Resumo
Desde a culminação da revolução industrial até os dias atuais, o modelo
de desenvolvimento implantado pelas nações sempre foi idealizado sem se
levar em conta o respeito à natureza, à qualidade de vida da humanidade
e o impacto causado por este sobre a realidade e as condições sociais
das populações envolvidas, levando o nosso planeta a atual situação de
degradação e devastação ambiental, pobreza e miséria, espalhando assim
um imenso caos. Nos últimos tempos, as organizações empresariais e
conseqüentemente a contabilidade, têm-se influenciada pelas incidências
de novas variáveis: novas tecnologias, consideração primordial do ativo
humano, na racionalização dos custos, gestão dos custos por atividades,
etc., que vem contemplar e aperfeiçoar a doutrina existente. Neste
sentido, a Contabilidade, vista como um sistema de informação da
situação e da evolução patrimonial, econômica e financeira da empresa,
deve incluir, em seus relatórios, todos os dados relacionados ao meio
ambiente, facilitando o acesso a mais esta informação ao seu grande
número de usuários, auxiliando-os no processo de tomada de decisão. O
contador deve participar de forma ativa neste processo de planejamento,
avaliação e controle das questões sociais e ambientais, registrando e
divulgando as medidas adotadas e os resultados alcançados. Os contadores
têm um papel fundamental nesta perspectiva, uma vez que depende desses
profissionais elaborar um modelo adequado para esta entidade, incentivar
às empresas a implementarem gestões ambientais que possam gerar dados
apresentáveis contabilmente, nos balanços sociais, além de criar
sistemas e métodos de mensuração dos elementos e de mostrar ao
empresário as vantagens dessas ações.
1 - Introdução
A preocupação mundial em torno do meio ambiente caminha para um consenso
em torno da adesão a um novo estilo de desenvolvimento que deve combinar
eficiência econômica com justiça social e prudência ecológica. A
combinação desses elementos somente será possível se houver um esforço
conjunto de todos com objetivo de atingir o bem-estar geral no futuro.
Os assuntos ambientais estão crescendo em importância para a comunidade
de negócios em termos de responsabilidade social, do consumidor,
desenvolvimento de produtos, passivos legais e considerações contábeis.
Nesse cenário, é cada vez mais árduas a tarefa do administrador no
tratamento desses assuntos na Contabilidade e sua divulgação. A
complexidade da atividade de certas empresas muitas vezes é fator que
dificulta o tratamento a ser dado no registro e na divulgação de,
principalmente, os chamados passivos ambientais. Este assunto envolve
julgamento e conhecimento específico, daí a necessidade de envolver não
somente a alta administração e a classe contábil, mas também engenheiros,
advogados, juristas, etc.
Portanto, a participação da Contabilidade é de extrema importância, pois
vai despertar o interesse para as questões ambientais, ajudando a classe
empresarial a implementar, em sua gestão empresarial, a variável
ambiental, não apenas para constar na legislação, mas por uma verdadeira
conscientização ecológica.
Hoje, a Contabilidade mede somente os elementos que possuem preço.
Conforme Gray (2003), a maioria desses elementos ambientais não carrega
rótulo de preço e pode, portanto, ser ignorado. O mesmo autor diz que a
primeira tarefa da contabilidade ambiental é compreender melhor este
processo e os processos sociais relacionados. A segunda é buscar formas
através das quais a Contabilidade possa ser ajustada dentro da atual
ortodoxia, visando encorajar uma maior interação social e ambiental
benigna.
Diante disto, a Contabilidade Ambiental é o processo que facilita as
decisões relativas à atuação ambiental da empresa a partir da seleção de
indicadores e análises de dados, da avaliação destas informações com
relação aos critérios de atuação ambiental, da comunicação, e da revisão
e melhora periódica de tais procedimentos.
Junto a essas variáveis, se encontra ainda o respeito ao meio ambiente,
cuja incidência econômica, sócio-jurídica e cultural está fora de toda
dúvida e cujo impacto deve ser reconhecido na Contabilidade.
2.– Desenvolvimento sustentável
O rápido crescimento demográfico, o esbanjamento dos recursos naturais e
a degradação do meio ambiente, a pobreza persistente de grande parte da
humanidade, a opressão, a injustiça e a violência de que padecem ainda
milhões de pessoas, exigem ações corretivas de grande envergadura.
O modelo de crescimento econômico gerou enormes desequilíbrios. Se, por
um lado, nunca houve tanta riqueza e fartura no mundo, por outro lado, a
miséria, a degradação ambiental e a poluição aumentam dia a dia. Diante
dessa constatação, surge a idéia do desenvolvimento sustentável,
buscando conciliar o desenvolvimento econômico à preservação ambiental
e, ainda, ao fim da pobreza no mundo. Fortalece-se a percepção de que é
imperativo desenvolver, sim, mas sempre em harmonia com as limitações
ecológicas do planeta, ou seja, sem destruir o ambiente, para que as
gerações futuras tenham chance de existir e viver bem, de acordo com as
suas necessidades (melhoria da qualidade de vida e das condições de
sobrevivência).
O paradigma atual de desenvolvimento, baseado nos modelos dos países
desenvolvidos, dos países industrializados do Norte, conforme Campanhola
(1995), é um modelo meramente capitalista, que visa o lucro máximo.
Portanto, o crescimento econômico em si gera bem-estar à sociedade, e o
meio ambiente é entendido um bem privado, no que se refere à produção e
descarte dos seus resíduos.
Dentro desse processo, ao longo dos últimos 50 anos, pode-se afirmar que
os recursos naturais são tratados principalmente como insumo para o
processo produtivo, especialmente no processo produtivo industrial. Fica
evidente que este modelo, da maneira como foi idealizado e implementado
não se mostra sustentável ao longo do tempo. Existe cada vez mais a
consciência que os recursos naturais são esgotáveis, e, portanto
finitos, se mal utilizados.
Neste sentido, o desenvolvimento da tecnologia deve tender a ser
orientado para metas de equilíbrio com a natureza e de incremento da
capacidade de inovação dos países em desenvolvimento, e o progresso será
atendido como fruto de maior riqueza, maior benefício social eqüitativo
e equilíbrio ecológico.
Meyer (2000) enfoca que, para esta ótica, o conceito de desenvolvimento
sustentável apresenta pontos básicos que devem considerar, de maneira
harmônica, o crescimento econômico, uma maior percepção com impactos
sociais decorrentes e o equilíbrio ecológico na utilização dos recursos
naturais.
Assume-se que as reservas naturais são finitas, e que as soluções devem
ocorrer através de tecnologias mais adequadas ao meio ambiente. Deve-se
atender às necessidades básicas usando o princípio da reciclagem. A
forma de viabilizar com equilíbrio todas essas características é o
grande desafio a enfrentar nestes tempos.
Este novo fazer foi construído com sua ênfase, a partir dos resultados
da Rio-92, onde a noção de Desenvolvimento Sustentável se alastrou e
estruturou-se. A noção e os conceitos de sustentabilidade trazem como
novo desafio os caminhos para a Gestão Ambiental.
Essa conscientização conduzirá ao desenvolvimento sustentável, definida
no Relatório Brundtland (Nosso Futuro Comum), elaborado pela Comissão
Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento (1988), como “aquele que
atende as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as
gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades”.
A inclusão da proteção do ambiente entre os objetivos da organização
moderna amplia substancialmente todo o conceito de administração.
Administradores, executivos e empresários introduziram em suas empresas
programas de reciclagem, medidas para poupar energia e outras inovações
ecológicas. Essas práticas difundiram-se rapidamente e, vários pioneiros
dos negócios desenvolveram sistemas abrangentes de administração de
cunho ecológico.
Esse novo paradigma precisa ser acompanhado por uma mudança de valores,
passando da expansão para a conservação, da quantidade para a qualidade,
da denominação para a parceria.
As empresas, para Capra apud Callenbach (1993), são sistemas vivos, cuja
compreensão não é possível apenas pelo prisma econômico. Como sistema
vivo, a empresa não pode ser rigidamente controlada por meio de
intervenção direta, porém, pode ser influenciada pela transmissão de
orientações e emissão de impulsos. Esse novo estilo de administração é
conhecido como administração sistêmica.
Nesse aspecto as empresas têm um papel social e ambiental extremamente
relevante. Através de uma prática empresarial sustentável, provocando
mudança de valores e de orientação em seus sistemas operacionais,
estarão engajadas à idéia de desenvolvimento sustentável e preservação
do meio ambiente, com responsabilidade social.
Neste novo paradigma, Almeida (2002) diz que a idéia é de integração e
interação, propondo uma nova maneira de olhar e transformar o mundo,
baseada no diálogo entre saberes e conhecimentos diversos. No mundo
sustentável, uma atividade – a econômica, por exemplo – não pode ser
pensada ou praticada em separado, porque tudo está inter-relacionado, em
permanente diálogo. O quadro 1 apresenta as diferenças entre o velho e o
novo paradigma:
Quadro 1 – Paradigma cartesiano versus paradigma da sustentabilidade
Fonte: Almeida (2002).
Os empresários, neste novo papel, tornam-se cada vez mais aptos a
compreender e participar das mudanças estruturais na relação de forças
nas áreas ambiental, econômica e social. Também, em sua grande parte, já
decidiram que não querem ter mais passivo ambiental.
O desenvolvimento sustentável, além de equidade social e equilíbrio
ecológico, segundo Donaire (1999), apresenta, como terceira vertente
principal, a questão do desenvolvimento econômico. Induz a um espírito
de responsabilidade comum como processo de mudança no qual a exploração
de recursos materiais, os investimentos financeiros e as rotas do
desenvolvimento tecnológico deverão adquirir sentidos harmoniosos. Neste
sentido, o desenvolvimento da tecnologia deverá ser orientado para metas
de equilíbrio com a natureza e de incremento da capacidade de inovação
dos países em desenvolvimento, e o progresso será entendido como fruto
de maior riqueza, maior benefício social eqüitativo e equilíbrio
ecológico.
Sachs apud Campos (2001) apresenta cinco dimensões do que se pode chamar
desenvolvimento sustentável:
Figura 1 - As cinco dimensões da sustentabilidade.
Fonte: Sachs apud Campos (2001).
√ A sustentabilidade social – que se entende como a criação de um
processo de desenvolvimento sustentado por uma civilização com maior
equidade na distribuição de renda e de bens, de modo a reduzir o abismo
entre os padrões de vida dos ricos e dos pobres.
√ A sustentabilidade econômica – que deve ser alcançada através do
gerenciamento e alocação mais eficientes dos recursos e de um fluxo
constante de investimentos públicos e privados.
√ A sustentabilidade ecológica – que pode ser alcançada através do
aumento da capacidade de utilização dos recursos, limitação do consumo
de combustíveis fósseis e de outros recursos e produtos que são
facilmente esgotáveis, redução da geração de resíduos e de poluição,
através da conservação de energia, de recursos e da reciclagem.
√ A sustentabilidade espacial – que deve ser dirigida para a obtenção de
uma configuração rural-urbana mais equilibrada e uma melhor distribuição
territorial dos assentamentos humanos e das atividades econômicas.
√ A sustentabilidade cultural – incluindo a procura por raízes endógenas
de processos de modernização e de sistemas agrícolas integrados, que
facilitem a geração de soluções específicas para o local, o ecossistema,
a cultura e a área.
As metas do desenvolvimento sustentável são:
√ A satisfação das necessidades básicas da população (educação,
alimentação, saúde, lazer, etc.).
√ A solidariedade para com as gerações futuras (preservar o ambiente de
modo que elas tenham chance de viver).
√ A participação da população envolvida (todos devem se conscientizar da
necessidade de conservar o ambiente e fazer cada um a parte que lhe cabe
para tal).
√ A preservação dos recursos naturais (água, oxigênio, etc).
√ A elaboração de um sistema social, garantindo emprego, segurança
social e respeito a outras culturas (erradicação da miséria, do
preconceito e do massacre de populações oprimidas, como, por exemplo, os
índios).
√ A efetivação dos programas educativos.
A busca de sustentabilidade é um processo, sendo a própria construção do
conceito uma tarefa ainda em andamento e muito longe do fim. Alguns
resultados práticos já podem ser reconhecidos e celebrados como
argumenta Almeida (2002), entre julho de 1996 e julho de 2001, o índice
Dow Jones de Sustentabilidade ultrapassou com folga o Dow Jones Geral:
18,4% para o primeiro, contra 14,8% para o segundo. O índice Dow Jones
de Sustentabilidade evidencia a lucratividade das ações das 312 empresas
com melhor desempenho sócio ambiental, dentre as cerca de três mil que
compõem o Índice Dow Jones Geral, principal índice bolsista do mundo.
2.1 – Índice Dow Jones de Sustentabilidade
Hoje, a principal ferramenta de escolha de ações de empresas com
responsabilidade social e ambiental é o Índice Dow Jones de
Sustentabilidade (DJSI, em inglês Dow Jones Sustainability Group Index).
O DJSI foi lançado em setembro de 1999 pela Dow Jones e a Sustainable
Asset Management (SAM), gestora de recursos da Suíça especializada em
empresas comprometidas com a responsabilidade social e ambiental. O
índice é formado por 312 ações de empresas de 26 países e quatro
brasileiras integram a lista: Itaú, Unibanco, Embraer e Cemig.
Os índices de sustentabilidade fornecem marcas de nível objetivas para
os produtos financeiros que são ligados aos critérios econômicos,
ambientais e sociais. Oferecem uma linha de base do desempenho como uma
marca de nível e universo do investimento para o número crescente de
fundos mútuos, de certificados e de outros veículos de investimento que
são baseados no conceito de sustentabilidade.
As empresas que integram a lista do DJSI têm vários benefícios como:
√ Reconhecimento público da preocupação com a área ambiental e social.
√ Reconhecimento dos stakeholders importantes tais como legisladores,
clientes e empregados (por exemplo, conduzir a uma lealdade melhor do
cliente e do empregado).
√ Benefício financeiro crescente pelos investimentos baseados no
índice.
√ Os resultados altamente visíveis, internos e externos à companhia.
Todos os componentes são anunciados publicamente pelo Boletim do Índice
e a companhias são autorizadas a usar “membro da etiqueta oficial de
DJSI”.
Os indicadores de desenvolvimento sustentável, além de serem
necessários, são indispensáveis para fundamentar as tomadas de decisões
nos mais diversos níveis e nas mais diversas áreas. Tem surgido várias
iniciativas e projetos com vistas à definição de indicadores de
desenvolvimento sustentável para várias finalidades de gestão, ao nível
do desenvolvimento sustentável local, regional e nacional. A Agência
Européia do Ambiente (AEA) tem sido pioneira nestas matérias,
desenvolvendo um conjunto de trabalhos e estimulando a sistematização e
comparabilidade da informação nos diversos países abrangidos pela sua
ação, procurando ainda criar sinergias com outros organismos como a
Eurostat e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE).
O conceito de desenvolvimento sustentável resgata a necessidade de um
balanço entre fatores sociais, ambientais e econômicos. Os indicadores
de desenvolvimento sustentável representam assim ferramentas que usadas
com sabedoria e adequadamente, possibilitarão a construção de base para
mudanças.
3 – Desenvolvimento sustentável e contabilidade – princípios da Global
Reporting Initiative (GRI)
A Iniciativa de Relatório Global (GRI) é um acordo internacional, criado
com uma visão de longo prazo, multi-stakeholder, cuja missão é elaborar
e difundir as Diretrizes para elaboração de Relatórios de
Sustentabilidade aplicáveis globalmente e voluntariamente, pelas
Organizações que desejam dar informação sobre os aspectos econômicos,
ambientais e sociais das suas atividades, produtos e serviços.
As Diretrizes para a elaboração dos Relatórios de Sustentabilidade
abordam os três elementos interrelacionados da Sustentabilidade tal como
se aplicam a uma organização.
√ Econômicos – inclui, por exemplo, os gastos e benefícios,
produtividade do trabalho, criação de emprego, despesas em serviços
externos, despesas em investigação e desenvolvimento, e investimentos em
educação e outras formas de capital humano.
√ Ambientais – inclui, por exemplo, impactos dos processos, produtos e
serviços no ar, água, solo, biodiversidade e saúde humana.
√ Sociais – inclui, por exemplo a saúde e segurança ocupacionais,
estabilidade do empregado, direitos trabalhistas, direitos humanos,
salários e condições de trabalho nas operações externas. A figura 2
detalha a avaliação da sustentabilidade dos aspectos econômicos,
ambientais e sociais.
Figura 2 – Avaliação da Sustentabilidad
Fonte: http://gasa.dcea.fct.unl.pt
Estas Diretrizes fornecem um enquadramento para apresentar os Relatórios
de Sustentabilidade, promovendo as possibilidades de comparação entre
diferentes organizações ao mesmo tempo que reconhece a utilidade de
compilar e apresentar a informação. As Diretrizes compreendem 4 partes:
√ introdução e orientação geral – informação básica para compreender a
necessidade e a natureza da GRI, assim como linhas gerais sobre a
concepção e aplicabilidade das Diretrizes;
√ princípios e métodos para a elaboração de Relatórios de
Sustentabilidade – aspectos fundamentais, conceitos e práticas que
promovem o rigor, a comparabilidade, e a fiabilidade na elaboração dos
relatórios;
√ conteúdo do Relatório da Sustentabilidade – enquadramento para
estruturar um relatório GRI, conteúdo específico e conselhos para
completar as várias partes do relatório;
√ anexos – orientação adicional e recursos para utilizar as Diretrizes.
A GRI visa ajudar as organizações a elaborar os relatórios de modo a
que:
√ apresentem uma visão clara do impacto ecológico e humano da empresa,
para apoiar a tomada de decisões fundamentadas quanto a investimentos,
compras e possíveis alianças;
√ proporcionem, às partes interessadas (stakeholders), informação
credível que seja relevante para as suas necessidades e interesses e que
convide a um maior diálogo e informação com as partes interessadas;
√ proporcionem uma ferramenta de gestão para apoiar a organização na
avaliação e melhoria contínua do seu desempenho e progresso;
√ respeitem critérios externos já estabelecidos e comumente aceitos para
elaboração de relatórios e os apliquem consistentemente nos sucessivos
períodos informativos para garantir transparência e credibilidade;
√ se apresentem num formato que seja facilmente compreensível e que
facilite a comparação com Relatórios de Sustentabilidade de outras
organizações;
√ complementem, e não substituam, outras formas de comunicação,
incluindo financeira;
√ ilustrem a relação entre os três elementos da Sustentabilidade –
econômico, ambiental e social.
A GRI é uma ferramenta valiosa no processo de tomada de decisões a três
níveis:
√ a nível operacional, as Diretrizes proporcionam uma estrutura lógica
para aplicar o conceito de sustentabilidade ao funcionamento, serviços e
produtos das organizações. Também dá orientação quanto à criação de
sistemas de recolha de dados e informação para estimular e controlar os
progressos em relação a objetivos econômicos, ambientais e sociais;
√ a nível do Conselho de Administração, as Diretrizes são um veículo
interno para avaliar a consistência entre as políticas e o desempenho
atual em termos econômico, ambiental e social da organização. Conseguir
uma maior uniformidade na elaboração dos relatórios mediante a
utilização das Diretrizes ajudará as organizações a compararem-se com
outras e a serem reconhecidas para melhoria contínua do seu desempenho;
√ de um ponto de vista de comunicação empresarial, as Diretrizes
constituem um marco para promover efetivamente um diálogo e um
intercâmbio de informação com as partes interessadas internas e
externas, relacionados com os benefícios e desafios das empresas para
atingir os seus objetivos.
A medida que a maioria das empresas decidam adotar as Diretrizes, as
oportunidades de comparar o desempenho dentro e através de setores e
países reforçarão a capacidade das partes interessantes para impulsionar
contínuos progressos nas práticas empresarias compatíveis com a
Sustentabilidade.
A GRI inclui hipóteses e características qualitativas da informação
sobre sustentabilidade análogas as das contábeis. Deste modo, os
princípios de informação da GRI se estruturam em cinco partes: hipóteses
subjacentes, características qualitativas, classificação de elementos,
indicadores e políticas de informação. Os princípios subjacentes e as
características qualitativas da informação sobre a sustentabilidade da
organização aparecem no quadro 2.
Quadro 2 – Princípios subjacentes e características qualitativas da
informação sobre sustentabilidade
Princípios ou hipóteses subjacentes
Fonte: González & Abadía (2002)
Quanto ao princípio de alcance, o informe deve expressar de forma clara
que temas têm cobertura entre os que propõem a GRI: ambiental, econômico
e social.
O princípio da importância relativa requer interação com o consenso dos
stakeholders ou partícipes da empresa. A relevância da informação também
se determina tendo em conta os interesses e as necessidades dos
diferentes partícipes.
A fiabilidade da informação requer que esta seja exata, completa e
neutra. A informação é completa na medida que o informe não omite nenhum
aspecto dentre os propostos para cada dimensão da sustentabilidade,
especialmente aqueles que mostram uma imagem menos favorecedora para a
empresa.
O conteúdo dos informes de sustentabilidade se estrutura de acordo com
uma hierarquia que começa com a definição de categorias, ou áreas
extensas, sobre questões econômicas, sociais ou ambientais de interesses
para os partícipes. A figura 3 apresenta um esboço da maneira em que a
GRI estrutura a informação e apresenta seu informe de sustentabilidade.
No aspecto social, se distingue neste documento as categorias “condições
de trabalho”, “direitos humanos”, “fornecedores” e “produtos e
serviços”. Os aspectos estão relacionados com as categorias, podendo uma
categoria incluir vários aspectos. Dentro dos direitos humanos, a GRI
distingue entre os seguintes aspectos: geral, direitos dos povos
indígenas e segurança. Estes indicadores permitirão proporcionar
informação, normalmente quantitativa, sobre os diferentes aspectos,
podendo desenvolver, nestes, diferentes indicadores.
As Directrizes GRI contêm recomendações para a avaliação da
sustentabilidade, contemplando indicadores de desempenho agrupados em
três secções, abrangendo as dimensões econômica, ambiental e social. A
GRI estabeleceu uma hierarquia de elementos de informação para cada uma
das dimensões da sustentabilidade, observando três níveis:
√ Categorias – áreas ou agrupamentos das questões econômicas, ambientais
ou sociais que afetam as partes interessadas.
√ Aspectos – elementos relacionados com uma categoria específica. Uma
dada categoria pode conter vários aspectos.
√ Indicadores – valores específicos de um aspecto concreto que possam
ser utilizados para acompanhar e demonstrar o desempenho. A GRI admite
que os indicadores possam ser quantitativos ou qualitativos.
Na figura 3 sintetizam-se as categorias e aspectos contemplados pela
GRI. As Diretrizes contêm ainda uma descrição pormenorizada dos
indicadores que devem ser utilizados para caracterizar os diferentes
aspectos.
Figura 3 – Categorias e aspectos contemplados nas Diretrizes GRI (GRI,
2002)
Fonte: http://www.globalreporting.org
Os indicadores para a elaboração dos relatórios abordam os três
elementos inter-relacionados da sustentabilidade, tal como se aplicam a
uma organização, como segue no quadro 3
Quadro 3 – Elementos e indicadores
Fonte:http://www.globalreporting.org
O GRI é um marco para a comunicação (externa) de informação para as
empresas, no que diz respeito a:
√ suas atuações para melhorar a sustentabilidade;
√ os resultados destas atuações.
4 – A contabilidade: uma alavanca na construção do desenvolvimento
sustentável
Nos últimos 10 anos foram feitos progressos verdadeiramente
surpreendentes na área de gerenciamento e relatório ambiental e, mais
recentemente, o mesmo ocorreu quanto à conscientização sobre a
responsabilidade social e a crescente compreensão dos desafios da
sustentabilidade. Grande parte deste progresso, conforme Gray (2003),
deve-se a iniciativas do setor corporativo e ao considerável apoio dado
pela comunidade profissional da contabilidade.
É realmente impressionante a lista de conquistas ultimamente. E mais
impressionante ainda é saber que a maior parte do progresso foi possível
através de iniciativas voluntárias, inovação e liderança dos setores
corporativo e contábil.
A Contabilidade está se movendo rapidamente na direção do bem-estar
social. Sua função não pode se restringir a fornecer informações para a
melhor alocação dos recursos econômicos, visando unicamente à
maximização da riqueza empresarial.
Quanto à conservação do meio ambiente, a contabilidade deverá estar mais
envolvida. As empresas estão compelidas a manter a sociedade informada
acerca de sua relação com o meio ambiente e das providências que adotam
objetivando preservá-lo. Trata-se, portanto, de uma postura baseada na
consciência de que não se pode admitir progresso econômico ao preço da
degradação ambiental.
Na informação sobre o meio ambiente se deve incluir a contabilidade,
porque, na atualidade, o meio ambiente é um fator de risco e de
competitividade de primeira ordem. A não inclusão dos custos e
obrigações ambientais distorcerá tanto a situação patrimonial como a
situação financeira e os resultados da empresa.
O necessário objetivo de conservação do meio ambiente obriga a
contabilidade a assumir alguns controles em torno dos seguintes
aspectos:
√ Fornecimentos: de recursos mínimos e uso extensivo de materiais
reciclados ou renováveis.
√ Processos produtivos e investimentos em imobilizado: mínimo consumo de
água e energia, mínima emissão atmosférica e mínima quantidade de
resíduos.
√ Características do produto: mínimos vasilhames e embalagens,
reciclagem e reutilização dos mesmos.
As inovações trazidas pela Contabilidade Ambiental estão associadas a
pelo menos três temas:
√ a definição do custo ambiental;
√ a forma de mensuração do passivo ambiental, com destaque para o
decorrente de ativos de vida longa;
√ a utilização intensiva de notas explicativas abrangentes e o uso de
indicadores de desempenho ambiental, padronizados no processo de
fornecimento de informações ao público.
A Contabilidade, entendida como meio de fornecer informações, deveria
buscar responder a este novo desafio, atendendo aos usuários
interessados na atuação das empresas sobre o meio ambiente, subsidiando
o processo de tomada de decisão, além das obrigações com a sociedade no
que tange à responsabilidade social e à questão ambiental.
5 – Contabilidade de Gestão Ambiental
A contabilidade de gestão ambiental segundo a EPA (2002):
√ focaliza nos custos internos à companhia
√ não inclui custos externos à sociedade
√ dá ênfase particular na contabilidade para custos ambientais
√ abrange a não somente informação ambiental e outra do custo, mas
também informação explícita em fluxos do exame e os fatos dos materiais
e da energia.
√ a sua informação pode ser usada para a maioria de tipos de atividade
ou de tomada de decisão da gerência dentro de uma organização, mas é
particularmente útil para atividades ambientais proativas da gerência.
Neste contexto, a contabilidade de gestão ambiental incorpora e integra
dois dos três blocos de edifício do desenvolvimento sustentável:
ambiente e economia, como se relacionam à tomada de decisão interna de
uma organização.
A utilização geral da informação da Contabilidade de Gestão Ambiental
serve essencialmente para ser utilizada internamente pela empresa nas
suas tomadas de decisão. A nível interno os procedimentos incluem:
medições físicas do consumo de materiais e energia, fluxos de deposição
e deposição final, avaliação monetária de custos, poupanças e receitas
relacionadas com atividades que apresentam potenciais impactos
ambientais.
A Contabilidade de Gestão Ambiental tem uma componente monetária como
física. Sua informação e sua aplicação podem ser estruturadas em
ferramentas orientadas pelo passado e para o futuro conforme é
demonstrado no quadro IV
Quadro IV - Ferramentas da Contabilidade de Gestão Ambiental orientadas
pelo passado e para o futuro.
Fonte: Adaptado de Schaltegger, St., Hahn, T., Burrit, R. 2000, apud
Divisão para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (2001).
Representa assim uma abordagem combinada que facilita a transição de
informação da contabilidade financeira e da contabilidade analítica para
aumentar a eficiência de materiais, reduzir o impacto e o risco
ambiental e reduzir os custos da salvaguarda ambiental.
Os dados da Contabilidade de Gestão Ambiental são particularmente
valiosos para iniciativas da gerência com um foco ambiental específico.
Fornece não somente os dados de custo necessários para avaliar o impacto
financeiro destas atividades da gerência, mas também a informação física
do fluxo. Essa ajuda caracteriza impactos ambientais.
6 - Por quê uma companhia deve implementar um sistema de contabilidade
de gestão ambiental?
Scavone & Ferrucci (2001) destacam os seguintes aspectos:
√ A contabilidade convencional, com seus custos agregados (em um
conjunto de custos ambientais e não ambientais), deixa custos “ocultos”
na direção.
√ A direção tende a subestimar a extensão e crescimento desta evidência
substancial. Identificando, avaliando e destinando custos ambientais a
Contabilidade de Gestão Ambiental permite identificar oportunidades de
redução de custos (por exemplo reemprego de solventes tóxicos por
substâncias não tóxicas).
√ Uma regra na contabilidade de gestão ambiental é que 20% das
atividades de produção são responsáveis por 80% dos custos ambientais.
Quando se identificam as contas compartidas pelas várias linhas do
produto, os produtos com baixo custo ambiental subsidiam aqueles com
alto custo ambiental. Isto resulta na formação ineficiente do preço, do
qual reduz a rentabilidade.
√ Uma aplicação relativamente simples da Contabilidade de Gestão
Ambiental que pode dar um importante benefício na administração do
desperdício, dado que o custo de manipulação e disposição do desperdício
é relativamente fácil de definir e destinar a produtos específicos.
√ Outros custos ambientais, incluindo os custos de cumprimento
regulatório, os custos legais, o dano da imagem da empresa, os riscos e
os passivos ambientais são muito mais difíceis de calcular.
√ Os regulamentos ambientais, as demandas do consumidor, e a pressão do
público, pertencente ao desempenho ambiental estão constantemente
mudando. As companhias com sistemas de Contabilidade de gestão ambiental
podem determinar os custos e se isentarem de responder a tais mudanças e
condições de mercado, e em conseqüência podem ganhar uma vantagem
competitiva com outras empresas.
Um sistema de contabilidade de gestão ambiental, busca fundamentalmente,
incorporar dentro da prática contábil financeira tradicional, os efeitos
ambientais, identificando de forma separa aqueles custos e ingressos
relacionados com o meio ambiente, busca respostas para solucionar
conflitos nos critérios financeiros e não financeiros, em resumo, busca
incorporar o conceito de sustentabilidade do meio ambiente nos negócios,
acolhendo todos os subsistemas de uma empresa que conforme Torres (2001)
são:
√ Sistemas de custeio – onde se conhecem todos os custos atuais
influenciados por ação passadas, presentes e futuros em termos
ambientais.
√ Sistemas de investimento de capital – tem como propósito a prevenção e
diminuição da contaminação (se tem em conta o processo de aprovação de
desembolso de capital, o processo de planejamento ambiental, se utilizam
métodos de valorização de custos, porque é indispensável valorar,
visualizar e planejar as opções de alternativas ambientais, etc).
√ Sistema de avaliação de desempenho – permite avaliar as unidades
estratégicas de negócios e das instalações, e que ajuda o planejamento
de incentivos que se dirigem ao fomento da responsabilidade ambiental
nas pessoas. Na figura IV é demonstrado os subsistemas.
Figura IV - Subsistemas que compõe o sistema integrado de informação
Fonte: Torres (2001)
Todos os subsistemas de informação, integrados na companhia, permitem
ter uma visão geral da mesma com o fim de tomar as decisões de acordo
com as situações de mercado e competitividades que o mundo dos negócios
exige hoje. A figura V mostra essa visão.
Verifica-se, portanto, que por meio da identificação, mensuração e
divulgação das referidas informações, a Contabilidade pode contribuir
muito com a sociedade e com o governo, buscando soluções para os
problemas sociais, pois sendo meio de fornecer informações, deve buscar
responder a este novo desafio, satisfazendo os usuários interessados na
atuação das empresas sobre o meio ambiente, devendo, ainda, contribuir
para o sistema de gestão ambiental.
Muito além de ser uma simples sofisticação, na atualidade, para Sá
(2002), a denominada Contabilidade Ambiental, é uma evolução necessária
que dignifica os nossos estudos perante a história do conhecimento. Uma
filosofia específica, todavia, faz-se necessária na condução dos
pensamentos, ou seja, é preciso que uma metodologia própria seja
aplicada e que o assunto tenha tratamento seriamente científico, pois,
só este aspecto, é competente para oferecer uma visão fiel da realidade,
perante a interação de eficácia que deve existir entre o patrimônio das
células sociais e o ambiente natural pertinente.
7 – Conclusão
A exploração da biosfera pelo homem ameaça hoje a sua própria existência
e delicado equilíbrio. Ao longo das últimas décadas, as pressões sobre o
ambiente global tornaram-se auto-evidentes, fazendo erguer uma voz comum
pelo desenvolvimento sustentável. Essa estratégia requer um novo
enquadramento mental e novo conjuntos de valores.
O mercado não mais aceita o descaso no tratamento dos recursos naturais.
Os consumidores estão interessados em produtos limpos. A legislação
torna-se mais rígida imputando sanções aos infratores, obrigando as
empresas a encarar com seriedade e responsabilidade a variável ambiental
em sua estratégia operacional.
Portanto, a Contabilidade não pode mais ignorar os problemas ambientais
e sociais, porque ela forma um elo de ligação entre as empresas e a
comunidade. A contabilidade vai despertar o interesse para as questões
ambientais, ajudando a classe empresarial a implementar, em sua gestão
empresarial a variável ambiental, não apenas para constar na legislação,
mas por uma verdadeira conscientização ecológica.
O contador, como menciona Sá (2002), precisa comparecer nesse novo
cenário, com disposição e competências necessárias para cooperar com a
preservação do planeta, prosperidade das sociedades e valorização do
homem. Deverá ser o agente capaz de disseminar a responsabilidade social
na sua organização e nas empresas a quem presta serviços. É ele o
detentor de informações ricas e privilegiadas, e capaz de influenciar
positivamente as organizações e contribuir para a tomada de decisões.
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