EXPECTATIVA, INCERTEZA E ESPECULAÇÃO NA TEORIA KEYNESIANA

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Comercio internacional

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05-2001

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 É a incerteza que:
“(...)has a far vaster channel than the inter­est rate through which to act upon investment decisions”[xliii].
 
O investimento é uma uma ficção imaginada na procura do lucro, não é portanto a contabilidade daquilo realizado no passado. O investimento é uma acção preparada para o futuro, e :
“(...)this is in the last analysis more guesswork and hope, however carefully available evidence is assembled and sifted”[xliv].
 
Ninguém pode antever como será o mercado para esse produto de aqui a cinco anos, ninguém pode conjecturar de que modo as descobertas e as invenções farão desse produto um produto obsoleto, ninguém pode prever como vão evoluir os custos dos recursos utilizados para produzi-lo. Mas por simplicidade e consistência, alguma ideia deverá ser anunciada, caso contrário a maximização seria um exercício pleno de contradições. No quadro do método do equilíbrio, os empresários maximizarão um lucro, que resulta de comparar o valor esperado do produto vendido com os custos operati­vos, o que implica utilizar uma gama de recursos, considerados anualmente durante a vida útil do investimento, descontados no presente à taxa de juro de mercado, i.e. introduz-se a noção de eficiência marginal do capital, pelo que o investi­mento resulta precário, autónomo e imprognosticável. Supõe-se que um valor esperado pode ser calculado. Mas esse valor não pode ser considerado como dado. As vendas corrigem os planos de produção, o que implica produzir para existências, se houver um excesso de produção. No recomeço do plano seguinte, os empresários reverão a produção e o nível de emprego requerido para o novo plano. Pressupõe-se que as vendas continuarão baixas, pelo que o nível de produção e o emprego oscilarão a um nível mais baixo de produção e de emprego:
“ As to the conditions whose fulfilment will ensure such an equilibrium we have seen two things: first, that the saving must be filled by investment or some other component of the multiplicand consisting of goods bought otherwise than for consumption in the home country; and secondly, that for a bigger gap will be bigger when aggregate income is bigger. It follows that for a bigger equilibrium income we must have a bigger planned and intended multiplicand, e.g. a bigger monthly or annual purchase of machinery for augmenting the productive power of firm, or for some other non-consumption purpose”[xlv].
 
Por isso, relembrando o espírito mordaz de Keynes, Shackle salienta que, quando:
“(...) things are nor scarce it is absurd and suicidal to reduce consumption and curtail investment and so throw still more people out of work”[xlvi].
 
Shackle atribui a Keynes a fundamentação de uma epistemologia do conhecimento económico que entra em rota de colisão com o pensamento económico:
“(...) the curves, in Keynes`s exposition, did not have to be quite stable. They could shift bodily in posi­tion, they could be deformed, but they must exist..Keynes had take the puzzle to pieces and insisted that something different be done with the pieces. The natural, the obvious thing was to try to put them together again in a different pattern, not to throw most of them away”[xlvii].
 
Desafiando a ideia de que a informação existente é completa, que os conhecimentos são suficientes, o problema é que as questões a ser estuda­das requerem um grau de crença para o qual existe falta de conhecimentos, sendo esta falta de conhecimentos dominante nos assuntos humanos[xlviii]:
“ No one can make plans guaranteed to be realised and successful, who cannot consult Fate itself concerning its intended mockery of human ambitions. Futures markets ? They can reconcile, just conceivable, our present ideas, based on our present knowledge. What of tomorrow`s new knowledge, destroying the old or rendering it obsolete, What of tomorrow`s choices and decisions, tomorrow`s inven­tions, work of imagination, tomorrow`s output from the Cosmic Computer which may, after all be a computer but an Ernie”[xlix].
 
Torna-se para mi claro que esta interpretação reconstrói o pensamento de Keynes de modo bastante fidedigno. Não apenas con­strói uma leitura de Keynes considerando os blocos constituintes da Teoria Geral, como simultaneamente recupera o papel das expectativas como o elemento revolucionário do pensamento keynesiano, considerando metodologicamente o papel que tem a informação na formulação e na base do conhecimento e da confiança que influen­ciam a tomada de decisões numa economia monetária, em que a motivação essencial dos empresários é o lucro, do qual dependem as decisões de investimento e em última instância o emprego. Para Shackle, a teoria de Keynes não é apenas criticada pela sua exposição formal, ela é combatida por ter posto em causa os princípios morais em que assenta a teoria ortodoxa: a parcimónia dos agentes, a acumulação da riqueza e a desi­gualdade da distribuição. Embora a interpretação de Shackle se caracteri­ze por um certo niilismo sobre a real possibilidade dos agentes poderem dispor da informação requerida, esta retoma o pensamento de Keynes numa senda mais genuina, assumindo que estes tomam decisões num quadro de expectativas irracionais [l].
 
2. 2. As expectativas e a economia monetária.
 
J.A. Kregel, seguindo Shackle, tem vindo a desenvolver numa perspectiva postkeynesiana a ideia de que o elemento mais revolucionário da Teoria Geral são as expectativas:
“Keynes`s major contribution to economic theory is often characterised as an emphasis on the possible difference between ex-ante decisions and ex-post results or on the recognition that in an uncertain world, expectations may be disappointed”[li].

Kregel considera vital para compreender Keynes lembrar a distinção que este realiza entre uma economia de trocas e uma economia monetária. Nesta última, a moeda não apenas tem o papel de vínculo neutral entre as transacções em coisas reais e activos reais:
“(...)money plays a part of its own and affects motives and decisions and is, in short, one of the operative factors in the situation, so that the course of events cannot be predicted, either in the long period or in the short, without a knowledge of the behaviour of money between the first state and the last”[lii].
 
É numa economia monetária que a procura efectiva adquire importância pela existência de incerteza e desconfiança. Segundo Kregel, a magni­tude correcta é o valor esperado ou antecipado das variáveis, i.e. as receitas esperadas da utilização de um volume de emprego. As variáveis nas suas relações devem ser interpretadas no contexto e em termos de expectativas[liii].
Keynes distingue na Teoria Geral, como vimos anteriormente, entre expectativas de curto prazo e longo prazo, apenas quando as expectativas de longo prazo são dadas é que as funções são supostamente constantes. O método de Keynes, segundo Kregel, se caracteriza por colocar hipóteses sobre as expectativas. Este método pressupõe que as expectativas estão sempre presentes( e não criando um mundo com informação perfeita e plena certeza, relaxando essas hipóteses a seguir, como teria feito a teoria ortodoxa). Conce­bendo expectativas constantes, podem-se pôr diferentes hipóteses sobre essas expectativas e ver os efeitos que a sua alteração provoca sobre o sistema:
“ It is not the assumptions made about the economy under analysis that are different, but the assumptions made about expectations in an economy in which these play an integral part”[liv].
 
Assumindo expectativas con­stantes, Keynes não pressupõe que o mundo é completamente previsível ou que existe plena certeza:
“ Having, however, made clear the part played by expectations in the economic nexus and the reaction of realised results on future expectations, it will safe for us in what follows often to discard express reference to expectations. It is important to make the logical point clear and to define the terminology precisely so that it will apply without ambiguity in all cases”[lv].
 
Isto significa que, distin­guindo a diferença entre resultados actuais e esperados pode-se demonstrar como a procura efectiva afecta o emprego, de modo que o sistema pode atingir um equilíbrio de subemprego. Sendo assim, o equilíbrio de subemprego demonstrado na Teoria Geral, é o resultado da revisão das expectativas, que é coerente com a visão de que o emprego persis­tente é o resultado da ausência de forças re-equilibrantes, devido à incerteza dos agentes sobre a taxa de juro e a facto que a política de salários flexíveis também não contribui para o restabelecimento do equilíbrio de pleno emprego numa economia fecha­da. O facto de Keynes não ter revelado com clareza em que situações estava a supor mudanças nas expectativas, levou-o a escrever:
“(...) if I were writing the book again I should begin by setting forth my theory on the assumption that short-period expectations are always fulfilled; and then have a subsequent chapter showing what differences between it make when short-period expectations are disappointed. For other economists, I find, lay the whole emphasis, and find the whole explanation in the differences between effective demand and income; and they are so convinced that this is the right course that they do not notice that my treatment this is not so”..“I should have distinguished more sharply between a theory based on ex-ante effective demand, however arrived at, and a psychological chapter indicating how the business world reached its ex ante decisions” [lvi].
 
Para Kregel, a Teoria Geral apresenta um mundo em que as expectativas de longo prazo podem mover-se independentemente dos resultados económicos, onde as expectativas de curto prazo associadas a resultados particulares podem ser frustradas e afectar as expectativas de longo prazo. Nesse modelo Keynes pressupõe que as expectativas são constantes e que as expectativas de curto prazo frustradas não as afectam.
Nos seus escritos de 1937 sugere uma terceira possibilidade, pressupondo que as expectativas de longo prazo são constantes e que as expectativas de curto prazo se realizam sempre, de modo a por as expectativas de lado dando ênfase á procura efectiva. Isto permite a Kregel concluir que esta terceira possibilidade deu lugar a um modelo de equilíbrio estático, em que as expectativas não são frustradas nem provocam movimento das expectativas. Este modelo é o que Keynes utilizou para demonstrar que o desemprego não é um fenómeno de curto prazo, i.e. que o desemprego é persis­tente. Aqui Kregel distancia-se de certo modo de Shackle, pois não são as expectativas frustradas um requisito para a afirmação do desemprego.
Por isso pode-se dizer, segundo Kregel, que Keynes sugere três modelos de acordo com os pressu­postos que realiza sobre as expectativas. Um modelo de equilíbrio estático, quando as expectativas são dadas e constantes, as quais não respondem às expectativas de curto prazo, mesmo que elas possa ser frustrantes para alguns indivíduos. O modelo de equilíbrio estacionário, em as expecta­tivas de longo prazo continuam constantes; mas metodologica­mente são comparadas diferentes situações de expectativas de longo prazo dadas, permitindo que as expectativas de curto prazo possam ser frustradas. Os empresários revêem os seus planos produção se as expectativas são frustrantes, mudam as suas expectativas até ao ponto em que a procura efectiva determine a quantidade de emprego, mudando a sua posição na curva de oferta sem que a curva propriamente dita se mova. Para Kregel:
“(...) this was the only solution if Keynes was to emphasise uncertainty and expectations as a prerequisite for the theory of effective demand and allow shifts along the function without bringing shifts in the functions them­selves”[lvii].
 
Quando Keynes retirava conclusões políticas, utilizava constantemente um terceiro modelo: o modelo do equilíbrio móvel que explicita no capítulo 18 da Teoria Geral. Este modelo é o modelo dinâmico onde as frustrações correntes podem afectar o estado das expectativas em geral, de modo que as funções que integram as expectativas se movem livremente no tempo. Os movimentos não se dão apenas ao longo das curvas, mas as curvas de oferta e procura deslocam-se, de modo que todo o sistema reage às frustrações perante as expectativas.
Keynes distingue entre um equilíbrio estacionário e um equilíbrio móvel, sendo neste último que as visões sobre o futuro são capazes de influenciar a situação pre­sente. Nesse mundo as expectativas podem não se realizar, de modo que os resultados podem não ser os esperados. Os empresários observam os seus erros modificando as suas existências, mudando as suas ordens de compra, de modo que o estado das expectativas interactua com as realizações pre­sentes. O facto de Keynes utilizar nos primeiros 17 capítulos um modelo estático, explica Kreg­el, deve-se ao facto de pretender demonstrar a sua teoria da procura efectiva e ao facto de que as expectativas influenciam as três variáveis independentes: a propensão ao consumo, a eficiência marginal do capital e a preferência pela liqui­dez, pelo que:
“ On this view entrepreneurs take actions based regarding an uncertain future. If by chance, the actions of entrepreneur are compatible in the aggregate, the economy will be on the warranted or equilibrium path( but this not imply full employment). If, on the other hand, initial plans are disappointed then equilibrium can be obtained, after a period of historical time, only if it is assumed that despite entrepreneurial realisations, so that entrepreneurs persist in theirs beliefs until equilibrium is established by trial and error. This was a process which Keynes did not expect to occur naturally in any real econo­my, but which his stationary model allowed to occur for pedagogical purposes”[lviii].
 
 Em consequência, podemos dizer que Kregel não apenas pretende interpretar Keynes, como procura traçar uma via de modelização em que a metodologia de Keynes adquire todo o seu significado. Keynes propun­ha-se analisar uma economia monetária, onde não existe previsão perfeita nem certeza, em que o futuro não é conhe­cido, nem existe probabilidade matemática que permita prog­nosticar a existência de mercados e preços futuros:
“(...)the full model for analysing a monetary economy can be achieved by allowing disappointment of expectations to interact with the general state of expectations which is free to shift autono­mously as well in what Keynes called his model of shifting equilibrium”[lix].
 
O desemprego involuntário, assim como a persistência do desemprego são assim o resultado do estado geral das expec­tativas frustradas, tanto dos consumidores e dos empresários, como dos investidores, dando obviamente a maior importância a relação entre a eficiência marginal do capital e a preferência pela liquidez. O desemprego é um fenómeno de longo prazo que resulta de uma taxa de juro inadequada em relação a queda da eficiência marginal do capital.
Keynes com certeza estaria de acordo com esta interpretação, mas colocaria a seguinte objecção:
“(...)we should not conclude..that everything depends on waves of irrational psychology. On the contrary, the state of long term expecta­tions is often steady, even, when it is not, the other factors exert their compensating effect. We are merely reminding ourselves that human decisions affecting the future, whether personal or political or economic, cannot depend on strict mathematical expectation, since the basis for making such calculations does not exist; and that it is our innate urge rational to activity which makes the wheels go round, our rational selves choosing between the alterna­tives as best we are able, calculating where we can, but often falling back for our motive on whim or sentiment or chance”[lx].
 
 Pode ser isto uma expressão de arrependimento de Keynes, face ao desconcertante efeito de aspectos psicológicos na conduta económica? Esta nota está perfeitamente em concordância com a sua posição metodológica desenvolvida no ´Treatise on Proba­bility`. O conhecimento sobre o conteúdo de verdade de uma proposição é incerto e a probabilidade que atribuímos a uma crença racional é subjectiva. Keynes opunha-se à ideia de que o cálculo de probabilidades permitisse realizar cálculos sobre acontecimentos futuros, como supunha o cálculo bentha­mita, mas não opunha-se ao uso parcial de conhecimentos de modo a tomar decisões racionais sobre acontecimentos futu­ros.
A influência das expectativas, a tomada de decisões em situação de incerteza e de ignorância não são problemas que Keynes trate exclusivamente na Teoria Geral, embora encontrem nesta um lugar central, sem a qual a teoria da procura efectiva e as leis psicológicas fundamentais não adquirem a dimensão de estrutura fundamental da nova teoria. A corrente que Shackle, Kregel e outros representam tem a virtude de ter recolocado no lugar certo a importância das expectativas. Conduz, sobretudo em Schackle, à possibilidade da total instabilidade do sistema. Keynes argumentava frequentemente de forma extrema quando pretendia enfatizar um determinado problema, mas pensava que o sistema capitalista era instável porque a teoria económica que sustentava a política económica era incapaz de conduzir à acção correcta e desejada:
“ It is an outstanding charac­teristic of the economic system in which we live that, whilst it is subject to severe fluctuations in respect of output and employment, it is not violently unstable. Indeed, it seems capable of remaining in a chronic condition of sub-normal activity for a considerable period without any marked tendency either toward recovery or towards complete col­lapse”[lxi].
 
O conceito de incerteza é essencial para explicar duas características de uma economia monetária. A primeira relaciona-se com o facto de que as pessoas pretendem manter dinheiro como um activo, o que implica considerar as consequências da decisão de manter riqueza sobre essa forma. Keynes explica na Teoria Geral que a manutenção de moeda como reserva de valor e stock de riqueza é um barómetro da confiança nos cálculos e nas convenções relativamente ao futuro. Na experiência de Keynes, sob o regime de padrão ouro, a procura intensa de ouro ou notas emitidas pelo governo pressionava as taxas de juro à alta, reduzia o investimento, reduzia o stock de capital e, por consequência, o rendimento per capita. A segunda relaciona-se com os efeitos de rápidas mudanças nas crenças. A influência, na tradição de Cambridge, de ondas de optimismo e pessimismo perpetua-se como explicação de situações de crise. Como as crenças das pessoas mudam, estas mudanças provocam mudanças na taxa de juro, nos preços dos activos de capital e na taxa de investimento. Como Keynes apontou:
“(...) the liquidity preference curve would be both stable and very inelastic. There would be zero( or very small)demand for money as an asset, and available resources would be normally employed”[lxii].
 
O problema reside justamente na inexistência de um cálculo objectivo. Nesse sentido, a recuperação por parte de Shackle das expectativas como método ´revolucionário` de integrar o futuro nas decisões dos agentes é pertinente para uma economia monetária. Daí pode resultar um melhor conhecimento do funcionamento do sistema, interrelacionado com as decisões e a coordenação que representam uma economia de mercado, coadjuvado com instrumentos de decisão social que tendam a estabilizar e a dar confiança à tomada de decisões, dotando o Estado de um controlo social e democrático da sociedade civil.
3. A corrente post keynesiana da substituição total.
Esta corrente que agrupa um conjunto heterogéneo de au­tores, que Coddington denomina de fundamentalista, repre­sentados por P. Davidson, enfatiza as expectativas e a incerteza como os elementos mais significati­vos da teoria de Keynes, realçando simultaneamente a importância financeira do papel do dinheiro.
3.1. O motivo finanças, a incerteza na determinação da procura da moeda e a especulação.
 
Esta corrente utiliza os trabalhos de preparação da Teoria Geral[lxiii], sobretudo aqueles que se refer­em às características de uma economia monetária em contraposição à caracterização de uma economia de troca, que Keynes associa à teoria clássica, assim como trabalhos posteriores, nomeadamente a polémica de Keynes com Olhin sobre a taxa de juro. O texto essencial para a sua reflexão sobre o pensamento de Keynes é o capítulo 17 da Teoria Geral, " As propriedades essenciais da moeda e do juro". P. Davidson numa série de artigos, apoian­do-se no trabalho de Shackle, insiste que é na relação entre moeda e liquidez que se encontra o aspecto mais revolucionário da Teoria de Keynes. Na análise do capítulo 17, Keynes:
“(...) requires that the elasticity of substitution between all liquid assets is zero or negligible. Non reproducible assets in saver`s portfolios”[lxiv].
 
A moeda produz uma corrente de rendimentos que Keynes denomina de prémios de liquidez, que nenhum outro activo produz. A moeda possui, segundo Keynes, algumas propriedades essenciais, a saber, que o dinheiro tem um prémio de liquidez e tem elasticidade de produção e substituição zero ou quase nulas. Estas propriedades permitem esclarecer por que razão a moeda é o activo que os agentes preferem conservar como forma de riqueza; porque a taxa de juro do dinheiro é a taxa que determina as opções de produzir um activo em detrimento de outro; que, sendo esta taxa recalcitrante à baixa, marca o passo das outras taxas específicas, de tal modo que, sendo a taxa de juro maior que eficiência marginal dos outro activos, ao conservar dinhei­ro, a produção dos outros bens esperará até que a taxa de juro iguale a eficiência marginal, sendo, entretanto, o desem­prego persistente e a política monetária ineficaz. Keynes clarifica posteriormente:
“ I am rather inclined to associate risk premium with probability strictly speaking, and liquidity premium with that in my Treatise on Probabili­ty I called «weight». An essential distinction is that risk premium is expected to be rewarded on the average by an increased return at the end of the period. A liquidity premium, on the other, is not even expected to be so reward­ed. It is a payment, not for the expectation of increased tangible income at the end but for an increased sense of comfort and confidence during the period”[lxv].
 
A teoria clássica ignora a procura de moeda destinada a satisfazer a preferência pela liquidez, que permite «o conforto da liqui­dez» e satisfazer a manutenção de moeda em vez de activos de risco[lxvi]. Keynes aceita que a teoria clássica possa incorpo­rar uma procura de moeda para encaixes inactivos(especulati­vos), mas esses encaixes são inelásticos relativamente à taxa de juro. Um declínio na procura para transacções tem o efeito de fazer descer a taxa de juro na extensão necessária para restaurar os encaixes inactivos no seu nível prévio.
Deste modo Keynes dá à procura de moeda uma clara e decisiva influência na posição que a economia alcança. Quando o grau de incerteza muda, a procura de moeda em unidades salários muda, provocando um movimento na procura que muda a taxa de juro. Mantendo-se um grau de incerteza persistentemente, a taxa de juro esperada cresce, o investimento desce e o stock de capital é mais pequeno e o rendimento esperado é mais reduzido que antes. As propriedades essenciais da moeda impedem que, aumentando a quantidade de trabalho destinado à sua produção, se possa produzir mais moeda. No caso de um outro bem, excluindo o bem moeda, um aumento na procura desse bem ou um aumento no seu valor, fará com que se destine mais trabalho à sua produção,  reduzindo assim a taxa de juro específica desse bem. Pelas suas propriedades, no caso da moeda, não será possível. Se a incerteza gera um aumento da preferência pelo dinheiro-liquidez, aumentando a sua procu­ra, uma taxa de juro superior não provoca o aumento da sua produção. Não existe outro bem que possa substituir esta qualidade de liquidez:
“ Convention plays a large role in choosing the commodity used as money[lxvii]".
 
A solução que Keynes apresenta para reduzir a preferência pela liquidez é tributar o encaixe monetário de modo a reduzir a manutenção do dinheiro[lxviii], embora também se pronuncie por satisfazer a procura de moeda para especulação até à saciedade, tal como recomendava no «Treatise on Money».
É justamente esta qualidade da moeda como activo-liquidez e o juro como o prémio ao abandono dessa preferência, que Davidson procurou pôr em evidência. Ao enfatizar as peculiaridades da moeda, este autor critica as visões que associam a existência do desemprego à armadilha da liquidez, defendendo que, face a uma eficiência marginal instável, a taxa de juro recalci­trante impede o ajustamento necessário ao pleno emprego.
Adicionalmente à preferência pela liquidez, Davidson tem dado grande significado ao motivo finanças, como um motivo adicional na procura de dinheiro. Segundo Davidson, Keynes, na sua réplica às críticas de Ohlin, introduz um novo motivo de procura de moeda: " the finance motive":
“ Keynes argues that if the level of investment was unchanged, the money held to «finance» new investments was a constant amount and could therefore be lumped under a subcategory of the transac­tions motive, where capital goods transactions are involved. In other words, entrepreneurs typically hold some cash bal­ances to assure themselves that they will be able to carry out investment plans”[lxix].
 
Assim, de acordo com Davidson, quando mudam as decisões sobre o nível do investimento, o motivo finanças é uma componente adicional importante da função procura de dinheiro agregada. Se a curva de eficiência marginal se desloca, causando expectativas de lucro melhores, para um dado nível de produção e da taxa de juro, os empresários desejam aumentar as transacções em investimento. Em consequência disso surgirá uma procura adicional de moeda.
Davidson, apoia-se no seguinte esclarecimento de Keynes para chamar atenção da importância desse motivo:
“(...) the coping stone of his liquidity preference theory.., ,.. it is surprising to see that the concept has practically disappeared from the literature”[lxx].
 
Keynes escreve:
“ It follow that, if the liquidity-prefer­ences of the public(as distinct from the entrepreneurial investors) and of the banks are unchanged, an excess in the finance required by current ex-ante output( it is not neces­sary to write «investment», since the same is true only of any output which has to be planned ahead) over finance released by current ex-post output will lead to rise in the rate of interest; an a decrease, will lead to fall. I should not have previously overlooked this point, since it is the coping-stone of the liquidity theory of the rate of inter­est. I allowed, it is true, for the effect of an increase in actual activity on the demand for money. But I did not allow for the effect of an increase in planned activity, which is superimposed on the former..Just as an increase in actual activity must( as I have always explained) raise the rate of interest unless either the bank or the rest of the public more willing to realise cash, so ( as I now add) an increase in planned activity must have a similar, superimposed influence”[lxxi].
 
Como proba da importância do motivo finanças, Davidson cita uma carta de Keynes. A questão em causa era o financiamento dos programas de rearmamento:
“ If an attempt is made to borrow them[the saving which will result from the increased production of non-consumption(war) goods] before they exist, as the Treasury have done once or twice lately, a stringency in the money market must result, since, pending the expenditure, the liquid resources acquired by the Treas­ury must be at the expense of the normal liquid resources of the banks and of the public”[lxxii].
 
O significado disto é que, de um incremento nas despesas governamentais resultará um incremento na procura de moeda agregada, mesmo antes que a despesa seja realizada. Segundo Davidson, o motivo finanças foi esquecido na litera­tura postkeynesiana, sendo cancelado nos sistemas macro-económicos desenvolvidos, nomeadamente aqueles como o diagrama IS-LM de Hicks e Hansen.
A introdução do motivo finanças evita a dicotomia entre sector real e monetário, concluindo que:
“Had the intercon­nexion between the finance motive, the transactions motive, and the aggregate-demand function been understood original­ly, much of this barren controversy could have been avoided”[lxxiii].
 
A questão que se levanta é a de saber se a existência deste motivo provoca uma subida da taxa de juro, seja por aumento na despesa do governo, seja por uma acção de investimento planeada. Segundo Davidson, se o conceito do motivo finanças fosse entendido, seria fácil demonstrar :
“(...)the correctness of Keynes`s obiter dictum that an overdraft system is an ideal system for mitigating the effects on the banking system of an increased demand for ex-ante finance”[lxxiv].
 
Pelo que, consequentemente, a extensão da utilização do siste­ma «overdraft», se não é ignorada pelo sistema bancário, não exercerá pressão de sobreimposição, resultante da actividade planeada acima ou abaixo da pressão resultante da actividade actual. A ser assim, a transição de uma escala de actividade menor para uma maior não será acompanhada de maior pressão na procura de liquidez e sobre a taxa de juro. Sobre este assunto Keynes escreve:
“(...) the banks hold the key position in the transition form a lower to a higher scale of activity. If they refuse to relax[i.e. to provide additional finance], the growing congestion of short term loan market or the new issue mar­ket, as the case may be, will inhibit the improvement, no matter how thrifty the public purpose(sic) to be out of their future income. On the other hand, the will always be exactly enough ex-post saving to take up the ex-post invest­ment and so release the finance which the latter had been previously employing. The investment market can become congested trough shortage of cash. It can never become congested through shortage of saving. This is the most fundamental of my conclusions within this field”[lxxv].
 
Evidente­mente, o problema coloca-se quando o investimento planeado resulta de uma expectativa de maiores lucros, o que desloca a eficiência marginal do capital acima da taxa de juro. Se a expectativa é de que a taxa de juro vai subir, então a política monetária deverá actuar no sentido de aumentar a oferta monetária. É importante saber se o investimento tem lugar com recursos escassos ou abundantes. No caso da oferta agregada ser inelástica, quando aumentar a procura, um aumento do investimento provocará inflação, pelo que o aumento da procura deve provocar o aumento da poupança, via travagem do consumo.
Keynes utiliza o conceito de motivo finanças como reforço para a compreensão da sua teoria do juro na polémica com seus opositores e não para desenvolver a sua teoria no sentido que Davidson interpreta posteriormente[lxxvi]:
“I do not consider that the concept of finance makes any really significant change in my previous theory [finance] is no more that a type of active balance. I attached an importance to it in my article because..it provide a bridge between my way of talking and the way of those who discuss the supply of loans and credit etc...[finance is] one of the sources of demand for liquid funds arising out of an in­crease in activity. But, halas, I have only driven them into more tergiversations. I am really driving at something extreme­ly plain and simple”[lxxvii].
 
Para conter a inflação e manter o nível do emprego, uma política de rendi­mentos asseguraria a estabilidade dos salários e dos preços, o que se coloca também numa perspectiva propiciada por Keynes, tanto na Teoria Geral como anteriormente no «Treatise». O motivo finanças encontra suporte muito sólido em Keynes; as conclusões que se derivam para o emprego são correctas. Assim, o motivo finanças não tem a importância que Davidson lhe atribui e que este utiliza para recomendar políticas de rendimentos. Não é essencial para a interpretação de Keynes, mas pode ser considerado um ponto de partida para desenvolvimentos postkeynesianos123.
3.2. A corrente post keynesiana II: o motivo finanças
 
H. Minsky serve-se dos argumentos contidos na resposta que Keynes dá a um artigo crítico de J. Viner sobre a Teoria Geral como apoio da sua interpretação da teoria de Keynes. Já como Davidson tinha utilizado a resposta de Keynes a Ohlin para reinterpretar a procura de moeda[lxxviii].
 Na resposta a Viner, segundo Minsky, surge uma teoria do motivo pelo qual o output e o emprego são “liable to fluctuations[lxxix]", pelo que a interpretação de Keynes conduz a uma teoria que Minsky denomina «the financial instability hypothesis». A legitimi­dade da hipótese de financiamento instável é importante, não apenas como interpretação de Keynes; ela é importante como hipótese do funcionamento da economia:
“ The connection between Keynes and The financial instability hypothesis did arise out of an attempt to understand Keynes in light of crunches and other financial disturbances of the part dec­ade”[lxxx].
 
Segundo Minsky, a Teoria Geral constitui uma teoria do processo capitalista que explica a instabilidade financeira e da produção devido a incerteza, como resultado dos comportamentos dos agentes nos mercados. Na resposta de Keynes a Viner, segundo Minsky, este insiste em que as principais proposições da Teoria Geral se centram nas forças desequili­bradoras que operam nos mercados financeiros. Estas forças desequilibradoras afectam directamente as avaliações dos activos de capital relativamente aos preços do output cor­rente. É este ratio-preço, juntamente com as condições nos mercados financeiros, que determina o investi­mento. Na Teoria Geral, Keynes adopta um paradigma diferente do clássico, passa da economia de troca de uma feira de aldeia para um «City or Wall Street paradigm», em que a economia é vista como a sala principal de um banco de inves­timento. A teorização tem lugar pressupondo uma economia monetária com instituições financeiras sofisticadas:
“(...)money is a special type of bond that emerges as positions in capital assets are financed...This conception of money, as financing veil between the real assets and the wealth owner,is a natural way for a banker to view money, and is fundamental to understanding Keynes and our economy”[lxxxi].
 
Para Keynes vivemos num mundo em que as mudanças de opinião sobre o futuro são capazes de afectar a quantidade de empre­go. As variáveis correntes mais afectadas pelas mudanças de opinião são as variáveis financeiras, tais como: a avaliação de mercado dos activos de capital, os preços dos activos financeiros e a conduta dos homens de negócios e dos ban­queiros relativamente às estruturas das dívidas e obrigações. O investimento e as decisões financeiras são realizadas em condições de incerteza. A incerteza implica que as mudanças de opinião sobre o futuro ocorrem em breve espaço de tempo, em particular afectando os preços relativos dos activos financeiros e os preços dos activos e do capital, assim como a relação do preço de um activo de capital relativamente ao output corrente.
Quando se observa a economia da sala principal de Wall Street, observa-se um mundo de compromissos sobre dinheiro a pagar hoje e no futuro. Estes «cash flows» são um legado de con­tratos passados em que o dinheiro de hoje é trocado por dinheiro futuro. Adicionalmente, prevêem-se negócios com com­promissos de pagamento de dinheiro no futuro, trocado por dinheiro de hoje. A viabilidade deste mundo de papel baseia-se em que os «cash flows» que as empresas, famílias e gover­nos recebem como resultado de um processo de geração de rendimentos:
“(..)will be on business debt, because this debt is an essential characteristic of the capitalist economy”[lxxxii].
 
A validação das dívidas das empresas requer que os preços e o output sejam tais que quase todas as firmas obtenham remunerações que excedam suficientemente os custos de produção, quer para pagar as dívidas, quer para induzir o financiamento. O refinanciamento toma lugar apenas se os lucros esperados são suficientemente grandes para validar novas dívidas ou induzir refinanciamento.
Os lucros na indústria de bens de consumo dependem das despesas em bens de consumo por parte dos assalariados da indústria de bens de consumo e da de bens de produção, assim como por outros receptores de rendimentos. Os lucros da indústria de bens de investimentos não são determinados directamente. Os fluxos de lucros são determinados pela relativa escassez de bens de produção. A relativa escassez dos bens de equipamento usados para produzir bens de equipamento, e a diferença entre os rendimentos brutos e os custos de produção dependem do ritmo do investimento. Os fundos que estão disponíveis para permitir compromissos de dívidas das indústria de bens de equipamento ou consumo são uma função do investimento, pelo que as estruturas de dívidas aceitáveis reflectem as especulações correntes no curso dos futuros investimentos. Os «cash flows» gerados pelos lucros são os fundos que permitem pagar as dívidas e assegurar o controle sobre os activos de capital, assim como assegurar a compra adicional de participações e acções.
O preço das acções reflecte os resultados das empresas em termos de capitalização dos cash flow esperados[lxxxiii]. A flutuação dos preços dos títulos, num mundo representado por Wall Street, é determinante na avaliação mercantil dos activos de capital. O valor de mercado dos activos de capital afecta o preço de procura dos bens de investimento, que juntamente com as condições de oferta dos bens de investimento e das condições nos mercados financeiros determina os investimen­tos. Umas das características do nosso tempo é o aumento do volume de incorporação do Estado na actividade económica, a qual tem significado um aumento do grau de confiança relati­vamente aos lucros esperados das empresas, significando uma maior estabilidade financeira. O aumento da dívida pública tem permitido financiar projectos sociais e privados, estimu­lando a procura e o investimento.
A conduta da economia continua a depender do ritmo do inves­timento. Na economia capitalista, a avaliação que é posta nos activos de capital determina em larga medida o investimento corrente. A capacidade da satisfazer compromissos relativamente aos contra­tos- o que determinada as possibilidades financeiras-, de­pende do ritmo dos lucros brutos. Os lucros brutos estão dependentes dos investimentos, pelo que a capacidade das dívidas financeiras dependem das expectativas serem sufi­cientemente vastas, de tal modo que o volume dos futuros «cash flows» sejam suficientes para financiar as dívidas e refinanciá-las. Uma economia com dívidas privadas é espe­cialmente vulnerável às mudanças no ritmo de investimento, porquanto os investimentos determinam, seja a procura agrega­da, seja a viabilidade das estruturas de dívidas.
A instabilidade para uma economia que resulta destas características deve-se justamente ao carácter subjectivo das expectativas sobre o curso futuro do investimento, assim como da determinação subjectiva por parte do sistema finan­ceiro( bancos e sociedades de investimentos) da estrutura apropriada da dívida destinada a financiar diferentes tipos de activos de capital. Neste mundo com mercados financeiros, a incerteza é a maior determinante do curso do rendimento e do investimento. Daqui conclui Minsky:
“(...) stable growth is inconsistent with the manner in which investment is deter­mined in an economy in which debt-financed ownership of capital assets exists, and the extent to which debt financing can be carried is market determined. It follows that the fundamental instability of a capitalist economy is upward. The tendency to transform doing well into a speculative investment boom is a basic instability in a capitalist economy”[lxxxiv].

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