Introdução
O conceito de incerteza começou por desenvolver Keynes no ´Treatise on Money`, aqui são claras as relações estabelecidas entre incerteza sobre o futuro, expectativas na base do conhecimento incerto e a especulação dos agentes como manifestação negativa da conduta e a influência que sobre elas detém o sistema bancário ou poderia deter se outra fosse a sua política. A incerteza é sobretudo uma questão de informação e de confiança nas possibilidades que essa informação proporciona na tomada de decisões, as expectativas denotam o grau de informação e confiabilidade dessa informação.
A principal dificuldade, segundo Keynes, que prejudica e limita a acção dos agentes decorre da falta de percepção por parte do sistema da natureza diferente da produção de bens de investimento e bens de consumo. Desse modo não conta com o efeito que um aumento na produção de bens de investimento provoca sobre o estado da procura dos bens de consumo e, consequentemente, sobre o nível dos preços destes. Isto resultava da visão tradicional sobre as funções predominantes do sistema bancário, a qual era ortodoxamente mantida e executada pêlos seus directores[i].
1. O conceito de incerteza e expectativa na teoria de J.M.Keynes
1. 1. O conceito de incerteza no Tratado da Moeda
O sistema tinha a dupla função de, por um lado dirigir a direcção da oferta de recursos, através de empréstimos para fundo de maneio durante o processo de produção e da oferta de dinheiro corrente requeridos pela circulação industrial e, por outro lado, dirigindo a direcção da oferta de recursos que determina o valor dos títulos e obrigações através de investimentos realizados pelo próprio ou pêlos empréstimos que faz ao mercado de capitais, as empresas e pessoas que compram títulos com dinheiro emprestado pelo sistema e da oferta de depósitos de poupança requeridos pela circulação financeira a fim de satisfazer os sentimentos especulativos, de modo a resguardar a sua influência no valor e volume de investimento[ii].
A razão reside em que os negócios financeiros não são `self-liquidating` e cheiram a especulação. Na verdade estas razões não parecem ser credíveis. Um crédito para fins financeiros é mais líquido que um para fins industriais, porque pela precaução e segurança dos bancos raramente conduzem a dívidas sem execução. Na prática, a liquidez de ambos tipos de empréstimo é reduzida se se proceder a uma redução destes, com efeitos desastrosos. Nessa situação é mais fácil cortar no primeiro tipo de crédito. Sendo certo que dado o carácter especulativo dos créditos para fins financeiros, os bancos devem resguardar-se destes mais do que no caso dos empréstimos para fins industriais.
Mas para além destas considerações, a oferta incrementada de crédito para capital de trabalho deve ser por vezes encorajada e outras vezes desencorajada, tanto como a oferta incrementada de crédito para capital fixo. Na prática a pressão dos homens de negócios é provavelmente maior quando é menos aconselhável satisfazer os pedidos de crédito e menor quando é preciso encorajar o crédito. Disto conclui Keynes que:
“at any rate, when we are considering the regulative powers and functions of the banking system, we must study its influence over the rate of investment in fixed capital at least as much as its influence over the rate in working capital..Therefore we shall not understand the full measure of control which the banking system is capable of exerting on the price level unless we take account of all the ways in which it can influence the rate of investment as a whole”[iii].
O sistema bancário irá conceder crédito em condições saudáveis quando a taxa de juro de mercado seja igual à taxa de juro natural e, quando o valor e custo dos novos investimentos sejam iguais ao volume da poupança corrente. Desse modo o sistema bancário pode controlar o nível dos preços se pode controlar o valor e o volume do investimento corrente, sujeito a algumas limitações[iv]. Daí infere Keynes:
“I should atribute to the banking system much greater power to preserve investment equilibrium than to force the prevailing rate of money income away from the existing level or from the level produced by spontaneous changes, to a new and changed level imposed by conditions abroad or by arbitrary decree at home”[v].
Pelo que, impor aos bancos centrais a responsabilidade de alterar o nível dos preços e as taxas de rendimento monetários como uma condição necessária a fim de manter a convertibilidade das suas moedas nacionais em termos do padrão internacional é por uma tarefa tecnicamente difícil e onerosa nas mãos erradas. A alternativa é criar uma autoridade monetária supranacional encarregada e responsabilizada de manter a estabilidade e dotada de plenos poderes na base da confiança dos seus constituintes.
De qualquer modo, o sistema bancário exerce directa influência sobre a taxa de juro de curto prazo. Como a questão de controlar a taxa de investimento sobre o capital fixo concerne fundamentalmente a taxa de juro de longo prazo, o problema que se coloca é de saber com que segurança a taxa de juro de longo prazo responderá aos desejos da autoridade monetária, que exerce a sua influência principalmente através das taxas de juro de curto prazo[vi]. Keynes explica este processo do modo seguinte:
i) se o produto corrente dos títulos é maior que a taxa pagável pêlos empréstimos de curto prazo, um lucro obtém-se tomando emprestado para obter obrigações de longo prazo, enquanto o valor destas não desça durante o período do empréstimo. Enquanto existam pressões desta natureza existirá um sentimento `bull` no mercado de títulos. As empresas que precisam de utilizar parte das suas reservas líquidas mantidas na forma de títulos de alta cotação (`high- grade bonds`) tenderão a pedir emprestado dando em garantia esses títulos, sempre que o custo do crédito seja menor que o produto corrente de tais títulos.
ii) existem numerosas instituições financeiras que modificam a
estrutura temporal dos activos das suas carteiras( redistribuição entre
títulos de curto e longo prazo). Quando o produto dos títulos de curto
prazo é alto, a segurança e liquidez desses títulos parece extremamente
atractivo. No caso contrário, não apenas a perda da capacidade de manter
o nível de rendimentos é importante, a instituição vê a sua reputação e
credibilidade menoscabada. Nesse caso se produz um movimento no sentido
de obter títulos de longo prazo, com o qual os seus preços aumentam.
Este movimento confirma a posição daqueles que recomendam uma política
de `changeover e, a menos que existam razões sérias na mente daqueles
que maioritariamente controlam fundos por temer os títulos de longo
prazo ao nível de preços existentes, esse preços aumentarão conforme
aumente a ansiedade daqueles que temem perder os rendimentos do produto
corrente em queda. Tal é o caso dos bancos, que preferem ante todo
activos de curto prazo, mas que quando o produto cai abaixo de um certo
ponto, não podem mante-los. Por isso conclui Keynes:
“the motive for a shift from short-term assets to long term assets when
the yield from the former falls sharply is obviously a strong one -a
conclusion which is corroborated by the statistics”[vii].
iii) a terceira razão derivada das anteriores é de suma importância para posteriores desenvolvimentos teóricos, nomeadamente no capítulo 12 da Teoria Geral, dos factores psicológicos que também determinam o investimento. Keynes pergunta-se até que ponto os motivos atribuídos ao mercado são racionais?:
“ they are best regarded as an example of how sensitive-over
sensitive if you like-to the near future, about which we may think that
we know a little, even the best-informed must be, in truth, we know
almost nothing abut the more remote future. And the exaggerations of
this tendency, to which we now come, also play a part.. For part of the
explanation which we are seeking is to be found in psychological
phenomenon which appears even more strikingly in the current market
valuation of ordinary shares. The value of a company`s share, and even
of its bonds, will be found to sensitive to a degree, which a rational
observer from outside might consider quite absurd, to short- period
fluctuations in its known or anticipated profits”[viii].
A ignorância do melhor informado dos investidores sobre o futuro remoto
é maior que o seu conhecimento. Para quem conheça mal o passado e menos
do futuro, certas decisões, sobre as quais se tem pouca certeza, são
tomadas como apoio para continuar em frente. A maior parte dos que
realizam transacções de títulos sabem ainda menos sobre o que fazem. Não
possuem os rudimentos do que é necessário para juízos válidos sobre as
matéria que decidem:
“this is one of the characteristics of the capitalist system under which
we live, which, when we are dealing with the real world, is not to be
overlooked”[ix].
O mercado de capital, é dominado por profissionais da especulação, que
decidem, considerando o custo do crédito, na base das expectativas
obtidas da experiência passada sobre a tendência psicológica, enquanto
que, para além da maior o menor ignorância com que o público realiza os
seus cálculos:
“ most people are too timid and to greedy, to impatient and to nervous
about investment, the fluctuations in the paper value of which can so
easily obliterate the results of so much honest effort, to take long
views or to place even as much reliance a they reasonable might on the
dubieties of the long period; the apparent certainties of the short
period, however deceptive we may suspect them to be, are much more
attractive”[x].
Se os investidores tivessem uma visão de longo prazo, as flutuações na
taxa natural de juro não seriam tão amplas. As perspectivas reais não
sofrem mudanças tão rápidas como o espírito empresarial. O incentivo a
investir baseia-se em perspectivas imediatas, pelo que não é pouco
razoável depender das influências de curto-prazo que contra-equilibram
as mudanças de sentimentos. Por isto, uma vez que existe evidência para
acreditar que a taxa de juro de longo prazo pode ser direccionada por
movimentos na taxa de juro de curto prazo[xi].
Para que esta conclusão seja reforçada deverá pressupor-se que
existe por parte dos sistema bancário a habilidade de fazer com que a
taxa de juro de mercado se adapte rapidamente às mudanças na taxa de
juro natural. É evidente que não existe base empírica para provar a
veracidade deste pressuposto, pelo que Keynes recorre a evidência
contrária, i.e., à existência do ciclo do crédito que proba a
incapacidade do sistema bancário para lidar com este problema, de fazer
com que a taxa de mercado `keep the pace` com a taxa natural e, desse
modo não tenha sido capaz de controlar a taxa de investimento com
sucesso e evitado a instabilidade. Sobre isto Keynes sublinha:
“In fact, however, experience shows that, as a rule, the influence of
the short-term rate of interest on the long-term rate is much greater
than anyone who argued on the above lines would have expected. We shall
find, moreover, that there are some sound reasons, based on the
technical character of the market, why it is not unnatural that this
should be so”[xii]
Se o banco central concede mais fundos dos que os bancos membros podem
emprestar no curto prazo, em primeiro lugar a taxa de juro de curto
prazo declina até zero e, em segundo lugar os bancos membros vão começar
a comprar títulos, o que significa que os preços dos títulos vão começar
a crescer, a menos que muitas pessoas pensem que como os preços dos
títulos de longo prazo vão subir, os vendam mantendo o produto líquido a
uma taxa de juro muito baixa. Assim como o preço dos títulos sobe e o
banco central mantém a sua política de crédito barato, não é provável
que exista uma venda de tais títulos em larga escala, a menos que o
preço das obrigações tenha alcançado um nível considerado excessivo do
ponto de vista do longo prazo. Se o efeito das medidas é subir o preço
das acções mais do que o das obrigações, no resulta disto nenhum
prejuízo em época de `slump`, mas um preço excessivo das acções não é
provável acontecer em tempo de depressão[xiii]. Por isto assenta Keynes:
“I see small reason to doubt that the central bank can produce a
large effect on the cost of raising new resources for long-term
investment, if it prepared to persist with its open market policy far
enough”[xiv].
Existem porém alguns limites à aplicação deste método. Primeiro, ele é
só eficaz se ao mesmo tempo o banco central permite aos bancos membros
variar os limites das suas reservas, a fim de que estes disponham do
poder de comprar ou vender as quantidades adequadas de determinados
títulos.
Segundo, quando os preços diminuem, os lucros estão baixos, o futuro é incerto e os sentimentos financeiros estão deprimidos, a taxa de juro natural deverá cair a níveis muito baixos. É justamente nesta situação que os potenciais credores são mais exigentes e estão menos inclinados a empregar os seus recursos no longo prazo, a menos que existam títulos cuja segurança seja excepcional. Nessa situação é praticamente impossível manter a taxa de juro de mercado e a taxa de juro natural de longo prazo ao mesmo nível, a menos que lhe seja imposta ao banco central a responsabilidade de comprar títulos a preços considerados superiores àqueles considerados a norma de longo prazo, o que representaria o risco de perdas financeiras se a situação fosse invertida, pelo que:
“we might perhaps expect the central bank, as representing the public
interest, to be ready to run the risks of future prospects when private
interest reckon these risk to be unusually high. But the choice may be
conceivably lie between assuming the burden of a prospective loss,
allowing the slump to continue, and socialistic action by which some
official body steps into the shoes which the feet of entrepreneurs are
to cool to occupy”[xv].
Mas estas situações extremas resultam da incapacidade de lidar com o
ciclo do crédito antes que a falta de confiança origine a perda do
espírito e energia empresarial. Terceiro, a limitação insuperável dos
poderes `of skilled monetary management` de evitar `booms` e depressões
deriva do facto de que nenhum banco central nacional, pertencente a um
sistema internacional, pode esperar preservar a estabilidade do nível
dos preços se actuar isoladamente, sem acções correspondentes por parte
dos outros bancos centrais[xvi].
À incerteza que surgia do modo como os mercados funcionavam fruto da
acção especulativa unia-se a incerteza da acção da entidade monetária
que perseguia objectivos para os quais não tinha instrumentos
suficientes, pelo que ira acentuar o sentimento de Keynes que a política
monetária têm poucas possibilidades de ser eficaz para fins que não os
de manter um objectivo monetário .
1.2. A incerteza do investimento e as expectativas da classe empresarial
na teoria geral keynesiana
Com a definição da eficiência marginal do capital, Keynes demarca-se da
visão estática da economia clássica, incorporando o futuro na avaliação
do investimento. Keynes utiliza uma definição que realça a relação em
termos de expectativas dos rendimentos prováveis e do conhecimento do
preço de oferta corrente do bem capital. Deste modo distancia-se dos
conceitos de produtividade marginal do capital e de taxa natural de
juro.
Keynes define a eficiência marginal do capital, como a relação entre
o rendimento provável de um bem capital e o seu preço de oferta ou
reposição, i. e. a relação entre o rendimento provável de mais uma
unidade dessa classe de capital e o custo da respectiva produção.
Calcula-se a taxa de rendimento que se espera obter do dinheiro
investido num bem apenas produzido e não dos rendimentos históricos que
um bem tem rendido sobre o seu custo original[xvii].
Utilizando um raciocínio muito clássico, Keynes considera que, de acordo
com o princípio dos rendimentos decrescentes, a eficiência marginal do
capital virá a reduzir-se consoante o aumento do investimento. Em parte
porque o rendimento provável irá baixar, se a sua oferta aumentar, e, em
parte porque a pressão para produzir esse tipo de capital fará com que o
seu preço de oferta seja maior.
No curto prazo, a influência do preço de oferta predomina sobre a diminuição dos rendimentos. Quanto maior o período a considerar, maior será a influência do segundo factor. Assim, para cada classe de capital pode traçar-se uma curva que mostra em que proporção terão de aumentar os investimentos durante esse período, de modo a que a eficiência marginal do capital baixe até à cifra envolvida:
“ Thus for each type of capital we can build up a schedule, showing
by how much investment in it will have to increase within the period, in
order that its marginal efficiency should fall to any given figure. We
can aggregate these schedules for all the different types of capital,
so as to provide a schedule relating the aggregate investment to the
corresponding marginal efficiency of capital in general which the rate
will establish. We shall call this the investment demand-schedule; or,
alternatively, the schedule of the marginal efficiency of
capital”[xviii].
Resultará evidente, que a taxa real de investimento corrente será puxada
até o ponto em que a eficiência marginal do capital não exceda a taxa
corrente de juros para as diferentes formas de capital. Sendo Qr o
rendimento provável de um activo no tempo r, e d é o valor presente de
uma unidade monetária ao prazo de t anos, descontada a taxa corrente de
juro. O S Qtdt será o preço de procura do investimento, que será levado
a ser igual ao preço de oferta de investimento. Se Qr dr for < que o
preço de oferta, não existirá investimento no bem de capital.
A inexactidão tradicional consiste em considerar a eficiência marginal do capital em termos do rendimento corrente do equipamento de produção, o que apenas seria correcto numa situação estática em que não existissem mudanças futuras que influenciassem o presente. A curva de eficiência marginal do capital é de fundamental importância, porque as expectativas do futuro influenciam o presente através deste factor, mais do que através da taxa de juro.
Se a eficiência marginal do capital fosse reduzida ao estatuto da
taxa da juro, que é um fenómeno corrente, fechar-se-ia a possibilidade
de considerar a influência do futuro na análise do equilíbrio
presente. A restituição dessa possibilidade faz-se considerando o modo
como as expectativas do futuro afectam o presente, através dos preços da
procura do equipamento duradouro:
“It is therefore, consonant with, and agreeable to, our broad principles
of though, that expectations of the future should affect the present
through the demand price for durable equipment”[xix].
Keynes clarifica, assim, que a decisão sobre a taxa de investimento
depende da relação que existe entre a curva de eficiência marginal do
capital e a taxa de juro correspondente a diversas escalas do
investimento corrente. Como a eficiência marginal do capital mede a
relação dos rendimentos esperados de um bem de capital actual com o
preço de oferta ou reposição desse bem de capital, é necessário
investigar mais profundamente os factores esperados futuros que
modificam essa relação presente, i.e. os factores que influenciam as
decisões dos empresários no sentido de ampliar ou reduzir a produção .
1.3. A eficiência marginal do capital e as expectativas dos
empresários
A integração das expectativas é vital, como percepção por parte dos
empresários sobre os acontecimentos futuros do funcionamento
económico[xx]. Se considerarmos o efeito da expectativa de descida do
custo previsto de um equipamento sobre a eficiência marginal do
capital, sejam as expectativas produzidas por modificações no custo do
trabalho, por modificações na unidade de salários, ou por efeito da
evolução tecnológica, a produção resultante do equipamento actual terá
que concorrer com a produção obtida com um equipamento de menor custo, a
qual poderá vender os bens mais baratos. Os lucros provenientes das
vendas do equipamento novo e antigo reduzir-se-ão, se toda a produção se
tornar mais barata, pelo que a eficiência marginal descerá: “ (...) in
so far as much development are foreseen as probable, or even as
possible, the marginal efficiency of capital produced today is
appropriately diminished”[xxi].
A expectativa de uma descida no preço do dinheiro estimula o
investimento e, por consequência o preço do dinheiro influencia o nível
do emprego, porque eleva a curva de eficiência marginal do capital,
deslocando a curva de procura de investimentos à alta. Pelo contrário,
uma subida no valor do dinheiro implica uma descida da curva de
eficiência marginal do capital [xxii].
A importância de tais alterações nas expectativas deriva dos efeitos que estas mutações provocam sobre o desejo de produzir novos bens. Um efeito estimulante de preços maiores nas expectativas, não é devido à diminuição da taxa de juros, mas sim ao facto de que se eleva a eficácia marginal de um volume dado de capital.
Se a taxa de juro se elevar pari passu à previsão de aumentos dos preços, não existirão efeitos estimulantes sobre a produção de novos bens de capital, porque o incentivo para a produção dependerá de um aumento da eficiência marginal do capital relativamente à taxa de juro, pelo que o efeito estimulante de expectativas de preços maiores apenas fará sentido se a eficiência marginal do capital aumentar, e não porque uma variação antecipada no valor do dinheiro modifique a taxa de juro monetária, pois nesse caso a taxa de juro subiria, mantendo a situação inalterada:
“If the rate of interest were to rise pari passu with the marginal
efficiency of capital, there would be no stimulating effect from the
expectations of rising prices”[xxiii].
A expectativa de uma descida da taxa de juro, pode fazer baixar a
eficiência marginal do capital, se a produção resultante do equipamento
actual for concorrer com o equipamento novo, o qual requer uma
recompensa menor.
Esta hipótese só será valida se a procura estiver a descer para esse tipo de bem.
É importante entender a dependência entre a eficiência marginal do capital de um volume determinado de capital e as expectativas, pois é essa dependência que faz com que a eficiência marginal do capital fique sujeita a certas flutuações violentas que explicam o ciclo económico, na medida em que o auge e a depressão podem ser descritos como flutuações da eficiência marginal do capital relativamente à taxa de juro[xxiv].
1.4. A eficiência marginal do capital e o risco
Dois tipos de riscos afectam o volume do investimento. O primeiro é o risco do empresário ou detentor efectivo do dinheiro, perante a possibilidade de obter realmente rendimentos prováveis esperados. O segundo tipo de risco, num sistema de crédito, é o risco do prestamista, pois se as expectativas do empresário não se verificam quando pede dinheiro em empréstimo, este não cumprirá as obrigações contraídas. Uma terceira causa, não mencionada como risco, mas que afecta o investimento, são as mudanças no padrão monetário, que faz dos empréstimos em dinheiro um risco adverso, diminuindo a segurança, pela eventual depreciação dos activos reais, embora estas mudanças possam reflectir-se na alteração dos preços dos bens reais duradouros.
O primeiro dos riscos, como custo social real, diminui na média social, ou quando aumenta a exactidão das previsões e da informação. O segundo é uma adição ao custo do investimento, inexistente quando o prestamista e empresário coincidem. O risco duplica-se pois o empresário agrega ao tipo de juro, o suficiente para obter um rendimento mínimo provável, que o induzirá a investir. Este risco leva a aumentar a margem entre as expectativas relativamente aos rendimentos e a taxa de juro à qual se pretende contrair uma dívida. Por isso mesmo, as relações de força entre o empresário e o prestamista determinarão essa margem de segurança. A apreciação desse risco dependerá do nível da actividade económica.
1.5. As expectativas contraditórias dos investidores e produtores e o
nível do emprego
As expectativas são o modo como os agentes económicos interrelacionam o
presente com o futuro. Sendo a economia capitalista uma economia de
mercado, em que a produção é intertemporal - não apenas porque a
produção leva tempo, mas sobretudo porque o investimento em bens de
capital reflecte necessidades futuras de consumo - as expectativas de
todos os agentes, mas sobretudo de empresários e investidores, são de
vital importância para o emprego.
Por outro lado, as expectativas são a forma como as previsões sobre o futuro incidem sobre as decisões dos agentes económicos; nesse sentido, as expectativas dependem do modo como as previsões sobre os negócios incidem sobre essas decisões e do modo como elas se realizam.
Mas as expectativas exercem uma influênca recíproca sobre as previsões não apenas objectivamente, pela qualidade da informação, mas também psicologicamente, pela relevância da informação. Como existem dois tipos de decisões básicas dos agentes encarregues do investimento, a decisão de produzir com um determinado equipamento e a decisão de adicionar equipamento ao existente, as expectativas serão de curto prazo, na medida em que influenciam a produção corrente, ou serão expectativas de longo prazo, que influenciam a produção futura, embora seja evidente que existem decisões na base de expectativas de longo prazo que levam a modificar as decisões de produzir no presente, pelo que a linha divisória entre os dois tipos de expectativas é difícil de traçar.
Um empresário que decida produzir um determinado bem ou ampliar a produção desse tipo de bem, deverá considerar não apenas os rendimentos presentes da utilização de um determinado equipamento, mas sobretudo os rendimentos futuros.
No presente, a produção de um bem deve considerar os custos de produção para uma determinada procura, tomando em conta várias escalas possíveis de produção, assim como o valor das vendas a realizar, e considerando a elasticidade da procura. As expectativas reflectem essas previsões na perspectiva de que a situação manter-se-á como dantes. Por isso o volume de produção e de emprego actual depende dessas expectativas. A realização da produção e das vendas originará um processo de revisão ou confirmação das expectativas que levará a novas previsões.
A formação das expectativas depende da efectivação da informação
considerada relevante, pelo que a produção e o emprego serão
influenciados subsequentemente. As expectativas que levaram a comprar
um determinado equipamento ou à formação de existências, podem não
influenciar directamente a formação de novas expectativas sobre o volume
de produção a realizar e não terão consequências sobre o emprego.Assim,
Keynes acredita que: “(...) on each and every occasion of such decision,
the decision will be made, with reference indeed to this equipment and
stock, but in the light of the current expectations of prospective costs
and sale-proceeds”[xxv].
O que quer dizer que não será das expectativas actuais que resultará uma
mudança no volume de emprego, mas será da mudança das expectativas de
longo prazo que resultarão variações no emprego. Assim, as variações de
expectativas de curto prazo não tornam as mudanças no emprego
violentas ou rápidas, estas influenciam gradualmente a produção e o
emprego. Assim se explica a lentidão das mudanças no volume de emprego,
em situações de depressão ou de recuperação, pelo que, para cada estado
das expectativas, existirá sempre um nível variável da produção e do
emprego. No entanto:
“(...) a mere change in expectations is capable of producing an
oscillation of the same kind of shape as a cyclical movement, in the
course of working itself out.. But the actual course of events is more
complicated still. For the state of expectation being superimposed long
before the previous change has fully worked itself out”[xxvi].
O nível do emprego depende, em cada momento e situação, não apenas do
estado actual das expectativas, mas também das expectativas passadas,
na medida em que estas se reflectem na existência de um volume e
qualidade do equipamento actual[xxvii]:
“(...) so that the economic machine is occupied at any given time
with a number of overlapping activities, the existence of which is due
to various past states of expectations”[xxviii].
O processo de formação das expectativas de curto prazo é gradual e
contínuo, e a sua realização depende quase exclusivamente dos resultados
obtidos. Alias, é sensato que os produtores determinem as suas decisões
de produzir na base de expectativas de curto prazo, quando não se
esperam grandes mudanças que alterem as previsões sobre os rendimentos
futuros e sobre os custos dos factores, nem originem antecipações não
esperadas.
Outro é o caso quando se trata de bens de equipamento, os quais serão produzidos, seja quando a procura aumenta, o que implica antecipar rendimentos maiores esperados, seja pelo aumento do rendimento por unidade de output, seja por aumento do emprego. Neste caso, as expectativas dos produtores baseiam-se nas expectativas de longo prazo dos investidores, as quais pela sua própria natureza não podem ser obtidas com a lucidez de um determinado resultado, para além de que as expectativas de longo prazo podem ser revistas imprevistamente[xxix].
Posto isto, há que considerar mais em detalhe o estado das expectativas de longo prazo, as quais são vitais numa economia monetária em que as decisões do produtor e do investidor são de natureza diversa e por vezes antinómica, sobretudo se os objectivos a alcançar forem diferentes e contraditórios.
Keynes chama a atenção para os factores que determinam as previsões
sobre os rendimentos futuros, porquanto estão na base das decisões
sobre a procura de investimentos em bens de capital. Este é um exercício
que os empresários realizam com base em factos que podem ser previstos
com maior ou menor certeza e em acontecimentos futuros sobre os quais se
pretende obter informação de relativa confiança. As expectativas de
longo prazo dependem das mudanças futuras de determinados
acontecimentos, tais como as mudanças futuras nas existências de tipo e
quantidade de bens de equipamento, das preferências intertemporais dos
consumidores, da força da procura efectiva durante um determinado
período, sobre o qual incide a utilização de um equipamento, das
mudanças nas unidades - salário em termos monetários.
Na formação das expectativas, o empresário orienta-se por factos que
inspirem certa confiança, mesmo que esses factos tenham uma importância
menor.
Quando se planeiam as expectativas não devem ser considerados os aspectos sobre os quais não existe um grau de certeza[xxx]. Deste modo, os factos do presente encontram uma congruência desproporcionada na formação das expectativas, sendo hábito projectá-los no futuro, modificando-os segundo os motivos que tenhamos para esperar alguma variação. As expectativas planeadas baseiam-se, sobretudo, na confiança dos factos conhecidos, que servem como projecção futura, e portanto, assentam na probabilidade e confiança na previsão.
O estado de confiança tem uma importância crucial sobre a curva de eficiência marginal do capital, podendo ser considerado um factor que influencia a taxa de investimentos, porque é um dos factores que determina a eficiência marginal do capital. O estado de confiança, resulta da observação empírica dos mercados e da psicologia dos negócios. O principal problema reside no facto de a base dos conhecimentos na qual assenta a informação dos empresários sobre os rendimentos esperados futuros ser precária.
1.6. Os empresários e a incerteza
As mudanças institucionais que se operam nas empresas aumentam a incerteza relativamente à infalibilidade dos cálculos provisionais, porquanto a natureza das empresas se modificou: A socialização da propriedade, através da gestão repartida da propriedade, se por um lado veio facilitar o investimento, por outro veio torná-lo mais instável. A expansão do mercado financeiro, o surgimento da bolsa e outros mercados de investimento, não possibilitou novos investimentos, implicou simplesmente o trespasse de propriedade intangível com fins de lucro imediato.
Uma certa classe de investimento rege-se pela média das expectativas dos especuladores da bolsa de valores, e não pelas expectativas genuínas do empresário profissional, o que se manifesta no preço das acções. As avaliações e reavaliações sobre as expectativas, e sobre o estado de confiança, implicam que a realização dos investimentos se baseie no método convencional, o qual supõe que a situação existente dos negócios continuará por um tempo indefinido; no entanto, a prática demonstra que esta não se repete com probabilidade, i.e., as valorizações sobre os mercados realizam-se tomando em consideração toda a classe de conjectura, que de modo nenhum se relacionam com o rendimento provável.
Se existirem mercados organizados para o investimento e se se puder confiar em que a convenção não irá variar, poder-se-à animar o investimento. A ideia de que o único risco que se corre é o de uma mudança real das condições de futuro imediato, sobre cuja probabilidade se pode tentar formar um juízo próprio, não é provável que seja muito grande. O importante é não romper a convenção, pois o investimento será seguro: mesmo para períodos curtos e numa sucessão dos mesmos poder-se-á rever as conclusões antes de qualquer grande modificação. Deste modo, os investimentos tornam-se fixos para a comunidade e líquidos para o indivíduo. A manutenção de uma convenção, mesmo arbitrária, tem pontos frágeis, que precarizam a consecução de um volume de investimento suficiente: i) o aumento global, proporcionalmente maior, dos títulos e valores de rendimento variável na posse de especuladores sem ligações com os negócios concretos e sem conhecimento dos rendimentos esperados futuros; ii) as flutuações diárias dos lucros dos investimentos existentes, com carácter efémero e que tendem a influenciar desproporcionadamente o mercado; iii) o facto de o mercado estar sujeito a ondas de optimismo e pessimismo, sem ligação a cálculos razoáveis; iv) os agentes com maiores conhecimentos não se preocuparem em ter um melhor cálculo provisional a longo prazo dos rendimentos esperados, mas sim das variações nas bases convencionais, antecipando-se às do público em geral, com grande influência da psicologia de massas do mercado; v) o facto de o investimento baseado nas expectativas autenticas de longo prazo ser muito difícil. É mais fácil adivinhar o que as massas pretendem do que investigar laboriosamente o estado dos negócios, concluindo-se neste sentido que a experiência não dá provas claras de que uma política de investimentos socialmente vantajosa seja a mais produtiva. Se os homens se comportam de modo a procurar o lucro imediato, os lucros remotos são descontados pelo homem médio a taxas muito altas, que acabam por inviabilizar as expectativas de realizar investimentos. O investidor de longo prazo que promove o interesse público, aquele que se opõe aos convencionalismos estagnantes e detém uma conduta temerária aos olhos da opinião média, sofre o embate e a mudança dos tempos.
Keynes distingue claramente entre especulação, como actividade de antever a psicologia do mercado, e actividade empresarial, associada à tarefa de calcular os rendimentos prováveis dos bens no tempo futuro[xxxi]. O autor evoca o papel histórico dos empresários, cujo dinamismo, energia, espírito de jogo e de aventura contribuíram de forma decisiva para o nascimento e desenvolvimento da moderna sociedade capitalista, sendo depositada na sua confiança a aplicação dos recursos, sem que se conheçam muitas vezes os reais resultados da arte de investir.
A iniciativa individual apenas será adequada quando o cálculo razoável for sustentado pelos animal spirits, que actuam nessa base, a do espírito empresarial audaz e produtivo. O enigma, segundo Keynes, é que a prosperidade económica depende exclusivamente do ambiente político e social que agrada ao tipo médio de homens de negócios.
Da incerteza relativamente à formação de expectativas, não deve
concluir-se que os negócios dependem exclusivamente de elementos
psicológicos irracionais. Keynes expressa a autêntica e firme convicção
de que as expectativas de longo prazo são, com frequência, firmes e
estáveis:
“We are merely reminding ourselves that human decisions affecting the
future, whether personal or political or economic, cannot depend on
strict mathematical expectations, since the basis for making such
calculations does not exist, and that it is our innate urge to activity
which makes the wheels go round, our rational selves choosing between
the alternatives as best we are able, calculating where we can, but
often falling back for our motive on whim or sentiment or chance”[xxxii]
.
Essa convicção baseava-se na existência de alguns factores que diminuem
a ignorância sobre o futuro, ou dito de outro modo, em elementos de
informação sobre os rendimentos calculáveis futuros que permitem a
formação de expectativas optimistas[xxxiii].
A decisão de investir é a decisão económica mais importante que tomam os agentes económicos, pois ela representa o elo entre o presente do consumo e o futuro do lucro. Mas essa decisão depende, segundo Keynes, da eficiência marginal do capital, a qual mede a relação dos rendimentos esperados, proporcionados pela utilização de um bem capital actual na produção futura de outros bens, com o preço de oferta ou reposição desse bem de capital e a taxa de juro. Os problemas com que se deparam os empresários para decidir o investimento, são os problemas da resolução da contradição entre os vários interesses presentes e prospectivos de investidores, produtores, banqueiros.
2. As contribuições postkeynesianas para o conceito de especulação e
expectativa.
Existe uma corrente interpretativa do pensamento de J.M. Keynes que tem
como representantes proeminentes G.L.S. Shackle e Kregel, os quais, a
partir de uma integração do trabalho de Keynes sobre a teoria das
probabilidades, na construção do edifício teórico keynesiano, enfatizam
o papel das expectativas como a principal contribuição de Keynes ao
pensamento económico. Tomando em consideração que o principal mentor
desta «escola« é sem dúvida Shackle, começaremos por este autor.
2.1. A importância decisiva das expectativas
Para Schackle, a teoria que surge com Keynes coloca-se numa perspectiva de renovação, procurando responder a um mundo em dissolução:
“ In the later 1920s and the 1930s, a great spasm of creative effort
in economic theory responded to the visible dissolution of the
comparatively orderly Victorian world..and the theory of economic life
which reflected it need to be transcended and even wholly subverted.
Not merely the detailed design of the economist`s account of thing
needed to be changed, but its fundamental assumptions, its purposes and
ambitions, what it claimed to do had to be essentially reconsidered.
Such a reorientation was hard to accept and is still mainly
unaccepted”[xxxiv].
Nesse sentido, Keynes encontrou como ideia central da ciência da sua
época a escassez, agregando como segunda ideia de igual importância a
insegurança:
“The General Theory of Employment, Interest and Money shows in detail
how insecurity kills the enterprising spirit which, in the Western
economy of free enterprise, is the driving-force that gives
employment”[xxxv].
Esta interpretação traduz a visão de Keynes numa forte versão da
incerteza que caracteriza a tomada de decisão dos agentes. Mesmo que as
condutas possam ser racionais, estas são tomadas num mundo de
ignorância. O verdadeiro enigma reside nas características de uma
economia monetária. É a través do uso da moeda que a nossa ignorância e
desconfiança sobre o futuro dos nossos actos e escolhas pode ter lugar,
simplesmente transferindo ou adiando uma decisão. A troca tem por
finalidade a satisfação de necessidades, mas um acto de troca requer a
conversão em moeda para obter um outro bem. Numa economia monetária, o
fim da produção é o lucro, como Schackle escreve:
“ Keynes`s vision of the nature of money, as something which enables the
individual person or firm to save without committing to specialised,
concrete, vulnerable forms of wealth, and his understanding that the
source of the desire to do so is a part of inescapable human condition,
the conscious inability to know for sure the consequences of our
far-reaching actions, are beyond the reach of fashionable attempts to
find faults with details of what is supposed to be his «system»”[xxxvi].
Nesse sentido, a Teoria Geral apresenta uma teoria que enfatiza a
insegurança da mente humana quanto os assuntos económicos e
empresariais. Segundo Shackle, o método do equilíbrio permite demonstrar
como o livre jogo dos interessados, quando reprimidos pela ignorância
sobre o futuro, os leva a refugiar-se numa política defensiva que evite
os riscos da empresa de especializar-se numa forma de riqueza da qual
depende o futuro, seja porque se teme sobre o seu valor ou porque se
obriga a adivinhar o futuro, pelo que:
“ It is rational, in some circumstances to desire money rather than
machine”[xxxvii].
Mas o que cria emprego é a construção de máquinas e não a possessão de dinheiro de modo que:
“(...)liquidity preference can lead to a state of affairs where
particular self-interest has defeated general prosperity and has led to
an under-employment equilibrium”[xxxviii].
Na transferência da despesa para o futuro destrói-se o emprego e
aumenta-se o desemprego, pois não existe vínculo entre um acto de poupar
e um acto de investir. A taxa de juro não equilibra a parte não
consumida do rendimento com o investimento:
“Keynes pointed out, in criticism of this view, that many people who
saved or acquired in some other way a stock of wealth which they are
free to consume, do in fact neither consume nor lend it but hold it in
the form of money”[xxxix].
O argumento, como é conhecido, é que apenas se a quantidade de
rendimento fosse constante poderia ser aceite que a quantidade de
poupança é determinada pela taxa de juro; mas não é correcto se o
rendimento, dependendo do consumo e do investimento, for variável. O
juro é o preço do dinheiro.
Shackle, consciente da crítica da indeterminação da taxa de juro clássica por parte de Keynes, baseava-se no análise do equilíbrio parcial, procura demonstrar a validade da teoria da preferência pela liquidez de uma forma mais convincente. Segundo este autor, Keynes teria distinguido na sua análise entre quantidades fluxo e quantidades stock. A poupança e o investimento são quantidades fluxo, i.e., são unidades de uma determinada espécie por unidade de tempo( toneladas, dólares por unidade de tempo). O stock é uma determinada quantidade sem especificar o tempo. Uma centena de dólares por ano é um fluxo, mas uma centena de dólares é um stock. Na determinação da taxa de juro, Keynes considera, o stock de moeda e o stock de títulos(bonds), i.e., o reconhecimento de dívidas. A quantidade de moeda, na posse do público, das empresas e dos bancos, perfaz o total de valores de pagamento que pode ser realizado simultaneamente. Os indivíduos e as empresas manterão um determinado stock de moeda que utilizarão por vários motivos.
Poderão manter dinheiro, também, para precaver-se de perdas monetárias de outras formas de riqueza. Uma forma de riqueza são os títulos, os que constituem uma promessa de pagamento de dividendos num plano estipulado[xl]. Mas a taxa de juro genuína a receber pelos emprestadores, depende do valor que estes títulos adquirem nas transacções bolsistas. Se o preço dos títulos baixa, a taxa de juro sobe. Neste caso, ou no caso contrário, os emprestadores adquirem na compra de um título o direito a pagamentos diferidos no tempo, e se, quando fazem este empréstimo não estão seguros que não querem esse dinheiro antes da data, expõem-se à possibilidade de ter que vender esse título na bolsa a um preço que não podem conhecer de antemão. Um emprestador necessita ter salvaguardas contra eventuais perdas, uma recompensa por:
“… the most important reason why interest is paid”[xli].
Como a incerteza é uma desutilidade, os emprestadores requerem uma
compensação. As oscilações nos preços dos títulos provocarão
especulação.
Existirão os que pensando que os preços dos títulos irão baixar, procurarão desfazer-se destes; os que pensam que os preços continuarão a subir, procurarão adquiri-los, i.e., existem diferentes expectativas sobre o futuro dos preços de uma forma de riqueza, que provocará mudanças no stock de moeda. A taxa de juro depende assim das expectativas e assim: “ The whole demon-world of uncertainly enters in to baffle the calculator of nice margins of profit and prevent price flexibility from restoring full-employment equilibrium”[xlii].
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