RESUMO
A avaliação é parte integrante do processo ensino/aprendizagem e ganhou
na atualidade espaço muito amplo nos processos de ensino. Requer preparo
técnico e grande capacidade de observação dos profissionais envolvidos.
Segundo Perrenoud (1999), a avaliação da aprendizagem, no novo
paradigma, é um processo mediador na construção do currículo e se
encontra intimamente relacionada à gestão da aprendizagem dos alunos. Na
avaliação da aprendizagem, o professor não deve permitir que os
resultados das provas periódicas, geralmente de caráter classificatório,
sejam supervalorizados em detrimento de suas observações diárias, de
caráter diagnóstico. O professor, que trabalha numa dinâmica interativa,
tem noção, ao longo de todo o ano, da participação e produtividade de
cada aluno. É preciso deixar claro que a prova é somente uma formalidade
do sistema escolar. Como, em geral, a avaliação formal é datada e
obrigatória, deve-se ter inúmeros cuidados em sua elaboração e
aplicação.
1 . INTRODUÇÃO
A avaliação, tal como concebida e vivenciada na maioria das escolas
brasileiras, tem se constituído no principal mecanismo de sustentação da
lógica de organização do trabalho escolar e, portanto, legitimador do
fracasso, ocupando mesmo o papel central nas relações que estabelecem
entre si os profissionais da educação, alunos e pais.
Os métodos de avaliação ocupam, sem duvida espaço relevante no conjunto
das práticas pedagógicas aplicadas ao processo de ensino e aprendizagem.
Avaliar, neste contexto, não se resume à mecânica do conceito formal e
estatístico; não é simplesmente atribuir notas, obrigatórias à decisão
de avanço ou retenção em determinadas disciplinas.
Neste sentido, Souza (1993) diz que a finalidade da avaliação, de acordo
com a quarta geração, é fornecer, sobre o processo pedagógico,
informações que permitam aos agentes escolares decidir sobre as
intervenções e redirecionamentos que se fizerem necessários em face do
projeto educativo, definido coletivamente, e comprometido com a garantia
da aprendizagem do aluno. Converte-se, então, em um instrumento
referencial e de apoio às definições de natureza pedagógica,
administrativa e estrutural, que se concretiza por meio de relações
partilhadas e cooperativas.
4 – FUNÇÕES DO PROCESSO AVALIATIVO
As funções da avaliação são: de diagnóstico, de verificação e de
apreciação.
4.1 – Função diagnóstica - A primeira abordagem, de acordo com Miras e
Solé (1996, p. 381), contemplada pela avaliação diagnóstica (ou
inicial), é a que proporciona informações acerca das capacidades do
aluno antes de iniciar um processo de ensino/aprendizagem, ou ainda,
segundo Bloom, Hastings e Madaus (1975), busca a determinação da
presença ou ausência de habilidades e pré-requisitos, bem como a
identificação das causas de repetidas dificuldades na aprendizagem.
A avaliação diagnóstica pretende averiguar a posição do aluno face a
novas aprendizagens que lhe vão ser propostas e a aprendizagens
anteriores que servem de base àquelas, no sentido de obviar as
dificuldades futuras e, em certos casos, de resolver situações
presentes.
4.2 – Função formativa - A segunda função á a avaliação formativa que,
conforme Haydt (1995, p. 17), permite constatar se os alunos estão, de
fato, atingindo os objetivos pretendidos, verificando a compatibilidade
entre tais objetivos e os resultados efetivamente alcançados durante o
desenvolvimento das atividades propostas. Representa o principal meio
através do qual o estudante passa a conhecer seus erros e acertos,
assim, maior estímulo para um estudo sistemático dos conteúdos. Outro
aspecto destacado pela autora é o da orientação fornecida por este tipo
de avaliação, tanto ao estudo do aluno como ao trabalho do professor,
principalmente através de mecanismos de feedback. Estes mecanismos
permitem que o professor detecte e identifique deficiências na forma de
ensinar, possibilitando reformulações no seu trabalho didático, visando
aperfeiçoa-lo. Para Bloom, Hastings e Madaus (1975), a avaliação
formativa visa informar o professor e o aluno sobre o rendimento da
aprendizagem no decorrer das atividades escolares e a localização das
deficiências na organização do ensino para possibilitar correção e
recuperação.
A avaliação formativa pretende determinar a posição do aluno ao longo de
uma unidade de ensino, no sentido de identificar dificuldades e de lhes
dar solução.
4.3 – Função somativa – Tem como objetivo, segundo Miras e Solé (1996,
p. 378) determinar o grau de domínio do aluno em uma área de
aprendizagem, o que permite outorgar uma qualificação que, por sua vez,
pode ser utilizada como um sinal de credibilidade da aprendizagem
realizada. Pode ser chamada também de função creditativa. Também tem o
propósito de classificar os alunos ao final de um período de
aprendizagem, de acordo com os níveis de aproveitamento.
A avaliação somativa pretende ajuizar do progresso realizado pelo aluno
no final de uma unidade de aprendizagem, no sentido de aferir resultados
já colhidos por avaliações do tipo formativa e obter indicadores que
permitem aperfeiçoar o processo de ensino. Corresponde a um balanço
final, a uma visão de conjunto relativamente a um todo sobre o qual, até
aí, só haviam sido feitos juízos parcelares.
5 – OBJETIVOS DA AVALIAÇÃO
Na visão de Miras e Solé (1996, p. 375), os objetivos da avaliação são
traçados em torno de duas possibilidades: emissão de “um juízo sobre uma
pessoa, um fenômeno, uma situação ou um objeto, em função de distintos
critérios”, e “obtenção de informações úteis para tomar alguma decisão”.
Para Nérici (1977), a avaliação é uma etapa de um procedimento maior que
incluiria uma verificação prévia. A avaliação, para este autor, é o
processo de ajuizamento, apreciação, julgamento ou valorização do que o
educando revelou ter aprendido durante um período de estudo ou de
desenvolvimento do processo ensino/aprendizagem.
Segundo Bloom, Hastings e Madaus (1975), a avaliação pode ser
considerada como um método de adquirir e processar evidências
necessárias para melhorar o ensino e a aprendizagem, incluindo uma
grande variedade de evidências que vão além do exame usual de ‘papel e
lápis’. É ainda um auxílio para classificar os objetivos significativos
e as metas educacionais, um processo para determinar em que medida os
alunos estão se desenvolvendo dos modos desejados, um sistema de
controle da qualidade, pelo qual pode ser determinada etapa por etapa do
processo ensino/aprendizagem, a efetividade ou não do processo e, em
caso negativo, que mudança devem ser feitas para garantir sua
efetividade.
6 – MODELO TRADICIONAL DE AVALIAÇÃO VERSUS MODELO MAIS ADEQUADO
Gadotti (1990) diz que a avaliação é essencial à educação, inerente e
indissociável enquanto concebida como problematização, questionamento,
reflexão, sobre a ação.
Entende-se que a avaliação não pode morrer. Ela se faz necessária para
que possamos refletir, questionar e transformar nossas ações.
O mito da avaliação é decorrente de sua caminhada histórica, sendo que
seus fantasmas ainda se apresentam como forma de controle e de
autoritarismo por diversas gerações. Acreditar em um processo avaliativo
mais eficaz é o mesmo que cumprir sua função didático-pedagógica de
auxiliar e melhorar o ensino/aprendizagem.
A forma como se avalia, segundo Luckesi (2002), é crucial para a
concretização do projeto educacional. É ela que sinaliza aos alunos o
que o professor e a escola valorizam. O autor, na tabela 1, traça uma
comparação entre a concepção tradicional de avaliação com uma mais
adequada a objetivos contemporâneos, relacionando-as com as implicações
de sua adoção.
Tabela 1 – Comparação entre a concepção tradicional de avaliação com uma
mais adequada
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Modelo tradicional de avaliação |
Modelo adequado |
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Foco na promoção – o alvo dos alunos é a promoção. Nas primeiras aulas, se discutem as regras e os modos pelos quais as notas serão obtidas para a promoção de uma série para outra. Implicação – as notas vão sendo observadas e registradas. Não importa como elas foram obtidas, nem por qual processo o aluno passou. |
Foco na aprendizagem - o alvo do aluno deve ser a aprendizagem e o que de proveitoso e prazeroso dela obtém. Implicação - neste contexto, a avaliação deve ser um auxílio para se saber quais objetivos foram atingidos, quais ainda faltam e quais as interferências do professor que podem ajudar o aluno. |
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Foco nas provas - são utilizadas como objeto de pressão psicológica, sob pretexto de serem um 'elemento motivador da aprendizagem', seguindo ainda a sugestão de Comenius em sua Didática Magna criada no século XVII. É comum ver professores utilizando ameaças como "Estudem! Caso contrário, vocês poderão se dar mal no dia da prova!" ou "Fiquem quietos! Prestem atenção! O dia da prova vem aí e vocês verão o que vai acontecer..." Implicação - as provas são utilizadas como um fator negativo de motivação. Os alunos estudam pela ameaça da prova, não pelo que a aprendizagem pode lhes trazer de proveitoso e prazeroso. Estimula o desenvolvimento da submissão e de hábitos de comportamento físico tenso (estresse). |
Foco nas competências - o desenvolvimento das competências previstas no projeto educacional devem ser a meta em comum dos professores. Implicação - a avaliação deixa de ser somente um objeto de certificação da consecução de objetivos, mas também se torna necessária como instrumento de diagnóstico e acompanhamento do processo de aprendizagem. Neste ponto, modelos que indicam passos para a progressão na aprendizagem, como a Taxionomia dos Objetivos Educacionais de Benjamin Bloom, auxiliam muito a prática da avaliação e a orientação dos alunos. |
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Os estabelecimentos de ensino estão centrados nos resultados das provas e exames - eles se preocupam com as notas que demonstram o quadro global dos alunos, para a promoção ou reprovação. Implicação - o processo educativo permanece oculto. A leitura das médias tende a ser ingênua (não se buscam os reais motivos para discrepâncias em determinadas disciplinas). |
Estabelecimentos de ensino centrados na qualidade - os estabelecimentos de ensino devem preocupar-se com o presente e o futuro do aluno, especialmente com relação à sua inclusão social (percepção do mundo, criatividade, empregabilidade, interação, posicionamento, criticidade). Implicação - o foco da escola passa a ser o resultado de seu ensino para o aluno e não mais a média do aluno na escola. |
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O sistema social se contenta com as notas - as notas são suficientes para os quadros estatísticos. Resultados dentro da normalidade são bem vistos, não importando a qualidade e os parâmetros para sua obtenção (salvo nos casos de exames como o ENEM que, de certa forma, avaliam e "certificam" os diferentes grupos de práticas educacionais e estabelecimentos de ensino). Implicação - não há garantia sobre a qualidade, somente os resultados interessam, mas estes são relativos. Sistemas educacionais que rompem com esse tipo de procedimento tornam-se incompatíveis com os demais, são marginalizados e, por isso, automaticamente pressionados a agir da forma tradicional. |
Sistema social
preocupado com o futuro - Implicação - valorização da educação de resultados efetivos para o indivíduo.
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Adaptado de Luckesi (2002)
Mudando de paradigma, cria-se uma nova cultura avaliativa, implicando na
participação de todos os envolvidos no processo educativo. Isto é
corroborado por Benvenutti (2002), ao dizer que a avaliação deve estar
comprometida com a escola e esta deverá contribuir no processo de
construção do caráter, da consciência e da cidadania, passando pela
produção do conhecimento, fazendo com que o aluno compreenda o mundo em
que vive, para usufruir dele, mas sobretudo que esteja preparado para
transformá-lo.
7 - A AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM COMO PROCESSO CONSTRUTIVO DE UM NOVO
FAZER
O processo de conquista do conhecimento pelo aluno ainda não está
refletido na avaliação. Para Wachowicz & Romanowski (2002), embora
historicamente a questão tenha evoluído muito, pois trabalha a
realidade, a prática mais comum na maioria das instituições de ensino
ainda é um registro em forma de nota, procedimento este que não tem as
condições necessárias para revelar o processo de aprendizagem,
tratando-se apenas de uma contabilização dos resultados.
Quando se registra, em forma de nota, o resultado obtido pelo aluno,
fragmenta-se o processo de avaliação e introduz-se uma burocratização
que leva à perda do sentido do processo e da dinâmica da aprendizagem.
Se a avaliação tem sido reconhecida como uma função diretiva, ou seja,
tem a capacidade de estabelecer a direção do processo de aprendizagem,
oriunda esta capacidade de sua característica pragmática, a fragmentação
e a burocratização acima mencionadas levam à perda da dinamicidade do
processo.
Os dados registrados são formais e não representam a realidade da
aprendizagem, embora apresentem conseqüências importantes para a vida
pessoal dos alunos, para a organização da instituição escolar e para a
profissionalização do professor.
Uma descrição da avaliação e da aprendizagem poderia revelar todos os
fatos que aconteceram na sala de aula. Se fosse instituída, a descrição
(e não a prescrição) seria uma fonte de dados da realidade, desde que
não houvesse uma vinculação prescrita com os resultados. A isenção
advinda da necessidade de analisar a aprendizagem (e não julgá-la)
levaria o professor e os alunos a constatarem o que realmente ocorreu
durante o processo: se o professor e os alunos tivessem espaço para
revelar os fatos tais como eles realmente ocorreram, a avaliação seria
real, principalmente discutida coletivamente. No entanto, a prática das
instituições não encontrou uma forma de agir que tornasse possível essa
isenção: as prescrições suplantam as descrições e os pré-julgamentos
impedem as observações. A conseqüência mais grave é que essa arrogância
não permite o aperfeiçoamento do processo de ensino e aprendizagem. E
este é o grande dilema da avaliação da aprendizagem.
O entendimento da avaliação, como sendo a medida dos ganhos da
aprendizagem pelo aluno, vem sofrendo denúncias há décadas, desde que as
teorias da educação escolar recolocaram a questão no âmbito da cognição.
Pretende-se uma mudança da avaliação de resultados para uma avaliação de
processo, indicando a possibilidade de realizar-se na prática pela
descrição e não pela prescrição da aprendizagem.
8 - CONCLUSÃO
A avaliação é a parte mais importante de todo o processo de
ensino-aprendizagem. Bevenutti (2002) diz que avaliar é mediar o
processo ensino/aprendizagem, é oferecer recuperação imediata, é
promover cada ser humano, é vibrar junto a cada aluno em seus lentos ou
rápidos progressos.
Enquanto a avaliação permanecer presa a uma pedagogia ultrapassada, a
mesma autora diz que a evasão permanecerá, e o educando, o cidadão, o
povo continuará escravo de uma minoria, que se considera a elite
intelectual, voltada para os valores da matéria ditadora, fruto de uma
democracia mascarada e opressora.
Acreditamos que o grande desafio para construir novos caminhos,
segundo Ramos (2001), é uma avaliação com critérios de entendimento
reflexivo, conectado, compartilhado e autonomizador no processo
ensino/aprendizagem. Desta forma, estaremos formando cidadãos
conscientes, críticos, criativos, solidários e autônomos.
Os novos paradigmas em educação devem contemplar o qualitativo,
descobrindo a essência e a totalidade do processo educativo, pois esta
sociedade reserva às instituições escolares o poder de conferir notas e
certificados que supostamente atestam o conhecimento ou capacidade do
indivíduo, o que torna imensa a responsabilidade de quem avalia.
Pensando a avaliação como aprovação ou reprovação, a nota torna-se um
fim em si mesma, ficando distanciada e sem relação com as situações de
aprendizagem.
Mudar a nossa concepção se faz urgente e necessário. Basta romper com
padrões estabelecidos pela própria história de uma sociedade elitista e
desigual. Neste sentido, Perrenoud (1993) afirma que mudar a avaliação
significa provavelmente mudar a escola. Automaticamente, mudar a prática
da avaliação nos leva a alterar práticas habituais, criando inseguranças
e angústias e este é um obstáculo que não pode ser negado pois envolverá
toda a comunidade escolar.
Se as nossas metas são educação e transformação, não nos resta outra
alternativa senão juntos pensar uma nova forma de avaliação. Romper
paradigmas, mudar nossa concepção, mudar a prática, é construir uma nova
escola.
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MIRAS, M. SOLÉ, I. A evolução da aprendizagem e a evolução do processo
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SOUZA, C. P. de (org). Avaliação do rendimento escolar. 2 ed. Campinas:
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WACHOWIZ L. A. ROMANOWSKI J. P. Avaliação: que realidade é essa? Revista
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ano 7, n.02, p.81-100, jun.2002.
Maria Elisabeth Pereira Kraemer - beth.kraemerarrobaterra.com.br
Contadora, CRC/SC nº 11.170, Professora e Integrante da Equipe de Ensino e Avaliação na Pró-Reitoria de Ensino da UNIVALI – Universidade do Vale do Itajaí. Mestre em Relações Econômicas Sociais e Internacionais pela Universidade do Minho-Portugal. Doutoranda em Ciências Empresariais pela Universidade do Museu Social da Argentina. Integrante da Corrente Científica Brasileira do Neopatrimonialismo e da ACIN – Associação Científica Internacional Neopatrimonialista.
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