Resumo
A contabilidade é, atualmente, um instrumento fundamental para auxiliar
a administração moderna e tem como principal objetivo gerar informação
para embasar as decisões a serem tomadas, bem como reduzir o seu grau de
incerteza. Para isso, identifica, registra, mensura e possibilita a
análise e predição dos eventos econômicos que alteram o patrimônio de
uma empresa. Para a elaboração da informação contábil, existem normas a
seguir que não podem deixar de incluir elementos de subjetividade e cuja
aplicação requer, em muitos casos, a realização de estimações por parte
da empresa, abrindo assim a possibilidade de uma mesma realidade ser
refletida de formas diferentes. A isto deve ser acrescentada a própria
flexibilidade presente nas normas contábeis, mais em alguns países que
em outros, o que permite utilizar diversos critérios para contabilizar
um mesmo fato econômico. Neste contexto, surge a denominada
“contabilidade criativa”, que está inserida na intencionalidade das
empresas em aproveitar a existência da subjetividade, das alternativas
existentes e da vaga regulamentação de alguns aspectos contábeis com a
finalidade de obter demonstrações financeiras que representem a imagem
desejada.
1 – Introdução
As práticas de contabilidade criativa constituem um dos temas mais
polêmicos na atualidade. A expressão “contabilidade criativa” tem feito
parte da linguagem contábil, causando um grande impacto nos âmbitos
econômico, financeiro e gerencial.
O fenômeno da contabilidade criativa tem sido o resultado da
flexibilidade de certas normas contábeis, a qual facilita a manipulação,
o engano e a tergiversação da informação.
Além disso, esse fenômeno envolve aspectos controversos relacionados com
a ética, o conceito de imagem fiel, o paradigma da utilidade da
informação e dos relatórios contábeis para os usuários e a fraude
contábil, os quais ainda são difíceis de ser avaliados de forma efetiva
no cotidiano empresarial.
Como essa problemática tem se agravado, em âmbito mundial, a solução
seria uma maior atuação dos organismos reguladores no sentido de
introduzirem modificações no campo da contabilidade, visando elaborarem
normas com melhor conteúdo técnico, permitindo reduzir ao mínimo, o grau
de subjetividade e flexibilidade dos gerentes na escolha dos critérios
contábeis.
Neste sentido, aumentaria a responsabilidade dos auditores independentes
diante de tais práticas, inibindo ou restringindo a existência de
práticas de contabilidade criativa nas demonstrações contábeis das
empresas.
Partindo dessa premissa, este trabalho aborda e explica os aspectos que
induzem à contabilidade criativa, transações mais comuns na
contabilidade criativa, práticas usuais, os auditores ante a
contabilidade criativa e casos relevantes da contabilidade criativa.
2 – Significado do termo contabilidade criativa
A contabilidade criativa é um tema atual na prática contábil. É
utilizada para descobrir o processo mediante o qual os contadores
utilizam seu conhecimento sobre as normas contábeis para manipular as
cifras refletidas na contabilidade da empresa, sem deixar de cumprir os
princípios de contabilidade. Desta maneira, conforme se apliquem os
critérios e outros aspectos da contabilidade, os resultados podem variar
e ser mais favoráveis para as organizações.
O termo contabilidade criativa é de origem anglo-saxônica – tanto em sua
forma prática, quanto em sua estratégia – e já foi objeto de grandes
debates e pesquisas no meio acadêmico, principalmente no Reino Unido.
Na verdade, a contabilidade criativa é uma maquiagem da realidade
patrimonial de uma entidade, decorrente da manipulação dos dados
contábeis de forma intencional, para se apresentar a imagem desejada
pelos gestores da informação contábil. O quadro 1 traz definições de
alguns autores com várias interpretações.
Quadro 1 – Conceituação de contabilidade criativa
Fonte: Cosenza & Grateron (2003)
De acordo com Salas (2004), no Reino Unido, quatro livros foram escritos
e cada um, com suas diferentes perspectivas, tem identificado este tema.
Estes livros são de autoria de Griffiths (1986), que escreveu sob a
ótica de um periodista empresarial; Jameson (1988) escreveu desde a
ótica contábil; Smith (1992) se baseou em sua experiência como analista
de investimento; e Naser (1993) abordou a questão como acadêmico. Estes
autores, conforme Salas (2004), têm dois elementos em comum em sua
descrição: percebem a incidência da contabilidade criativa como algo
generalizado e vêem a contabilidade criativa como uma prática enganosa e
indesejável.
Enron e WorldCom, entre outros, são alguns casos de contabilidade
criativa – descritos mais adiante – que têm aparecido nos últimos tempos
e causado grande impacto na economia norte-americana, constituindo
exemplos de como os mercados têm perdido a confiança nos “princípios de
contabilidade geralmente aceitos”, nos auditores, assessores e analistas
de investimento.
Esse fenômeno ainda se apresenta como um tema atual na prática contábil
internacional, uma vez que tem ganhado importância na informação
contábil-financeira que se divulga para os usuários e as comunidades
empresariais.
3 – Razões para utilização da contabilidade criativa
São múltiplas as razões que potencializam as práticas de contabilidade
criativa e, obviamente, pretender simplificar suas causas pode nos levar
a uma perigosa transformação de seu conceito, uma vez que suas
fronteiras não se apresentam claramente definidas, envolvendo aspectos
como a ética, a fraude e a responsabilidade social. Portanto,
atualmente, suas principais causas estão concentradas no impacto que
podem ter os informes divulgados sobre as decisões dos investidores nas
Bolsas de Valores.
Entre as razões que têm os diretores das empresas cujas ações estão
cotadas nas bolsas, para manipularem as contas através da utilização da
contabilidade criativa, destacam-se as seguintes:
√ - Manutenção de um fluxo constante de receitas: as empresas gostam de
demonstrar uma tendência estável de crescimento do faturamento e não de
evidenciar oscilações bruscas, o que poderia ser interpretado como risco
pelo mercado. Como forma de ilustração desse fato, cita-se o caso
Daimler-Benz, o qual evidenciou o impacto da utilização das chamadas
reservas ocultas permitidas pelas normas contábeis da Alemanha.
√ - A contabilidade criativa também pode ser utilizada para manter em
alta o preço das ações, por meio de mecanismos que reduzam aparentemente
o endividamento ou aumentem as receitas e os resultados.
√ - A contabilidade criativa pode ser utilizada também para atrasar a
chegada de informações ao mercado financeiro, beneficiando alguns
investidores que tenham acesso privilegiado a tais informações. Um
exemplo configura-se nas remunerações em ações aos próprios diretores
das empresas. Estes (diretores) podem atrasar as divulgações de
resultados alcançados e outros dados financeiros para que possam operar
nas bolsas em benefício próprio.
√ - A contabilidade criativa pode ser utilizada para mascarar o
desempenho governamental. Neste caso, o governo pode fazer a sua
divulgação em regime de caixa, dificultando a apuração de custos de
programas e projetos. Além disso, a mudança da base de contabilização e
as entidades que são inseridas na consolidação do setor governamental
podem colaborar para formar uma melhor imagem dos índices dívida/PIB e
déficit/PIB.
Para Carvalho (2003), outras razões para as manipulações de dados
contábeis podem motivar as entidades ao uso do Window-dressing ou da
contabilidade criativa: o uso dos contratos de gaveta e a manipulação de
seus prazos de direitos e obrigações, bem como mudanças de indexadores
(índices), de acordo com o objetivo almejado.
As razões para o aparecimento da contabilidade criativa nas
demonstrações contábeis, segundo Cosenza (2003), estão apresentados no
quadro 2.
Quadro 2 – Motivações para o aparecimento da contabilidade criativa nas
demonstrações contábeis
Fonte: Cosenza (2003)
A contabilidade criativa pode ter vários motivos para que seja utilizada
nas organizações, todavia, Mayoral (2000) classificou três distintos
blocos de objetivos, que estão representados no quadro 3 com os seus
devidos incentivos para adotá-las.
Quadro 3 – Objetivos para a utilização de contabilidade criativa
Fonte: Mayoral (2000)
Existem diversos motivos associados ao mercado de capitais que podem
incentivar as empresas ou seus gestores a manipularem suas demonstrações
contábeis, conforme Salas (2004): a contabilidade criativa permite
refletir uma tendência estável de crescimento das receitas, ajuda a
manter ou sobrevalorizar o preço das ações, retarda a chegada de boas ou
más notícias ao mercado e oculta informações sobre o envolvimento ou
comprometimento dos executivos.
4 – Transações mais comuns na contabilidade criativa
Os analistas e investigadores têm realizado uma recopilação das
transações mais comuns que se podem encontrar nos livros das empresas
manejados com os critérios da contabilidade criativa. Algumas destas
transações, segundo Salas (2004), são:
√ Aumento ou redução de despesas –As normas contábeis facilitam manobras
como, por exemplo, a elasticidade no prazo de amortizações do ativo
intangível e nas depreciações de bens do imobilizado de uso. A empresa,
alterando o prazo da depreciação, provoca, em conseqüência, alterações
nas despesas do período.
√ Aumento ou redução das receitas – É possível antecipar ou diferir o
reconhecimento de receitas com o argumento da convenção do
conservadorismo e do princípio da confrontação das despesas com as
receitas.
√ Aumento ou redução de ativos – As manipulações descritas no primeiro
item impactam o valor dos ativos. Outro exemplo seria a alternância de
métodos válidos para se avaliar os estoques.
√ Aumento ou redução do patrimônio líquido– Todos os exemplos anteriores
têm reflexos no patrimônio líquido da empresa, afetando de forma direta
os índices de endividamento, estrutura patrimonial e de lucratividade,
podendo levar os usuários a decisões equivocadas, não apenas sobre o
capital próprio, mas também em relação ao valor da empresa como um todo.
√ Aumento ou redução do passivo – As empresas podem valer-se de
artifícios para, aparentemente, reduzir seu endividamento. Um exemplo
corriqueiro no Brasil é a forma de contabilizar as operações de leasing
financeiro, no qual, apesar de se tratar, essencialmente, de um
financiamento, o bem não é ativado e nem a dívida é contabilizada. Isso
pode levar o usuário a conclusões errôneas, principalmente o investidor,
acerca da liquidez e do endividamento da empresa.
√ Reclassificação de ativos e passivos– Existem divergências de onde
classificar os gastos com certos bens. Por exemplo: peças de reposição
para o ativo imobilizado – imobilizado reserva -, podem ser
classificadas no Imobilizado ou no Circulante ou, ainda, até diretamente
como despesa do período, evitando-se a sua ativação. Nesses casos,
recorre-se à convenção da materialidade.
√ Informação contida no relatório da administração ou no parecer dos
auditores – A inclusão ou não de informações pode conduzir o usuário a
conclusões equivocadas sobre o passado e as expectativas para o futuro
do empreendimento. A figura 1 ilustra o impacto das transações e
práticas da contabilidade criativa.
Figura 1 –Práticas contábeis criativas e seus efeitos
Fonte: Costa et al. (2000)
Perante o exposto, observa-se que os procedimentos da contabilidade
criativa têm como resultado uma variação dos valores dos elementos
patrimoniais e de resultado, além do próprio valor econômico da entidade
como um todo. Conseqüentemente, estas variações acabam por influir de
maneira relevante na interpretação da situação econômico-financeira da
empresa, pois o usuário da informação disporá de dados não condizentes
com a realidade.
5 – Práticas usuais da contabilidade criativa
A manipulação contábil tem vários objetivos distintos, dependendo dos
“incentivos” externos e internos para empregá-la.
Foi realizado um estudo em 1997, pelo Prof. Dr. Juan Monterrey Mayoral,
da Universidade de Extremadura, em Badajoz – Espanha, de acordo com
Cordeiro (2003), onde foram destacadas algumas práticas criativas de
contabilidade mais usualmente utilizadas, conforme demonstrado abaixo.
5.1 - Práticas baseadas em descumprimento de princípios/convenções
contábeis
a) Descumprimento do princípio de custo histórico:
√ excesso/falta de valorização dos estoques;
√ excesso de ativação de encargos financeiros e diferenças cambiais;
√ excesso/falta de valorização do fundo empresarial.
b) descumprimento do princípio da prudência:
√ excesso/falta de contabilização de provisões para riscos e gastos com
depreciações;
√ registro contábil de contingências positivas;
√ reavaliação voluntária de ativos;
√ excesso de capitalização de gastos com pesquisas e desenvolvimento.
c) Descumprimento do princípio/convenção da uniformidade:
√ mudanças contábeis voluntárias e injustificadas;
√ alteração artificial do “alcance” da consolidação;
√ eleição arbitrária de moeda funcional;
√ alteração arbitrária da política de amortização de imobilizados e de
fundo empresarial;
√ alteração arbitrária da política de contabilização de resultados
diferidos.
d) Omissão de informação obrigatória nas notas explicativas
5.2 – Práticas baseadas em contabilização errônea de operações:
√ registro contábil de gastos como imobilizados e vice-versa;
√ registro de gastos correntes como distribuídos em vários exercícios;
√ erros intencionais na data de “corte” das operações;
√ registro fictício de trabalhos realizados pela própria empresa em
imobilizado;
√ reconhecimento de gastos contra reservas.
5.3 – Práticas baseadas em classificações errôneas de lançamentos
contábeis:
√ apresentação em balanço de dívidas a curto prazo como sendo de longo
prazo;
√ apresentação, como sendo não operacional, de gastos e perdas
operacionais;
√ apresentação, como sendo operacionais, de gastos e perdas não
operacionais.
5.4 – Práticas baseadas em operações vinculadas a operações comerciais e
financeiras realizadas com entidades excluídas do “alcance” da
consolidação:
√ “auto-transações” baseadas em negócios jurídicos com as próprias ações
da companhia;
√ “auto-transações” baseadas em ampliar capital com crédito a “recursos
próprios”;
√ “auto-transações” para iludir a intervenção da auditoria contábil em
aplicações de capital;
√ emissão de ações preferenciais amortizáveis.
6 – O papel dos auditores ante a contabilidade criativa
Os conhecedores da atividade de auditoria entendem com facilidade o
alcance da opinião do auditor; essas pessoas, normalmente, sabem como
interpretar e tratar cada parágrafo do parecer do auditor.
Santos & Grateron (2003) dizem que é comum entre os usuários menos
advertidos considerar, por exemplo, um parecer limpo ou sem ressalvas
como uma garantia total de que todas as demonstrações contábeis que o
acompanham são corretas e exatas.
Tanto para os usuários conhecedores dos aspectos técnicos como para os
menos advertidos, o trabalho do auditor representa uma garantia
adicional relativa e independente que lhes permite tomar decisões com
maior confiança do que teriam sobre as demonstrações contábeis não
auditadas.
A partir dessas considerações, é possível afirmar que o serviço de
auditoria traz implícito o caráter social dessa atividade, ao se levar
em conta a necessidade de responder às expectativas dos usuários da
informação contábil e financeira, uma vez que se considera submeter
mencionada informação ao conhecimento e à avaliação de terceiros.
Na medida em que o auditor avalia criticamente os sistemas de controles
internos, incluindo nos seus programas procedimentos para detectar
possíveis existências de fraudes que possam resultar relevantes,
tornando-as evidentes, estará caminhando ao encontro de anseios dos
usuários das informações contábeis.
De acordo com Cosenza (2003), os auditores não aceitam serem
responsabilizados pelos fracassos empresariais e nem sequer concordam
relacionar tais fatos com o processo de auditoria. Tampouco aceitam a
responsabilidade pela emissão de informação “falsificada”, com a
utilização da contabilidade dita criativa, o que pode ser considerado
como uma conduta
fraudulenta.
No entanto, alguns fracassos empresariais, acompanhados de certas
irregularidades na apresentação da informação contábil e financeira das
empresas, têm manchado a imagem de objetividade e independência do
auditor, além de sensibilizar a opinião pública para esse fato, gerando
sérias dúvidas sobre a capacidade profissional dos auditores e sobre a
responsabilidade que se espera que estes assumam diante de seus atos e
omissões.
Diante dessa situação, conforme Santos & Grateron (2003) o auditor deve
incluir, em seu plano de trabalho, procedimentos específicos que visem
identificar, ao menos, a existência das práticas de contabilidade
criativa mais comuns, adaptando tais provas aos riscos inerentes de cada
setor, empresa ou negócio. Na pressuposição de que o auditor agregue, em
seus planos de auditoria, procedimentos que permitam identificar
práticas criativas e que a administração se negue a corrigi-las, o
auditor deverá incluir, em seu parecer, a respectiva ressalva ou
parágrafos de ênfase que julgar necessários. Dependendo dos valores
envolvidos, poder-se-á chegar até a negativa da opinião. Tal posição do
auditor exporá a empresa e poderá fazer com que ela reveja sua posição
em relação às práticas de manipulação da informação contábil.
Várias sugestões foram dadas por diferentes comissões de auditoria,
principalmente no âmbito internacional. Uma delas é a
implementação de Comitês de Auditoria e a participação de auditores,
como conselheiros independentes, nos Conselhos de Administração, além de
elaborar sofisticados códigos de comportamento ético e promover sua
efetiva aplicação. Neste sentido, evidencia-se , uma vez mais, que o
problema se encontra principalmente no desvirtuamento dos valores éticos
e morais dos profissionais e também da sociedade na qual se desenvolvem.
Para Santos & Grateron (2003), o problema a ser considerado é muito mais
de caráter ético do que técnico.
7 – O uso da contabilidade criativa: casos relevantes
Uma série de denúncias contra as corporações americanas detonou uma
grave crise de confiança nos mercados de capitais. Desde 1997, quase mil
empresas já retificaram seus balanços. Essa generalizada maquiagem
causou desconfiança em relação à veracidade dos lucros corporativos
divulgados no final dos anos 90, base para a bolha especulativa,
conforme mostra o quadro 4.
Quadro 4 – Corporações americanas com balanços sob suspeita
Fonte: Financial Times, republicado no Valor Econômico, São Paulo, 27 de
junho de 2002, p. B3, apud Cintra (2002)
Os casos mais recentes de fraude contábil envolveram a WorldCom, segunda
maior empresa de telefonia de longa distância nos EUA, que retificou
seus balanços em US$ 4,2 bilhões, e a Xerox, maior fabricante de
copiadoras do mundo, que vai republicar seus balanços de 1997 a 2001. O
resultado deverá ser a diminuição de US$ 1,9 bilhão nas suas receitas do
período. Parte dos problemas contábeis teve origem nas subsidiárias da
América Latina , inclusive na do Brasil.
Ademais, explicitou-se um novo conflito de interesse entre as
corporações e as empresas de auditoria e consultoria. Ficou comprovado
que a WorldCom pagou US$ 12,4 milhões para a empresa Arthur Andersen
relativos a serviços de consultoria e US$ 4,4 milhões pela auditoria
feita em 2001, seguindo o mesmo padrão da Enron. Em 2000, a Arthur
Andersen tinha recebido da Enron US$ 27 milhões por serviços de
consultoria e US$ 25 milhões pelos de auditoria. Devido à destruição de
documentos da empresa Enron, após o início das investigações, a Arthur
Andersen ficou sob forte suspeita de ter fechado os olhos para as
práticas contábeis pouco ortodoxas da Enron, a fim de manter importante
fonte de renda por seus serviços de consultoria.
Conforme Cintra (2002), a agência de classificação de risco Standard &
Poor’s elaborou uma lista das empresas que mais utilizaram a
“contabilidade criativa”, isto é, lançaram mão de instrumentos legais
para melhorar seus resultados, tais como: exclusão das opções de compra
de ações como parte da remuneração dos executivos, inclusão nos lucros
daqueles obtidos pelos fundos de pensão (que na verdade são de
propriedade dos funcionários, e não do empregador) etc.
Abaixo se tem uma análise das sucessivas fraudes ocorridas nas empresas
americanas, mais evidenciadas durante o primeiro semestre de 2002, de
acordo com Cordeiro (2003).
Bristol-Meyers Squibb
Empresa: Bristol-Meyers Squibb
O que fez – Inflou receitas com vendas.
Como fez – Durante os anos de 2000 e 2001, a empresa farmacêutica
“empurrou” seus produtos para os distribuidores, com uma campanha
agressiva de descontos e incentivos que podem ter inflado a receita em
até 1 bilhão de dólares. O resultado? Os clientes ficaram com estoques
superdimensionados. O laboratório já informou que neste ano deve faturar
apenas metade do total de 2001. A posição da Bristol-Meyers Squibb é de
que não houve irregularidade contábil. A Securities Exchange Comission
(SEC) ainda investiga o assunto.
ImClone Systems
Empresa: ImClone Systems
O que fez – Uso de informação privilegiada.
Como fez – As ações da ImClone andavam em alta, pois a empresa tinha em
mãos um remédio revolucionário contra o câncer, o Erbitux, e para
comercializá-lo faltava apenas a autorização da Food and Drug
Administration, o órgão regulador de medicamentos nos Estados Unidos. Só
que a autorização não saiu e um dia antes do anúncio oficial, familiares
do executivo-chefe da ImClone e alguns de seus amigos próximos venderam
papéis da empresa.
Merck
Empresa: Merck
O que fez – Manipulação de receitas e custos.
Como fez – A empresa inflou as receitas e os custos na mesma proporção.
O resultado líquido não foi afetado, mas as vendas sim, o que induziu o
investidor a acreditar no crescimento da companhia. A manobra contábil
fez o faturamento crescer 12,6 bilhões de dólares indevidamente.
Xerox
Empresa: Xerox
O que fez – Contratos de aluguel de equipamentos lançados como receitas
de vendas.
Como fez – A empresa admitiu ter inflado as receitas em US$ 1,9 bilhão
durante cinco anos, declarando erroneamente vendas de equipamentos e
contratos de serviços. A Xerox declarou ter registrado US$ 6,4 bilhões
como receitas de venda, sendo que US$ 5,1 bilhões desse montante foram
na realidade recebidos por aluguel de equipamentos, serviços,
terceirização de documentos e receitas financeiras. A manipulação da
contabilidade ajudou a companhia a cumprir as previsões de lucros.
WorldCom
Empresa: WorldCom
O que fez – Ativação indevida de gastos.
Como fez – Manipulação extremamente simples de resultado. A empresa
colocou no balanço 3,8 bilhões de dólares como investimentos, quando na
verdade eram despesas. A compra de bens duráveis, que trarão retorno
direto, pode ser depreciada no balanço em um período longo. Os gastos do
dia-a-dia, por outro lado, devem ser reconhecidos como despesa
imediatamente.
Enron
Empresa: Enron
O que fez – Desvios de dívidas para associadas e superestimação de
lucros.
Como fez – Com participações em pequenas empresas que não constavam no
balanço, a Enron escondeu bilhões em dívidas. No último balanço
publicado, a empresa superestimou os lucros em quase 600 milhões de
dólares e fez desaparecer dívidas de quase 650 milhões de dólares. A
manipulação não parou por aí, pois além de esconder os passivos, a Enron
também vendeu bens a essas empresas por preços supervalorizados, a fim
de criar falsas receitas.
Tyco
Empresa: Tyco
O que fez – Sonegação fiscal
Como fez – Tudo começou com o indiciamento do ex-executivo-chefe Dennis
Kozlowski por sonegação de mais de 1 milhão de dólares em impostos sobre
a compra de obras de arte no valor de 13 milhões de dólares.
Imediatamente depois, a receita federal americana passou a investigar se
o conglomerado Tyco, que produz de equipamentos médicos a alarmes de
incêndio, estava fazendo o mesmo. Durante os últimos cinco anos, a
holding mudou várias de suas pequenas subsidiárias para paraísos
fiscais, como Caribe, Bermudas, Barbados e Ilhas Cayman.
8 – Conclusão
A contabilidade criativa é de magnitude e complexidade crescentes. A
sofisticação cada vez maior das estruturas financeiras das empresas e a
competitividade do mundo dos negócios exercem uma importante pressão nos
dirigentes das empresas, o que alimenta e favorece a distorção
intencional da informação contábil contida nas demonstrações
financeiras.
O estudo da contabilidade criativa é muito importante, pois as
conseqüências da utilização de práticas desta natureza afetam
diretamente todas as partes interessadas nas informações geradas pela
contabilidade, podendo vir a trazer distorções significativas na
interpretação dos dados pelos usuários.
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Maria Elisabeth Pereira Kraemer
Contadora, CRC/SC nº 11.170, Professora e Integrante da Equipe de Ensino e Avaliação na Pró-Reitoria de Ensino da UNIVALI – Universidade do Vale do Itajaí. Mestre em Relações Econômicas Sociais e Internacionais pela Universidade do Minho-Portugal. Doutoranda em Ciências Empresariais pela Universidade do Museu Social da Argentina. Integrante da Corrente Científica Brasileira do Neopatrimonialismo e da ACIN – Associação Científica Internacional Neopatrimonialista.
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