Uma Breve História da Publicação da Teoria Geral
Introdução
O interesse de Keynes sobre o ciclo dos negócios, datado historicamente,
retrocede a 1913, ano em que, a propósito da leitura da `fellowship
dissertation` de D.H. Robertson , Keynes produz o ensaio " How far are
the Banker responsible for the alternations of crisis and depressions?",
problema ligado à regulação da taxa de juro que posteriormente discutirá
e incluirá no capítulo XIX do `Treatise`.
Desde aquele ensaio que é claramente visível a preocupação principal com
os aspectos monetários e financeiros do problema das flutuações
económicas, e a insatisfação com a opinião dominante representada por I.
Fisher, `the real cash balance approach` . Keynes escreve " Not only is
this theory somewhat lacking in plausibility, but it cannot really be
substantiated by fact ".
Irei a discutir estes aspectos, primeiro em relação ao Tratado da Moeda
e a seguir relacionados com os desenvolvimentos teóricos mas amplos
relacionados com a publicação da Teoria Geral.
1. O Tratado da Moeda
Retomando o problema do ciclo, Keynes propõe-se escrever o `Treatise`,
logo a seguir a publicação do `Tract`. O primeiro esquema data de 14 de
Julho de 1924, dando lugar a contactos com Robertson para uma discussão
sobre o seu conteúdo. O esquema de Outubro é consideravelmente mais
extenso, mantendo porém a estrutura em duas partes: uma teórica e outra
prática, num total de 23 capítulos, 14 dos quais dedicados à teoria do
padrão ideal e 9 à prática do padrão ideal. A partir dos vários
projectos de esquemas sobreviventes desse ano, Keynes começou a
desenvolver as suas ideias, distribuindo `papers` entre várias pessoas,
incluindo Robertson, Sraffa. Keynes escreve a Sraffa: "You may be
interested to hear that I have now made a good start on my new book, and
find that I like my underlying theory quite as well when I begin"
Destes problemas teóricos destaca-se a importância atribuída por Keynes
ao papel das variações no capital de trabalho no ciclo do crédito, assim
como dos empréstimos ao exterior. Neste período o interlocutor
privilegiado de Keynes foi sem dúvida D. Robertson, que chegou a enviar-lhe
notas críticas de alguns dos capítulos postos em circulação. Salientando
a oposição existente ao nível das conclusões, ele escreve " Your final
conclusion appears to be the opposite of mine! i.e. at the crisis or the
top of the boom your `working capital`is superabundant, and my short
lacking`is deficient. But perhaps we mean the same thing, i.e. that the
goods are abundant, but the power and will to wait deficient ".
Keynes estava à procura do melhor modo de expor a suas ideias, pelo que
novos esquemas foram surgindo, integrando na discussão inclusive o
próprio A. Pigou . O interessante é que nesses novos esquemas, as
mudanças introduzidas têm a ver principalmente com a primeira parte-
intitulada agora a teoria do dinheiro crédito~ onde aparece pela
primeira vez um capítulo dedicado às equações fundamentais.
Nesse período estavam em gestação a publicação dos livros de A. Pigou, "
Industrial Fluctuations" e do próprio D. Robertson, " Banking Policy and
the Price Level". Este último livro era de certo modo fruto da
colaboração com Keynes, como alias o próprio Robertson reconhece no
capítulo introdutório do seu livro: " I have had so many discussions
with Mr Keynes J.M. on the subject-matter of chapters V e VI, and have
rewritten them so drastically at his suggestion, that I think neither of
us knows how much of the ideas therein contained is his and how much is
mine ".
Se dessa estreita colaboração entre Keynes e Robertson não restam
dúvidas, também não restam muitos elementos dela, como sugere D.
Moggridge " We will never know the full extent of this collaboration, if
only because so much was oral and because early draft do not survive ".
Apesar do reconhecimento de influência mútua, também não restam dúvidas
de que Keynes não estava de acordo com Robertson em questões
fundamentais: " I have now read carefully the rest of the book, and also
your letter, and remain just unhappy about the whole thing as I was
before..This point is the following: I am not able to accept your
distinction between hoarding and forced effective short lacking. If
there is no increased hoarding, then in my opinion there is not
increased short lacking provided through the banking system. An act of
inflation unaccompanied by any change in the amount of hoarding
represents a mere transference of existing wealth without any necessary
effect on the volume of consumtion. You think that additional resources
are released through the effect of inflation on consumtion. In arguing
this way I think you overlook the fact that there is no reduction of the
aggregate purchasing power measured in terms of real resources as a
resultat of inflation" .
A confusão, segundo Keynes, derivava da falta de compreensão sobre a
relação que existia entre o stock permanente de dinheiro que o público
mantém e o fluxo correspondente ao seu rendimento e à despesa corrente,
i.e., assumindo Robertson que o público no seu todo tem que reduzir o
seu consumo quando tem lugar um processo inflacionário, este não vê o
facto que alguns depositantes terão menos recursos no banco enquanto
outros depositantes terão mais. Disto resulta claro uma perfeita ligação
teórica à teoria quantitativa e uma apreciação crítica sobre a eficácia
da política monetária inflacionária como modo de produzir novos
investimentos.
Da crítica resultou uma posterior revisão por parte de Robertson do
capítulo V que satisfez largamente a opinião de Keynes, como se verifica
numa carta datada de 10 de Novembro de 1925. A preocupação de Keynes
virava-se para a eventual crítica de Pigou e de Hawtrey.
O `Treatise` começa a ser trabalhado durante o verão de 1925, do qual se
encontra a evidência em novos esquemas em que se revela a constante
mudança sobre os capítulos de carácter mais teórico, salientando-se a
existência de um capítulo dedicado à especulação, que posteriormente é
integrado fundamentalmente no livro V do primeiro volume, mas que é
largamente utilizado na análise da política dos bancos sobre a taxa de
juro no volume II. Do Verão desse ano até começos de 1926 o trabalho foi
interrompido pelo seu casamento e viagem à Russia, tendo produzido no
interregno um estudo sobre padrões monetários antigos, que utilizará em
parte nos capítulos I, XXX e XXXV .
O trabalho retomado na Primavera de 1926 sobreviveu na forma de novos
esquemas sobre os seu conteúdo, com algumas notas que sugerem que já
teria escrito 55.650 palavras e a indicação de visitas realizadas a Roy
Harrod, material que não sobreviveu. Entre Abril de 1926 e Setembro de
1927 conhecem-se 9 esquemas, com breves apontamentos sobre os seus
conteúdos. Sobre o estado de desenvolvimento dos capítulos, a própria
obra final é também uma fonte, porquanto é comum encontrar datas
correlacionadas com o material tratado. Em Setembro de 1928, o próprio
Keynes avaliava ter escrito 4 quintos do total da obra e revelava a
esperança de publicá-la até à Pásqua de 1929, com uma extensão de 500
páginas. Dessa época data também um `paper` intitulado " Is there
Inflation in the United States?", sobre a situação nos E.U., em que é
notória a utilização do modo de análise que caracteriza o `Treatise` .
Trata-se de um artigo eminentemente prático, em que se discute a
política monetária a ser seguida, dada a situação de inflação latente ou
potencial devido aos empréstimos dos bancos estarem a ocorrer com
recurso às suas reservas e ao perigo que se instalaria se através de uma
política contraccionista se criasse uma situação de `slump`. A análise,
recorrendo à distinção entre circulação industrial e financeira,
pretende demonstrar que uma subida da taxa de juro tendo por finalidade
aplacar a circulação financeira, provocaria uma depressão.
Do carácter novo da análise produzida por Keynes da testemunho a carta
enviada por C. Snyder a Keynes, em que este refere " it is to me a novel
and, I confess somewhat alien point of view ". Na sua resposta, Keynes
remete a explicação definitiva do seu ponto de vista para a publicação
do `Treatise` " which shall be appropriate to the problem of modern
monetary system and the credit cycle", admitindo que "my reflections and
researches have led me to a certain extent into unfamilar ways of
looking at the thing .
Keynes chama substancialmente a atenção para outras funções do sistema
bancário, denotando uma outra caracterização do significado do dinheiro
como meio de pagamento, que leva necessariamente a ver o processo
inflacionário em termos diferentes de Snyder, i.e., para Keynes, um
crescimento do crédito bancário utilizado nas transacções provoca
inflação quando este cresce mais rapidamente que o crescimento das
transacções. Isto implica que o crédito pode crescer mais rapidamente se
utilizado para outros fins sem provocar inflação, i.e., como meio de
investimento das suas poupanças, que serão utilizadas pelos bancos para
comprar títulos ou emprestar a terceiros que comprarão títulos sem
provocar inflação.
Keynes utiliza a sua teoria da especulação para demonstrar justamente
esse processo, embora, como iremos ver, a sua análise da inflação irá a
ser revista, porquanto aqui trata exclusivamente a `commodity inflation`,
enquanto que na sua teoria, o ciclo é explicado mais em relação com a `profit
inflation`. Os únicos que pareceram concordar relativamente à situação
inflacionária nos E.U. foram R. Hawtrey e J. Stamp, embora discordando o
primeiro sobre os elementos teóricos que fundamentam a actividade
especulativa. Porém, a discrepância com os americanos e em parte com
Hawtrey é sobretudo de natureza indutiva, i.e., sobe as considerações a
propósito do comportamento dos diferentes agentes nos mercados e sobre a
natureza dos tipos de depósitos a serem considerados como crédito.
Em Outubro de 1928, Keynes elabora um esquema que na sua primeira parte
se aproxima bastante do esquema final do volume I, onde alguns capítulos
integram aspectos que depois serão relegados para o segundo volume,
i.e., para a teoria aplicada. Sabe-se que, tendo continuado o seu
trabalho a fim de publicá-lo no Outono de 1929, tinha em Agosto desse
ano uma segunda prova do esquema de conteúdo e uma primeira prova do
prefácio, assim como dos primeiros 19 capítulos ( 320 páginas no total),
enquanto que o resto estava ainda em rascunho. Nada disto sobreviveu,
para além do prefácio e do esquema, embora como monstra D. Moggridge nas
suas notas ao volume XIII, em Agosto de 1929 estivessem os capítulos
finais redigidos, tendo Keynes procedido, a partir daí, as correcções e
preparação das versão final.." However, in the course of polishing he
became very dissatisfied with what he had done so far and began to
attempt more substantial revisions ".
Até à publicação definitiva datada de 14 de Setembro de 1930, Keynes
trabalhou uma nova apresentação da essência teórica da sua obra, i.e.,
das equações fundamentais, deu a versão definitiva à crítica de
Robertson, Kahn e do próprio Pigou. Do que resta da correspondência com
Robertson e Kahn salta à luz que se discutia ainda bastante sobre os
conteúdos dos conceitos macro-económicos, tais como investimento,
capital líquido, consumo(produtivo, improdutivo), poupança, rendimento,
lucros o que revela que se estava ainda numa fase construtiva dos
conceitos agregados familiares à macroeconomia.
Do grau de maturação das ideias teóricas de Keynes até a publicação do `Treatise`,
e porque não existem cópias completas das provas dos dois volumes, para
além do capítulo 21 e 25 que correspondem quase à versão final,
corrigidos no estilo, da-nos conta a sua participação no chamado `Committee
on Finance and Industry`, convocado pelo `Chancelor of Exchequer`,
Philip Snowen, em 4 Novembro de 1929 . Como comenta D.Moggridge: "Keynes`s
effort to shape the work of the Comitee led him in February and March
1930 to spend five sessions elaborating his approach to monetary theory
and policy, which reflect his work on the final stages of his `Treatise
on Money` ".
A participação de Keynes segue evidentemente as linhas do `Treatise` e
corresponde a um tipo de actividade pública a que o próprio Keynes
costumava chamar de persuasão, tendo como interlocutor mais importante
no terreno teórico R. Hawtrey.
Concordando Keynes com Hawtrey no sentido geral dos problemas monetários,
distancia-se deste nas considerações tecidas sobre as causas monetárias
e não-monetárias que influenciam as flutuações do nível dos preços.
Keynes Atribui a estas reflexões de Hawtrey uma linhagem que vem de
Cournot, Jevons e Edgeworth, com as quais Keynes se declara em desacordo.
O ponto de discórdia reside em que quando os preços relativos estão a
mudar não é praticável distinguir entre causas monetárias e não
monetárias que afectam essa mudança. Uma causa monetária era, segundo
Hawtrey, uma causa que tende a fazer com que todos os preços se movam do
mesmo modo, enquanto que uma causa não monetária provoca a mudança nos
custos reais. Para Keynes essas definições são incompreensíveis
porquanto existem causas que não são nem monetárias nem não monetárias
nessa definição. Para ser consistente, segundo Keynes, Hawtrey deveria
definir como causa monetária aquela que afecta todos os custos
monetários por igual e não todos os preços e, se tivesse feito isso,
surgiria necessariamente a ideia de que não existe algo que tende a
afectar todos os custos por igual, como sendo uma causa monetária por
excelência.
Um segundo aspecto de discordância, que não está directamente ligado ao
anterior, é o modo ideal de estabilizar o poder de compra da moeda, se
for tomado em termos de meios de consumo ou de custo do esforço humano.
Keynes diz " For my own part, I have come to not clear conclusion. I
believe that the idea of stabilising incomes is a fruitful one and bears
a great deal of thinking about; but I suspect that the choice between
the two standards ought not to be the same in all circumstances. I doubt
if I should come to the same conclusion in all sets of conditions. For
example, if we were to living in a age when real costs were increasing-the
opposite to an age of progress- I should be much more inclined to adopt
his conclusion than if I were living in a age of progress in which real
costs were diminishing ".
As críticas de Keynes ao standard em termos do esforço escolhido por
Hawtrey, delimitam-se em duas objecções. Primeiro, o standard não pode
ser o mesmo para diferentes países, porquanto os custos reais em cada
pais evoluem de modo diferente. Segundo, como o aumento dos preços reduz
a exigência dos rentiers e, portanto, o peso que as dívidas representam
no presente, a estabilização em termos de bens aumenta a exigência dos
rentier, aumentando a possibilidade da fricção social. Os receptores de
salários, argumenta Keynes, quando aumentam a sua eficiência, pretendem
benefícios mais na forma de salários superiores que na forma de preços
mais baixos, o que é uma questão puramente psicológica.."therefore, I am
somewhat of the opinion that social friction would be less if you allow
wages to rise slowly than if you insist on keeping wages steady and
reducing prices ".
A opção de Hawtrey em utilizar o `wholesale index` é paradoxal. Sendo
este uma aproximação do índex do consumo, esse índice não contribui para
a estabilização dos salários dos factores de produção, porquanto eles se
movem em direcções opostas. Assim, o índice de Hawtrey não dá uma
aproximação das mudanças nos custos reais. Mas para Keynes a
estabilização faz sentido mais no curto que no longo prazo, e no curto
prazo ambos métodos podem ser a mesma coisa. O importante é que os
partidários da estabilização actuem homogeneamente na escolha de um
método. Para Keynes era prioritária a estabilização, i.e., politicamente
mais relevante que a escolha do método, colocando-se na disposição de
renunciar à escolha do método a fim de que a política da estabilização
fosse adoptada.
Provavelmente, pelo grau de concordância acerca de necessidade de
políticas de estabilização, Keynes envia a Hawtrey, a partir de Abril de
1930, partes fundamentais do `Treatise`, começando por discutir
fundamentalmente com este o argumento de como uma mudança na taxa de
juro bancária influencia mudanças na taxa de juro em geral, problema que
Keynes discute no capítulo 37 do segundo volume, e posteriormente as
ilustrações históricas que Keynes utiliza no capítulo 30. Mas da
correspondência publicada no vol. XIII das JMKCW, que se estende de
Abril de 1930 a Junho de 1932, a discussão estende-se à obra no seu
conjunto, com incidência sobre os conceitos de consumo e capital
líquido, mas também sobre o processo inflacionário e os métodos de acção
do sistema bancário.
An passant, Keynes relata a Hawtrey numa carta de 18 de Julho de 1930,
as dificuldades que encontra em dissuadir Robertson e Pigou da diferença
entre excesso de acumulação e excesso de poupança que o levou a
reescrever o capítulo das equações fundamentais. Dessa correspondência
resulta evidente que o próprio Keynes ainda não tinha clara uma
definição sobre o conceito de gasto do consumidor(`consumer`s outlay`)
utilizado por Hawtrey, o que provavelmente implica que este estava
insatisfeito com a sua própria definição de consumo. Mas esta discussão
com certeza não influenciou modificações na publicação do `Treatise`
porquanto datam de Agosto de 1930, quando provavelmente o `Treatise`
estava já na tipografia , mas levará Keynes a reconsiderar a abordagem
do problema, logo após a saída do livro, i.e., a reconsiderar como dado
a determinação do volume do output.
Em 14 de Setembro de 1930 escreve à sua mãe " My dearest Mother, This
evening, at last, I have finished my book. It has occupied me seven
years off and on...Artistically it is failure- I have changed my mind
too much during the course of it for it to be a proper unity. But I
think it contains an abundance of ideas and material ". Keynes deve ter
enviado um exemplar a J. Schumpeter que responde desde Harvard " I do
not think that any scientific book has been looked for with so universal
an impatience-in our time at least-as yours is ".
Concluindo, Keynes propôs-se demonstrar no `Treatise` que o nível dos
preços do output dependem do nível dos rendimentos monetários
relativamente à eficiência do volume do investimento (medido em custos
de produção) relativamente à poupança e dos sentimentos `bearish` ou
`bullnish` dos capitalistas relativamente à oferta de depósitos de
poupança disponível no sistema bancário. Mesmo que estas dificuldades
fossem superadas e o próprio Keynes dedica- desde a sua óptica, o
capítulo 38 do segundo volume do seu `Treatise` à construção de
propostas sobre a regulação internacional, na linha que o tornaram o
co-autor dos acordos de Bretton Wood-, eleprevê ainda uma dificuldade: é
que este standard compromete o mundo a um tipo particular de standard de
valor que domina a norma de longo prazo.
É que um standard de valor de longo prazo pode ser escolhido entre três
tipos. O primeiro é o standard do poder de compra da moeda ou standard
do consumo; o segundo é o standard do rendimento, cujo ratio
relativamente ao standard consumo cresce em proporção a cada incremento
na eficiência dos factores de produção; o terceiro é uma versão do
padrão internacional, i.e., um standard baseado nos preços dos
principais bens que entram no comércio internacional, ponderados por
ordem de importância no comércio internacional, na prática não muito
diferente do standard a retalho das matérias primas.
Se o standard deve ser do mesmo tipo do dos outros países, é-se obrigado
a escolher o terceiro tipo de standard, porquanto os outros tem um
carácter nacional, i.e., eles movem-se de modo diferente em diferentes
países, pelo que o standard internacional deste tipo pode não ser um
standard ideal para cada pais individual.
2. Da Teoria Monetária da Produção á Teoria Geral.
As duas conferências "Easter Term 1932" de Keynes em Cambridge foram
intituladas " The Pure Theory of Money", e contaram com a presença, para
além dos seus alunos, de R.Kahn, P. Sraffa e J. Robinson, na qualidade
de espias, como relata Keynes a sua esposa Lydia .
A primeira conferência lida, a 25 de Abril de 1932, é uma incursão em
problemas terminológicos, conceitos económicos, dada a dificuldade que
existe de passar de uma terminologia dominantemente de longo prazo para
uma de curto prazo: " theoretical economics often has a formal
appearance where the reality is not strictly formal. It is not, and is
no mean to be, logically watertight in the sense in which mathematics.
It is a generalisation which lacks precise statement of the cases to
which the generalisations applies ". Esta frase revela simplesmente o
carácter introdutório desta conferência, a preparação da audiência para
uma exposição crítica e aberta ao criticismo, sempre que este se exerça
tomando em consideração que: "a definition can often be vague within
fairly wide limits and capable of several interpretations differing
slightly from one another, and still be perfectly serviceable and free
from serious risk of leading either the author or the reader into error,
provided that any of the alternative definitions will do so long as it
is used consistently within a given context .
A segunda conferência, de 2 de Maio, discute alguns conceitos tomando
como referência os usados no `Treatise`. Keynes esclarece: " The general
upshot of this and the previous chapter seems to be that the
fluctuations of output and employment for a given community over the
short period, within the ranges of fluctuations occur, depend almost
entirely on the amount of current investment- not indeed with logical
necessity but with a high degree of provability in practice. This goes
beyond the contention of my Treatise, where it was meant to depend on
the amount of investment relatively to Saving-which has the advantage of
logical necessity, apart from the results of temporary miscalculation or
of a policy which deliberately ignored considerations of profit".."This
less restricted generalisation is the result of taking account of the
provable effect on saving of a change in the amount of investment ".
Keynes parece inverter o raciocínio do `Treatise` no sentido de que dado
o existente nível de rendimento e a distribuição dos rendimentos para um
determinado nível de output, não existe uma mudança espontânea na
propensão a poupar. As mudanças na situação geral são frequentemente
iniciadas a partir de mudanças no investimento. É o investimento o
factor que gera a mudança de outros factores, embora.. " we cannot
deduce from observing changes in investment the exact amount of changes
in other factors, we can infer with a degree of provability approaching
to certain the direction of these other changes ". O grau de
generalidade que Keynes pretende dar a sua teoria está associada ao seu
método de aceitar as suas proposições com um grau de crença.
Em resultado desta conferência, Keynes recebeu um manifesto de R.Kahn e
J.Robinson, como resposta ao desafio de Keynes no sentido de encontrar
objecções aos pressupostos que provam que quando se incrementa o
investimento, o output também se incrementa. Como sublinham os autores
do manifesto, " our difficulty however is not so much that we doubt your
conclusion ( to which it would be difficult to object on ground of
common sense) as the method of formal logic which you pursued appears to
hedge it round with restrictions which detract unnecessary from
generality without increasing its plausibility .
Nesta segunda conferência Keynes argumentava que D E` e D O teriam o
mesmo signo, condição a) no manifesto, e que DE`-D F e D E` tê m o mesmo
signo, condição b) do manifesto, e desde que D I = D E`-D F, as mudanças
no nível do investimento(I), no ouput (O) e emprego estariam
positivamente correlacionados, i.e., que D I e D O tem o mesmo signo .
A primeira objecção no manifesto é uma objecção à condição b), i.e., que
D E`-D F e *E` têm o mesmo signo. Se as despesas em consumo se
incrementam mais rapidamente que o rendimento, então D E`- DF e DE` não
tem o mesmo signo, ao que Keynes aponta que existe no manifesto uma
confusão entre rendimento e receitas, i.e., nos custos primos (`prime
cost`). Kahn e Robinson sublinham que de facto o problema na condição b)
não é necessariamente demonstrar que I e O se movem juntos, mas de
assegurar que existe um equilíbrio estável. Se a despesa em consumo se
incrementasse mais rapidamente que o rendimento o equilíbrio seria
instável e que cada pequeno incremento de I poderia causar um
crescimento do output até o infinito ou até o ponto onde o incremento na
despesa de consumo e o incremento do rendimento tem efectivamente o
mesmo signo .
Na crítica à condição a) Kahn e Robinson argumentam que a prova de
Keynes entra em colapso se o incremento do output for acompanhado pela
queda do seu valor, o que sendo improvável de acontecer, se acontecer, o
incremento do output será acompanhado de uma queda dos preços, o que
aumenta o pressuposto de que I e O se movem juntos. Do ponto de vista
formal a prova está correcta e desde que a proposição b) esteja
preenchida, uma queda da proposição conduz ao fracasso da condição a). O
problema é que as condições são suficientes mas não necessárias, i.e.,
que a verdade da proposição de que um incremento em I indicia um
incremento em O precisa de ser provada necessariamente através do
`simple minded method` porque o método formal apenas o prova
suficientemente. Um incremento em I conduzirá de per se a um crescimento
na procura de bens de consumo, i.e., que a procura de bens de consumo
por parte dos produtores de bens de capital será incrementada quando o
valor do seu output se incrementa; as condições da oferta de bens de
consumo não são afectadas pela mudança de I.
Quando estas condições se cumprirem, um incremento de I conduzirá a um
incremento na curva de procura de bens de consumo sem aumentar a curva
de oferta, e portanto conduzirá a um incremento do output de bens de
consumo e a fortiori a um incremento no output total. Se estas condições
não se cumprirem é possível que o output se possa incrementar. Se a) não
se cumpre não existe incremento em R ( produção de bens de consumo), mas
existe um incremento em C( produção de bens de capital ou investimento),
excepto quando D I resulta de D P`, e a menos que exista uma redução de
R, o output é incrementado. É apenas quando um incremento em I gerar um
crescimento suficiente na curva de oferta dos bens de consumo que este
output diminuirá, e que este crescimento será ainda maior se o declínio
em R compensar o incremento de C. Um crescimento dos custos de produção
é certamente acompanhado de um crescimento na procura de bens de consumo
da parte dos factores de produção que são responsáveis pelo crescimento
dos custos, embora sublinhem os autores do manifesto:" It may be
concluded therefore that it is extraordinary unlikely that an increase
in investment should ever fail to increase output ". Esta discussão que
segue em cartas e notas apenas serve como exemplo para três coisas:
primeiro, que Keynes se encontra no caminho da elaboração da teoria da
procura efectiva ainda com um substrato teórico similar ao `Treatise`;
segundo, que na elaboração dessa teoria embora manifeste abertura ao
criticismo exterior está convencido que o seu caminho está certo como o
próprio escreve a Joan Robinson: " Finally there is the question which
is the best of two alternative exegetical methods. Here I open to
conviction. But to be convinced I should need to see the whole theory
worked out your way, and then compare it with what I am able to say in
my language. I am not so familiar with your way as with my own. But my
present belief is that in general, and apart possibly of handling of
certain special problems, your way would be much more difficult and
cumbersome. At any rate I lack at present sufficient evidence to the
contrary to induce me to scrap all my present half-forget
weapons;-though that is no reason why you should not go on constructing
your own" . Terceiro, a proposição de que uma mudança no gasto causará
uma mudança no output na mesma direcção era controversa e existiam
pontos de vista contrários, de que um aumento do consumo causaria uma
queda do output, como resulta das lembranças de J.Robinson sobre a
exposição de Hayek do seu livro "Prices and Production" na Marshall
Society em Cambridge: " I very much remember Hayek`s visit to Cambridge
on his way to the London School. He expounded his theory and covered a
blackboard with his triangles. The whole argument, as we could see
later, consisted in confusing the current rate of investment with the
total stock of capital goods, but we could not make it out at the time.
The general tendency seemed to be to show that the slump was caused by
consumption. R. F. Kahn, who was at that time involved in explaining
that the multiplier guaranteed that saving equals investment, asked in a
puzzled tone,`Is it your view that if I went out tomorrow and bought a
new overcoat, that would increase unemployment?` `Yes`, said Hayek. `But
pointing to his triangles on the board, `it would take a very long
mathematical argument to explain why` "
Keynes movia-se no sentido de estudar a relação entre os níveis de
investimento e lucros, investigando as possibilidades de que um
incremento do investimento cause o crescimento dos custos de produção na
indústria de bens de consumo e de capital( principalmente na indústria
de consumo); se o investimento e os lucros não se movessem no mesmo
sentido, a estabilidade das relações entre investimento e quase-rentas
seria colocada em dúvida, se aumentasse o investimento mas crescessem os
custos de produção, a expansão seria colocada em questão. Como argumenta
Rymes os autores do manifesto não perceberam a questão dinâmica de como
um movimento no nível do output está associado com movimentos nos custos
de produção " that is, shift in supply curves rather than movement along
them ".
A evolução do pensamento de Keynes espelha-se nos esquemas e diferentes
`draft` sobreviventes correspondentes a esse esquemas. Um dos primeiros
esquemas que sobrevivem neste período tem por título a teoria monetária
da produção, que apresenta uma divisão em quatro livros com uma
introdução. O livro I trata da interrelação entre o investimento, a
despesa, o lucro e o output, dividido em sete capítulos. O livro II
dedica-se à taxa de juro, o livro III à determinação do preço, dividido
em 4 capítulos; o livro IV refere-se ao controlo da taxa de despesa .
Num esquema similar que apresenta posteriormente aparece agora o livro
segundo com o título "The Monetary Theory of Production", com os mesmo
capítulos e conteúdos que o esquema anterior. No livro III sobre a
determinação do preço aparece um capítulo dedicado à preferência pela
liquidez, e o livro IV muda para o controlo da produção através da taxa
de despesa, indiciando os capítulos uma dedicação aos assuntos de
política económica. Embora em ambos os esquemas apareça um capítulo
dedicado à relação entre o investimento e o comércio exterior, nenhuma
alusão é feita ao conceito de procura efectiva. Numas notas escritas
antes destes esquemas aparecem os temas Mercantilismo e Proteccionismo.
No primeiro dos esquemas de 1933 , Keynes mantém o título dos esquemas
de 1932, dedicando o primeiro capítulo do livro I, agora sem título, à
natureza e significado da teoria de uma economia monetária, sendo o
resto dos capítulos dedicados a definições, à poupança. O livro dois
engloba a teoria da taxa de juro, mantém o capítulo da preferência pela
liquidez e agrega um capítulo sobre os factores que governam o
investimento, com o que vislumbra a construção de um capítulo sobre o
ciclo económico. O livro terceiro dedicaria Keynes ao emprego e aos
salários, à influência da distribuição do rendimento, à influência das
mudanças do investimento sobre o emprego e à teoria dos preços.
Num segundo esquema o título do livro muda para "The General Theory of
Employment"; o capítulo primeiro muda para o significado e o contraste
entre uma economia cooperativa e uma economia empresarial, agrega um
segundo capítulo sobre as características da economia empresarial,
adiciona um capítulo que denomina `Fundamental Equations` e outro sobre
definições e ideias relacionadas com o capital .
No esquema de Dezembro de 1933 existe uma tábua de conteúdos completa. A
teoria do Emprego é dividida em seis livros. O livro 1 dedicado a
relação entre a teoria geral da economia com a teoria clássica, divide
em 3 capítulos, sendo o capítulo 1 os postulados da teoria clássica, o
capítulo dois as distinções entre uma economia cooperativa e uma
empresarial e, o terceiro capítulo, as características da economia
empresarial. O livro dois apresentaria os conceitos fundamentais da
Teoria Geral, subdivididos em quatro capítulos independentes:
quase-rendas, rendimento, despesa e poupança. O livro 3, o mais extenso,
é dedicado ao emprego como função dos motivos à despesa e ao
investimento, englobando os motivos ao investimento e à despesa, a
teoria do juro, a preferência pela liquidez como factor determinante da
taxa de juro, a natureza do capital, as condições de estabilidade, a
teoria geral do emprego, e duas excursões: uma sobre a taxa de juro em
Marshall, e uma outra sobre a eficiência marginal do capital. No livro
IV reaparece a teoria dos preços, com cinco capítulos: a função oferta;
o multiplicador; salários reais e monetários; a equação dos preços e;
poupança forçada, entesouramento e a velocidade da moeda. No livro V com
o título `Sundry Observation`, aparecem a taxa de juro em casos
extremos, notas no ciclo do comércio e, notas na história de `cognate
ideas`.
No esquema de meados de 1934 o livro de Keynes recebe o nome de " The
General Theory of Employment, Interest and Money" . O livro I aparece
como na versão final da Teoria Geral, os postulados da economia clássica
e o princípio da procura efectiva. No livro dois, definições e ideias,
existe um capítulo sobre as expectativas e outro sobre as expectativas
de longo prazo; os diferentes capítulos antecipam com diferentes nomes o
conteúdo do livro dois e três e parte do quatro da versão final, mas
desaparece qualquer menção à eficiência marginal do capital,
provavelmente diluída no capítulo sobre propensão a investir, expressão
que como sabemos Keynes não utiliza na sua versão final. O livro III, a
teoria da taxa de investimento, dedica-se à teoria da taxa de juro, à
preferência pela liquidez, à taxa de juro em casos especiais e, a
considerações filosóficas sobra as propriedades essenciais do capital,
do juro e da moeda. O livro IV, contém os conteúdos do livro V da Teoria
Geral, embora apareçam misturados conteúdos de livros anteriores, como
por exemplo, o equilíbrio do consumo e o investimento, o multiplicador
relacionando emprego e investimento, que são tratados posteriormente no
capítulo 10 e no capítulo 18 da versão final. O último livro,
apresenta-se dividido em quatro capítulos: notas no ciclo do comércio;
notas sobre o mercantilismo, a balança de pagamentos e o investimento
estrangeiro; uma economia individualista capaz de prover o pleno
emprego, e notas na história de ideias similares. Resulta claro que
estes dois capítulos foram refundidos no capítulo final da versão de
1936.
Em Junho de 1935 , a `table of contents`, cobre mais ou menos
exactamente o conteúdo da versão final. Da cópia enviada a R.Harrod,
apenas faltam os 4 capítulos do livro VI, que ainda mantem a estrutura
do anterior esquema. O livro I, submetido ainda a revisões, contém a
estrutura final; o livro II, definições e ideias, apresenta a cobertura
do conteúdo da Teoria Geral, com modificações na estrutura dos
capítulos, passando de 12 na anterior versão para 9, onde alguns
capítulos desaparecem, outros são desviados para outros livros, como o
capítulo dedicado às expectativas de longo prazo, que aparece como
capítulo 13, no livro IV; o livro III, é dedicado agora exclusivamente à
propensão ao consumo, em dois capítulos e não três como na Teoria Geral,
onde a relação propensão ao consumo com o multiplicador faz parte do
capítulo 22 no livro V. O livro IV, a propensão ao investimento, e não o
incentivo ao investimento como na Teoria Geral, integra exactamente oito
capítulos, embora o capítulo `The General Theory of Employment` seja
integrado no capítulo 20, enquadrado, porém, no livro V, com o nome `The
Equilibrium of the Economic System`. O livro V, com capítulos que na
versão final são deslocados para livros anteriores, como já referimos, é
exactamente igual à versão final, embora apresentados numa ordem
diferente. O capítulo das mudanças nos salários vem posteriormente ao
capítulo sobre a função do emprego e não aparece qualquer apêndice sobre
a teoria de desemprego de A.Pigou.
Pela correspondência com R. Harrod , sabemos que Keynes, esteve a
re-escrever os primeiros 7 capítulos e o último livro no Verão de 1935.
O mesmo podemos retirar da correspondência com J.Robinson. Numa carta de
Setembro de 1935 Keynes escreve.." I have been occupied for several
weeks in somewhat re-writing Book I and completely re-writing Book II. I
the case of Book II practically not a word of the version you have read
has been left standing ". Faltava ainda os últimos capítulos do livro
VI, os que Keynes submeteu a Harrod, que objectou fortemente a tentativa
de no capítulo 26 glorificar imbecis; obviamente Harrod referia-se aos
mercantilistas. Este comentário contido na carta citada a J. Robinson,
sugere que nesse período Keynes estava a ultimar a Teoria Geral,
procedendo a mudanças no livro VI, o que de facto veio a acontecer,
bastando comparar os últimos dois esquemas com a versão final, onde
Keynes refunda os quatro capítulos originalmente previstos para os três
da versão final. Em Agosto de 1935 Keynes escreve a sua mãe.. " I began
the last chapter of my book this morning ". Em Dezembro desse ano
escreve " I finished my book on Tuesday-it has taken five years "; em
Janeiro escreve " My book is out of my hand and will be published on
Feb.4 ". O prefácio da Teoria Geral está, porém, datado de 13 de
Dezembro, tendo-o acabado Keynes na terça feira dia 23 de Dezembro de
1935. A primeira carta registada que Keynes recebe sobre a Teoria Geral
data de 15 de Abril de 1936, do seu colega de Cambridge G.F. Shove , e o
primeiro artigo de seis páginas, " Mr Keynes on Employment and Output"
aparece no volume 7(1) da The Manchester School . Nos `draft` do
capítulo 7, " The Monetary Theory of production", e o capítulo 8 " The
Instability of Profit-Seeking Organisations of Production ", Keynes
discute o caso de um decréscimo do investimento associado com uma queda
das quasi-rendas. É devido às condições dos custos, que chama de
salários de eficiência, que surge o problema da instabilidade. No
`draft` do capítulo 9 `The effects of Changes in the Rate of Earning`,
Keynes partindo duma situação de declínio no investimento associado com
uma queda dos salários monetários, lança a pergunta sobre se esse
declínio trava o declínio nos lucros do output associado com uma redução
do investimento, concluindo " on the balance of considerations, that
there is no presumtion that all around reduction in variable cost of
production will prove favourable to the volume of employment ". Esta
afirmação tinha Keynes produzido nas discussões sobre política
económica, sem a conseguir demostrar teoricamente.
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