A incerteza do investimento e as expectativas da classe empresarial na teoria keynesiana

  • Economía
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Com a definição da eficiência marginal do capital, Keynes demarca-se da visão estática da economia clássica, incorporando o futuro na avaliação do investimento.

Keynes utiliza uma definição de investimento que realça a relação em termos de expectativas dos rendimentos prováveis e do conhecimento do preço de oferta corrente do bem capital.

Deste modo distancia-se dos conceitos de produtividade marginal do capital e de taxa natural de juro. Iremos discutir aqui primeiro rigorosamente o conceito que Keynes utiliza e não o que geralmente e-lhe atribuído em termo de taxa de retorno, segundo, o modo como são introduzidas as expectativas no conceito de eficiência marginal do capital, terceiro, a diferencia entre risco e incerteza na determinação do investimento e por último  o modo como os empresários avaliam a incerteza na determinação do investimento.

  1. A eficiência marginal do capital     

Keynes define a eficiência marginal do capital, como a relação entre o rendimento provável de um bem capital e o seu preço de oferta ou reposição, i. e. a relação entre o rendimento provável de mais uma unidade dessa classe de capital e o custo  da respectiva produção. Calcula-se a taxa de rendimento que se espera obter do dinheiro inves­tido num bem apenas produzido e não dos rendimentos históricos que um bem tem rendido sobre o seu custo origi­nal[i].

Utilizando um raciocínio muito clássico, Keynes considera que, de acordo com o princípio dos rendimentos decrescentes, a eficiência marginal do capital virá a reduzir-se consoante  o aumento do inves­timento.  Em parte porque o rendimento provável irá baixar, se a sua oferta aumentar, e, em parte porque a pressão para produzir esse tipo de capital fará com que o seu preço de oferta seja maior.

No curto prazo, a influência do preço de oferta predomina sobre a diminuição dos rendimentos. Quanto maior o período a considerar, maior será a influência do segundo factor. Assim, para cada classe de capital pode traçar-se uma curva que mostra em que  proporção  terão  de aumentar os investimen­tos durante esse período, de modo a que a eficiência marginal do capital baixe até  à cifra envolvida:

“ Thus for each type of capital we can build up a schedule,  showing by how much investment in it will have to increase within the period, in order that its marginal efficiency should fall to any given figure. We can aggregate these schedules for all the differ­ent types of capital, so as to provide a schedule relating the aggregate investment to the corresponding marginal efficiency of capital in general which the rate will estab­lish. We shall call this the investment demand-schedule; or, alternatively, the schedule of the marginal efficiency of capital”[ii].

Resultará evidente, que a taxa real de investimento corrente será puxada até o ponto em que a eficiência marginal do capital não exceda a taxa corrente de juros para as diferentes formas de capital.  Sendo  Qr  o rendimento provável de um activo no tempo r, e d é o valor presente de uma unidade monetária ao prazo de t anos, descontada a taxa corrente de juro. O somatório Qtdt será o preço de procura do investimento, que será levado a ser igual ao preço de oferta de investimento. Se Qr dr for menor que o preço de oferta, não existirá investimento no bem de capital.

A inexactidão tradicional consiste em considerar a eficiência marginal do capital em termos do rendimento corrente do equipamento de produção, o que apenas seria correcto numa situação estática em que não existissem mudanças futuras que influenciassem o presente. A curva de eficiência marginal do capital é de fundamental importância, porque as expectativas do futuro influenciam o presente através deste factor, mais do que através da taxa de juro.

Se a eficiência marginal do capital fosse reduzida ao estatuto da taxa da juro, que é um fenómeno corrente, fechar-se-ia a possibilidade de consid­erar a influência do futuro na análise do equilíbrio pre­sente. A restituição dessa possibilidade faz-se considerando o modo como as expectativas do futuro afectam o presente, através dos preços da procura do equipamento duradouro:

“It is therefore, consonant with, and agreeable to, our broad principles of though, that expectations of the future should affect the present through the demand price for durable equipment”[iii].

Keynes clarifica, assim, que a decisão sobre a taxa de investimento depende da relação que existe entre a curva de eficiência marginal do capital e a taxa de juro correspondente a diversas escalas do investimento corrente. Como a eficiência marginal do capital mede a relação dos rendimentos esperados  de um bem de capital actual com o preço de oferta ou reposição desse bem de capital, é necessário investigar mais profundamente os factores espera­dos futuros que modificam essa relação presente, i.e. os factores que influenciam as decisões dos empresários no sentido de ampliar ou reduzir a produção .

  1. A eficiência marginal do capital e as expectativas dos empresários

A integração das expectativas é vital, como percepção por parte dos empresários sobre os acontecimentos futuros do funcionamento económico[iv]. Se considerarmos o efeito da expectativa de descida do custo previsto de um equi­pamento sobre a eficiência marginal do capital, sejam as expectativas produzidas por modificações no custo do trabalho, por modificações na unidade de salários, ou por efeito da evolução tecnológica, a produção resultante do equipamen­to actual terá que concorrer com a produção  obtida com um equipamento de menor custo,  a qual poderá vender os bens mais baratos. Os lucros provenientes das vendas do equipamento novo e antigo reduzir-se-ão, se toda a produção se tornar mais barata, pelo que a eficiência marginal descerá:

“ (…) in so far as much development are foreseen as probable, or even as possible, the marginal efficiency of capital produced today is appropriately diminished”[v].

A expectativa de uma descida no preço do dinheiro estimula o investimento e, por consequência o preço do dinheiro influencia o nível do emprego, porque eleva a curva de eficiência marginal do capital, deslocando a curva de procura de investimentos à alta. Pelo  contrário, uma subida no valor do dinheiro implica uma descida da curva de eficiência marginal do capital [vi].

A importância de tais alterações nas expectativas deriva dos efeitos que estas mutações provocam sobre o desejo de produzir novos bens. Um efeito estimulante de preços maiores nas expectativas, não  é devido à diminuição da taxa de juros,  mas sim ao facto de que se eleva a eficácia marginal de um volume dado de capital.

Se a taxa de juro se elevar pari passu à previsão de aumen­tos dos preços, não existirão efeitos estimulantes sobre a produção de novos bens de capital, porque o incentivo para a produção dependerá de  um aumento da eficiência marginal do capital  relativamente à taxa de juro, pelo que o efeito estimulante de expectativas de preços maiores apenas fará sentido se a eficiência marginal do capital aumentar, e não porque uma variação antecipada no valor do dinheiro modi­fique a taxa de juro monetária, pois nesse caso a taxa de juro subiria, mantendo a situação inalterada:

“If the rate of interest were to rise pari passu  with the marginal efficiency of capital, there would be no stimulating effect from the expectations of rising prices”[vii].

A expectativa de uma descida da taxa de juro, pode fazer baixar a eficiência marginal do capital, se a produção resultante do equipamento actual for concorrer com o equipamento novo, o qual requer uma recompensa menor. Esta hipótese só será valida se a procura estiver a descer para esse tipo de bem.

É importante entender a dependência entre a eficiência marginal do capital de um volume determinado de capital e as expectativas, pois é essa dependência que faz com que a eficiência marginal do capital fique sujeita a certas flutuações violentas que explicam o ciclo económico, na medida em que o auge e a depressão podem ser descritos como flutuações da eficiência marginal do capital relativamente à taxa de juro[viii].

  1. A eficiência marginal do capital e o risco

Dois tipos de riscos afectam o volume do investimento. O primeiro é o risco do empresário ou detentor efectivo do dinheiro,  perante a possibilidade de obter realmente rendimentos prováveis esperados. O segundo tipo de risco, num sistema de crédito, é o risco do prestamista, pois se as expectativas do empresário não se verifi­cam quando  pede dinheiro em empréstimo, este não cum­prirá as obrigações contraídas. Uma terceira causa, não mencionada como risco, mas que afecta o investimento, são as mudanças no padrão monetário, que faz dos empréstimos em dinheiro um risco adverso, dimi­nuindo a segurança, pela eventual depreciação dos activos reais, embora estas mudanças possam reflectir-se na alteração dos preços dos bens reais duradouros.

O primeiro dos riscos, como custo social real, diminui na média social, ou quando aumenta a exactidão das previsões e da informação. O segundo é uma adição ao custo do investimento, inexistente quando o prestamista e empresário coincidem. O risco duplica-se pois o empresário agrega ao tipo de juro, o suficiente para obter um rendimen­to mínimo provável, que o induzirá a investir. Este risco leva a aumentar a margem entre as expectativas relativamente aos rendimentos e a taxa de juro à qual se pretende contrair uma dívida. Por isso mesmo, as relações de força entre o empresário e o prestamista determinarão essa margem de segurança. A apreciação desse risco dependerá do nível da actividade económica.

  1. As expectativas contraditórias dos investidores e produtores e o nível do emprego

As expectativas são o modo como os agentes económicos interrelacionam o presente com o futuro. Sendo a economia capitalista uma economia de mercado, em que a produção é intertemporal – não apenas porque a produção leva tempo, mas sobretudo porque o investimento em  bens de capital reflecte necessidades futuras de consumo – as expec­tativas de todos os agentes, mas sobretudo  de empresários e investidores, são de vital importância para o emprego.

Por outro lado, as expectativas são  a forma como as previsões sobre o futuro incidem sobre as decisões dos agentes económicos; nesse sentido, as expectativas dependem do modo como as previsões sobre os negócios incidem sobre essas decisões e do modo como elas se realizam.

Mas as expectativas exercem uma influênca recíproca sobre as previsões não apenas objectivamente, pela qualidade da informação, mas também psicologicamente, pela relevância da informação. Como existem dois tipos de decisões básicas dos agentes encarregues do investimento, a decisão de produzir com um determinado equipamento e a decisão de adicionar equipamento ao existente, as expectativas serão de curto prazo, na medida em que influenciam a produção corrente, ou  serão expectativas de longo prazo, que influenciam a produção futura, embora seja evidente que existem decisões na base de expectativas de longo prazo que levam a modificar as decisões de produzir no presente, pelo que a linha divisória  entre os dois tipos de expectativas é difícil de traçar.

Um empresário que decida produzir um determinado bem ou ampliar a produção desse tipo de bem, deverá considerar não apenas os rendimentos presentes da utilização de um determi­nado equipamento, mas sobretudo os rendimentos futuros.

No presente, a produção de um bem deve considerar os custos de produção para uma determinada procura, tomando em conta várias escalas possíveis de produção, assim como o valor das vendas a realizar, e considerando a elasticidade da procura. As expectativas reflectem essas previsões na perspectiva de que a situação manter-se-á como dantes. Por isso o volume de produção e de emprego actual depende dessas expec­tativas. A realização da produção e das vendas originará um processo de revisão ou confirmação das expectativas que levará  a novas previsões.

A formação das expectativas depende  da efectivação da informação considerada relevante, pelo que a produção e o emprego serão influenciados subse­quentemente. As expectativas que levaram a comprar um deter­minado equipamento ou à formação de existências, podem não influenciar directamente a formação de novas expectativas sobre o volume de produção a realizar e não terão consequências sobre o emprego.Assim,  Keynes acredita que:

“(…) on each and every occasion of such decision, the decision will be made, with reference indeed to this equipment and stock, but in the light of the current expectations of prospective costs and sale-proceeds”[ix].

O que quer dizer que não será das expectativas actuais que resultará uma mudança no volume de emprego, mas será da mudança das expectativas de longo prazo que resultarão variações no emprego.  Assim,  as variações de expectati­vas de curto prazo não tornam as mudanças no emprego violen­tas ou rápidas, estas influenciam gradualmente a produção e o emprego.  Assim se explica  a lentidão das mudanças no volume de emprego, em situações de depressão ou de recuperação, pelo que, para cada estado das expectativas, existirá sempre um nível variável da produção e do emprego. No entanto:

“(…) a mere change in expectations is capable of producing an oscilla­tion of the same kind of shape as a cyclical movement, in the course of working itself out.. But the actual course of events is more complicated still. For the state of expecta­tion being superimposed long before the previous change has fully worked itself out”[x].

O nível do emprego depende, em cada momento e situação, não apenas do estado actual das expecta­tivas, mas também das expectativas passadas, na medida em que estas se reflectem na existência de um volume e qualidade do equipamento actual[xi]:

“(…) so that the economic machine is occupied at any given time with a number of overlapping activities, the existence  of which is due to various past states of expectations”[xii].

O processo de formação das expectativas de curto prazo é gradual e contínuo,  e a sua realização depende quase exclusivamente dos resultados obtidos. Alias, é sensato que os produtores determinem as suas decisões de produzir na base de expectativas de curto prazo, quando não se esperam grandes mudanças que alterem as previsões sobre os rendimentos futuros e sobre os custos dos factores, nem originem antecipações não esperadas.

Outro é o caso quando se trata de bens de equipa­mento, os quais serão produzidos, seja quando a procura aumen­ta, o que implica antecipar rendimentos maiores esperados, seja pelo aumento do rendimento por unidade de output, seja por aumento do emprego. Neste caso, as expectativas dos produtores baseiam-se nas expectativas de longo prazo dos investidores, as quais pela sua própria natureza  não podem ser obtidas com a lucidez de um determinado resultado, para além de que as expectativas de longo prazo podem ser revistas imprevistamente[xiii].

Posto isto, há que considerar mais em detalhe o estado das expectativas de longo prazo, as quais são vitais numa economia monetária em que as decisões do produtor e do investidor são de natureza diversa e por vezes antinómica, sobretudo se os objec­tivos a alcançar forem diferentes e contraditórios.

Keynes chama a atenção para os factores que determinam as previsões sobre os rendi­mentos futuros, porquanto estão na base das decisões sobre a procura de investimentos em bens de capital. Este é um exercício que os empresários realizam com base em factos que podem ser previstos com maior ou menor certeza e em acontecimentos futuros sobre os quais se pretende obter informação de relativa confiança. As expectativas de longo prazo dependem das mudanças futuras de determinados acontecimentos, tais como as mudanças futuras nas existências de tipo e quantidade de bens de equipamento, das preferências intertemporais dos consumidores, da força da procura efectiva durante um determinado período, sobre o qual incide a utilização de um equipamento, das mudanças nas unidades – salário em termos monetários.

Na formação das expectativas, o empresário orienta-se por factos que inspirem certa confiança, mesmo que esses factos tenham uma importância menor. Quando se planeiam as expectativas não devem ser considera­dos os aspectos sobre os quais não existe um grau de certeza[xiv]. Deste modo, os factos do presente encontram uma congruência desproporcionada na formação das expectativas, sendo hábito  projectá-los no futuro, modificando-os segundo os motivos que tenhamos para esperar alguma variação. As expectativas planeadas baseiam-se, sobretudo, na confiança dos factos conhecidos, que servem como projecção futura, e portanto,  assentam na probabilidade e confiança na previsão.

O estado de confiança tem uma importância crucial sobre a curva de eficiência marginal do capital, podendo ser considerado um factor que influen­cia a taxa de investimentos, porque é um dos factores que determina a eficiência marginal do capital. O estado de confiança, resulta da observação empírica  dos mercados e da psicologia dos negócios. O principal problema  reside  no facto de a base dos conhecimentos  na qual  assenta a informação dos empresários sobre os rendimentos esperados futuros ser precária.

  1. Os empresários e a incerteza

As mudanças institucionais que se operam nas empresas aumentam a incerteza relativamente à infalibilidade dos cálculos provisionais, porquanto a natureza das empresas  se modificou: A  socialização da propriedade, através  da gestão repartida da propriedade, se por um lado veio facilitar  o investimento, por outro  veio torná-lo mais instável. A expansão do mercado financeiro, o surgimento da bolsa e outros mercados de investimento, não possibilitou novos investimentos, implicou simplesmente o trespasse  de propriedade intangível com fins de lucro imediato.

Uma certa classe de investimento rege-se pela média das expectativas dos especuladores da bolsa de valores, e não pelas expectativas genuínas do empresário profissional, o que se manifesta no preço das acções. As avaliações e reavaliações sobre as expectativas, e sobre o estado de confiança, implicam que a realização dos investimentos se base­ie  no método convencional,  o qual supõe que a situação existente dos negócios continuará por um tempo indefinido;  no entanto, a prática demonstra que esta não se repete com probabilidade, i.e., as valorizações sobre os mercados realizam-se tomando em consideração toda a classe de conjectura, que de modo nenhum se relacionam com o rendimento provável.

Se existirem mercados organizados para o investimento e se se puder confiar em que a convenção não irá variar, poder-se-à animar o investimento. A ideia de que o único risco que se corre é  o de uma mudança real das condições de futuro imediato, sobre cuja probabilidade se pode tentar formar um juízo próprio, não é provável que seja muito grande. O importante é não romper a convenção, pois o investimento será seguro: mesmo para períodos curtos e numa sucessão dos mesmos poder-se-á rever as conclusões antes de qualquer grande modificação. Deste modo, os investimentos tornam-se fixos para a comunidade e líquidos para o indivíduo. A manutenção de uma convenção, mesmo arbitrária, tem pontos frágeis, que precarizam a consecução de um volume de investimento suficiente: i) o aumento global, proporcionalmente maior, dos títulos e valores de rendimento variável na posse de especuladores sem ligações com os negócios concretos e sem conhecimento dos rendimentos esperados futuros; ii) as flutuações diárias dos lucros dos investimentos existentes, com carácter efémero e que tendem a influenciar desproporcionadamente o mercado; iii) o facto  de o mercado estar sujeito a ondas de optimismo e pessimis­mo, sem ligação a cálculos razoáveis; iv) os agentes com maiores conhecimentos não se preocuparem em ter um melhor cálculo provisional a longo prazo dos rendimentos esperados, mas sim das variações nas bases convencionais, antecipando-se às do público em geral, com grande influência da psicologia de massas do mercado; v) o facto de o investimento baseado nas expectativas autenticas de longo prazo ser muito difícil. É mais fácil adivinhar o que as massas pretendem do que investigar laboriosamente o estado dos negócios, concluindo-se neste sentido que a experiência não dá provas claras de que uma política de investimentos so­cialmente vantajosa seja a mais produtiva. Se os homens se comportam de modo a procurar o lucro imediato, os lucros remotos são descontados pelo homem médio a taxas muito altas, que acabam por inviabilizar as expectativas de realizar investimentos. O investidor de longo prazo que promove o interesse público, aquele que se opõe aos convencionalismos estagnantes e detém uma conduta temerária aos olhos da opinião média, sofre o embate e a mudança dos tempos.

Keynes distingue claramente entre especulação, como activi­dade de antever a psicologia do mercado, e  actividade empresarial, associada à tarefa de calcular os rendimentos prováveis dos bens no tempo futuro[xv].  O autor evoca o papel histórico dos empresários, cujo dinamismo, energia, espírito de jogo e de aventura contribuíram de forma decisiva para o nascimento e desenvolvimento da moderna sociedade capital­ista, sendo depositada na sua confiança a aplicação dos recursos, sem que se conheçam muitas vezes os reais resultados da arte de investir.

A iniciativa individual apenas será adequada quando o cálculo razoável  for sustentado  pelos animal spirits, que actuam nessa base, a do espírito empresarial audaz e produtivo. O enigma, segundo Keynes, é que a prosperidade económica depende exclusivamente do ambiente político e social que agrada ao tipo médio de homens de negócios.

Da incerteza relativamente à formação de expectativas, não deve concluir-se que os negócios dependem exclusivamente de elementos psicológicos irracionais. Keynes expressa a autêntica e firme  convicção de que as expectativas de longo prazo são, com frequência, firmes e estáveis:

“We are merely  remind­ing ourselves that human decisions affecting the future, whether personal or political or economic, cannot depend on strict mathematical expectations, since the basis for making such calculations does not exist, and that it is our innate urge to activity which makes the wheels go round, our ra­tional selves choosing between the alternatives as best we are able, calculating where we can, but often falling back for our motive on whim or sentiment or chance”[xvi] .

Essa  convicção baseava-se na existência de alguns factores que diminuem a ignorância sobre o futuro, ou dito de outro modo, em elementos de informação sobre os rendimentos calculáveis futuros que permitem a formação de expectativas optimistas[xvii].

A decisão de investir é a decisão económica mais importante que tomam os agentes económicos, pois ela representa o elo entre o presente do consumo e o futuro do lucro. Mas essa decisão depende, segundo Keynes, da  eficiência marginal do capital, a qual mede a relação dos rendimentos esperados, proporcionados pela utilização de um bem capital actual na produção futura de outros bens, com o preço de oferta ou reposição desse bem de capital e a taxa de juro. Os problemas com que se deparam os empresários para decidir o investimento, são os problemas da resolução da contradição entre os vários interesses presentes e provisionais  de investidores, produtores, banqueiros.

O resultado mais importante do estudo sobre a empresa na óptica macro-económica, é o de que o investimento influencia o rendimento e o emprego. Mas devemos encarar as expectativas dos rendimentos esperados como uma variável essencial a examinar. A importância das alterações nas expectativas, deriva dos efeitos que estas mutações provocam sobre o desejo de produzir novos bens. Um efeito estimulante de preços maiores nas expectativas, não se deve a  um aumento da taxa de juros,  mas ao facto  de se elevar a eficácia marginal de um volume dado de capital ou de a expectativa de uma descida no valor do dinheiro estimular o investimento; por consequência, o valor do dinheiro influencia o nível do emprego,  pois eleva a curva de eficiência marginal do capital, deslocando a curva de procura de investimentos à alta.

A intervenção do Estado como agente catalisador do investimento, agente da confiança na credibilidade da informação, de recuperação dos ´animal spirits´ que animaram o crescimento capitalista do século XIX, não é apenas uma figura de retórica:  é uma forma de tornar o cálculo provável mais fiável e a confiança do investidor mais razoável. O Estado deveria ser o garante do nível da despesa que assegure o pleno emprego – uma conclusão não apenas económica, de certo modo também moral, correspondendo à  visão ética de Keynes.

Tendo determinado a influência que  certas modificações de curto prazo exercem sobre as expectativas de longo prazo, diferentes das provocadas pela  influência das modificações da taxa de juro, pode-se dizer que, em circunstâncias normais, as modificações nas expectativas, provocadas pelas mudanças no estado de confiança, exercem uma grande influência  sobre a taxa de investimen­to. Apenas a experiência poderá dizer até que ponto a intervenção sobre a taxa de juro será capaz de estimular continuamente o volume adequado de investimento.

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[i] Alternativamente, define-se a eficiência marginal do capital como a taxa de desconto que consegue igualar o valor presente da série de anuidades dado pêlos rendimentos esperados do bem de capital, durante o seu tempo de duração. Com estas definições podemos determinar as eficiência marginais de determinados tipos de bens. A maior dessas eficiências marginais, pode ser considerada como a eficiência marginal geral.

[ii] Idem, p. 136.

[iii] Idem, p. 146.

[iv] Desenvolvendo a teoria das expectativas, Keynes agrupa as expectativas em dois grupos: i) as expectativas de curto termo, são as expectativas que se reflecte nas previsões dos produtores, considerando o tempo que decorre  entre a iniciação da produção e as vendas actuais dos bens  acabados. Estas expectativas se referem à produção de bens de consumo, enquanto que os produtores de bens de capital  consideram as encomendas das empresas; ii) as expectativas  de longo prazo se relacionam com as compras de bens de  capital e se referem aos retornos  esperados.

As realizações das expectativas devem ser consideradas na determinação de expectativas e acções subsequentes, pelo que o estado do output corrente depende das expectativas passadas. Uma mudança nas expectativas de curto  prazo prova que pode ter sido errado iniciar a produção, embora uma vez que teve início a produção e que formam realizadas despesas,  mas vale continuar.

[v] Idem, p. 141. Se a produção resultante do equipamento produzido na actuali­dade concorrer, durante a sua duração, com a produção resul­tante de equipamentos produzidos a seguir, a um custo de trabalho menor, pode-se vender a sua produção mais baratos. Se o preço da produção atingir um nível desejado está-se a considerar a possibilidade de preços monopolistas, mas Keynes não explora essa via, concluindo apenas que os lucros do empresário procedentes do equipamento novo e velho, medidos em dinheiro, reduzir-se-ão se toda a produção se tornar mais barata, supondo a procura constante.

[vi] Polemiza sobretudo com Robertson, segundo o qual uma variação no valor do dinheiro apenas influencia directamente a taxa de juro, enquanto que para Keynes essa variação influencia a eficiência marginal do capital. O argumento de Keynes é de que os preços dos bens existentes ajustam-se sempre por si próprios às mudanças nas previsões relativas ao valor do dinheiro.

[vii] Idem, p. 143.

[viii] A este propósito cito aqui a crítica de Darby and Lothian sobre a incapacidade de Keynes de distinguir entre taxas de juros reais e nominais, que o conduziram aceitar a caracterização da política monetária como «loose but ineffective», ver Darby M. e Lothian J.(1985), p. 71 e seguintes. Cito o próprio Keynes para desfazer esta dúvida » Indeed Professor Fisher’s theory could be best re-written in term of » real rate of interest» which have to rule, consequently on a  change in the state of expectation as to the future value of money, in order that this change should have no effect on current output«, J.M. Keynes, » The General Theory», CWJMK , vol. VII, p. 143.

[ix] Idem, p. 47

[x] Idem p. 49-50.

[xi] Não pode ser omitido o facto que um equipamento actual pode não reflectir totalmente as expectativas passadas. No caso de excesso de equipamento fazer à procura, os rendimentos futuros esperados que levaram à decisão de adquiri-lo determinam decisões presentes de menor produção, o caso complica-se se enfrentarmos um processo de obsolescência tecnológica para equipamentos dura­douros.

[xii] Idem p. 50.

[xiii] «cannot be checked in the light of realized results “. Idem, p. 51.

[xiv] Keynes escreve: «By  very «uncertain» I do not mean tha same thing as » very improbable». Esta advertência deriva-se do facto de este ter desenvolvido um conceito de probabilidade no ´Trea­tise on Probability´, que permite extrair de um argumento um grau de veracidade através da observação dos factos.

[xv] Nesse sentido a bolsa se transforma, segundo Keynes, na Nemesis dos comportamentos aberrantes. Se a bolsa for con­siderada como uma instituição cuja finalidade social é guiar novos investimentos por caminhos mais produtivos, em termos de rendimento social, então ela deveria ser reformada com o fim de restituir o investimento de longo prazo.

[xvi] Idem, p. 162-163.

[xvii] Existem empresas cujo rendimento provável está determinado pêlos rendimentos do futuro próximo. Existem investimentos de longo prazo que podem ser sujeitos a compromissos entre as partes interessadas, como no caso  da construção de habitação. Um outro caso o constituem os investimentos de longo prazo do sector público, que garante os rendimentos dada a posição de monopólio que ocupam, determinando as margens necessárias ou estipuladas na consecução desses rendimentos, para além de que baseiam-se em necessidades humanas crescentes, como a energia, a agua, os transportes, as comunicações, os serviços públicos. Por último, existem investimentos do sector público com carácter social, independentemente da sua produtividade comercial, onde o cálculo dos rendimentos não necessariamente iguala a taxa de juro, embora esta última possa ser importante no papel sobre a determinação do volume de operações de inves­timento que possa suportar.

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Gómez Olivares Mario. (2002, febrero 7). A incerteza do investimento e as expectativas da classe empresarial na teoria keynesiana. Recuperado de https://www.gestiopolis.com/incerteza-investimento-expectativas-classe-empresarial-teoria-keynesiana/
Gómez Olivares, Mario. "A incerteza do investimento e as expectativas da classe empresarial na teoria keynesiana". GestioPolis. 7 febrero 2002. Web. <https://www.gestiopolis.com/incerteza-investimento-expectativas-classe-empresarial-teoria-keynesiana/>.
Gómez Olivares, Mario. "A incerteza do investimento e as expectativas da classe empresarial na teoria keynesiana". GestioPolis. febrero 7, 2002. Consultado el 15 de Noviembre de 2019. https://www.gestiopolis.com/incerteza-investimento-expectativas-classe-empresarial-teoria-keynesiana/.
Gómez Olivares, Mario. A incerteza do investimento e as expectativas da classe empresarial na teoria keynesiana [en línea]. <https://www.gestiopolis.com/incerteza-investimento-expectativas-classe-empresarial-teoria-keynesiana/> [Citado el 15 de Noviembre de 2019].
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