Introdução
Com a definição da eficiência marginal do capital, Keynes demarca-se da
visão estática da economia clássica, incorporando o futuro na avaliação
do investimento. Keynes utiliza uma definição de investimento que realça
a relação em termos de expectativas dos rendimentos prováveis e do
conhecimento do preço de oferta corrente do bem capital. Deste modo
distancia-se dos conceitos de produtividade marginal do capital e de
taxa natural de juro. Iremos discutir aqui primeiro rigorosamente o
conceito que Keynes utiliza e não o que geralmente e-lhe atribuído em
termo de taxa de retorno, segundo, o modo como são introduzidas as
expectativas no conceito de eficiência marginal do capital, terceiro, a
diferencia entre risco e incerteza na determinação do investimento e por
último o modo como os empresários avaliam a incerteza na determinação do
investimento.
1. A eficiência marginal do capital
Keynes define a eficiência marginal do capital, como a relação entre o
rendimento provável de um bem capital e o seu preço de oferta ou
reposição, i. e. a relação entre o rendimento provável de mais uma
unidade dessa classe de capital e o custo da respectiva produção.
Calcula-se a taxa de rendimento que se espera obter do dinheiro
investido num bem apenas produzido e não dos rendimentos históricos que
um bem tem rendido sobre o seu custo original[i].
Utilizando um raciocínio muito clássico, Keynes considera que, de acordo
com o princípio dos rendimentos decrescentes, a eficiência marginal do
capital virá a reduzir-se consoante o aumento do investimento. Em parte
porque o rendimento provável irá baixar, se a sua oferta aumentar, e, em
parte porque a pressão para produzir esse tipo de capital fará com que o
seu preço de oferta seja maior.
No curto prazo, a influência do preço de oferta predomina sobre a
diminuição dos rendimentos. Quanto maior o período a considerar, maior
será a influência do segundo factor. Assim, para cada classe de capital
pode traçar-se uma curva que mostra em que proporção terão de aumentar
os investimentos durante esse período, de modo a que a eficiência
marginal do capital baixe até à cifra envolvida:
“ Thus for each type of capital we can build up a schedule, showing by
how much investment in it will have to increase within the period, in
order that its marginal efficiency should fall to any given figure. We
can aggregate these schedules for all the different types of capital,
so as to provide a schedule relating the aggregate investment to the
corresponding marginal efficiency of capital in general which the rate
will establish. We shall call this the investment demand-schedule; or,
alternatively, the schedule of the marginal efficiency of capital”[ii].
Resultará evidente, que a taxa real de investimento corrente será puxada
até o ponto em que a eficiência marginal do capital não exceda a taxa
corrente de juros para as diferentes formas de capital. Sendo Qr o
rendimento provável de um activo no tempo r, e d é o valor presente de
uma unidade monetária ao prazo de t anos, descontada a taxa corrente de
juro. O somatório Qtdt será o preço de procura do investimento, que será
levado a ser igual ao preço de oferta de investimento. Se Qr dr for
menor que o preço de oferta, não existirá investimento no bem de
capital.
A inexactidão tradicional consiste em considerar a eficiência marginal
do capital em termos do rendimento corrente do equipamento de produção,
o que apenas seria correcto numa situação estática em que não existissem
mudanças futuras que influenciassem o presente. A curva de eficiência
marginal do capital é de fundamental importância, porque as expectativas
do futuro influenciam o presente através deste factor, mais do que
através da taxa de juro.
Se a eficiência marginal do capital fosse reduzida ao estatuto da taxa
da juro, que é um fenómeno corrente, fechar-se-ia a possibilidade de
considerar a influência do futuro na análise do equilíbrio presente. A
restituição dessa possibilidade faz-se considerando o modo como as
expectativas do futuro afectam o presente, através dos preços da procura
do equipamento duradouro:
“It is therefore, consonant with, and agreeable to, our broad principles
of though, that expectations of the future should affect the present
through the demand price for durable equipment”[iii].
Keynes clarifica, assim, que a decisão sobre a taxa de investimento
depende da relação que existe entre a curva de eficiência marginal do
capital e a taxa de juro correspondente a diversas escalas do
investimento corrente. Como a eficiência marginal do capital mede a
relação dos rendimentos esperados de um bem de capital actual com o
preço de oferta ou reposição desse bem de capital, é necessário
investigar mais profundamente os factores esperados futuros que
modificam essa relação presente, i.e. os factores que influenciam as
decisões dos empresários no sentido de ampliar ou reduzir a produção .
2. A eficiência marginal do capital e as expectativas dos empresários
A integração das expectativas é vital, como percepção por parte dos
empresários sobre os acontecimentos futuros do funcionamento
económico[iv]. Se considerarmos o efeito da expectativa de descida do
custo previsto de um equipamento sobre a eficiência marginal do
capital, sejam as expectativas produzidas por modificações no custo do
trabalho, por modificações na unidade de salários, ou por efeito da
evolução tecnológica, a produção resultante do equipamento actual terá
que concorrer com a produção obtida com um equipamento de menor custo,
a qual poderá vender os bens mais baratos. Os lucros provenientes das
vendas do equipamento novo e antigo reduzir-se-ão, se toda a produção se
tornar mais barata, pelo que a eficiência marginal descerá:
“ (...) in so far as much development are foreseen as probable, or even
as possible, the marginal efficiency of capital produced today is
appropriately diminished”[v].
A expectativa de uma descida no preço do dinheiro estimula o
investimento e, por consequência o preço do dinheiro influencia o nível
do emprego, porque eleva a curva de eficiência marginal do capital,
deslocando a curva de procura de investimentos à alta. Pelo contrário,
uma subida no valor do dinheiro implica uma descida da curva de
eficiência marginal do capital [vi].
A importância de tais alterações nas expectativas deriva dos efeitos que
estas mutações provocam sobre o desejo de produzir novos bens. Um efeito
estimulante de preços maiores nas expectativas, não é devido à
diminuição da taxa de juros, mas sim ao facto de que se eleva a eficácia
marginal de um volume dado de capital.
Se a taxa de juro se elevar pari passu à previsão de aumentos dos
preços, não existirão efeitos estimulantes sobre a produção de novos
bens de capital, porque o incentivo para a produção dependerá de um
aumento da eficiência marginal do capital relativamente à taxa de juro,
pelo que o efeito estimulante de expectativas de preços maiores apenas
fará sentido se a eficiência marginal do capital aumentar, e não porque
uma variação antecipada no valor do dinheiro modifique a taxa de juro
monetária, pois nesse caso a taxa de juro subiria, mantendo a situação
inalterada:
“If the rate of interest were to rise pari passu with the marginal
efficiency of capital, there would be no stimulating effect from the
expectations of rising prices”[vii].
A expectativa de uma descida da taxa de juro, pode fazer baixar a
eficiência marginal do capital, se a produção resultante do equipamento
actual for concorrer com o equipamento novo, o qual requer uma
recompensa menor. Esta hipótese só será valida se a procura estiver a
descer para esse tipo de bem.
É importante entender a dependência entre a eficiência marginal do
capital de um volume determinado de capital e as expectativas, pois é
essa dependência que faz com que a eficiência marginal do capital fique
sujeita a certas flutuações violentas que explicam o ciclo económico, na
medida em que o auge e a depressão podem ser descritos como flutuações
da eficiência marginal do capital relativamente à taxa de juro[viii].
3. A eficiência marginal do capital e o risco
Dois tipos de riscos afectam o volume do investimento. O primeiro é o
risco do empresário ou detentor efectivo do dinheiro, perante a
possibilidade de obter realmente rendimentos prováveis esperados. O
segundo tipo de risco, num sistema de crédito, é o risco do prestamista,
pois se as expectativas do empresário não se verificam quando pede
dinheiro em empréstimo, este não cumprirá as obrigações contraídas. Uma
terceira causa, não mencionada como risco, mas que afecta o investimento,
são as mudanças no padrão monetário, que faz dos empréstimos em dinheiro
um risco adverso, diminuindo a segurança, pela eventual depreciação dos
activos reais, embora estas mudanças possam reflectir-se na alteração
dos preços dos bens reais duradouros.
O primeiro dos riscos, como custo social real, diminui na média social,
ou quando aumenta a exactidão das previsões e da informação. O segundo é
uma adição ao custo do investimento, inexistente quando o prestamista e
empresário coincidem. O risco duplica-se pois o empresário agrega ao
tipo de juro, o suficiente para obter um rendimento mínimo provável,
que o induzirá a investir. Este risco leva a aumentar a margem entre as
expectativas relativamente aos rendimentos e a taxa de juro à qual se
pretende contrair uma dívida. Por isso mesmo, as relações de força entre
o empresário e o prestamista determinarão essa margem de segurança. A
apreciação desse risco dependerá do nível da actividade económica.
4. As expectativas contraditórias dos investidores e produtores e o
nível do emprego
As expectativas são o modo como os agentes económicos interrelacionam o
presente com o futuro. Sendo a economia capitalista uma economia de
mercado, em que a produção é intertemporal - não apenas porque a
produção leva tempo, mas sobretudo porque o investimento em bens de
capital reflecte necessidades futuras de consumo - as expectativas de
todos os agentes, mas sobretudo de empresários e investidores, são de
vital importância para o emprego.
Por outro lado, as expectativas são a forma como as previsões sobre o
futuro incidem sobre as decisões dos agentes económicos; nesse sentido,
as expectativas dependem do modo como as previsões sobre os negócios
incidem sobre essas decisões e do modo como elas se realizam.
Mas as expectativas exercem uma influênca recíproca sobre as previsões
não apenas objectivamente, pela qualidade da informação, mas também
psicologicamente, pela relevância da informação. Como existem dois tipos
de decisões básicas dos agentes encarregues do investimento, a decisão
de produzir com um determinado equipamento e a decisão de adicionar
equipamento ao existente, as expectativas serão de curto prazo, na
medida em que influenciam a produção corrente, ou serão expectativas de
longo prazo, que influenciam a produção futura, embora seja evidente que
existem decisões na base de expectativas de longo prazo que levam a
modificar as decisões de produzir no presente, pelo que a linha
divisória entre os dois tipos de expectativas é difícil de traçar.
Um empresário que decida produzir um determinado bem ou ampliar a
produção desse tipo de bem, deverá considerar não apenas os rendimentos
presentes da utilização de um determinado equipamento, mas sobretudo os
rendimentos futuros.
No presente, a produção de um bem deve considerar os custos de produção
para uma determinada procura, tomando em conta várias escalas possíveis
de produção, assim como o valor das vendas a realizar, e considerando a
elasticidade da procura. As expectativas reflectem essas previsões na
perspectiva de que a situação manter-se-á como dantes. Por isso o volume
de produção e de emprego actual depende dessas expectativas. A
realização da produção e das vendas originará um processo de revisão ou
confirmação das expectativas que levará a novas previsões.
A formação das expectativas depende da efectivação da informação
considerada relevante, pelo que a produção e o emprego serão
influenciados subsequentemente. As expectativas que levaram a comprar
um determinado equipamento ou à formação de existências, podem não
influenciar directamente a formação de novas expectativas sobre o volume
de produção a realizar e não terão consequências sobre o emprego.Assim,
Keynes acredita que:
“(...) on each and every occasion of such decision, the decision will be
made, with reference indeed to this equipment and stock, but in the
light of the current expectations of prospective costs and sale-proceeds”[ix].
O que quer dizer que não será das expectativas actuais que resultará
uma mudança no volume de emprego, mas será da mudança das expectativas
de longo prazo que resultarão variações no emprego. Assim, as variações
de expectativas de curto prazo não tornam as mudanças no emprego
violentas ou rápidas, estas influenciam gradualmente a produção e o
emprego. Assim se explica a lentidão das mudanças no volume de emprego,
em situações de depressão ou de recuperação, pelo que, para cada estado
das expectativas, existirá sempre um nível variável da produção e do
emprego. No entanto:
“(...) a mere change in expectations is capable of producing an
oscillation of the same kind of shape as a cyclical movement, in the
course of working itself out.. But the actual course of events is more
complicated still. For the state of expectation being superimposed long
before the previous change has fully worked itself out”[x].
O nível do emprego depende, em cada momento e situação, não apenas do
estado actual das expectativas, mas também das expectativas passadas,
na medida em que estas se reflectem na existência de um volume e
qualidade do equipamento actual[xi]:
“(...) so that the economic machine is occupied at any given time with a
number of overlapping activities, the existence of which is due to
various past states of expectations”[xii].
O processo de formação das expectativas de curto prazo é gradual e
contínuo, e a sua realização depende quase exclusivamente dos resultados
obtidos. Alias, é sensato que os produtores determinem as suas decisões
de produzir na base de expectativas de curto prazo, quando não se
esperam grandes mudanças que alterem as previsões sobre os rendimentos
futuros e sobre os custos dos factores, nem originem antecipações não
esperadas.
Outro é o caso quando se trata de bens de equipamento, os quais serão
produzidos, seja quando a procura aumenta, o que implica antecipar
rendimentos maiores esperados, seja pelo aumento do rendimento por
unidade de output, seja por aumento do emprego. Neste caso, as
expectativas dos produtores baseiam-se nas expectativas de longo prazo
dos investidores, as quais pela sua própria natureza não podem ser
obtidas com a lucidez de um determinado resultado, para além de que as
expectativas de longo prazo podem ser revistas imprevistamente[xiii].
Posto isto, há que considerar mais em detalhe o estado das expectativas
de longo prazo, as quais são vitais numa economia monetária em que as
decisões do produtor e do investidor são de natureza diversa e por vezes
antinómica, sobretudo se os objectivos a alcançar forem diferentes e
contraditórios.
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Departamento de Economia, Instituto Superior de Economia e Gestão, Universidade Técnica de Lisboa
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