A INCERTEZA DO INVESTIMENTO E AS EXPECTATIVAS DA CLASSE EMPRESARIAL NA TEORIA KEYNESIANA

Autor: Mario Gómez Olivares

Comercio internacional

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02-2002

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 Keynes chama a atenção para os factores que determinam as previsões sobre os rendi­mentos futuros, porquanto estão na base das decisões sobre a procura de investimentos em bens de capital. Este é um exercício que os empresários realizam com base em factos que podem ser previstos com maior ou menor certeza e em acontecimentos futuros sobre os quais se pretende obter informação de relativa confiança. As expectativas de longo prazo dependem das mudanças futuras de determinados acontecimentos, tais como as mudanças futuras nas existências de tipo e quantidade de bens de equipamento, das preferências intertemporais dos consumidores, da força da procura efectiva durante um determinado período, sobre o qual incide a utilização de um equipamento, das mudanças nas unidades - salário em termos monetários.
Na formação das expectativas, o empresário orienta-se por factos que inspirem certa confiança, mesmo que esses factos tenham uma importância menor. Quando se planeiam as expectativas não devem ser considera­dos os aspectos sobre os quais não existe um grau de certeza[xiv]. Deste modo, os factos do presente encontram uma congruência desproporcionada na formação das expectativas, sendo hábito projectá-los no futuro, modificando-os segundo os motivos que tenhamos para esperar alguma variação. As expectativas planeadas baseiam-se, sobretudo, na confiança dos factos conhecidos, que servem como projecção futura, e portanto, assentam na probabilidade e confiança na previsão.
O estado de confiança tem uma importância crucial sobre a curva de eficiência marginal do capital, podendo ser considerado um factor que influen­cia a taxa de investimentos, porque é um dos factores que determina a eficiência marginal do capital. O estado de confiança, resulta da observação empírica dos mercados e da psicologia dos negócios. O principal problema reside no facto de a base dos conhecimentos na qual assenta a informação dos empresários sobre os rendimentos esperados futuros ser precária.
5. Os empresários e a incerteza
As mudanças institucionais que se operam nas empresas aumentam a incerteza relativamente à infalibilidade dos cálculos provisionais, porquanto a natureza das empresas se modificou: A socialização da propriedade, através da gestão repartida da propriedade, se por um lado veio facilitar o investimento, por outro veio torná-lo mais instável. A expansão do mercado financeiro, o surgimento da bolsa e outros mercados de investimento, não possibilitou novos investimentos, implicou simplesmente o trespasse de propriedade intangível com fins de lucro imediato.
Uma certa classe de investimento rege-se pela média das expectativas dos especuladores da bolsa de valores, e não pelas expectativas genuínas do empresário profissional, o que se manifesta no preço das acções. As avaliações e reavaliações sobre as expectativas, e sobre o estado de confiança, implicam que a realização dos investimentos se base­ie no método convencional, o qual supõe que a situação existente dos negócios continuará por um tempo indefinido; no entanto, a prática demonstra que esta não se repete com probabilidade, i.e., as valorizações sobre os mercados realizam-se tomando em consideração toda a classe de conjectura, que de modo nenhum se relacionam com o rendimento provável.
Se existirem mercados organizados para o investimento e se se puder confiar em que a convenção não irá variar, poder-se-à animar o investimento. A ideia de que o único risco que se corre é o de uma mudança real das condições de futuro imediato, sobre cuja probabilidade se pode tentar formar um juízo próprio, não é provável que seja muito grande. O importante é não romper a convenção, pois o investimento será seguro: mesmo para períodos curtos e numa sucessão dos mesmos poder-se-á rever as conclusões antes de qualquer grande modificação. Deste modo, os investimentos tornam-se fixos para a comunidade e líquidos para o indivíduo. A manutenção de uma convenção, mesmo arbitrária, tem pontos frágeis, que precarizam a consecução de um volume de investimento suficiente: i) o aumento global, proporcionalmente maior, dos títulos e valores de rendimento variável na posse de especuladores sem ligações com os negócios concretos e sem conhecimento dos rendimentos esperados futuros; ii) as flutuações diárias dos lucros dos investimentos existentes, com carácter efémero e que tendem a influenciar desproporcionadamente o mercado; iii) o facto de o mercado estar sujeito a ondas de optimismo e pessimis­mo, sem ligação a cálculos razoáveis; iv) os agentes com maiores conhecimentos não se preocuparem em ter um melhor cálculo provisional a longo prazo dos rendimentos esperados, mas sim das variações nas bases convencionais, antecipando-se às do público em geral, com grande influência da psicologia de massas do mercado; v) o facto de o investimento baseado nas expectativas autenticas de longo prazo ser muito difícil. É mais fácil adivinhar o que as massas pretendem do que investigar laboriosamente o estado dos negócios, concluindo-se neste sentido que a experiência não dá provas claras de que uma política de investimentos so­cialmente vantajosa seja a mais produtiva. Se os homens se comportam de modo a procurar o lucro imediato, os lucros remotos são descontados pelo homem médio a taxas muito altas, que acabam por inviabilizar as expectativas de realizar investimentos. O investidor de longo prazo que promove o interesse público, aquele que se opõe aos convencionalismos estagnantes e detém uma conduta temerária aos olhos da opinião média, sofre o embate e a mudança dos tempos.
Keynes distingue claramente entre especulação, como activi­dade de antever a psicologia do mercado, e actividade empresarial, associada à tarefa de calcular os rendimentos prováveis dos bens no tempo futuro[xv]. O autor evoca o papel histórico dos empresários, cujo dinamismo, energia, espírito de jogo e de aventura contribuíram de forma decisiva para o nascimento e desenvolvimento da moderna sociedade capital­ista, sendo depositada na sua confiança a aplicação dos recursos, sem que se conheçam muitas vezes os reais resultados da arte de investir.
A iniciativa individual apenas será adequada quando o cálculo razoável for sustentado pelos animal spirits, que actuam nessa base, a do espírito empresarial audaz e produtivo. O enigma, segundo Keynes, é que a prosperidade económica depende exclusivamente do ambiente político e social que agrada ao tipo médio de homens de negócios.
Da incerteza relativamente à formação de expectativas, não deve concluir-se que os negócios dependem exclusivamente de elementos psicológicos irracionais. Keynes expressa a autêntica e firme convicção de que as expectativas de longo prazo são, com frequência, firmes e estáveis:
“We are merely remind­ing ourselves that human decisions affecting the future, whether personal or political or economic, cannot depend on strict mathematical expectations, since the basis for making such calculations does not exist, and that it is our innate urge to activity which makes the wheels go round, our ra­tional selves choosing between the alternatives as best we are able, calculating where we can, but often falling back for our motive on whim or sentiment or chance”[xvi] .
 
Essa convicção baseava-se na existência de alguns factores que diminuem a ignorância sobre o futuro, ou dito de outro modo, em elementos de informação sobre os rendimentos calculáveis futuros que permitem a formação de expectativas optimistas[xvii].
A decisão de investir é a decisão económica mais importante que tomam os agentes económicos, pois ela representa o elo entre o presente do consumo e o futuro do lucro. Mas essa decisão depende, segundo Keynes, da eficiência marginal do capital, a qual mede a relação dos rendimentos esperados, proporcionados pela utilização de um bem capital actual na produção futura de outros bens, com o preço de oferta ou reposição desse bem de capital e a taxa de juro. Os problemas com que se deparam os empresários para decidir o investimento, são os problemas da resolução da contradição entre os vários interesses presentes e provisionais de investidores, produtores, banqueiros.
O resultado mais importante do estudo sobre a empresa na óptica macro-económica, é o de que o investimento influencia o rendimento e o emprego. Mas devemos encarar as expectativas dos rendimentos esperados como uma variável essencial a examinar. A importância das alterações nas expectativas, deriva dos efeitos que estas mutações provocam sobre o desejo de produzir novos bens. Um efeito estimulante de preços maiores nas expectativas, não se deve a um aumento da taxa de juros, mas ao facto de se elevar a eficácia marginal de um volume dado de capital ou de a expectativa de uma descida no valor do dinheiro estimular o investimento; por consequência, o valor do dinheiro influencia o nível do emprego, pois eleva a curva de eficiência marginal do capital, deslocando a curva de procura de investimentos à alta.
A intervenção do Estado como agente catalisador do investimento, agente da confiança na credibilidade da informação, de recuperação dos ´animal spirits´ que animaram o crescimento capitalista do século XIX, não é apenas uma figura de retórica: é uma forma de tornar o cálculo provável mais fiável e a confiança do investidor mais razoável. O Estado deveria ser o garante do nível da despesa que assegure o pleno emprego - uma conclusão não apenas económica, de certo modo também moral, correspondendo à visão ética de Keynes.
Tendo determinado a influência que certas modificações de curto prazo exercem sobre as expectativas de longo prazo, diferentes das provocadas pela influência das modificações da taxa de juro, pode-se dizer que, em circunstâncias normais, as modificações nas expectativas, provocadas pelas mudanças no estado de confiança, exercem uma grande influência sobre a taxa de investimen­to. Apenas a experiência poderá dizer até que ponto a intervenção sobre a taxa de juro será capaz de estimular continuamente o volume adequado de investimento.
 
 
Bibliografia
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[i] Alternativamente, define-se a eficiência marginal do capital como a taxa de desconto que consegue igualar o valor presente da série de anuidades dado pêlos rendimentos esperados do bem de capital, durante o seu tempo de duração. Com estas definições podemos determinar as eficiência marginais de determinados tipos de bens. A maior dessas eficiências marginais, pode ser considerada como a eficiência marginal geral.
[ii] Idem, p. 136.
[iii] Idem, p. 146.
[iv] Desenvolvendo a teoria das expectativas, Keynes agrupa as expectativas em dois grupos: i) as expectativas de curto termo, são as expectativas que se reflecte nas previsões dos produtores, considerando o tempo que decorre  entre a iniciação da produção e as vendas actuais dos bens acabados. Estas expectativas se referem à produção de bens de consumo, enquanto que os produtores de bens de capital consideram as encomendas das empresas; ii) as expectativas de longo prazo se relacionam com as compras de bens de capital e se referem aos retornos esperados.
As realizações das expectativas devem ser consideradas na determinação de expectativas e acções subsequentes, pelo que o estado do outputoutput corrente depende das expectativas passadas. Uma mudança nas expectativas de curto prazo prova que pode ter sido errado iniciar a produção, embora uma vez que teve início a produção e que formam realizadas despesas, mas vale continuar.
[v] Idem, p. 141. Se a produção resultante do equipamento produzido na actuali­dade, concorrer, durante a sua duração, com a produção resul­tante de equipamentos produzidos a seguir, a um custo de trabalho menor, pode-se vender a sua produção mais baratos. Se o preço da produção atingir um nível desejado está-se a considerar a possibilidade de preços monopolistas, mas Keynes não explora essa via, concluindo apenas que os lucros do empresário procedentes do equipamento novo e velho, medidos em dinheiro, reduzir-se-ão se toda a produção se tornar mais barata, supondo a procura constante.
[vi] Polemiza sobretudo com Robertson, segundo o qual uma variação no valor do dinheiro apenas influencia directamente a taxa de juro, enquanto que para Keynes essa variação influencia a eficiência marginal do capital. O argumento de Keynes é de que os preços dos bens existentes ajustam-se sempre por si próprios às mudanças nas previsões relativas ao valor do dinheiro.
[vii] Idem, p. 143.
[viii] A este propósito cito aqui a crítica de Darby and Lothian sobre a incapacidade de Keynes de distinguir entre taxas de juros reais e nominais, que o conduziram aceitar a caracterização da política monetária como "loose but ineffective", ver Darby M. e Lothian J.(1985), p. 71 e seguintes. Cito o próprio Keynes para desfazer esta dúvida " Indeed Professor Fisher's theory could be best re-written in term of " real rate of interest" which have to rule, consequently on a change in the state of expectation as to the future value of money, in order that this change should have no effect on current outputoutput", J.M. Keynes, " The General Theory", CWJMK , vol. VII, p. 143.
[ix] Idem, p. 47
[x] Idem p. 49-50.
[xi] Não pode ser omitido o facto que um equipamento actual pode não reflectir totalmente as expectativas passadas. No caso de excesso de equipamento fazer à procura, os rendimentos futuros esperados que levaram à decisão de adquiri-lo determinam decisões presentes de menor produção, o caso complica-se se enfrentarmos um processo de obsolescência tecnológica para equipamentos dura­douros.
[xii] Idem p. 50.
[xiii] "cannot be checked in the light of realized results “. Idem, p. 51.
[xiv] Keynes escreve: "By very "uncertain" I do not mean tha same thing as " very improbable". Esta advertência deriva-se do facto de este ter desenvolvido um conceito de probabilidade no ´Trea­tise on Probability´, que permite extrair de um argumento um grau de veracidade através da observação dos factos.
[xv] Nesse sentido a bolsa se transforma, segundo Keynes, na Nemesis dos comportamentos aberrantes. Se a bolsa for con­siderada como uma instituição cuja finalidade social é guiar novos investimentos por caminhos mais produtivos, em termos de rendimento social, então ela deveria ser reformada com o fim de restituir o investimento de longo prazo.
[xvi] Idem, p. 162-163.
[xvii] Existem empresas cujo rendimento provável está determinado pêlos rendimentos do futuro próximo. Existem investimentos de longo prazo que podem ser sujeitos a compromissos entre as partes interessadas, como no caso da construção de habitação. Um outro caso o constituem os investimentos de longo prazo do sector público, que garante os rendimentos dada a posição de monopólio que ocupam, determinando as margens necessárias ou estipuladas na consecução desses rendimentos, para além de que baseiam-se em necessidades humanas crescentes, como a energia, a agua, os transportes, as comunicações, os serviços públicos. Por último, existem investimentos do sector público com carácter social, independentemente da sua produtividade comercial, onde o cálculo dos rendimentos não necessariamente iguala a taxa de juro, embora esta última possa ser importante no papel sobre a determinação do volume de operações de inves­timento que possa suportar.
 

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Mario Gómez Olivares

Departamento de Economia, Instituto Superior de Economia e Gestão, Universidade Técnica de Lisboa

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