrar no `Treatise` que o nível dos preços do output dependem do nível dos rendimentos monetários relativamente à eficiência do volume do investimento (medido em custos de produção) relativamente à poupança e dos sentimentos `bearish` ou `bullnish` dos capitalistas relativamente à oferta de depósitos de poupança disponível no sistema bancário. Mesmo que estas dificuldades fossem superadas e o próprio Keynes dedica- desde a sua óptica, o capítulo 38 do segundo volume do seu `Treatise` à construção de propostas sobre a regulação internacional, na linha que o tornaram o co-autor dos acordos de Bretton Wood-, eleprevê ainda uma dificuldade: é que este standard compromete o mundo a um tipo particular de standard de valor que domina a norma de longo prazo. 
É que um standard de valor de longo prazo pode ser escolhido entre três tipos. O primeiro é o standard do poder de compra da moeda ou standard do consumo; o segundo é o standard do rendimento, cujo ratio relativamente ao standard consumo cresce em proporção a cada incremento na eficiência dos factores de produção; o terceiro é uma versão do padrão internacional, i.e., um standard baseado nos preços dos principais bens que entram no comércio internacional, ponderados por ordem de importância no comércio internacional, na prática não muito diferente do standard a retalho das matérias primas. 
Se o standard deve ser do mesmo tipo do dos outros países, é-se obrigado a escolher o terceiro tipo de standard, porquanto os outros tem um carácter nacional, i.e., eles movem-se de modo diferente em diferentes países, pelo que o standard internacional deste tipo pode não ser um standard ideal para cada pais individual.

2. Da Teoria Monetária da Produção á Teoria Geral.
As duas conferências "Easter Term 1932" de Keynes em Cambridge foram intituladas " The Pure Theory of Money", e contaram com a presença, para além dos seus alunos, de R.Kahn, P. Sraffa e J. Robinson, na qualidade de espias, como relata Keynes a sua esposa Lydia . 
A primeira conferência lida, a 25 de Abril de 1932, é uma incursão em problemas terminológicos, conceitos económicos, dada a dificuldade que existe de passar de uma terminologia dominantemente de longo prazo para uma de curto prazo: " theoretical economics often has a formal appearance where the reality is not strictly formal. It is not, and is no mean to be, logically watertight in the sense in which mathematics. It is a generalisation which lacks precise statement of the cases to which the generalisations applies ". Esta frase revela simplesmente o carácter introdutório desta conferência, a preparação da audiência para uma exposição crítica e aberta ao criticismo, sempre que este se exerça tomando em consideração que: "a definition can often be vague within fairly wide limits and capable of several interpretations differing slightly from one another, and still be perfectly serviceable and free from serious risk of leading either the author or the reader into error, provided that any of the alternative definitions will do so long as it is used consistently within a given context .
A segunda conferência, de 2 de Maio, discute alguns conceitos tomando como referência os usados no `Treatise`. Keynes esclarece: " The general upshot of this and the previous chapter seems to be that the fluctuations of output and employment for a given community over the short period, within the ranges of fluctuations occur, depend almost entirely on the amount of current investment- not indeed with logical necessity but with a high degree of provability in practice. This goes beyond the contention of my Treatise, where it was meant to depend on the amount of investment relatively to Saving-which has the advantage of logical necessity, apart from the results of temporary miscalculation or of a policy which deliberately ignored considerations of profit".."This less restricted generalisation is the result of taking account of the provable effect on saving of a change in the amount of investment ". Keynes parece inverter o raciocínio do `Treatise` no sentido de que dado o existente nível de rendimento e a distribuição dos rendimentos para um determinado nível de output, não existe uma mudança espontânea na propensão a poupar. As mudanças na situação geral são frequentemente iniciadas a partir de mudanças no investimento. É o investimento o factor que gera a mudança de outros factores, embora.. " we cannot deduce from observing changes in investment the exact amount of changes in other factors, we can infer with a degree of provability approaching to certain the direction of these other changes ". O grau de generalidade que Keynes pretende dar a sua teoria está associada ao seu método de aceitar as suas proposições com um grau de crença.
Em resultado desta conferência, Keynes recebeu um manifesto de R.Kahn e J.Robinson, como resposta ao desafio de Keynes no sentido de encontrar objecções aos pressupostos que provam que quando se incrementa o investimento, o output também se incrementa. Como sublinham os autores do manifesto, " our difficulty however is not so much that we doubt your conclusion ( to which it would be difficult to object on ground of common sense) as the method of formal logic which you pursued appears to hedge it round with restrictions which detract unnecessary from generality without increasing its plausibility . 
Nesta segunda conferência Keynes argumentava que D E` e D O teriam o mesmo signo, condição a) no manifesto, e que DE`-D F e D E` tê m o mesmo signo, condição b) do manifesto, e desde que D I = D E`-D F, as mudanças no nível do investimento(I), no ouput (O) e emprego estariam positivamente correlacionados, i.e., que D I e D O tem o mesmo signo . 
A primeira objecção no manifesto é uma objecção à condição b), i.e., que D E`-D F e *E` têm o mesmo signo. Se as despesas em consumo se incrementam mais rapidamente que o rendimento, então D E`- DF e DE` não tem o mesmo signo, ao que Keynes aponta que existe no manifesto uma confusão entre rendimento e receitas, i.e., nos custos primos (`prime cost`). Kahn e Robinson sublinham que de facto o problema na condição b) não é necessariamente demonstrar que I e O se movem juntos, mas de assegurar que existe um equilíbrio estável. Se a despesa em consumo se incrementasse mais rapidamente que o rendimento o equilíbrio seria instável e que cada pequeno incremento de I poderia causar um crescimento do output até o infinito ou até o ponto onde o incremento na despesa de consumo e o incremento do rendimento tem efectivamente o mesmo signo . 
Na crítica à condição a) Kahn e Robinson argumentam que a prova de Keynes entra em colapso se o incremento do output for acompanhado pela queda do seu valor, o que sendo improvável de acontecer, se acontecer, o incremento do output será acompanhado de uma queda dos preços, o que aumenta o pressuposto de que I e O se movem juntos. Do ponto de vista formal a prova está correcta e desde que a proposição b) esteja preenchida, uma queda da proposição conduz ao fracasso da condição a). O problema é que as condições são suficientes mas não necessárias, i.e., que a verdade da proposição de que um incremento em I indicia um incremento em O precisa de ser provada necessariamente através do `simple minded method` porque o método formal apenas o prova suficientemente. Um incremento em I conduzirá de per se a um crescimento na procura de bens de consumo, i.e., que a procura de bens de consumo por parte dos produtores de bens de capital será incrementada quando o valor do seu output se incrementa; as condições da oferta de bens de consumo não são afectadas pela mudança de I. 
Quando estas condições se cumprirem, um incremento de I conduzirá a um incremento na curva de procura de bens de consumo sem aumentar a curva de oferta, e portanto conduzirá a um incremento do output de bens de consumo e a fortiori a um incremento no output total. Se estas condições não se cumprirem é possível que o output se possa incrementar. Se a) não se cumpre não existe incremento em R ( produção de bens de consumo), mas existe um incremento em C( produção de bens de capital ou investimento), excepto quando D I resulta de D P`, e a menos que exista uma redução de R, o output é incrementado. É apenas quando um incremento em I gerar um crescimento suficiente na curva de oferta dos bens de consumo que este output diminuirá, e que este crescimento será ainda maior se o declínio em R compensar o incremento de C. Um crescimento dos custos de produção é certamente acompanhado de um crescimento na procura de bens de consumo da parte dos factores de produção que são responsáveis pelo crescimento dos custos, embora sublinhem os autores do manifesto:" It may be concluded therefore that it is extraordinary unlikely that an increase in investment should ever fail to increase output ". Esta discussão que segue em cartas e notas apenas serve como exemplo para três coisas: primeiro, que Keynes se encontra no caminho da elaboração da teoria da procura efectiva ainda com um substrato teórico similar ao `Treatise`; segundo, que na elaboração dessa teoria embora manifeste abertura ao criticismo exterior está convencido que o seu caminho está certo como o próprio escreve a Joan Robinson: " Finally there is the question which is the best of two alternative exegetical methods. Here I open to conviction. But to be convinced I should need to see the whole theory worked out your way, and then compare it with what I am able to say in my language. I am not so familiar with your way as with my own. But my present belief is that in general, and apart possibly of handling of certain special problems, your way would be much more difficult and cumbersome. At any rate I lack at present sufficient evidence to the contrary to induce me to scrap all my present half-forget weapons;-though that is no reason why you should not go on constructing your own" . Terceiro, a proposição de que uma mudança no gasto causará uma mudança no output na mesma direcção era controversa e existiam pontos de vista contrários, de que um aumento do consumo causaria uma queda do output, como resulta das lembranças de J.Robinson sobre a exposição de Hayek do seu livro "Prices and Production" na Marshall Society em Cambridge: " I very much remember Hayek`s visit to Cambridge on his way to the London School. He expounded his theory and covered a blackboard with his triangles. The whole argument, as we could see later, consisted in confusing the current rate of investment with the total stock of capital goods, but we could not make it out at the time. The general tendency seemed to be to show that the slump was caused by consumption. R. F. Kahn, who was at that time involved in explaining that the multiplier guaranteed that saving equals investment, asked in a puzzled tone,`Is it your view that if I went out tomorrow and bought a new overcoat, that would increase unemployment?` `Yes`, said Hayek. `But pointing to his triangles on the board, `it would take a very long mathematical argument to explain why` "
Keynes movia-se no sentido de estudar a relação entre os níveis de investimento e lucros, investigando as possibilidades de que um incremento do investimento cause o crescimento dos custos de produção na indústria de bens de consumo e de capital( principalmente na indústria de consumo); se o investimento e os lucros não se movessem no mesmo sentido, a estabilidade das relações entre investimento e quase-rentas seria colocada em dúvida, se aumentasse o investimento mas crescessem os custos de produção, a expansão seria colocada em questão. Como argumenta Rymes os autores do manifesto não perceberam a questão dinâmica de como um movimento no nível do output está associado com movimentos nos custos de produção " that is, shift in supply curves rather than movement along them ". 
A evolução do pensamento de Keynes espelha-se nos esquemas e diferentes `draft` sobreviventes correspondentes a esse esquemas. Um dos primeiros esquemas que sobrevivem neste período tem por título a teoria monetária da produção, que apresenta uma divisão em quatro livros com uma introdução. O livro I trata da interrelação entre o investimento, a despesa, o lucro e o output, dividido em sete capítulos. O livro II dedica-se à taxa de juro, o livro III à determinação do preço, dividido em 4 capítulos; o livro IV refere-se ao controlo da taxa de despesa . 
Num esquema similar que apresenta posteriormente aparece agora o livro segundo com o título "The Monetary Theory of Production", com os mesmo capítulos e conteúdos que o esquema anterior. No livro III sobre a determinação do preço aparece um capítulo dedicado à preferência pela liquidez, e o livro IV muda para o controlo da produção através da taxa de despesa, indiciando os capítulos uma dedicação aos assuntos de política económica. Embora em ambos os esquemas apareça um capítulo dedicado à relação entre o investimento e o comércio exterior, nenhuma alusão é feita ao conceito de procura efectiva. Numas notas escritas antes destes esquemas aparecem os temas Mercantilismo e Proteccionismo.
No primeiro dos esquemas de 1933 , Keynes mantém o título dos esquemas de 1932, dedicando o primeiro capítulo do livro I, agora sem título, à natureza e significado da teoria de uma economia monetária, sendo o resto dos capítulos dedicados a definições, à poupança. O livro dois engloba a teoria da taxa de juro, mantém o capítulo da preferência pela liquidez e agrega um capítulo sobre os factores que governam o investimento, com o que vislumbra a construção de um capítulo sobre o ciclo económico. O livro terceiro dedicaria Keynes ao emprego e aos salários, à influência da distribuição do rendimento, à influência das mudanças do investimento sobre o emprego e à teoria dos preços.
Num segundo esquema o título do livro muda para "The General Theory of Employment"; o capítulo primeiro muda para o significado e o contraste entre uma economia cooperativa e uma economia empresarial, agrega um segundo capítulo sobre as características da economia empresarial, adiciona um capítulo que denomina `Fundamental Equations` e outro sobre definições e ideias relacionadas com o capital .
No esquema de Dezembro de 1933 existe uma tábua de conteúdos completa. A teoria do Emprego é dividida em seis livros. O livro 1 dedicado a relação entre a teoria geral da economia com a teoria clássica, divide em 3 capítulos, sendo o capítulo 1 os postulados da teoria clássica, o capítulo dois as distinções entre uma economia cooperativa e uma empresarial e, o terceiro capítulo, as características da economia empresarial. O livro dois apresentaria os conceitos fundamentais da Teoria Geral, subdivididos em quatro capítulos independentes: quase-rendas, rendimento, despesa e poupança. O livro 3, o mais extenso, é dedicado ao emprego como função dos motivos à despesa e ao investimento, englobando os motivos ao investimento e à despesa, a teoria do juro, a preferência pela liquidez como factor determinante da taxa de juro, a natureza do capital, as condições de estabilidade, a teoria geral do emprego, e duas excursões: uma sobre a taxa de juro em Marshall, e uma outra sobre a eficiência marginal do capital. No livro IV reaparece a teoria dos preços, com cinco capítulos: a função oferta; o multiplicador; salários reais e monetários; a equação dos preços e; poupança forçada, entesouramento e a velocidade da moeda. No livro V com o título `Sundry Observation`, aparecem a taxa de juro em casos extremos, notas no ciclo do comércio e, notas na história de `cognate ideas`.
No esquema de meados de 1934 o livro de Keynes recebe o nome de " The General Theory of Employment, Interest and Money" . O livro I aparece como na versão final da Teoria Geral, os postulados da economia clássica e o princípio da procura efectiva. No livro dois, definições e ideias, existe um capítulo sobre as expectativas e outro sobre as expectativas de longo prazo; os diferentes capítulos antecipam com diferentes nomes o conteúdo do livro dois e três e parte do quatro da versão final, mas desaparece qualquer menção à eficiência marginal do capital, provavelmente diluída no capítulo sobre propensão a investir, expressão que como sabemos Keynes não utiliza na sua versão final. O livro III, a teoria da taxa de investimento, dedica-se à teoria da taxa de juro, à preferência pela liquidez, à taxa de juro em casos especiais e, a considerações filosóficas sobra as propriedades essenciais do capital, do juro e da moeda. O livro IV, contém os conteúdos do livro V da Teoria Geral, embora apareçam misturados conteúdos de livros anteriores, como por exemplo, o equilíbrio do consumo e o investimento, o multiplicador relacionando emprego e investimento, que são tratados posteriormente no capítulo 10 e no capítulo 18 da versão final. O último livro, apresenta-se dividido em quatro capítulos: notas no ciclo do comércio; notas sobre o mercantilismo, a balança de pagamentos e o investimento estrangeiro; uma economia individualista capaz de prover o pleno emprego, e notas na história de ideias similares. Resulta claro que estes dois capítulos foram refundidos no capítulo final da versão de 1936.
Em Junho de 1935 , a `table of contents`, cobre mais ou menos exactamente o conteúdo da versão final. Da cópia enviada a R.Harrod, apenas faltam os 4 capítulos do livro VI, que ainda mantem a estrutura do anterior esquema. O livro I, submetido ainda a revisões, contém a estrutura final; o livro II, definições e ideias, apresenta a cobertura do conteúdo da Teoria Geral, com modificações na estrutura dos capítulos, passando de 12 na anterior versão para 9, onde alguns capítulos desaparecem, outros são desviados para outros livros, como o capítulo dedicado às expectativas de longo prazo, que aparece como capítulo 13, no livro IV; o livro III, é dedicado agora exclusivamente à propensão ao consumo, em dois capítulos e não três como na Teoria Geral, onde a relação propensão ao consumo com o multiplicador faz parte do capítulo 22 no livro V. O livro IV, a propensão ao investimento, e não o incentivo ao investimento como na Teoria Geral, integra exactamente oito capítulos, embora o capítulo `The General Theory of Employment` seja integrado no capítulo 20, enquadrado, porém, no livro V, com o nome `The Equilibrium of the Economic System`. O livro V, com capítulos que na versão final são deslocados para livros anteriores, como já referimos, é exactamente igual à versão final, embora apresentados numa ordem diferente. O capítulo das mudanças nos salários vem posteriormente ao capítulo sobre a função do emprego e não aparece qualquer apêndice sobre a teoria de desemprego de A.Pigou. 
Pela correspondência com R. Harrod , sabemos que Keynes, esteve a re-escrever os primeiros 7 capítulos e o último livro no Verão de 1935. O mesmo podemos retirar da correspondência com J.Robinson. Numa carta de Setembro de 1935 Keynes escreve.." I have been occupied for several weeks in somewhat re-writing Book I and completely re-writing Book II. I the case of Book II practically not a word of the version you have read has been left standing ". Faltava ainda os últimos capítulos do livro VI, os que Keynes submeteu a Harrod, que objectou fortemente a tentativa de no capítulo 26 glorificar imbecis; obviamente Harrod referia-se aos mercantilistas. Este comentário contido na carta citada a J. Robinson, sugere que nesse período Keynes estava a ultimar a Teoria Geral, procedendo a mudanças no livro VI, o que de facto veio a acontecer, bastando comparar os últimos dois esquemas com a versão final, onde Keynes refunda os quatro capítulos originalmente previstos para os três da versão final. Em Agosto de 1935 Keynes escreve a sua mãe.. " I began the last chapter of my book this morning ". Em Dezembro desse ano escreve " I finished my book on Tuesday-it has taken five years "; em Janeiro escreve " My book is out of my hand and will be published on Feb.4 ". O prefácio da Teoria Geral está, porém, datado de 13 de Dezembro, tendo-o acabado Keynes na terça feira dia 23 de Dezembro de 1935. A primeira carta registada que Keynes recebe sobre a Teoria Geral data de 15 de Abril de 1936, do seu colega de Cambridge G.F. Shove , e o primeiro artigo de seis páginas, " Mr Keynes on Employment and Output" aparece no volume 7(1) da The Manchester School . Nos `draft` do capítulo 7, " The Monetary Theory of production", e o capítulo 8 " The Instability of Profit-Seeking Organisations of Production ", Keynes discute o caso de um decréscimo do investimento associado com uma queda das quasi-rendas. É devido às condições dos custos, que chama de salários de eficiência, que surge o problema da instabilidade. No `draft` do capítulo 9 `The effects of Changes in the Rate of Earning`, Keynes partindo duma situação de declínio no investimento associado com uma queda dos salários monetários, lança a pergunta sobre se esse declínio trava o declínio nos lucros do output associado com uma redução do investimento, concluindo " on the balance of considerations, that there is no presumtion that all around reduction in variable cost of production will prove favourable to the volume of employment ". Esta afirmação tinha Keynes produzido nas discussões sobre política económica, sem a conseguir demostrar teoricamente.

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Mario Gómez Olivares

Departamento de Economia, Instituto Superior de Economia e Gestão Universidade Técnica de Lisboa  www.iseg.utl.pt\~hpe\html 

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