Viene de una página anterior
4.3.5. Os empresários e a incerteza
As mudanças institucionais que se operam nas empresas aumentam a
incerteza relativamente à infalibilidade dos cálculos provisionais,
porquanto a natureza das empresas se modificou: A socialização da
propriedade, através da gestão repartida da propriedade, se por um lado
veio facilitar o investimento, por outro veio torná-lo mais instável. A
expansão do mercado financeiro, o surgimento da bolsa e outros mercados
de investimento, não possibilitou novos investimentos, implicou
simplesmente o trespasse de propriedade intangível com fins de lucro
imediato.
Uma certa classe de investimento rege-se pela média das expectativas dos
especuladores da bolsa de valores, e não pelas expectativas genuínas do
empresário profissional, o que se manifesta no preço das acções. As
avaliações e reavaliações sobre as expectativas, e sobre o estado de
confiança, implicam que a realização dos investimentos se baseie no
método convencional, o qual supõe que a situação existente dos negócios
continuará por um tempo indefinido; no entanto, a prática demonstra que
esta não se repete com probabilidade, i.e., as valorizações sobre os
mercados realizam-se tomando em consideração toda a classe de
conjecturaa, que de modo nenhum se relacionam com o rendimento provável.
Se existirem mercados organizados para o investimento e se se puder
confiar em que a convenção não irá variar, poder-se-à animar o
investimento. A ideia de que o único risco que se corre é o de uma
mudança real das condições de futuro imediato, sobre cuja probabilidade
se pode tentar formar um juízo próprio, não é provável que seja muito
grande. O importante é não romper a convenção, pois o investimento será
seguro: mesmo para períodos curtos e numa sucessão dos mesmos poder-se-á
rever as conclusões antes de qualquer grande modificação. Deste modo, os
investimentos tornam-se fixos para a comunidade e líquidos para o
indivíduo. A manutenção de uma convenção, mesmo arbitrária, tem pontos
frágeis, que precarizam a consecução de um volume de investimento
suficiente: i) o aumento global, proporcionalmente maior, dos títulos e
valores de rendimento variável na posse de especuladores sem ligações
com os negócios concretos e sem conhecimento dos rendimentos esperados
futuros; ii) as flutuações diárias dos lucros dos investimentos
existentes, com carácter efémero e que tendem a influenciar
desproporcionadamente o mercado; iii) o facto de o mercado estar sujeito
a ondas de optimismo e pessimismo, sem ligação a cálculos razoáveis; iv)
os agentes com maiores conhecimentos não se preocuparem em ter um melhor
cálculo provisional a longo prazo dos rendimentos esperados, mas sim das
variações nas bases convencionais, antecipando-se às do público em geral,
com grande influência da psicologia de massas do mercado; v) o facto de
o investimento baseado nas expectativas autenticas de longo prazo ser
muito difícil. É mais fácil adivinhar o que as massas pretendem do que
investigar laboriosamente o estado dos negócios, concluindo-se neste
sentido que a experiência não dá provas claras de que uma política de
investimentos socialmente vantajosa seja a mais produtiva. Se os homens
se comportam de modo a procurar o lucro imediato, os lucros remotos são
descontados pelo homem médio a taxas muito altas, que acabam por
inviabilizar as expectativas de realizar investimentos. O investidor de
longo prazo que promove o interesse público, aquele que se opõe aos
convencionalismos estagnantes e detém uma conduta temerária aos olhos da
opinião média, sofre o embate e a mudança dos tempos.
Keynes distingue claramente entre especulação, como actividade de
antever a psicologia do mercado, e actividade empresarial, associada à
tarefa de calcular os rendimentos prováveis dos bens no tempo
futuro[53]. O autor evoca o papel histórico dos empresários, cujo
dinamismo, energia, espírito de jogo e de aventura contribuíram de forma
decisiva para o nascimento e desenvolvimento da moderna sociedade
capitalista, sendo depositada na sua confiança a aplicação dos
recursos, sem que se conheçam muitas vezes os reais resultados da arte
de investir.
A iniciativa individual apenas será adequada quando o cálculo razoável
for sustentado pelos animal spirits, que actuam nessa base, a do
espírito empresarial audaz e produtivo. O enigma, segundo Keynes, é que
a prosperidade económica depende exclusivamente do ambiente político e
social que agrada ao tipo médio de homens de negócios.
Da incerteza relativamente à formação de expectativas, não deve
concluir-se que os negócios dependem exclusivamente de elementos
psicológicos irracionais. Keynes expressa a autêntica e firme convicção
de que as expectativas de longo prazo são, com frequência, firmes e
estáveis:
“We are merely reminding ourselves that human decisions affecting the
future, whether personal or political or economic, cannot depend on
strict mathematical expectations, since the basis for making such
calculations does not exist, and that it is our innate urge to activity
which makes the wheels go round, our rational selves choosing between
the alternatives as best we are able, calculating where we can, but
often falling back for our motive on whim or sentiment or chance”[54] .
Essa convicção baseava-se na existência de alguns factores que diminuem
a ignorância sobre o futuro, ou dito de outro modo, em elementos de
informação sobre os rendimentos calculáveis futuros que permitem a
formação de expectativas optimistas[55].
A decisão de investir é a decisão económica mais importante que tomam os
agentes económicos, pois ela representa o elo entre o presente do
consumo e o futuro do lucro. Mas essa decisão depende, segundo Keynes,
da eficiência marginal do capital, a qual mede a relação dos rendimentos
esperados, proporcionados pela utilização de um bem capital actual na
produção futura de outros bens, com o preço de oferta ou reposição desse
bem de capital e a taxa de juro. Os problemas com que se deparam os
empresários para decidir o investimento, são os problemas da resolução
da contradição entre os vários interesses presentes e provisionais de
investidores, produtores, banqueiros.
O resultado mais importante do estudo sobre a empresa na óptica
macro-económica, é o de que o investimento influencia o rendimento e o
emprego. Mas devemos encarar as expectativas dos rendimentos esperados
como uma variável essencial a examinar. A importância das alterações nas
expectativas, deriva dos efeitos que estas mutações provocam sobre o
desejo de produzir novos bens. Um efeito estimulante de preços maiores
nas expectativas, não se deve a um aumento da taxa de juros, mas ao
facto de se elevar a eficácia marginal de um volume dado de capital ou
de a expectativa de uma descida no valor do dinheiro estimular o
investimento; por consequência, o valor do dinheiro influencia o nível
do emprego, pois eleva a curva de eficiência marginal do capital,
deslocando a curva de procura de investimentos à alta.
A intervenção do Estado como agente catalisador do investimento, agente
da confiança na credibilidade da informação, de recuperação dos ´animal
spirits´ que animaram o crescimento capitalista do século XIX, não é
apenas uma figura de retórica: é uma forma de tornar o cálculo provável
mais fiável e a confiança do investidor mais razoável. O Estado deveria
ser o garante do nível da despesa que assegure o pleno emprego - uma
conclusão não apenas económica, de certo modo também moral,
correspondendo à visão ética de Keynes.
Tendo determinado a influência que certas modificações de curto prazo
exercem sobre as expectativas de longo prazo, diferentes das provocadas
pela influência das modificações da taxa de juro, pode-se dizer que, em
circunstâncias normais, as modificações nas expectativas, provocadas
pelas mudanças no estado de confiança, exercem uma grande influência
sobre a taxa de investimento. Apenas a experiência poderá dizer até que
ponto a intervenção sobre a taxa de juro será capaz de estimular
continuamente o volume adequado de investimento, mas, primeiro, é
necessário conhecer a nova proposta teórica sobre a taxa de juro.
4.4. A teoria da taxa de juro, a política monetária e o desemprego
“Monetary theory, when all is said and done, is little more than a vast
elaboration of the truth that `it all come out in the wash`. But to show
this to us and to make it convincing, we must have a complete inventory”
[56].
As preferências psicológicas intertemporais de um indivíduo requerem
dois tipos de decisão: o indivíduo decide aparte do seu rendimento que
vai destinar ao consumo imediato e a parte que vai guardar como forma de
manter poder aquisitivo no futuro. São duas propensões determinadas pelo
nível de rendimento adquirido, corrente e passado.
A questão importante a saber é qual será a forma de arbitrar entre o
presente e o futuro desses rendimentos: mantê-los sob s forma de
dinheiro ou desfazer deles, deixando ao mercado no futuro a forma que
assumirá a transformação actualizada desses bens futuros. Para Keynes, a
determinação da taxa de juro resulta juntamente com a introdução da
moeda no sistema económico, completando-se assim os ingredientes
necessários no seu modelo de análise. Reforça-se em definitivo a ideia
de que o emprego é determinado pelo investimento, e que este depende de
forças que encontram na moeda um factor de perturbação característico de
uma economia em que a dupla decisão de poupar e de determinar a forma
dessa poupança, gera expectativas sobre o valor da taxa de juro e da
moeda, e em que o efeito das variações da quantidade de moeda sobre a
taxa de juro estão subordinadas pela preferência pela liquidez do
público o que pode obstruir a política monetária.
Se o entesouramento, característico de uma economia monetária, gerar
expectativas sujeitas a revisões contínuas dos produtores sobre o estado
futuro do consumo, às quais se adicionem as influências geradas pelas
expectativas de incerteza sobre o futuro dos investimentos, a incerteza
sobre a taxa de juro resultante da conduta do público irá agregar mais
um elemento de instabilidade relativamente ao futuro do emprego.
A causa última do desemprego reside na incerteza gerada pelo facto de a
moeda, para além de ser um meio de transacção, ser uma forma de detenção
de riqueza que induz à não utilização desta em investimentos produtivos.
Numa situação de variação da taxa de investimento, esta desce ou sobe
consoante a relação estabelecida entre a eficiência marginal do capital
e a taxa de juro. dado que a curva de eficiência marginal rege os termos
da procura, i.e. os fundos disponíveis para os novos investimentos, e a
taxa de juro comanda as condições de oferta desses fundos, devemos
conhecer melhor as determinantes da taxa de juro, começando pela
preferência pela liquidez.
4.4.1. A preferência pela liquidez e a taxa de juro
A razão pela qual existe preferência de liquidez pelo dinheiro como meio
de conservar riqueza é a incerteza em relação ao futuro da taxa de juro,
as reacções futuras em relação ao complexo de taxas de prazos variáveis.
Se pudessem ser previstas com certeza as taxas que serão dominantes
permanentemente no futuro, todas as taxas poderiam inferir-se das
presentes para as dívidas de diferentes prazos, as quais se ajustariam
ao conhecimento das taxas futuras:
“Thus if the need for liquid cash may conceivably arise before the
expirity of n years, there is a risk of a loss being incurred in
purchasing a long-term debt and subsequently turning it into cash, as
compared with holding cash”[57].
A dificuldade de determinar esta relação de modo absoluto advem das
expectativas, que são a manifestação psicológica no mercado sobre o
futuro da taxa de juro, tomando em consideração que esta reage sobre a
preferência pela liquidez. Se existir alguém que pense que as futuras
taxas de juro estarão acima das supostas pelo mercado, terá motivos para
manter dinheiro líquido real, mas quem tiver uma opinião diferente terá
motivos para procurar dinheiro em empréstimo a fim de no curto prazo
obter dinheiro para comprar dívidas a prazos mais longos. O preço de
mercado resulta assim do equilíbrio das movimentações altistas e
baixistas[58].
4.4.2. A preferência pela liquidez, a quantidade de moeda e a taxa de
juro
Mas a preferência pela liquidez permite também estudar a relação entre a
quantidade de moeda e a taxa de juro. Definindo M a quantidade de
dinheiro, r a taxa de juro e L a função de preferência pela liquidez,
temos M = L(r), i.e. a quantidade de dinheiro é função da preferência
pela liquidez e ambas determinam a taxa de juro[59].
O aumento da quantidade de dinheiro provoca a descida da taxa de juro, a
qual a medida que desce, faz com que as preferências pela liquidez
destinadas ao motivo transacção absorvam mais moeda. No caso em que uma
descida da taxa de juro permita o crescimento do rendimento nacional, o
montante de moeda que convém absorver por este motivo deverá crescer na
proporção do aumento do rendimento, ao mesmo tempo que deverá diminuir o
custo da conveniência de manter efectivo abundante, com perda de juros
[60]. Cada descida da taxa de juro pode fazer aumentar a quantidade de
moeda que certos indivíduos pretendem conservar, dado que os indivíduos
podem ter diferentes pontos de vista sobre o futuro da taxa de juro
relativamente ao ponto de vista que prevalece no mercado.
A introdução da quantidade de moeda na cadeia causal contribui para
explicar o nível do emprego, o que permite descobrir como as mudanças na
quantidade de moeda actuam no funcionamento do sistema económico:
“ For whilst an increase in the quantity of money may be expected, cet.
par., to reduce the rate of interest, this will not happen if the
preferences of the public are increasing more than the quantity of
money; ...whilst a decline in the rate of interest may be expected,
cet.par., to increase the volume of investment, this will not happen if
the schedule of marginal efficiency of capital is falling more rapidly
than the rate of interest; ..whilst and increase of the volume of
investment may be expected, cet.par., to increase employment, this will
not happen if the propensity to consume is falling. Finally if
employment increase, prices will rise in a degree partly governed by the
shapes of the physical supply functions, and partly by the liability of
the wage-unit to rise in term of money. And when output has increases
and price have risen, the effect of this on liquidity preference will be
to increase the quantity of money necessary to maintain a given rate of
interest”[61].
A taxa de juro não se reduzirá se as preferências do público pela
liquidez crescerem mais rapidamente que a quantidade de moeda, mesmo
quando for esperada uma descida da taxa de juro. O investimento não
aumentará se a eficiência marginal do capital não aumentar mais depressa
que a descida da taxa de juro; se um incremento do investimento
espera-se vir a reduzir o desemprego, tal não acontecerá se a propensão
ao consumo descer. Se o emprego aumentar, aumentarão os preços, em parte
através da função de produção, em parte porque a unidade - salário
mudará em termos de moeda. Se aumentar o output e os preços, o efeito
sobre a preferência pela liquidez exigirá uma maior quantidade de moeda
para sustentar a taxa de juro.
Repare-se que Keynes, nestes possíveis acontecimentos abre caminho a uma
nova posição de equilíbrio, onde a teoria quantitativa é apenas
relevante quando a quantidade de moeda exerce pressão sobre os preços,
admitindo tal hipótese no caso de pleno emprego, quando a oferta se
torna inelástica. Existem circunstâncias em que mesmo uma forte variação
na quantidade de moeda não exerce uma grande influência sobre a taxa de
juro, que é o caso quando essa variação provoca tal incerteza sobre o
futuro que um motivo de procura de moeda se fortalece relativamente a
outro.
Por outro lado não existem mecanismos automáticos que permitam que
determinados acontecimentos ocorram, tendo em conta que as expectativas
dos agentes são determinantes para que esses acontecimentos tenham
lugar. A quantidade de moeda, porém, é importante na determinação da
taxa de juro, o que constitui uma novidade importante relativamente ao
pensamento clássico. A taxa de juro é, em definitivo, uma recompensa
pela renúncia à liquidez, um prémio ao não - entesouramento. É uma
medida da renúncia ao poder líquido que confere aos seus possuidores,
pressupondo que os indivíduos consideram a moeda um meio de riqueza:
“It is the price which equilibrate the desire to hold wealth in the
form of cash with the available quantity of cash”[62]".
Para cúmulo, se a taxa for menor ou a recompensa por se desfazer da
riqueza moeda for reduzida, o volume que as pessoas irão manteriam ou
reter excederá a oferta disponível, mas se a taxa se elevar, existirá um
excedente que ninguém estará disposto a manter.
A mais importante conclusão neste ponto é que a taxa de juro não se
reduzirá se as preferências do público pela liquidez crescerem mais
rapidamente. Quando se espera uma descida da taxa de juro, o
investimento não aumenta se a eficiência marginal do capital não
aumentar mais depressa que a descida da taxa de juro. Se um incremento
do investimento esperasse vir a reduzir o desemprego, tal não
aconteceria se a propensão ao consumo descesse. Se o emprego aumentar,
aumentarão os preços, em parte através da função de produção, em parte
porque a unidade - salário mudará em termos de moeda. Se aumentar o
output e os preços, o efeito sobre a preferência pela liquidez exigirá
uma maior quantidade de moeda para sustentar a taxa de juro.
4.4.3. A preferência pela liquidez e o comportamento especulativo
Para completar esta abordagem será preciso analisar as causas que levam
determinadas pessoas a preferir a liquidez, nomeadamente determinar a
relação entre a preferência pela liquidez suscitada pelo motivo
especulação e a taxa de juro.
O efeito de um indivíduo decidir entre liquidez ou iliquidez,
considerando as poupanças acumuladas em vez de considerar os seus
rendimentos[63], não indiferente para a determinação do nível da taxa de
juro. Na realidade, o dinheiro que se mantém para determinados
objectivos, não está necessariamente dividido de maneira hermética.
Assim, considera-se a procura de dinheiro do indivíduo, em determinadas
circunstâncias, como uma decisão única embora reservada a motivos
diferentes: I) o motivo de despesa de consumo: M-D-M[64]; ii) o motivo
negócio. D-M-D[65]; iii) o motivo precaução: D-D[66] e iv) o motivo
especulação: D-D[67].
A procura de dinheiro para satisfazer estes motivos, geralmente,
responde a mudanças na actividade económica geral e no nível de
rendimentos. A gestão monetária, ou, na sua ausência, as mudanças nas
quantidades de dinheiro que podem produzir-se por casualidade, fazem
sentir o seu efeito no sistema económico, pela sua influência sobre o
motivo especulação[68].
Se, por um lado, a experiência indica que a procura de dinheiro total
para satisfazer o motivo de especulação oferece uma resposta contínua
perante as mudanças graduais na taxa de juro, por outro lado existe:
“(...) a continuous curve relating changes in the demand for money to
satisfy the speculative motive and changes in the rate of interest as
given by changes in the price of bonds and debts of various
maturities”[69].
Ao analisar o motivo de especulação, é importante distinguir entre as
mudanças na taxa de juro que se produzem pela via da modificação da
quantidade de moeda, i.e. da oferta de dinheiro disponível para
satisfazer o motivo de especulação sem alterações na função de liquidez
M = L(r)), de aquelas que, ao modificarem as expectativas, modificam
essa função:
“Open market operations may, indeed, influence the rate of interest
through both channels”[70]
Em circunstâncias normais, o sistema bancário influencia o nível da taxa
de juro modificando a quantidade de moeda através das operações de
compra e venda de títulos. As operações de mercado aberto, podem
influenciar a taxa de dois modos: modificando os montantes de dinheiro
oferecidos, e modificando ou dando origem a uma modificação das
expectativas relativamente à política futura do banco central ou do
governo.
As alterações na função de liquidez, devido às modificações nas
informações que levam a uma modificação das expectativas, serão
frequentemente erráticas, dando origem a uma intermitência
correspondente às alterações na taxa de juro. Só poderá haver um aumento
na actividade dos negócios no mercado dos valores, na medida em que as
mudanças sejam interpretadas pelos indivíduos de modo diferente ou que
afectem de modo desigual os interesses individuais.
Se a mudança no estado de confiança afectar a opinião e as necessidade
de cada um do mesmo modo, a taxa de juro ajustar-se-á à nova situação
sem necessidade de nenhuma operação de mercado[71]. A taxa de juro só
será modificada no grau necessário para neutralizar o desejo de mudar as
reservas de efectivo, em resposta a novas circunstâncias ou expectativas
que qualquer indivíduo sentia à taxa anterior. Se todos mudarem as suas
ideias no mesmo sentido respeitante à taxa que os faria alterar as suas
reservas de liquidez, então não se verificará nenhuma operação. Mas, em
geral, uma alteração das circunstâncias ou expectativas irá ocasionar
uma alteração nas tendências dos indivíduos relativamente ao dinheiro.
O que acontece é que uma alteração irá influenciar as ideias dos
indivíduos de modo diferente. Isto deve-se ao facto de que as condutas
dos indivíduos dependem da existência de diferenças no ambiente social,
porque o motivo pelo qual se conserva o dinheiro é diferente, de acordo
ao conhecimento e a interpretação do novo estado das coisas.
Desse modo, a nova taxa de juro de equilíbrio estará ligada a uma
redistribuição na posse do dinheiro. Todavia, é uma mudança na taxa de
juro mais que uma distribuição da liquidez, que interessa tomar em
atenção. A redistribuição da liquidez é acidental face às diferenças
individuais, enquanto que as modificações na taxa de juro actuam para
neutralizar o motivo ou preferência de liquidez.
O deslocamento da taxa de juro é, geralmente, a parte mais importante
da reacção perante uma mudança das informações, pois existem mais
semelhanças que diferenças nas reacções dos indivíduos perante as
informações. A prová-lo está o facto de, em geral, os valores dos
títulos não manterem uma relação imediata com a actividade económica e
serem desproporcionados face ao valor dos activos das empresas.
A relação das mudanças de M referentes a Y e r, depende de como
acontecem as modificações em M, admitindo, como exemplifica Keynes, que
M é formado por moedas de ouro, e que as suas modificações apenas podem
ser resultado do rendimento crescente na actividade de produção de
ouro. Nesse caso, as mudanças de M estão associadas directamente às
mudanças de rendimento Y, pois o ouro é o rendimento de alguém. Se o
governo imprimir dinheiro para atender às despesas correntes, então M
mudará e por esse facto alguém irá aumentar o seu rendimento.
O novo nível de rendimento, todavia, não continuará a ser
suficientemente alto para que as necessidades de M1 absorvam todo o
aumento de M : uma parte do dinheiro irá para a compra de títulos ou
bens, até que r tenha descido o suficiente para provocar um aumento de
M2, e, ao mesmo tempo, venha a provocar uma mudança em Y, na magnitude
necessária para que M seja absorvido, quer por M1 ou por M2,
correspondentes ao crescimento de Y causado por uma queda de r :
“Thus at one remove this case comes to the same thing as the alternative
case, where the new money can only be issued in the first instance by a
relaxation of the conditions of credit by the banking system, so as to
induce some one to sell the banks a debt or a bond in exchange for the
new cash”[72].
Uma variação de M provocará uma variação de r. Uma variação de r levará
a um novo equilíbrio, em parte para modificar M2 e em parte, para mudar
Y e, por conseguinte, M1. A divisão da variação de M, o incremento de
liquidez entre M1 e M2 na nova posição de equilíbrio, dependerá da
resposta no investimento à baixa de r e, da resposta de Y a um aumento
do investimento.
Como Y depende parcialmente de r, deduz-se que a variação de M tem que
ocasionar uma modificação suficiente em r, de modo a que a soma das
mudanças resultantes de M1 e M2 , corresponda às mudanças efectuadas em
M, pelo que fica esclarecida a relação entre L1 e M1 [73].
Depreende-se que uma M1 dada não terá qualquer relação quantitativa
directa com o r dado, mas o seu grau de divergência referente ao que se
considera como um nível aceitável e seguro de r, considerando a
probabilidade esperada, de modo a que para qualquer estado das
expectativas, uma descida de r será acompanhada por um aumento de
M2[74].
Keynes esclarece este argumento. Primeiro, se o ponto de vista geral a
respeito do que é considerado um nível seguro de r permanece invariável,
cada descida de r reduz a taxa de mercado relativamente à "taxa segura",
aumentando o risco de iliquidez; segundo, cada baixa de r reduz os
lucros correntes derivados dessa forma de posse ilíquida, que existem
disponíveis como uma espécie de prémio de seguro a fim de neutralizar o
risco da perda de capital, numa quantidade igual à diferença entre os
quadrados da taxa anterior e os da nova.
Este é o principal obstáculo para uma descida da taxa de juro a um nível
mais baixo. A menos que, por hipótese, se pense que existem razões para
acreditar que a experiência futura será muito diferente da passada, que
uma taxa de juro de longo prazo mais baixa deixaria maior campo para a
desconfiança que para a esperança, oferecendo ao mesmo tempo um
rendimento corrente que apenas compensa um breve receio.
Mas se a taxa estiver acima da correspondente ao de pleno emprego, a
taxa de juro de longo prazo de mercado irá depender não apenas da
política actual da autoridade monetária, como também das previsões do
mercado relativamente àquela=? que se seguirá no futuro.
4.4.4. O emprego e a insuficiência da política monetária: mudança e
revisão de expectativas, liquidity trap e taxa de juro positiva.
O problema que surge agora é o da determinação da oferta monetária. Se
a autoridade monetária controlar facilmente a taxa de curto prazo, quer
porque os agentes estejam convencidos de que no curto prazo não
existirão alterações, quer porque as perdas de capital sejam pequenas em
comparação com o rendimento corrente, a taxa de longo prazo poderá ser
mais obstinada uma vez atingido um certo nível, pois o público pode
considerá-la insegura, apoiando-se na experiência transmitida e nas
expectativas presentes face a uma futura política monetária[75], ou
ainda porque o método convencional seja compatível com uma considerável
estabilidade nos negócios, enquanto se puder confiar na permanência e
continuidade da convenção.
Deste modo, uma política monetária que o público considere experimental
ou facilmente sujeita a modificações, poderá não conseguir o seu
objectivo de reduzir substancialmente a taxa de juro de longo prazo,
porque a procura especulativa poderá tender a aumentar quase sem limite
em resposta a uma queda da taxa de juro abaixo de um certo nível.
Contrariamente, a mesma política poderá ter êxito fácil se a opinião
predominante a considerar razoável, praticável e orientadora do
interesse do público, baseada numa convicção forte e promovida por uma
autoridade que não corra o risco de ser substituída.
Embora seja evidente, para Keynes, que a taxa de juro é um fenómeno
psicológico, esta pode não estar em equilíbrio a um nível inferior ao de
pleno emprego, pois nesse nível existirá um estado de inflação real, no
qual a procura de moeda, pelo motivo rendimento, irá absorver as
quantidades sempre crescentes de efectivo. Nesse sentido, a taxa de juro
deriva num fenómeno convencional, porque o seu valor real é em grande
parte influenciado pela opinião que prevaleça sobre o seu valor futuro.
Qualquer nível da taxa de juro que seja aceite como duradouro, será
provavelmente duradouro, mesmo que esteja sujeito às flutuações em
torno do normal esperado numa sociedade em mudança.
Mas se flutuar a um nível demasiado alto para conseguir atingir o pleno
emprego, em particular quando o aumento de M1 for maior ao aumento de
M, a taxa de juro subirá e vice-versa. Nomeadamente, se prevalecer a
opinião de que o ajustamento da taxa de juro será automático, de forma a
que se acredite que o nível estabelecido pela base convencional seja
uma razão mais forte que o próprio convencionalismo, supondo que a
quantidade de moeda mude, quando o banco comprar títulos (criação de
moeda).
Uma subida dos preços dos ´consols` equivale a uma descida das taxas de
juro, o que estimula o investimento e se repercute no motivo rendimento
e no motivo precaução, tendendo ambos os motivos a fazer com que a
preferência pela liquidez aumente com uma reacção no preço dos
´consols`[76]. Mas, observa Keynes, não existe situação na qual os
preços cresçam proporcionalmente. Existe apenas mais output e o
equilíbrio com mais moeda implica uma taxa de juro menor e um rendimento
real maior[77].
Não pode dizer-se que o público ou as autoridades estejam mentalmente
associadas à vigência de uma taxa de juro inadequada a um nível óptimo
de emprego, mas:
“ The difficulties in the way of maintaining effective demand at a level
high enough to provide full employment, which ensue from the association
of a conventional and fairly stable long-term rate with a fickle and
highly unstable marginal efficiency of capital, should be, now, obvious
to the reader”[78].
As dificuldades que resultam de uma política monetária que não consegue,
não pode ou não quer, fazer com que a taxa de juro de longo prazo desça
até ao ponto em que a eficiência marginal do capital incentive o
investimento, são um obstáculo à criação de uma procura efectiva
compatível com o pleno emprego. Essas dificuldades começam a ser
deslindadas se consideramos o entrave que provoca a taxa de juro
convencional de longo prazo que se situa demasiado acima de uma
eficiência marginal do capital muito instável e movediça.
A recomendação keynesiana é a de manter uma base convencional nova e
sólida que leve a opinião pública a adequar a sua preferência pela
liquidez àquela que seja compatível com o pleno emprego, através do
incentivo provocado por informações credíveis e por medidas destinadas
a estabelecer ou restabelecer o estado de confiança[79]. A opinião de
Keynes é de que, em qualquer situação dada de expectativas, o público
revela uma inclinação a conservar mais moeda do que é necessário a fim
de satisfazer, seja pelo motivo de transacção, seja por precaução, uma
posse real de moeda numa magnitude que depende dos termos em que a
autoridade monetária esteja disposta a criar liquidez[80].
Consoante a quantidade de dinheiro criada pela autoridade monetária
existirá, caeteris paribus, uma determinada taxa de juro para dívidas
com diferentes vencimentos. Existe assim, acredita Keynes, uma relação
especial entre as alterações em r e as alterações na quantidade de
dinheiro, assente no facto simples de o sistema bancário e a autoridade
monetária negociarem com dinheiro e dívidas e não com activos ou bens de
consumo.
A relação entre o complexo de taxas de juro e a quantidade de dinheiro
seria directa, se a autoridade estivesse disposta, em qualquer sentido,
a negociar em termos definidos as dívidas de qualquer vencimento, ou
ainda , se estivesse disposta a negociar dívidas de riscos variáveis. O
complexo de taxas de juro seria simplesmente uma expressão dos termos em
que o sistema bancário estivesse na disposição de adquirir ou se
desfazer de dívidas. A quantidade de moeda seria o montante existente na
posse dos indivíduos consoante preferissem o controlo da liquidez ou
desligar-se desta, i.e. a troca de uma dívida nas condições indicadas
pela taxa de juro de mercado[81].
Mas a autoridade monetária não está disposta, por regra geral, a
negociar com facilidade dívidas de qualquer vencimento. Na prática,
concentra-se sobre as dívidas de curto prazo e deixa que o preço das
dívidas de prazo mais longo se submeta à influência tardia e imperfeita
das reacções procedentes do preço das primeiras.
Para se poder aplicar esta teoria a um caso concreto, adverte Keynes,
deverá tomar-se em consideração a influência que exerce o preço real e
prospectivo de curto prazo sobre os títulos de longo prazo, podendo
estabelecer-se um conjunto de limitações à habilidade com que a
autoridade monetária estabelece qualquer complexo dado de taxas de juro
para dívidas de diversos prazos e riscos: i) existem limitações que
surgem da prática da autoridade monetária ao restringir as operações a
títulos de tipo particular; ii) existe a possibilidade de que, assim
como a taxa de juro poderá ter descido até certo nível, a preferência
pela liquidez possa tornar-se absoluta, no sentido em que todos prefiram
manter efectivo a conservar uma dívida. Nesse caso, a autoridade
monetária perde o controlo da taxa de juro[82]; iii) no caso de ruptura
completa da estabilidade da taxa de juro, pois a função de liquidez
esbate-se em qualquer direcção, produto da perda da confiança no valor
da moeda ou dos títulos; iv) a opção de fazer baixar a taxa de juro,
quando esta é suficientemente baixa, põe em riscos os custos de
arbitragem entre prestamista e agente emprestador, a margem de risco que
o prestamista exige acima da taxa de juro pura. Assim, a taxa a pagar
pelo prestatário desce mais devagar que a taxa de juro no sentido puro.
Estabelecida a relação entre a taxa de juro e a preferência pela
liquidez, entre a taxa de juro e a quantidade de moeda, entre as
expectativas da taxa de juro e as possibilidades da política da taxa de
juro, todo o problema se coloca em saber por que a taxa de juro
monetária de longo prazo é persistentemente alta, o que implica
esclarecer definitivamente por que as taxas de juro e os salários
nominais são recalcitrantes à baixa.
4.4.5. A taxa de juro é recalcitrante à baixa: a taxa monetária de juro
é o "pace maker" de todas as taxas-bem de juro
A fim de podermos ver como uma mudança nas expectativas pode provocar
uma mudança da taxa, seja pela mudança na preferência, seja pela mudança
na quantidade de dinheiro, ou por ambas, e como essa mudança afecta a
eficiência marginal do capital, o investimento e o emprego, iremos
clarificar como Keynes explica a existência de uma taxa de juro
recalcitrante relativamente à eficiência marginal do capital, o que
torna a política monetária redundante e insuficiente para combater com
êxito o desemprego.
Partimos da constatação de Keynes, de que a taxa de juro monetária tem
um papel peculiar na fixação de um limite ao volume de emprego, pois
esta funciona como um "pace maker", marcando o nível que deve atingir a
eficiência marginal do capital de um bem de capital, de modo a que este
seja produzido, assegurando o investimento realizado pelo actual
emprego.
Se a taxa de juro resulta do facto de esta existir numa economia
monetária, será pertinente tentar descobrir as peculiaridades do
dinheiro que o distinguem de outros bens, pois embora a taxa de juro da
moeda seja obstinada, aponta um caminho para responder ao problema da
persistência do emprego:
“Until we have answered these questions, the full significance of our
theory will not be clear”[83].
A taxa monetária é o excedente sobre uma determinada soma de dinheiro
emprestada, a um prazo dado. É um contrato sobre uma soma a um preço
para entrega futura, sobre um preço efectivo imediato. Para cada classe
de bem de capital, deveria existir uma taxa análoga à de juro sobre o
dinheiro[84]. Existem razões, diz-nos Keynes, para pensar que a taxa
monetária seja frequentemente a maior, porque, no caso de outras taxas
específicas, existem forças que operam no sentido da sua redução,
forças essas que não actuam no caso do dinheiro[85].
Podemos dizer, também, que cada bem-padrão oferece a mesma facilidade
que o dinheiro para medir a eficiência marginal do capital, sendo
utilizado para medir o rendimento provável de qualquer bem de capital.
Desde que as eficiências marginais de todos os bens se alterem na mesma
proporção, deduz-se que a ordem da sua magnitude será igual,
independendente do padrão escolhido.
Se existisse uma mercadoria composta que pudesse ser tomada como
representativa, poderíamos ter uma taxa de juro e eficiência marginal do
capital, em termos dessa mercadoria-bem. Se a taxa de juro monetária não
for singular senão em comparação com as outras, onde estará a sua
peculiaridade? Por que é que a eficiência marginal do capital e o volume
de emprego estão relacionados com a taxa de juro monetária, e não com as
outras taxas-bens?[86].
Os diversos tipos de bens possuem certos atributos: 1) os rendimentos ou
produção q; 2) os bens sofrem desgaste, apodrecem, sofrendo custos no
decorrer do tempo c 3) cada bem tem um prémio de liquidez l[87].
Deste modo o rendimento total esperado pela propriedade de um bem
durante um dado período é igual ao seu rendimento q menos o custo c
acrescido do seu prémio de liquidez. Isto é, q - c + l é a taxa de juro
própria, onde q, c e l são medidos em termos de si próprios e
considerando que q, c e l variam consoante os diferentes bens. O
rendimento do dinheiro é nulo[88], o seu custo de armazenagem é
irrelevante, mas o seu prémio de liquidez é substancial. Existe,
portanto, uma diferença essencial entre o dinheiro e os outros bens,
assente no facto de o seu prémio de liquidez exceder em muito o seu
custo de armazenagem, ao passo que acontece geralmente o contrário com
os outros bens[89].
Assim, serão produzidos aqueles bens cujo preço de oferta for menor que
o de procura, pois esses bens terão uma eficiência marginal do capital
que será maior (na base do seu preço de oferta normal) que a taxa de
juro, segundo o mesmo padrão de valor, qualquer que seja. Com o aumento
da existência de bens cuja eficiência marginal do capital era
inicialmente igual à taxa de juro, essa eficiência marginal tende a
descer. O processo atingirá o ponto em que os rendimentos esperados,
descontados em anuidades, começarão a ser inferiores ao preço de oferta,
levando a eficiência marginal do capital a descer, pelo que deixará de
ser vantajoso produzi-los, a menos que a taxa de juro desça pari passu.
Se não existir nenhum bem cuja eficiência marginal do capital atinja a
taxa de juro, não serão produzidos novos bens de capital.
Por hipótese, admitamos que existe um bem, o dinheiro, cuja taxa é fixa
ou desce mais lentamente, se aumenta a produção de qualquer outro bem.
Como se ajustam as posições[90]? Esta situação implica que o preço
actual de todo o bem distinto do preço do dinheiro (o juro monetário)
tende a descer proporcionalmente ao preço que se espera que virá a ter
no futuro. Portanto, se as taxas continuam a descer, chegará o momento
em que não será lucrativo produzir nenhum desses bens[91], a menos que
se produza um aumento do custo de produção no futuro (preço superior)
sobre o preço presente e que se recupere o custo de armazenagem desse
bem produzido no presente, desde o momento actual até a data provável em
que seu preço seja maior[92].
Se essa taxa de juro aumentar, as taxas de juro específicas dos outros
bens descerão a níveis que tornarão pouco interessante a produção desses
bens de capital, a custos que permitam lucros. Se uma ou algumas dessas
taxas permanecerem a um nível superior ao da eficiência marginal desse
bem-capital, a produção não terá lugar.
Se o dinheiro for padrão de valor, não necessariamente a taxa de juro
monetária causará transtornos. Poder-se-à mudar o padrão para um bem
qualquer, comprovando-se que também existirá para esse bem uma taxa
específica resistente à descida quando a produção crescer, pelo que:
" (...) it now appears that some difficulties will ensue if there
continues to exist any asset of which the own-rate of interest is
reluctant to decline as output increase”[93].
Quais são então as peculiaridades que fazem com que o bem dinheiro tenha
a sua taxa específica ao nível mais alto? Seguindo o critério de que,
na medida em que o padrão de valor estabelecido responda a essas
peculiaridades, será válida a proposição de que a taxa de juro
específica da moeda é a taxa mais importante: 1) a elasticidade de
produção do dinheiro é nula, ou muito pequena. Por elasticidade de
produção entende-se a variação do volume de mão - de - obra aplicado na
produção de dinheiro, quando aumenta a quantidade de trabalho que se
pode comprar com uma unidade da mesma. Isto é válido para a moeda
inconvertível ou o ouro, excepto no país em que a produção de ouro seja
a actividade principal. No caso dos outros bens, a elasticidade de
produção faz com que a sua taxa decline como consequência de um maior
coeficiente de produção. No caso do dinheiro a oferta é fixa, apenas
podendo mudar pela variação na unidade - salário ou pelo aumento da
oferta através da autoridade monetária. Se o preço de outros bens tender
a baixar, poder-se-à diversificar, desviando trabalho para a produção de
outro bens, o que sucederá apenas se a moeda for ouro. Se a taxa de juro
monetária não descer, não será possível produzir mais dinheiro, como
cultivar ou produzir outros bens. 2) Existem outros bens cuja produção é
inelástica, por exemplo os factores de renda pura, pelo que é necessário
agregar outra condição: o dinheiro tem uma elasticidade de substituição
igual ou quase igual a 0. Na medida em que o valor de troca do dinheiro
sobe, não existe tendência a substitui-lo por outro factor, excepto
quando a moeda é ouro e pode ser utilizada como mercadoria para outros
fins. A utilidade do dinheiro existe enquanto é valor de troca, de forma
que a sua utilidade sobe ou desce com o seu valor, pelo que, ao
contrário dos factores de renda, não existe motivo para substitui-lo por
outro factor[94]. 3) a oferta fixa rígida pode alterar-se no caso
particular de uma redução na unidade - salário, pois libertará efectivo
que se destinará a outros fundos para a satisfação do motivo de
liquidez. Se os valores monetários baixam, a existência de dinheiro
teria uma proporção maior no total da riqueza da comunidade. Segundo
Keynes, existe um conjunto de razões que, no âmbito de uma economia
monetária, mostra que é provável que a taxa monetária resista à baixa:
i) se uma descida da unidade - salário produzir a expectativa de uma
nova subida, o resultado será favorável. Pelo contrário, se a
expectativa for uma continuação de descida, a reacção negativa sobre a
eficiência marginal contrabalançará a descida da taxa de juros; ii) o
facto de os salários medidos em dinheiro serem propensos à rigidez, com
o salário monetário mais estável do que o real, tenderá a limitar a
propensão da unidade - salário a descer em termos de dinheiro[95]. Se os
salários não fossem rígidos à baixa, as expectativas relativamente à sua
actual baixa teriam um efeito negativo sobre a eficiência marginal do
capital. Se os salários fossem medidos em unidades-bem trigo, não seriam
rígidos, variando com as variações do valor desse bem. O dinheiro,
especialmente a sua propriedade de ser liquidez, torna o salário rígido,
quando fixado em moeda; iii) as características do dinheiro,
satisfazendo a preferência da liquidez, farão com que a taxa de juro
seja insensível, sobretudo considerando o estado convencional de longo
prazo e o estado de incerteza sobre o futuro. Por outras palavras, para
além de certo nível, o rendimento do dinheiro não desce quando a sua
quantidade muda, tal como baixa o rendimento de outros tipos de bens
quando a sua quantidade produzida aumenta. Deve ser considerado também o
facto de que uma mudança na quantidade de moeda pode levar os indivíduos
a reverem as expectativas, se aumenta a incerteza, mantendo e
aumentando liquidez, sem que a taxa de juro desça:
“(...) the readiness of the public to increase their stock of money in
response to a comparatively small stimulus is due to the advantages of
liquidity(real or supposed)having not offset to contend with in the
shape of carrying-cost mounting steeply with the lapse of time”[96].
Sendo os custos de armazenagem do dinheiro relativamente pequenos, não
afectam as previsões sobre o valor provável do dinheiro no futuro. Dito
de outro modo, um aumento nas existências de dinheiro por parte do
público, é vantajoso e aceite, sem contrabalançar os custos de
armazenagem no decurso do tempo, daí a preferência pela liquidez com
pequenos estímulos do seu aumento quantitativo. No caso de um outro bem,
quando se atinge um certo nível de existências superior, existe o risco
de perdas por armazenagem e depreciação.
A importância da taxa de juro monetária surge como uma combinação de
factores que actuam através do motivo liquidez, fazendo com que
primeiro, a taxa de juro seja insensível a uma mudança na proporção que
a quantidade de dinheiro mantém em relação às outras formas de riqueza,
medidas em dinheiro e, segundo, que possa ter elasticidades nulas de
produção e substituição.
A primeira condição significa que a procura se dirige predominantemente
ao dinheiro; a segunda, que não pode empregar-se mais trabalho para
produzir dinheiro e que não existe qualquer outro factor capaz de ter a
utilidade do dinheiro.
O único alívio, para além de alterações na eficiência marginal do
capital, pode vir, considerando a propensão à liquidez invariável, de
uma variação da quantidade do dinheiro ou de um aumento no valor do
dinheiro que permita à quantidade fixa aumentar os serviços monetários.
Deste modo, uma subida na taxa de juro retarda a obtenção de todos os
objectos cuja produção é elástica, sem poder estimular a produção do
dinheiro.
Assim, a taxa monetária de juro é o "pace maker" de todas as taxas-bem
de juro, refreando o investimento para produzir outros bens, sem
estimular a produção de dinheiro (que, por hipótese, não possa ser
produzido). Para o caso de um bem, a elasticidade de procura de
existências deste, faria com que as modificações na procura mudassem a
sua taxa de juro para cima ou para baixo, ao mesmo tempo que a
elasticidade de oferta influenciaria a taxa de juro. Deixando os bens à
liberdade das forças de mercado, este mecanismo actuaria no sentido de
diminuir a sua taxa de juro, até atingir "o pleno emprego",
correspondente à inelasticidade da oferta do dinheiro.
Da propriedade tradicionalmente aceite de que a inelasticidade da
oferta do ouro permite a sua utilização como padrão monetário, está a
dificuldade de fundo e é a falta de dinheiro que provocará o incitamento
à queda das taxas de juro dos bens, pelo que:
“ (...) our conclusion can be stated in the most general form. No
further increase in the rate of investment is possible when the greatest
among the own-rates of own interest of all available assets is equal to
the greatest amongst the marginal efficiencies of all assets, measured
in terms of the asset whose own-rate of interest is greatest. In a
conditions? of full employment this condition is necessarily satisfied.
But it may also be satisfied before full employment is reached, if there
is exist some asset, having zero (or relatively small) elasticities of
productions and substitution, whose rate of interest declines more
slowly, as output increases, than the marginal efficiencies of
capital-asset measured in terms of it”[97].
As características que determinam as particularidades do dinheiro e que
fazem com que a sua taxa seja a mais importante, estão ligadas ao facto
de a moeda ser o padrão de valor e de com esse padrão se fixarem as
dívidas e os salários. Se os contratos forem fixos e os salários forem
estáveis em termos de dinheiro, que faz com que o prémio de liquidez
seja tão importante, os indivíduos procurarão moeda pela conveniência de
expressar no mesmo padrão os contratos vencidos e os salários a pagar.
Tratando-se de uma questão de confiança no futuro, o padrão de valor
deverá ter uma elasticidade de produção que assegure a sua estabilidade.
Deste modo, aumentará a importância da taxa de juro monetária.
Existe um outro motivo mais subtil, segundo Keynes, que eleva a
importância do dinheiro e a sua taxa de juro:
“ The normal expectation that the value of output will be more stable in
terms of money than in terms of any other commodity, depends of course,
not on wages arranged in terms of money, but on wages being relatively
sticky in terms of money”[98].
O bem em termos do qual se expressam os salários de modo a serem os mais
rígidos, tem que ser aquele cuja elasticidade de produção seja mínima e
cujo excedente dos custos de armazenagem sobre o seu prémio de liquidez
seja mínimo, ou, dito de outro modo:
“(...) the expectation of a relative stickeness of wages in terms? of
money is a corrollary of the excess of liquidity-premium over
carring-cost being greater for money than any other asset”[99].
As peculiaridades da moeda combinam-se cumulativamente com o facto de a
moeda ser o padrão de valor socialmente aceite, pelo que a circunstância
de a moeda ter elasticidades de produção e substituição nulas, e custos
de manutenção e armazenagem quase nulos, fortalecem aconvicção de que os
salários monetários são relativamente estáveis, o que aumenta o prémio
de liquidez, de modo que a taxa de juro monetária não se confunde com as
eficiências marginais dos outros bens[100].
Keynes aceita que os salários monetários são viscosos à baixa, não por
causa das imperfeições no mercado de trabalho, mas sim pelas
propriedades e funções da moeda. Se tomarmos em conta o facto de os
salários expressos em moeda serem mais estáveis que outras formas de
riqueza, a sua estabilidade será um contributo intrínseco à própria
estabilidade do sistema, sobretudo dos lucros.
Os salários nominais são viscosos não tanto porque os sindicatos sejam
intransigentes em aceitar a sua redução, mas pela ocorrência de serem
pagos em moeda. É na moeda e respectivas propriedades que deve
procurar-se a sua viscosidade. A essas propriedades específicas da moeda
estão associadas as funções de meio de troca e reserva de valor que
fazem com que a taxa específica da moeda seja a mais alta entre as
diversas taxas específicas dos bens. Desse modo, a moeda serve de medida
de valor para estipular os salários e o crédito, o que leva o valor da
produção a ficar estável quando é expresso em moeda, o mesmo acontecendo
com os salários nominais. Se não se pudesse manipular a quantidade de
moeda, o emprego só poderia ser ncrementado, bem como a produção,
através de uma deflação ilimitada dos salários monetários, o que poderia
gerar expectativas perversas se esses continuassem a cair e a sua queda
fosse antecipada pelos empresários produtores de bens.
Como afirma Keynes, o desemprego prospera porque as pessoas querem comer
a lua com a mão, pois o objecto do desejo, o dinheiro, não pode
produzir-se e a sua procura pode sufocar com facilidade[101].
Para Keynes, o mercado de trabalho apenas permite avaliar a procura de
trabalho. Sendo assim, o emprego é determinado pelas forças que
condicionam o nível da procura efectiva, fixando o salário real.
Consequentemente, as flutuações no nível de emprego traduzem-se em
flutuações no nível do salário real, pelo que se o salário real fosse
mais rígido que o salário monetário, o sistema seria intrinsecamente
instável; no entanto, como foi dito anteriormente, a rigidez dos
salários monetários não decorre da obstinação institucional, mas sim do
facto de que, tendo a medida do valor uma tendência a ser mais estável,
todos os contratos expressos em moeda se comportam no mesmo sentido.
Mas se os salários fossem totalmente flexíveis, como pretendem impor as
antevisões neoclássicas, não apenas a propensão ao consumo declinaria,
como o investimento desceria ou não se realizaria pelas expectativas de
menores rendimentos resultantes de uma procura efectiva menor. Nessa
situação, a política monetária poderia aumentar a quantidade moeda ou
descer a taxa de juro, mas o desemprego involuntário poderia ainda
existir, pois uma pequena descida da taxa de juro revelar-se-ia
insuficiente, devido à elasticidade na procura da moeda, enquanto que
uma descida dos salários teria o efeito de criar expectativas perversas.
A conclusão da nossa análise assenta em duas ideias. Primeiro, se por
um lado Keynes procurou demonstrar a existência do desemprego como
sendo involuntário, também não negou a existência do desemprego
voluntário, como ficou dito anteriormente, permitindo assim ampliar a
análise dos tipos de desemprego.
Aliás, como o próprio autor escreve explicitamente, para além do
desemprego friccional, onde se registam todos os casos de desemprego que
surgem por intermitência da procura -- devido a maus cálculos ou por
dificuldades da mobilidade da mão-de-obra, ou por desequilíbrios
surgidos nos recursos especializados, portanto um conjunto de recursos
não-empregues--, admite também o desemprego voluntário, que surge pela
obstinação de não aceitar a remuneração em concordância com a
produtividade marginal atribuída, negação que pode ser livre ou imposta
pela legislação, pela negociação colectiva dos contratos ou pela simples
obstinação humana. Tal seria o desemprego normal, que provoca atrasos
nos ajustamentos, quer sejam sectoriais, regionais, inter ou intra
profissionais, próprio da dinâmica capitalista, enquanto sistema em
expansão.
Um modelo keynesiano de determinação do emprego:
Y= C + I
C = SYMBOL 70 \f "Symbol" 1(W,Y); dado o estado das expectativas W, C é
função de Y.
I = SYMBOL 70 \f "Symbol" 2(W, r); dado W, I é função de r. Por isso: Y
= SYMBOL 70 \f "Symbol" 1(W,Y) + SYMBOL 70 \f "Symbol" 2(W, r ).
Dado o estado de W, r é extremamente importante numa economia
empresarial. Sendo N o nº total de empregados, N1 os empregados que
produzem bens de consumo e N2 os que produzem bens de capital, então:
(não abrir parágrafo aqui)N1= F1(N); N2= F2(r) e N = F1(N) + F2(r),
dadas a preferência pela liquidez e a quantidade de moeda[102].
Alterando um destes factores poder-se-à regular a quantidade do emprego.
As equações são meras ilustrações, porque o instrumento real é o método
de pensamento, “and there are many other things[103]”. A moeda torna‑se
assim importante. Quando podem haver variações nas quantidades de
recursos, a moeda torna-se importante pois vincula ao presente as
expectativas móveis relativamente ao futuro , pelo que não pode haver
uma economia não‑monetária se houver um activo durável em existência e
se a moeda for simplesmente o activo durável cuja taxa de juro própria
seja a mais alta. Se o emprego for dado, não haverá nada a dizer
((realmente)) sobre a moeda.
Conclusões
O desemprego involuntário é a demonstração de que os mecanismos
automáticos não funcionam. Para isso formularam-se teorias explicativas
que acudiram a explicitar e defender a ideia de que o capitalismo
individualista do laissez-faire era eticamente insustentável,
politicamente inconveniente e socialmente ultrapassado. Essas hipóteses
constituíram o auxílio teórico à observação da instabilidade e falta de
mecanismos que corrigissem eficazmente as perturbações. Os mecanismos,
embora existissem, eram social e eticamente ultrapassados pela sociedade
democrática e pelo senso comum.
A visão de Keynes, fundada na observação e percepção da conduta
económica e social dos agentes, manifesta-se na ideia central de que o
sistema capitalista não possui mecanismos de ajustamento automático
capazes de manter um estado aceitável de produção e emprego, o que
determina a necessidade de formular com precisão um conjunto de
hipóteses sobre o funcionamento do sistema capitalista
Keynes propõe-se estudar as determinantes do nível do equilíbrio do
output e do emprego, elucidando previamente por que motivos a teoria
dita clássica, ancorada na ideia do laissez-faire, não consegue ser uma
teoria geral, por que o salário monetário é rígido à baixa, o que
invalida a política de redução dos salários nominais para conseguir mais
emprego e, por que a taxa de juro é recalcitrante, quando a eficiência
marginal do capital desce, o que reduz a eficácia da política monetária.
Aliás, a descida do salário monetário apenas faria sentido se este
contribuísse para a descida da taxa de juro, através das variações na
quantidade de moeda. Mas uma posição abaixo da posição de pleno emprego
não é determinada por tendências naturais nem existem princípios que
impeçam que se tomem medidas a fim de corrigir as falhas do sistema.
Em segundo lugar, a visão keynesiana manifesta-se na demonstração de
que, no mundo capitalista, as decisões dos agentes económicos são
inevitavelmente tomadas na base de expectativas sobre o futuro económico
em condições de incerteza e que a instabilidade do capitalismo reside
na variabilidade da taxa de investimento, o que provoca em última
instância a variabilidade do nível do emprego. Keynes, assumindo que os
empresários são agentes maximizadores, dado o consumo, pressupõe que as
decisões de investimento em emprego dependem das expectativas das
receitas, não apenas dos preços de procura como das quantidades
procuradas. O facto de uma comunidade possuir uma riqueza considerável
levar-la-á a aumentar a poupança, debilitando a propensão ao consumo.
Desse modo, conclui-se que as oportunidades de novos investimentos são
menores, a menos que a taxa de juro desça suficientemente depressa a fim
de aumentar o incentivo ao investimento. Keynes utiliza um
desenvolvimento metodológico, uma noção de probabilidade, para
reconhecer na realidade capitalista os elementos perturbadores e
geradores de incerteza, as possibilidades de gerar investimento em
situação de precariedade informativa.
Página Anterior - Página Siguiente
Nota: Es probable que en esta página web no aparezcan todos los elementos del presente documento. Para tenerlo completo y en su formato original recomendamos descargarlo desde el menú en la parte superior
Departamento de Economia, Instituto Superior de Economia e Gestão Universidade Técnica de Lisboa www.iseg.utl.pt\~hpe\html
magolivarrobaiseg.utl.ptAcerca de GestioPolis
Participar en la comunidad
Derechos de Autor
GestioPolis es la primera comunidad de conocimiento en negocios de Hispanoamérica
Derechos Reservados sobre el concepto del sitio web
GestioPolis.com
© 2008 Carlos López
| Hazte miembro de GestioPolis |
|
Y Descarga 11 eBooks
GRATIS |