Recibe los titulares de GestioPolis en tu correo.
Un envío diario ofrecido por FeedBurner

O PENSAMENTO ECONÓMICO DE J.M. KEYNES

Autor: Mario Gómez Olivares

Comercio internacional

01-2001

Viene de una página anterior

Herramientas

Descargar Original


4.3.5. Os empresários e a incerteza
 
As mudanças institucionais que se operam nas empresas aumentam a incerteza relativamente à infalibilidade dos cálculos provisionais, porquanto a natureza das empresas se modificou: A socialização da propriedade, através da gestão repartida da propriedade, se por um lado veio facilitar o investimento, por outro veio torná-lo mais instável. A expansão do mercado financeiro, o surgimento da bolsa e outros mercados de investimento, não possibilitou novos investimentos, implicou simplesmente o trespasse de propriedade intangível com fins de lucro imediato.
Uma certa classe de investimento rege-se pela média das expectativas dos especuladores da bolsa de valores, e não pelas expectativas genuínas do empresário profissional, o que se manifesta no preço das acções. As avaliações e reavaliações sobre as expectativas, e sobre o estado de confiança, implicam que a realização dos investimentos se base­ie no método convencional, o qual supõe que a situação existente dos negócios continuará por um tempo indefinido; no entanto, a prática demonstra que esta não se repete com probabilidade, i.e., as valorizações sobre os mercados realizam-se tomando em consideração toda a classe de conjecturaa, que de modo nenhum se relacionam com o rendimento provável.
Se existirem mercados organizados para o investimento e se se puder confiar em que a convenção não irá variar, poder-se-à animar o investimento. A ideia de que o único risco que se corre é o de uma mudança real das condições de futuro imediato, sobre cuja probabilidade se pode tentar formar um juízo próprio, não é provável que seja muito grande. O importante é não romper a convenção, pois o investimento será seguro: mesmo para períodos curtos e numa sucessão dos mesmos poder-se-á rever as conclusões antes de qualquer grande modificação. Deste modo, os investimentos tornam-se fixos para a comunidade e líquidos para o indivíduo. A manutenção de uma convenção, mesmo arbitrária, tem pontos frágeis, que precarizam a consecução de um volume de investimento suficiente: i) o aumento global, proporcionalmente maior, dos títulos e valores de rendimento variável na posse de especuladores sem ligações com os negócios concretos e sem conhecimento dos rendimentos esperados futuros; ii) as flutuações diárias dos lucros dos investimentos existentes, com carácter efémero e que tendem a influenciar desproporcionadamente o mercado; iii) o facto de o mercado estar sujeito a ondas de optimismo e pessimis­mo, sem ligação a cálculos razoáveis; iv) os agentes com maiores conhecimentos não se preocuparem em ter um melhor cálculo provisional a longo prazo dos rendimentos esperados, mas sim das variações nas bases convencionais, antecipando-se às do público em geral, com grande influência da psicologia de massas do mercado; v) o facto de o investimento baseado nas expectativas autenticas de longo prazo ser muito difícil. É mais fácil adivinhar o que as massas pretendem do que investigar laboriosamente o estado dos negócios, concluindo-se neste sentido que a experiência não dá provas claras de que uma política de investimentos so­cialmente vantajosa seja a mais produtiva. Se os homens se comportam de modo a procurar o lucro imediato, os lucros remotos são descontados pelo homem médio a taxas muito altas, que acabam por inviabilizar as expectativas de realizar investimentos. O investidor de longo prazo que promove o interesse público, aquele que se opõe aos convencionalismos estagnantes e detém uma conduta temerária aos olhos da opinião média, sofre o embate e a mudança dos tempos.
Keynes distingue claramente entre especulação, como activi­dade de antever a psicologia do mercado, e actividade empresarial, associada à tarefa de calcular os rendimentos prováveis dos bens no tempo futuro[53]. O autor evoca o papel histórico dos empresários, cujo dinamismo, energia, espírito de jogo e de aventura contribuíram de forma decisiva para o nascimento e desenvolvimento da moderna sociedade capital­ista, sendo depositada na sua confiança a aplicação dos recursos, sem que se conheçam muitas vezes os reais resultados da arte de investir.
A iniciativa individual apenas será adequada quando o cálculo razoável for sustentado pelos animal spirits, que actuam nessa base, a do espírito empresarial audaz e produtivo. O enigma, segundo Keynes, é que a prosperidade económica depende exclusivamente do ambiente político e social que agrada ao tipo médio de homens de negócios.
Da incerteza relativamente à formação de expectativas, não deve concluir-se que os negócios dependem exclusivamente de elementos psicológicos irracionais. Keynes expressa a autêntica e firme convicção de que as expectativas de longo prazo são, com frequência, firmes e estáveis:
“We are merely  remind­ing ourselves that human decisions affecting the future, whether personal or political or economic, cannot depend on strict mathematical expectations, since the basis for making such calculations does not exist, and that it is our innate urge to activity which makes the wheels go round, our ra­tional selves choosing between the alternatives as best we are able, calculating where we can, but often falling back for our motive on whim or sentiment or chance”[54] .
 
Essa convicção baseava-se na existência de alguns factores que diminuem a ignorância sobre o futuro, ou dito de outro modo, em elementos de informação sobre os rendimentos calculáveis futuros que permitem a formação de expectativas optimistas[55].
A decisão de investir é a decisão económica mais importante que tomam os agentes económicos, pois ela representa o elo entre o presente do consumo e o futuro do lucro. Mas essa decisão depende, segundo Keynes, da eficiência marginal do capital, a qual mede a relação dos rendimentos esperados, proporcionados pela utilização de um bem capital actual na produção futura de outros bens, com o preço de oferta ou reposição desse bem de capital e a taxa de juro. Os problemas com que se deparam os empresários para decidir o investimento, são os problemas da resolução da contradição entre os vários interesses presentes e provisionais de investidores, produtores, banqueiros.
O resultado mais importante do estudo sobre a empresa na óptica macro-económica, é o de que o investimento influencia o rendimento e o emprego. Mas devemos encarar as expectativas dos rendimentos esperados como uma variável essencial a examinar. A importância das alterações nas expectativas, deriva dos efeitos que estas mutações provocam sobre o desejo de produzir novos bens. Um efeito estimulante de preços maiores nas expectativas, não se deve a um aumento da taxa de juros, mas ao facto de se elevar a eficácia marginal de um volume dado de capital ou de a expectativa de uma descida no valor do dinheiro estimular o investimento; por consequência, o valor do dinheiro influencia o nível do emprego, pois eleva a curva de eficiência marginal do capital, deslocando a curva de procura de investimentos à alta.
A intervenção do Estado como agente catalisador do investimento, agente da confiança na credibilidade da informação, de recuperação dos ´animal spirits´ que animaram o crescimento capitalista do século XIX, não é apenas uma figura de retórica: é uma forma de tornar o cálculo provável mais fiável e a confiança do investidor mais razoável. O Estado deveria ser o garante do nível da despesa que assegure o pleno emprego - uma conclusão não apenas económica, de certo modo também moral, correspondendo à visão ética de Keynes.
Tendo determinado a influência que certas modificações de curto prazo exercem sobre as expectativas de longo prazo, diferentes das provocadas pela influência das modificações da taxa de juro, pode-se dizer que, em circunstâncias normais, as modificações nas expectativas, provocadas pelas mudanças no estado de confiança, exercem uma grande influência sobre a taxa de investimen­to. Apenas a experiência poderá dizer até que ponto a intervenção sobre a taxa de juro será capaz de estimular continuamente o volume adequado de investimento, mas, primeiro, é necessário conhecer a nova proposta teórica sobre a taxa de juro.
 
 
 
 
 
4.4. A teoria da taxa de juro, a política monetária e o desemprego
 
“Monetary theory, when all is said and done, is little more than a vast elaboration of the truth that `it all come out in the wash`. But to show this to us and to make it convincing, we must have a complete invento­ry” [56].
 
As preferências psicológicas intertemporais de um indivíduo requerem dois tipos de decisão: o indivíduo decide aparte do seu rendimento que vai destinar ao consumo imediato e a parte que vai guardar como forma de manter poder aquisitivo no futuro. São duas propensões determinadas pelo nível de rendimento adquirido, corrente e passado.
A questão importante a saber é qual será a forma de arbitrar entre o presente e o futuro desses rendimentos: mantê-los sob s forma de dinheiro ou desfazer deles, deixando ao mercado no futuro a forma que assumirá a transformação actualizada desses bens futuros. Para Keynes, a determinação da taxa de juro resulta juntamente com a introdução da moeda no sistema económico, completando-se assim os ingredientes necessários no seu modelo de análise. Reforça-se em defini­tivo a ideia de que o emprego é determinado pelo investimen­to, e que este depende de forças que encontram na moeda um factor de perturbação característico de uma economia em que a dupla decisão de poupar e de determinar a forma dessa poupança, gera expectativas sobre o valor da taxa de juro e da moeda, e em que o efeito das variações da quantidade de moeda sobre a taxa de juro estão subordinadas pela preferência pela liquidez do público o que pode obstruir a política monetária.
Se o entesouramento, característico de uma economia monetária, gerar expectativas sujeitas a revisões contínuas dos produtores sobre o estado futuro do consumo, às quais se adicionem as influências geradas pelas expectativas de incerteza sobre o futuro dos investimentos, a incerteza sobre a taxa de juro resultante da conduta do público irá agregar mais um elemento de instabilidade relativamente ao futuro do emprego.
A causa última do desemprego reside na incerteza gerada pelo facto de a moeda, para além de ser um meio de transacção, ser uma forma de detenção de riqueza que induz à não utilização desta em investimentos produtivos. Numa situação de variação da taxa de investi­mento, esta desce ou sobe consoante a relação estabelecida entre a eficiência marginal do capital e a taxa de juro. dado que a curva de eficiência marginal rege os termos da procura, i.e. os fundos disponíveis para os novos investimentos, e a taxa de juro comanda as condições de oferta desses fundos, devemos conhecer melhor as determinantes da taxa de juro, começando pela preferência pela liquidez.
 
4.4.1. A preferência pela liquidez e a taxa de juro
 
A razão pela qual existe preferência de liquidez pelo dinheiro como meio de conservar riqueza é a incerteza em relação ao futuro da taxa de juro, as reacções futuras em relação ao complexo de taxas de prazos variáveis. Se pudessem ser previstas com certeza as taxas que serão dominantes permanentemente no futuro, todas as taxas poderiam inferir-se das presentes para as dívidas de diferentes prazos, as quais se ajustariam ao conhecimento das taxas futuras:
“Thus if the need for liquid cash may con­ceivably arise before the expirity of n years, there is a risk of a loss being incurred in purchasing a long-term debt and subsequently turning it into cash, as compared with holding cash”[57].
 
A dificuldade de determinar esta relação de modo absoluto advem das expectativas, que são a manifestação psicológica no mercado sobre o futuro da taxa de juro, tomando em consideração que esta reage sobre a preferência pela liquidez. Se existir alguém que pense que as futuras taxas de juro estarão acima das supostas pelo mercado, terá motivos para manter dinheiro líquido real, mas quem tiver uma opinião diferente terá motivos para procurar dinheiro em empréstimo a fim de no curto prazo obter dinheiro para comprar dívidas a prazos mais longos. O preço de mercado resulta assim do equilíbrio das movimentações altistas e baixistas[58].
 
4.4.2. A preferência pela liquidez, a quantidade de moeda e a taxa de juro

Mas a preferência pela liquidez permite também estudar a relação entre a quantidade de moeda e a taxa de juro. Definindo M a quantidade de dinheiro, r a taxa de juro e L a função de preferência pela liquidez, temos M = L(r), i.e. a quantidade de dinheiro é função da preferência pela liqui­dez e ambas determinam a taxa de juro[59].
O aumento da quantidade de dinheiro provoca a descida da taxa de juro, a qual a medida que desce, faz com que as preferências pela liquidez destinadas ao motivo transacção absorvam mais moeda. No caso em que uma descida da taxa de juro permita o crescimento do rendimento nacion­al, o montante de moeda que convém absorver por este motivo deverá crescer na proporção do aumento do rendimento, ao mesmo tempo que deverá diminuir o custo da conveniência de manter efectivo abundante, com perda de juros [60]. Cada descida da taxa de juro pode fazer aumentar a quan­tidade de moeda que certos indivíduos pretendem conservar, dado que os indivíduos podem ter diferentes pontos de vista sobre o futuro da taxa de juro relativamente ao ponto de vista que prevalece no mercado.
A introdução da quantidade de moeda na cadeia causal contribui para explicar o nível do emprego, o que permite descobrir como as mudanças na quantidade de moeda actuam no funcionamento do sistema económico:
 
“ For whilst an increase in the quantity of money may be expected, cet. par., to reduce the rate of interest, this will not happen if the preferences of the public are increasing more than the quantity of money; ...whilst a decline in the rate of interest may be expected, cet.par., to increase the volume of invest­ment, this will not happen if the schedule of marginal efficiency of capital is falling more rapidly than the rate of interest; ..whilst and increase of the volume of in­vestment may be expected, cet.par., to increase employment, this will not happen if the propensity to consume is fall­ing. Finally if employment increase, prices will rise in a degree partly governed by the shapes of the physical supply functions, and partly by the liability of the wage-unit to rise in term of money. And when output has increases and price have risen, the effect of this on liquidity preference will be to increase the quantity of money necessary to maintain a given rate of interest”[61].
 
A taxa de juro não se reduzirá se as preferências do público pela liquidez crescerem mais rapidamente que a quantidade de moeda, mesmo quando for esperada uma descida da taxa de juro. O investimento não aumentará se a eficiência marginal do capital não aumentar mais depressa que a descida da taxa de juro; se um incremento do investimento espera-se vir a reduzir o desemprego, tal não acontecerá se a propensão ao consumo descer. Se o emprego aumentar, aumentarão os preços, em parte através da função de produção, em parte porque a unidade - salário mudará em termos de moeda. Se aumentar o output e os preços, o efeito sobre a preferência pela liquidez exigirá uma maior quantidade de moeda para sustentar a taxa de juro.
Repare-se que Keynes, nestes possíveis acontecimentos abre caminho a uma nova posição de equilíbrio, onde a teoria quantitativa é apenas relevante quando a quantidade de moeda exerce pressão sobre os preços, admitindo tal hipótese no caso de pleno emprego, quando a oferta se torna inelástica. Existem circunstâncias em que mesmo uma forte variação na quantidade de moeda não exerce uma grande influência sobre a taxa de juro, que é o caso quando essa variação provoca tal incerteza sobre o futuro que um motivo de procura de moeda se fortalece relativamente a outro.
Por outro lado não existem mecanismos automáticos que permitam que determinados acontecimentos ocorram, tendo em conta que as expectativas dos agentes são determinantes para que esses acontecimentos tenham lugar. A quantidade de moeda, porém, é importante na determinação da taxa de juro, o que constitui uma novidade importante relativamente ao pensamento clássico. A taxa de juro é, em definitivo, uma recompensa pela renúncia à liquidez, um prémio ao não - entesouramento. É uma medida da renúncia ao poder líquido que confere aos seus possuidores, pressupondo que os indivíduos consideram a moeda um meio de riqueza:
 
“It is the price which equil­ibrate the desire to hold wealth in the form of cash with the available quantity of cash”[62]".
 
 Para cúmulo, se a taxa for menor ou a recompensa por se desfazer da riqueza moeda for reduzida, o volume que as pessoas irão manteriam ou reter excederá a oferta disponível, mas se a taxa se elevar, existirá um excedente que ninguém estará disposto a manter.
A mais importante conclusão neste ponto é que a taxa de juro não se reduzirá se as preferências do público pela liquidez crescerem mais rapidamente. Quando se espera uma descida da taxa de juro, o investimento não aumenta se a eficiência marginal do capital não aumentar mais depressa que a descida da taxa de juro. Se um incremento do investimento esperasse vir a reduzir o desemprego, tal não aconteceria se a propensão ao consumo descesse. Se o emprego aumentar, aumentarão os preços, em parte através da função de produção, em parte porque a unidade - salário mudará em termos de moeda. Se aumentar o output e os preços, o efeito sobre a preferência pela liquidez exigirá uma maior quantidade de moeda para sustentar a taxa de juro.
 
4.4.3. A preferência pela liquidez e o comportamento especulativo

 
Para completar esta abordagem será preciso analisar as causas que levam determinadas pes­soas a preferir a liquidez, nomeadamente determinar a relação entre a preferência pela liquidez suscitada pelo motivo especulação e a taxa de juro.
O efeito de um indivíduo decidir entre liquidez ou iliquidez, considerando as poupanças acumuladas em vez de considerar os seus rendimentos[63], não indiferente para a determinação do nível da taxa de juro. Na realidade, o dinheiro que se mantém para determinados objectivos, não está necessariamente dividido de maneira hermética. Assim, considera-se a procura de dinheiro do indivíduo, em determinadas circunstâncias, como uma decisão única embora reservada a motivos diferentes: I) o motivo de despesa de consumo: M-D-M[64]; ii) o motivo negócio. D-M-D[65]; iii) o motivo precaução: D-D[66] e iv) o motivo especulação: D-D[67].
A procura de dinheiro para satisfazer estes motivos, geralmente, responde a mudanças na actividade económica geral e no nível de rendimentos. A gestão monetária, ou, na sua ausência, as mudanças nas quantidades de dinheiro que podem produzir-se por casualidade, fazem sentir o seu efeito no sistema económico, pela sua influência sobre o motivo especulação[68].
 Se, por um lado, a experiência indica que a procura de dinheiro total para satisfazer o motivo de especulação oferece uma resposta contínua perante as mudanças graduais na taxa de juro, por outro lado existe:
 
“(...) a continuous curve relating changes in the demand for money to satisfy the speculative motive and changes in the rate of interest as given by changes in the price of bonds and debts of various maturities”[69].
 
 Ao analisar o motivo de especulação, é importante distinguir entre as mudanças na taxa de juro que se produzem pela via da modificação da quantidade de moeda, i.e. da oferta de dinheiro disponível para satisfazer o motivo de especulação sem alterações na função de liquidez M = L(r)), de aquelas que, ao modificarem as expectativas, modificam essa função:
“Open market operations may, indeed, influence the rate of interest through both channels”[70]
 
Em circunstâncias normais, o sistema bancário influencia o nível da taxa de juro modificando a quantidade de moeda através das operações de compra e venda de títulos. As operações de mercado aberto, podem influenciar a taxa de dois modos: modificando os montantes de dinheiro oferecidos, e modificando ou dando origem a uma modificação das expectativas relativamente à política futura do banco central ou do governo.
As alterações na função de liquidez, devido às modificações nas informações que levam a uma modificação das expectativas, serão frequentemente erráticas, dando origem a uma intermitência correspondente às alterações na taxa de juro. Só poderá haver um aumento na actividade dos negócios no mercado dos valores, na medida em que as mudanças sejam interpretadas pelos indivíduos de modo diferente ou que afectem de modo desigual os interesses indivi­duais.
Se a mudança no estado de confiança afectar a opinião e as necessidade de cada um do mesmo modo, a taxa de juro ajustar-se-á à nova situação sem necessidade de nenhuma operação de mercado[71]. A taxa de juro só será modificada no grau necessário para neutralizar o desejo de mudar as reservas de efectivo, em resposta a novas circunstâncias ou expectativas que qualquer indivíduo sentia à taxa anterior. Se todos mudarem as suas ideias no mesmo sentido respeitante à taxa que os faria alterar as suas reservas de liquidez, então não se verificará nenhuma operação. Mas, em geral, uma alteração das circunstâncias ou expectati­vas irá ocasionar uma alteração nas tendências dos indivíduos relativamente ao dinheiro.
O que acontece é que uma alteração irá influenciar as ideias dos indivíduos de modo diferente. Isto deve-se ao facto de que as condutas dos indivíduos dependem da existência de diferenças no ambiente social, porque o motivo pelo qual se conserva o dinheiro é diferente, de acordo ao conheci­mento e a interpretação do novo estado das coisas.
Desse modo, a nova taxa de juro de equilíbrio estará ligada a uma redistribuição na posse do dinheiro. Todavia, é uma mudança na taxa de juro mais que uma distribuição da liquidez, que interessa tomar em atenção. A redistribuição da liquidez é acidental face às diferenças individuais, enquanto que as modificações na taxa de juro actuam para neutralizar o motivo ou preferência de liquidez.
 O desloca­mento da taxa de juro é, geralmente, a parte mais importante da reacção perante uma mudança das informações, pois existem mais semelhanças que diferenças nas reacções dos indivíduos perante as informações. A prová-lo está o facto de, em geral, os valores dos títulos não manterem uma relação imediata com a actividade económica e serem despropor­cionados face ao valor dos activos das empresas.
A relação das mudanças de M referentes a Y e r, depende de como acontecem as modificações em M, admitindo, como exemplifica Keynes, que M é formado por moedas de ouro, e que as suas modificações apenas podem ser resultado do rendimen­to crescente na actividade de produção de ouro. Nesse caso, as mudanças de M estão associadas directamente às mudanças de rendimento Y, pois o ouro é o rendimento de alguém. Se o governo imprimir dinheiro para atender às despesas correntes, então M mudará e por esse facto alguém irá aumentar o seu rendimento.
O novo nível de rendimento, todavia, não continuará a ser sufi­cientemente alto para que as necessidades de M1 absorvam todo o aumento de M : uma parte do dinheiro irá para a compra de títulos ou bens, até que r tenha descido o sufi­ciente para provocar um aumento de M2, e, ao mesmo tempo, venha a provocar uma mudança em Y, na magnitude necessária para que M seja absorvido, quer por M1 ou por M2, correspondentes ao crescimento de Y causado por uma queda de r :
“Thus at one remove this case comes to the same thing as the alternative case, where the new money can only be issued in the first instance by a relaxation of the condi­tions of credit by the banking system, so as to induce some one to sell the banks a debt or a bond in exchange for the new cash”[72].
 
Uma variação de M provocará uma variação de r. Uma variação de r levará a um novo equilíbrio, em parte para modifi­car M2 e em parte, para mudar Y e, por conseguinte, M1. A divisão da variação de M, o incremento de liquidez entre M1 e M2 na nova posição de equilíbrio, dependerá da resposta no investimento à baixa de r e, da resposta de Y a um aumento do investimento.
Como Y depende parcialmente de r, deduz-se que a variação de M tem que ocasionar uma modificação suficiente em r, de modo a que a soma das mudanças resultantes de M1 e M2 , correspon­da às mudanças efectuadas em M, pelo que fica esclarecida a relação entre L1 e M1 [73].
Depreende-se que uma M1 dada não terá qualquer relação quantita­tiva directa com o r dado, mas o seu grau de divergência referente ao que se considera como um nível aceitável e seguro de r, considerando a probabilidade esperada, de modo a que para qualquer estado das expectativas, uma descida de r será acompanhada por um aumento de M2[74].
Keynes esclarece este argumento. Primeiro, se o ponto de vista geral a respeito do que é considerado um nível seguro de r permanece invariável, cada descida de r reduz a taxa de mercado relativamente à "taxa segura", aumentando o risco de iliquidez; segundo, cada baixa de r reduz os lucros correntes derivados dessa forma de posse ilíquida, que existem disponíveis como uma espécie de prémio de seguro a fim de neutralizar o risco da perda de capital, numa quantidade igual à diferença entre os quadrados da taxa anterior e os da nova.
Este é o principal obstáculo para uma descida da taxa de juro a um nível mais baixo. A menos que, por hipótese, se pense que existem razões para acreditar que a experiência futura será muito diferente da passada, que uma taxa de juro de longo prazo mais baixa deixaria maior campo para a desconfiança que para a esperança, oferecendo ao mesmo tempo um rendimento corrente que apenas compensa um breve receio.
Mas se a taxa estiver acima da correspondente ao de pleno emprego, a taxa de juro de longo prazo de mercado irá depender não apenas da política actual da autoridade monetária, como também das previsões do mercado relativamente àquela=? que se seguirá no futuro.
 
 
4.4.4. O emprego e a insuficiência da política monetária: mudança e revisão de expectativas, liquidity trap e taxa de juro positiva.
 
  O problema que surge agora é o da determinação da oferta monetária. Se a autoridade monetária controlar facilmente a taxa de curto prazo, quer porque os agentes estejam convencidos de que no curto prazo não existirão alterações, quer porque as perdas de capital sejam pequenas em comparação com o rendimento cor­rente, a taxa de longo prazo poderá ser mais obstinada uma vez atingido um certo nível, pois o público pode considerá-la insegura, apoiando-se na experiência transmitida e nas expectativas presentes face a uma futura política monetária[75], ou ainda porque o método convencional seja compatível com uma considerável estabilidade nos negócios, en­quanto se puder confiar na permanência e continuidade da convenção.
Deste modo, uma política monetária que o público considere experimental ou facilmente sujeita a modificações, poderá não conseguir o seu objectivo de reduzir substancialmente a taxa de juro de longo prazo, porque a procura especulativa poderá tender a aumentar quase sem limite em resposta a uma queda da taxa de juro abaixo de um certo nível. Contrariamente, a mesma política poderá ter êxito fácil se a opinião predominante a considerar razoável, praticável e orientadora do interesse do público, baseada numa convicção forte e promovida por uma autoridade que não corra o risco de ser substituída.
 Embora seja evidente, para Keynes, que a taxa de juro é um fenómeno psicológico, esta pode não estar em equilíbrio a um nível inferior ao de pleno empre­go, pois nesse nível existirá um estado de inflação real, no qual a procura de moeda, pelo motivo rendimento, irá absorver as quantidades sempre crescentes de efectivo. Nesse sentido, a taxa de juro deriva num fenómeno convencional, porque o seu valor real é em grande parte influenciado pela opinião que prevaleça sobre o seu valor futuro. Qualquer nível da taxa de juro que seja aceite como duradouro, será provavelmente duradouro, mesmo que esteja sujei­to às flutuações em torno do normal esperado numa sociedade em mudança.
Mas se flutuar a um nível demasiado alto para conseguir atingir o pleno empre­go, em particu­lar quando o aumento de M1 for maior ao aumento de M, a taxa de juro subirá e vice-versa. Nomeadamente, se prevalecer a opinião de que o ajustamento da taxa de juro será automático, de forma a que se acre­dite que o nível estabelecido pela base convencional seja uma razão mais forte que o próprio convencionalismo, supondo que a quantidade de moeda mude, quando o banco comprar títulos (criação de moeda).
Uma subida dos preços dos ´consols` equivale a uma descida das taxas de juro, o que estimula o investimento e se repercute no motivo rendimento e no motivo precaução, tendendo ambos os motivos a fazer com que a preferência pela liquidez aumente com uma reacção no preço dos ´consols`[76]. Mas, observa Keynes, não existe situação na qual os preços cresçam proporcionalmente. Existe apenas mais output e o equilíbrio com mais moeda implica uma taxa de juro menor e um rendimento real maior[77].
Não pode dizer-se que o público ou as autoridades estejam mentalmente associadas à vigência de uma taxa de juro inade­quada a um nível óptimo de emprego, mas:
“ The difficulties in the way of maintaining effective demand at a level high enough to provide full employment, which ensue from the association of a conventional and fairly stable long-term rate with a fickle and highly unstable marginal efficiency of capital, should be, now, obvious to the reader”[78].

As dificuldades que resultam de uma política monetária que não consegue, não pode ou não quer, fazer com que a taxa de juro de longo prazo desça até ao ponto em que a eficiência marginal do capital incentive o investimento, são um obstáculo à criação de uma procura efectiva compatível com o pleno emprego. Essas dificuldades começam a ser deslindadas se consideramos o entrave que provoca a taxa de juro convencional de longo prazo que se situa demasiado acima de uma eficiência marginal do capital muito instável e movediça.
A recomendação keynesiana é a de manter uma base convencional nova e sólida que leve a opinião pública a adequar a sua preferência pela liqui­dez àquela que seja compatível com o pleno emprego, através do incentivo provocado por informações credíveis e por medi­das destinadas a estabelecer ou restabelecer o estado de confiança[79]. A opinião de Keynes é de que, em qualquer situação dada de expectativas, o público revela uma inclinação a conservar mais moeda do que é necessário a fim de satisfazer, seja pelo motivo de transacção, seja por precaução, uma posse real de moeda numa magnitude que depende dos termos em que a autoridade monetária esteja disposta a criar liquidez[80].
 Consoante a quantidade de dinheiro criada pela autori­dade monetária existirá, caeteris paribus, uma determinada taxa de juro para dívidas com diferentes vencimentos. Existe assim, acredita Keynes, uma relação especial entre as alterações em r e as alterações na quantidade de dinheiro, assente no facto simples de o sistema bancário e a autoridade monetária negociarem com dinheiro e dívidas e não com activos ou bens de consumo.
A relação entre o complexo de taxas de juro e a quantidade de dinheiro seria directa, se a autoridade estivesse dispos­ta, em qualquer sentido, a negociar em termos definidos as dívidas de qualquer vencimento, ou ainda , se estivesse disposta a negociar dívidas de riscos variáveis. O complexo de taxas de juro seria simplesmente uma expressão dos termos em que o sistema bancário estivesse na disposição de adquirir ou se desfazer de dívidas. A quantidade de moeda seria o montante existente na posse dos indivíduos  consoante preferissem o controlo da liquidez ou desligar-se desta, i.e. a troca de uma dívida nas condições indica­das pela taxa de juro de mercado[81].
Mas a autoridade monetária não está disposta, por regra geral, a negociar com facilidade dívidas de qualquer vencimento. Na prática, concentra-se sobre as dívidas de curto prazo e deixa que o preço das dívidas de prazo mais longo se submeta à influência tardia e imperfeita das reacções procedentes do preço das primeiras.
Para se poder aplicar esta teoria a um caso concreto, adverte Keynes, deverá tomar-se em consideração a influência que exerce o preço real e prospectivo de curto prazo sobre os títulos de longo prazo, podendo estabelecer-se um conjunto de limitações à habilidade com que a autoridade monetária estabelece qualquer complexo dado de taxas de juro para dívidas de diversos prazos e riscos: i) existem limitações que surgem da prática da autoridade monetária ao restringir as operações a títulos de tipo particular; ii) existe a possibilidade de que, assim como a taxa de juro poderá ter descido até certo nível, a preferência pela liquidez possa tornar-se absoluta, no sentido em que todos prefiram manter efectivo a conservar uma dívida. Nesse caso, a autoridade monetária perde o controlo da taxa de juro[82]; iii) no caso de ruptura completa da estabilidade da taxa de juro, pois a função de liquidez esbate-se em qualquer direcção, produto da perda da confiança no valor da moeda ou dos títulos; iv) a opção de fazer baixar a taxa de juro, quando esta é sufi­cientemente baixa, põe em riscos os custos de arbitragem entre prestamista e agente emprestador, a margem de risco que o prestamista exige acima da taxa de juro pura. Assim, a taxa a pagar pelo prestatário desce mais devagar que a taxa de juro no sentido puro.
 Estabelecida a relação entre a taxa de juro e a preferência pela liquidez, entre a taxa de juro e a quantidade de moeda, entre as expectativas da taxa de juro e as possibilidades da política da taxa de juro, todo o problema se coloca em saber por que a taxa de juro monetária de longo prazo é persistentemente alta, o que implica esclarecer definitivamente por que as taxas de juro e os salários nominais são recalcitrantes à baixa.
 
4.4.5. A taxa de juro é recalcitrante à baixa: a taxa monetária de juro é o "pace maker" de todas as taxas-bem de juro
 
A fim de podermos ver como uma mudança nas expectativas pode provocar uma mudança da taxa, seja pela mudança na preferência, seja pela mudança na quantidade de dinheiro, ou por ambas, e como essa mudança afecta a eficiência marginal do capital, o investimento e o emprego, iremos clarificar como Keynes explica a existência de uma taxa de juro recalcitrante relativamente à eficiência marginal do capital, o que torna a política monetária redundante e insuficiente para combater com êxito o desemprego.
Partimos da constatação de Keynes, de que a taxa de juro monetária tem um papel peculiar na fixação de um limite ao volume de emprego, pois esta funciona como um "pace maker", marcando o nível que deve atingir a eficiência marginal do capital de um bem de capital, de modo a que este seja produzido, assegurando o investimento realizado pelo actual emprego.
Se a taxa de juro resulta do facto de esta existir numa economia monetária, será pertinente tentar descobrir as peculiaridades do dinheiro que o distinguem de outros bens, pois embora a taxa de juro da moeda seja obstinada, aponta um caminho para respon­der ao problema da persistência do emprego:
 
“Until we have answered these questions, the full significance of our theory will not be clear”[83].
 
A taxa monetária é o excedente sobre uma determinada soma de dinheiro emprestada, a um prazo dado. É um contrato sobre uma soma a um preço para entrega futura, sobre um preço efectivo imediato. Para cada classe de bem de capital, deveria existir uma taxa análoga à de juro sobre o dinheiro[84]. Existem razões, diz-nos Keynes, para pensar que a taxa monetária seja frequentemente a maior, porque, no caso de outras taxas específicas, existem forças que operam no senti­do da sua redução, forças essas que não actuam no caso do dinheiro[85].
Podemos dizer, também, que cada bem-padrão oferece a mesma facilidade que o dinheiro para medir a eficiência marginal do capital, sendo utilizado para medir o rendimento provável de qualquer bem de capital. Desde que as eficiências marginais de todos os bens se alterem na mesma proporção, deduz-se que a ordem da sua magnitude será igual, independendente do padrão escolhido.
Se existisse uma mercadoria composta que pudesse ser tomada como representativa, poderíamos ter uma taxa de juro e eficiência marginal do capital, em termos dessa mercadoria-bem. Se a taxa de juro monetária não for singular senão em comparação com as outras, onde estará a sua peculiaridade? Por que é que a eficiência marginal do capital e o volume de emprego estão relacionados com a taxa de juro monetária, e não com as outras taxas-bens?[86].
Os diversos tipos de bens possuem certos atributos: 1) os rendimentos ou produção q; 2) os bens sofrem desgaste, apodrecem, sofrendo custos no decor­rer do tempo c 3) cada bem tem um prémio de liquidez l[87].
Deste modo o rendimento total esperado pela propriedade de um bem durante um dado período é igual ao seu rendimento q menos o custo c acrescido do seu prémio de liquidez. Isto é, q - c + l é a taxa de juro própria, onde q, c e l são medidos em termos de si próprios e considerando que q, c e l variam consoante os diferentes bens. O rendimento do dinheiro é nulo[88], o seu custo de armazenagem é irrelevante, mas o seu prémio de liquidez é substancial. Existe, portanto, uma diferença essencial entre o dinheiro e os outros bens, assente no facto de o seu prémio de liquidez exceder em muito o seu custo de armazenagem, ao passo que acontece geralmente o contrário com os outros bens[89].
Assim, serão produzidos aqueles bens cujo preço de oferta for menor que o de procura, pois esses bens terão uma eficiência marginal do capital que será maior (na base do seu preço de oferta normal) que a taxa de juro, segundo o mesmo padrão de valor, qualquer que seja. Com o aumento da existência de bens cuja eficiência marginal do capital era inicial­mente igual à taxa de juro, essa eficiência marginal tende a descer. O processo atingirá o ponto em que os rendi­mentos esperados, descontados em anuidades, começarão a ser inferiores ao preço de oferta, levando a eficiência marginal do capital a descer, pelo que deixará de ser vantajoso produzi-los, a menos que a taxa de juro desça pari passu. Se não existir nenhum bem cuja eficiência marginal do capital atinja a taxa de juro, não serão produzidos novos bens de capital.
Por hipótese, admitamos que existe um bem, o dinheiro, cuja taxa é fixa ou desce mais lentamente, se aumenta a produção de qualquer outro bem. Como se ajustam as posições[90]? Esta situação implica que o preço actual de todo o bem distinto do preço do dinheiro (o juro monetário) tende a descer proporcionalmente ao preço que se espera que virá a ter no futuro. Portanto, se as taxas continuam a descer, chegará o momento em que não será lucrativo produzir nenhum desses bens[91], a menos que se produza um aumento do custo de produção no futuro (preço superior) sobre o preço presente e que se recupere o custo de armazenagem desse bem produzido no presente, desde o momento actual até a data provável em que seu preço seja maior[92].
Se essa taxa de juro aumentar, as taxas de juro específicas dos outros bens descerão a níveis que tornarão pouco interessante a produção desses bens de capital, a custos que permitam lucros. Se uma ou algumas dessas taxas permanecerem a um nível superior ao da eficiência marginal desse bem-capital, a produção não terá lugar.
Se o dinheiro for padrão de valor, não necessariamente a taxa de juro monetária causará transtornos. Poder-se-à mudar o padrão para um bem qualquer, comprovando-se que também existirá para esse bem uma taxa específica resistente à descida quando a produção crescer, pelo que:
 
" (...) it now appears that some difficulties will ensue if there con­tinues to exist any asset of which the own-rate of interest is reluctant to decline as output increase”[93].
 
Quais são então as peculiaridades que fazem com que o bem dinheiro tenha a sua taxa específica ao nível mais alto? Seguin­do o critério de que, na medida em que o padrão de valor esta­belecido responda a essas peculiaridades, será válida a proposição de que a taxa de juro específica da moeda é a taxa mais importante: 1) a elasticidade de produção do dinheiro é nula, ou muito peque­na. Por elasticidade de produção entende-se a variação do volume de mão - de - obra aplicado na produção de dinheiro, quando aumenta a quantidade de trabalho que se pode comprar com uma unidade da mesma. Isto é válido para a moeda inconvertível ou o ouro, excepto no país em que a produção de ouro seja a actividade principal. No caso dos outros bens, a elasticidade de produção faz com que a sua taxa decline como consequência de um maior coefi­ciente de produção. No caso do dinheiro a oferta é fixa, apenas podendo mudar pela variação na unidade - salário ou pelo aumento da oferta através da autoridade monetária. Se o preço de outros bens tender a baixar, poder-se-à diversificar, desviando trabalho para a produção de outro bens, o que sucederá apenas se a moeda for ouro. Se a taxa de juro monetária não descer, não será possível produzir mais dinheiro, como cultivar ou produzir outros bens. 2) Existem outros bens cuja produção é inelástica, por exemplo os factores de renda pura, pelo que é necessário agregar outra condição: o dinheiro tem uma elasticidade de substituição igual ou quase igual a 0. Na medida em que o valor de troca do dinheiro sobe, não existe tendência a substitui-lo por outro factor, excepto quando a moeda é ouro e pode ser utilizada como mercadoria para outros fins. A utilidade do dinheiro existe enquanto é valor de troca, de forma que a sua utilidade sobe ou desce com o seu valor, pelo que, ao contrário dos factores de renda, não existe motivo para substitui-lo por outro factor[94]. 3) a oferta fixa rígida pode alterar-se no caso particular de uma redução na unidade - salário, pois libertará efectivo que se destinará a outros fundos para a satisfação do motivo de liquidez. Se os valores monetários baixam, a existência de dinheiro teria uma proporção maior no total da riqueza da comunidade. Segundo Keynes, existe um conjunto de razões que, no âmbito de uma economia monetária, mostra que é provável que a taxa monetária resista à baixa: i) se uma descida da unidade - salário produzir a expectativa de uma nova subida, o resultado será favorável. Pelo contrário, se a expectativa for uma continuação de descida, a reacção negativa sobre a eficiência marginal contrabalançará a descida da taxa de juros; ii) o facto de os salários medidos em dinheiro serem propensos à rigidez, com o salário monetário mais estável do que o real, tenderá a limitar a propensão da unidade - salário a descer em termos de dinheiro[95]. Se os salários não fossem rígidos à baixa, as expectativas relativamente à sua actual baixa teriam um efeito negativo sobre a eficiência marginal do capital. Se os salários fossem medidos em unidades-bem trigo, não seriam rígidos, variando com as variações do valor desse bem. O dinheiro, especialmente a sua propriedade de ser liquidez, torna o salário rígido, quando fixado em moeda; iii) as características do dinheiro, satisfazendo a preferência da liquidez, farão com que a taxa de juro seja insensível, sobretudo considerando o estado convencional de longo prazo e o estado de incerteza sobre o futuro. Por outras palavras, para além de certo nível, o rendimento do dinheiro não desce quando a sua quantidade muda, tal como baixa o rendimento de outros tipos de bens quando a sua quantidade produzida aumenta. Deve ser considerado também o facto de que uma mudança na quantidade de moeda pode levar os indivíduos a reverem as expectativas, se aumenta a incerteza, mantendo e aumen­tando liquidez, sem que a taxa de juro desça:
“(...) the readiness of the public to increase their stock of money in response to a comparatively small stimulus is due to the advantages of liquidity(real or supposed)having not offset to contend with in the shape of carrying-cost mounting steeply with the lapse of time”[96].
 
Sendo os custos de armazenagem do dinheiro relativamente pequenos, não afectam as previsões sobre o valor provável do dinheiro no futuro. Dito de outro modo, um aumento nas existências de dinheiro por parte do público, é vantajoso e aceite, sem contrabalançar os custos de armazenagem no decurso do tempo, daí a preferência pela liquidez com pequenos estímulos do seu aumento quantitativo. No caso de um outro bem, quando se atinge um certo nível de existências superi­or, existe o risco de perdas por armazenagem e depreciação.
A importância da taxa de juro monetária surge como uma combinação de factores que actuam através do motivo liquidez, fazendo com que primeiro, a taxa de juro seja insensível a uma mudança na proporção que a quantidade de dinheiro mantém em relação às outras formas de riqueza, medidas em dinheiro e, segundo, que possa ter elastici­dades nulas de produção e substituição.
A primeira condição significa que a procura se dirige predominantemente ao dinheiro; a segunda, que não pode empre­gar-se mais trabalho para produzir dinheiro e que não existe qualquer outro factor capaz de ter a utilidade do dinheiro.
O único alívio, para além de alterações na eficiência marginal do capital, pode vir, considerando a propensão à liquidez invariável, de uma variação da quantidade do dinheiro ou de um aumento no valor do dinheiro que permita à quantidade fixa aumentar os serviços monetários. Deste modo, uma subida na taxa de juro retarda a obtenção de todos os objectos cuja produção é elástica, sem poder estim­ular a produção do dinheiro.
Assim, a taxa monetária de juro é o "pace maker" de todas as taxas-bem de juro, refreando o investimento para produzir outros bens, sem estimular a produção de dinheiro (que, por hipótese, não possa ser produzido). Para o caso de um bem, a elasticidade de procura de existências deste, faria com que as modificações na procura mudassem a sua taxa de juro para cima ou para baixo, ao mesmo tempo que a elasticidade de oferta influenciaria a taxa de juro. Deixando os bens à liberdade das forças de mercado, este mecanismo actuaria no sentido de diminuir a sua taxa de juro, até atingir "o pleno emprego", correspondente à inelasticidade da oferta do dinheiro.
Da propriedade tradi­cionalmente aceite de que a inelasticidade da oferta do ouro permite a sua utilização como padrão monetário, está a dificuldade de fundo e é a falta de dinheiro que provocará o incitamento à queda das taxas de juro dos bens, pelo que:
 
“ (...) our conclusion can be stated in the most general form. No further increase in the rate of investment is possible when the greatest among the own-rates of own interest of all available assets is equal to the greatest amongst the marginal efficiencies of all assets, measured in terms of the asset whose own-rate of interest is greatest. In a conditions? of full employment this condi­tion is necessarily satisfied. But it may also be satisfied before full employment is reached, if there is exist some asset, having zero (or relatively small) elasticities of productions and substitution, whose rate of interest de­clines more slowly, as output increases, than the marginal efficiencies of capital-asset measured in terms of it”[97].
 
As características que determinam as particularidades do dinheiro e que fazem com que a sua taxa seja a mais importante, estão ligadas ao facto de a moeda ser o padrão de valor e de com esse padrão se fixarem as dívidas e os salários. Se os contratos forem fixos e os salários forem estáveis em termos de dinheiro, que faz com que o prémio de liquidez seja tão importante, os indivíduos procurarão moeda pela conveniência de expressar no mesmo padrão os contratos venci­dos e os salários a pagar. Tratando-se de uma questão de confiança no futuro, o padrão de valor deverá ter uma elasticidade de produção que assegure a sua estabilidade. Deste modo, aumentará a importância da taxa de juro monetária.
Existe um outro motivo mais subtil, segundo Keynes, que eleva a importância do dinheiro e a sua taxa de juro:
 
“ The normal expectation that the value of output will be more stable in terms of money than in terms of any other commodi­ty, depends of course, not on wages arranged in terms of money, but on wages being relatively sticky in terms of money”[98].
 
O bem em termos do qual se expressam os salários de modo a serem os mais rígidos, tem que ser aquele cuja elasticidade de produção seja mínima e cujo excedente dos custos de armazenagem sobre o seu prémio de liquidez seja mínimo, ou, dito de outro modo:
 
“(...) the expectation of a relative stickeness of wages in terms? of money is a corrol­lary of the excess of liquidity-premium over carring-cost being greater for money than any other asset”[99].
 
As peculiaridades da moeda combinam-se cumulativamente com o facto de a moeda ser o padrão de valor socialmente aceite, pelo que a circunstância de a moeda ter elasticidades de produção e substituição nulas, e custos de manutenção e armazenagem quase nulos, fortalecem aconvicção de que os salários monetários são relativamente estáveis, o que aumenta o prémio de liquidez, de modo que a taxa de juro monetária não se confunde com as eficiências marginais dos outros bens[100].
Keynes aceita que os salários monetários são viscosos à baixa, não por causa das imperfeições no mercado de trabalho, mas sim pelas propriedades e funções da moeda. Se tomarmos em conta o facto de os salários expressos em moeda serem mais estáveis que outras formas de riqueza, a sua estabilidade será um contributo intrínseco à própria estabi­lidade do sistema, sobretudo dos lucros.
Os salários nominais são viscosos não tanto porque os sindicatos sejam intransigentes em aceitar a sua redução, mas pela ocorrência de serem pagos em moeda. É na moeda e respectivas propriedades que deve procurar-se a sua viscosidade. A essas propriedades específicas da moeda estão associadas as funções de meio de troca e reserva de valor que fazem com que a taxa específica da moeda seja a mais alta entre as diversas taxas específicas dos bens. Desse modo, a moeda serve de medida de valor para estipular os salários e o crédito, o que leva o valor da produção a ficar estável quando é expresso em moeda, o mesmo acontecendo com os salários nominais. Se não se pudesse manipular a quantidade de moeda, o emprego só poderia ser ncrementado, bem como a produção, através de uma deflação ilimitada dos salários monetários, o que poderia gerar expectativas perversas se esses continuassem a cair e a sua queda fosse antecipada pelos empresários produ­tores de bens.
Como afirma Keynes, o desemprego prospera porque as pessoas querem comer a lua com a mão, pois o objecto do desejo, o dinheiro, não pode produzir-se e a sua procura pode sufocar com facilidade[101].
Para Keynes, o mercado de trabalho apenas permite avaliar a procura de trabalho. Sendo assim, o emprego é determinado pelas forças que condicionam o nível da procura efectiva, fixando o salário real. Consequentemente, as flutuações no nível de emprego traduzem-se em flutuações no nível do salário real, pelo que se o salário real fosse mais rígido que o salário monetário, o sistema seria intrinsecamente instável; no entanto, como foi dito anteriormente, a rigidez dos salários monetários não decorre da obstinação institucional,  mas sim do facto de que, tendo a medida do valor uma tendência a ser mais estável, todos os contratos expressos em moeda se comportam no mesmo sentido.
Mas se os salários fossem totalmente flexíveis, como pretendem impor as antevisões neoclássicas, não apenas a propensão ao consumo declinaria, como o inves­timento desceria ou não se realizaria pelas expectativas de menores rendimentos resultantes de uma procura efectiva menor. Nessa situação, a política monetária poderia aumentar a quantidade moeda ou descer a taxa de juro, mas o desemprego involuntário poderia ainda existir, pois uma pequena descida da taxa de juro revelar-se-ia insuficiente, devido à elasti­cidade na procura da moeda, enquanto que uma descida dos salários teria o efeito de criar expectativas perversas.
  A conclusão da nossa análise assenta em duas ideias. Primeiro, se por um lado Keynes procurou demon­strar a existência do desemprego como sendo involuntário, também não negou a existência do desemprego voluntário, como ficou dito ante­riormente, permitindo assim ampliar a análise dos tipos de desemprego.
Aliás, como o próprio autor escreve explicitamente, para além do desemprego friccional, onde se registam todos os casos de desemprego que surgem por intermitência da procura -- devido a maus cálculos ou por dificuldades da mobilidade da mão-de-obra, ou por desequilíbrios surgidos nos recursos especializados, portanto um conjunto de recursos não-empregues--, admite também o desemprego voluntário, que surge pela obstinação de não aceitar a remuneração em concordância com a produtividade marginal atribuída, negação que pode ser livre ou imposta pela legislação, pela negociação colectiva dos contratos ou pela simples obstinação humana. Tal seria o desemprego normal, que provoca atrasos nos ajustamentos, quer sejam sectoriais, regionais, inter ou intra profissionais, próprio da dinâmica capitalista, enquanto sistema em expansão.
Um modelo keynesiano de determinação do emprego:
Y= C + I
C = SYMBOL 70 \f "Symbol" 1(W,Y); dado o estado das expectativas W, C é função de Y.
I = SYMBOL 70 \f "Symbol" 2(W, r); dado W, I é função de r. Por isso: Y = SYMBOL 70 \f "Symbol" 1(W,Y) + SYMBOL 70 \f "Symbol" 2(W, r ).
Dado o estado de W, r é extrema­mente importante numa economia empresarial. Sendo N o nº total de empregados, N1 os empregados que produzem bens de consumo e N2 os que produzem bens de capital, então: (não abrir parágrafo aqui)N1= F1(N); N2= F2(r) e N = F1(N) + F2(r), dadas a preferência pela liquidez e a quantidade de moeda[102].  Alterando um destes factores poder-se-à regular a quantidade do emprego. As equações são meras ilustrações, porque o instrumento real é o método de pensamento, “and there are many other things[103]”. A moeda torna‑se assim importante. Quando podem haver variações nas quantidades de recursos, a moeda torna-se importante pois vincula ao presente as expectativas móveis relativamente ao futuro , pelo que não pode haver uma economia não‑monetária se houver um activo durável em existência e se a moeda for simplesmente o activo durável cuja taxa de juro própria seja a mais alta. Se o emprego for dado, não haverá nada a dizer ((realmente)) sobre a moeda.
Conclusões
O desemprego involuntário é a demonstração de que os mecanismos automáticos não funcionam. Para isso formularam-se teorias explicativas que acudiram a explicitar e defender a ideia de que o capitalismo individualista do laissez-faire era eticamente insustentável, politicamente inconveniente e socialmente ultrapassado. Essas hipóteses constituíram o auxílio teórico à observação da instabilidade e falta de mecanismos que corrigissem eficazmente as perturbações. Os mecanismos, embora existissem, eram social e eticamente ultrapassados pela sociedade democrática e pelo senso comum.
A visão de Keynes, fundada na observação e percepção da conduta económica e social dos agentes, manifesta-se na ideia central de que o sistema capitalista não possui mecanismos de ajustamento automático capazes de manter um estado aceitável de produção e emprego, o que determina a necessidade de formular com precisão um conjunto de hipóteses sobre o funcionamento do sistema capitalista
Keynes propõe-se estudar as determinantes do nível do equilíbrio do output e do emprego, elucidando previamente por que motivos a teoria dita clássica, ancorada na ideia do laissez-faire, não consegue ser uma teoria geral, por que o salário monetário é rígido à baixa, o que invalida a política de redução dos salários nominais para conseguir mais emprego e, por que a taxa de juro é recalcitrante, quando a eficiência marginal do capital desce, o que reduz a eficácia da política monetária. Aliás, a descida do salário monetário apenas faria sentido se este contribuísse para a descida da taxa de juro, através das variações na quantidade de moeda. Mas uma posição abaixo da posição de pleno emprego não é determinada por tendências naturais nem existem princípios que impeçam que se tomem medidas a fim de corrigir as falhas do sistema.
 Em segundo lugar, a visão keynesiana manifesta-se na demonstração de que, no mundo capitalista, as decisões dos agentes económicos são inevitavelmente tomadas na base de expectativas sobre o futuro económico em condições de incerteza e que a instabili­dade do capitalismo reside na variabilidade da taxa de investimento, o que provoca em última instância a variabili­dade do nível do emprego. Keynes, assumindo que os empresários são agentes maximizadores, dado o consumo, pressupõe que as decisões de investimento em emprego dependem das expectativas das receitas, não apenas dos preços de procura como das quantidades procuradas. O facto de uma comunidade possuir uma riqueza considerável levar-la-á a aumentar a poupança, debilitando a propensão ao consumo. Desse modo, conclui-se que as oportunidades de novos investimentos são menores, a menos que a taxa de juro desça suficientemente depressa a fim de aumentar o incentivo ao investimento. Keynes utiliza um desenvolvimento metodológico, uma noção de probabilidade, para reconhecer na realidade capitalista os elementos perturbadores e geradores de incerteza, as possibilidades de gerar investimento em situação de precariedade informativa.

Página Anterior - Página Siguiente

Nota: Es probable que en esta página web no aparezcan todos los elementos del presente documento.  Para tenerlo completo y en su formato original recomendamos descargarlo desde el menú en la parte superior

Mario Gómez Olivares

Departamento de Economia, Instituto Superior de Economia e Gestão Universidade Técnica de Lisboa  www.iseg.utl.pt\~hpe\html 

magolivarrobaiseg.utl.pt
Becas Parciales en Master OnLine
Una frase memorable

Derechos de Autor

GestioPolis es la primera comunidad de conocimiento en negocios de Hispanoamérica
Derechos Reservados sobre el concepto del sitio web GestioPolis.com © 2008 Carlos López

Hazte miembro de GestioPolis

Y Descarga 11 eBooks GRATIS

Al registrarte podrás descargar 8 resúmenes digitales de LeaderSumaries.com y 3 libros electrónicos

Además recibirás quincenalmente nuestra Newsletter con todas las novedades del sitio, información de la mejor oferta de educación ejecutiva On Line y más
Términos de uso y Política de Privacidad

Cerrar