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Keynes chama a atenção para os factores que determinam as
previsões sobre os rendimentos futuros, porquanto estão na base das
decisões sobre a procura de investimentos em bens de capital. Este é um
exercício que os empresários realizam com base em factos que podem ser
previstos com maior ou menor certeza e em acontecimentos futuros sobre
os quais se pretende obter informação de relativa confiança. As
expectativas de longo prazo dependem das mudanças futuras de
determinados acontecimentos, tais como as mudanças futuras nas
existências de tipo e quantidade de bens de equipamento, das
preferências intertemporais dos consumidores, da força da procura
efectiva durante um determinado período, sobre o qual incide a
utilização de um equipamento, das mudanças nas unidades - salário em
termos monetários.
Na formação das expectativas, o empresário orienta-se por factos que
inspirem certa confiança, mesmo que esses factos tenham uma importância
menor. Quando se planeiam as expectativas não devem ser considerados os
aspectos sobre os quais não existe um grau de certeza[xiv]. Deste modo,
os factos do presente encontram uma congruência desproporcionada na
formação das expectativas, sendo hábito projectá-los no futuro,
modificando-os segundo os motivos que tenhamos para esperar alguma
variação. As expectativas planeadas baseiam-se, sobretudo, na confiança
dos factos conhecidos, que servem como projecção futura, e portanto,
assentam na probabilidade e confiança na previsão.
O estado de confiança tem uma importância crucial sobre a curva de
eficiência marginal do capital, podendo ser considerado um factor que
influencia a taxa de investimentos, porque é um dos factores que
determina a eficiência marginal do capital. O estado de confiança,
resulta da observação empírica dos mercados e da psicologia dos negócios.
O principal problema reside no facto de a base dos conhecimentos na qual
assenta a informação dos empresários sobre os rendimentos esperados
futuros ser precária.
5. Os empresários e a incerteza
As mudanças institucionais que se operam nas empresas aumentam a
incerteza relativamente à infalibilidade dos cálculos provisionais,
porquanto a natureza das empresas se modificou: A socialização da
propriedade, através da gestão repartida da propriedade, se por um lado
veio facilitar o investimento, por outro veio torná-lo mais instável. A
expansão do mercado financeiro, o surgimento da bolsa e outros mercados
de investimento, não possibilitou novos investimentos, implicou
simplesmente o trespasse de propriedade intangível com fins de lucro
imediato.
Uma certa classe de investimento rege-se pela média das expectativas dos
especuladores da bolsa de valores, e não pelas expectativas genuínas do
empresário profissional, o que se manifesta no preço das acções. As
avaliações e reavaliações sobre as expectativas, e sobre o estado de
confiança, implicam que a realização dos investimentos se baseie no
método convencional, o qual supõe que a situação existente dos negócios
continuará por um tempo indefinido; no entanto, a prática demonstra que
esta não se repete com probabilidade, i.e., as valorizações sobre os
mercados realizam-se tomando em consideração toda a classe de conjectura,
que de modo nenhum se relacionam com o rendimento provável.
Se existirem mercados organizados para o investimento e se se puder
confiar em que a convenção não irá variar, poder-se-à animar o
investimento. A ideia de que o único risco que se corre é o de uma
mudança real das condições de futuro imediato, sobre cuja probabilidade
se pode tentar formar um juízo próprio, não é provável que seja muito
grande. O importante é não romper a convenção, pois o investimento será
seguro: mesmo para períodos curtos e numa sucessão dos mesmos poder-se-á
rever as conclusões antes de qualquer grande modificação. Deste modo, os
investimentos tornam-se fixos para a comunidade e líquidos para o
indivíduo. A manutenção de uma convenção, mesmo arbitrária, tem pontos
frágeis, que precarizam a consecução de um volume de investimento
suficiente: i) o aumento global, proporcionalmente maior, dos títulos e
valores de rendimento variável na posse de especuladores sem ligações
com os negócios concretos e sem conhecimento dos rendimentos esperados
futuros; ii) as flutuações diárias dos lucros dos investimentos
existentes, com carácter efémero e que tendem a influenciar
desproporcionadamente o mercado; iii) o facto de o mercado estar sujeito
a ondas de optimismo e pessimismo, sem ligação a cálculos razoáveis; iv)
os agentes com maiores conhecimentos não se preocuparem em ter um melhor
cálculo provisional a longo prazo dos rendimentos esperados, mas sim das
variações nas bases convencionais, antecipando-se às do público em geral,
com grande influência da psicologia de massas do mercado; v) o facto de
o investimento baseado nas expectativas autenticas de longo prazo ser
muito difícil. É mais fácil adivinhar o que as massas pretendem do que
investigar laboriosamente o estado dos negócios, concluindo-se neste
sentido que a experiência não dá provas claras de que uma política de
investimentos socialmente vantajosa seja a mais produtiva. Se os homens
se comportam de modo a procurar o lucro imediato, os lucros remotos são
descontados pelo homem médio a taxas muito altas, que acabam por
inviabilizar as expectativas de realizar investimentos. O investidor de
longo prazo que promove o interesse público, aquele que se opõe aos
convencionalismos estagnantes e detém uma conduta temerária aos olhos da
opinião média, sofre o embate e a mudança dos tempos.
Keynes distingue claramente entre especulação, como actividade de
antever a psicologia do mercado, e actividade empresarial, associada à
tarefa de calcular os rendimentos prováveis dos bens no tempo futuro[xv].
O autor evoca o papel histórico dos empresários, cujo dinamismo, energia,
espírito de jogo e de aventura contribuíram de forma decisiva para o
nascimento e desenvolvimento da moderna sociedade capitalista, sendo
depositada na sua confiança a aplicação dos recursos, sem que se
conheçam muitas vezes os reais resultados da arte de investir.
A iniciativa individual apenas será adequada quando o cálculo razoável
for sustentado pelos animal spirits, que actuam nessa base, a do
espírito empresarial audaz e produtivo. O enigma, segundo Keynes, é que
a prosperidade económica depende exclusivamente do ambiente político e
social que agrada ao tipo médio de homens de negócios.
Da incerteza relativamente à formação de expectativas, não deve
concluir-se que os negócios dependem exclusivamente de elementos
psicológicos irracionais. Keynes expressa a autêntica e firme convicção
de que as expectativas de longo prazo são, com frequência, firmes e
estáveis:
“We are merely reminding ourselves that human decisions affecting the
future, whether personal or political or economic, cannot depend on
strict mathematical expectations, since the basis for making such
calculations does not exist, and that it is our innate urge to activity
which makes the wheels go round, our rational selves choosing between
the alternatives as best we are able, calculating where we can, but
often falling back for our motive on whim or sentiment or chance”[xvi] .
Essa convicção baseava-se na existência de alguns factores que diminuem
a ignorância sobre o futuro, ou dito de outro modo, em elementos de
informação sobre os rendimentos calculáveis futuros que permitem a
formação de expectativas optimistas[xvii].
A decisão de investir é a decisão económica mais importante que tomam os
agentes económicos, pois ela representa o elo entre o presente do
consumo e o futuro do lucro. Mas essa decisão depende, segundo Keynes,
da eficiência marginal do capital, a qual mede a relação dos rendimentos
esperados, proporcionados pela utilização de um bem capital actual na
produção futura de outros bens, com o preço de oferta ou reposição desse
bem de capital e a taxa de juro. Os problemas com que se deparam os
empresários para decidir o investimento, são os problemas da resolução
da contradição entre os vários interesses presentes e provisionais de
investidores, produtores, banqueiros.
O resultado mais importante do estudo sobre a empresa na óptica
macro-económica, é o de que o investimento influencia o rendimento e o
emprego. Mas devemos encarar as expectativas dos rendimentos esperados
como uma variável essencial a examinar. A importância das alterações nas
expectativas, deriva dos efeitos que estas mutações provocam sobre o
desejo de produzir novos bens. Um efeito estimulante de preços maiores
nas expectativas, não se deve a um aumento da taxa de juros, mas ao
facto de se elevar a eficácia marginal de um volume dado de capital ou
de a expectativa de uma descida no valor do dinheiro estimular o
investimento; por consequência, o valor do dinheiro influencia o nível
do emprego, pois eleva a curva de eficiência marginal do capital,
deslocando a curva de procura de investimentos à alta.
A intervenção do Estado como agente catalisador do investimento, agente
da confiança na credibilidade da informação, de recuperação dos ´animal
spirits´ que animaram o crescimento capitalista do século XIX, não é
apenas uma figura de retórica: é uma forma de tornar o cálculo provável
mais fiável e a confiança do investidor mais razoável. O Estado deveria
ser o garante do nível da despesa que assegure o pleno emprego - uma
conclusão não apenas económica, de certo modo também moral,
correspondendo à visão ética de Keynes.
Tendo determinado a influência que certas modificações de curto prazo
exercem sobre as expectativas de longo prazo, diferentes das provocadas
pela influência das modificações da taxa de juro, pode-se dizer que, em
circunstâncias normais, as modificações nas expectativas, provocadas
pelas mudanças no estado de confiança, exercem uma grande influência
sobre a taxa de investimento. Apenas a experiência poderá dizer até que
ponto a intervenção sobre a taxa de juro será capaz de estimular
continuamente o volume adequado de investimento.
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[i] Alternativamente, define-se a eficiência marginal do capital como a
taxa de desconto que consegue igualar o valor presente da série de
anuidades dado pêlos rendimentos esperados do bem de capital, durante o
seu tempo de duração. Com estas definições podemos determinar as
eficiência marginais de determinados tipos de bens. A maior dessas
eficiências marginais, pode ser considerada como a eficiência marginal
geral.
[ii] Idem, p. 136.
[iii] Idem, p. 146.
[iv] Desenvolvendo a teoria das expectativas, Keynes agrupa as
expectativas em dois grupos: i) as expectativas de curto termo, são as
expectativas que se reflecte nas previsões dos produtores, considerando
o tempo que decorre entre a iniciação da produção e as vendas actuais
dos bens acabados. Estas expectativas se referem à produção de bens de
consumo, enquanto que os produtores de bens de capital consideram as
encomendas das empresas; ii) as expectativas de longo prazo se
relacionam com as compras de bens de capital e se referem aos retornos
esperados.
As realizações das expectativas devem ser consideradas na determinação
de expectativas e acções subsequentes, pelo que o estado do outputoutput
corrente depende das expectativas passadas. Uma mudança nas expectativas
de curto prazo prova que pode ter sido errado iniciar a produção, embora
uma vez que teve início a produção e que formam realizadas despesas, mas
vale continuar.
[v] Idem, p. 141. Se a produção resultante do equipamento produzido na
actualidade, concorrer, durante a sua duração, com a produção
resultante de equipamentos produzidos a seguir, a um custo de trabalho
menor, pode-se vender a sua produção mais baratos. Se o preço da
produção atingir um nível desejado está-se a considerar a possibilidade
de preços monopolistas, mas Keynes não explora essa via, concluindo
apenas que os lucros do empresário procedentes do equipamento novo e
velho, medidos em dinheiro, reduzir-se-ão se toda a produção se tornar
mais barata, supondo a procura constante.
[vi] Polemiza sobretudo com Robertson, segundo o qual uma variação no
valor do dinheiro apenas influencia directamente a taxa de juro,
enquanto que para Keynes essa variação influencia a eficiência marginal
do capital. O argumento de Keynes é de que os preços dos bens existentes
ajustam-se sempre por si próprios às mudanças nas previsões relativas ao
valor do dinheiro.
[vii] Idem, p. 143.
[viii] A este propósito cito aqui a crítica de Darby and Lothian sobre a
incapacidade de Keynes de distinguir entre taxas de juros reais e
nominais, que o conduziram aceitar a caracterização da política
monetária como "loose but ineffective", ver Darby M. e Lothian J.(1985),
p. 71 e seguintes. Cito o próprio Keynes para desfazer esta dúvida "
Indeed Professor Fisher's theory could be best re-written in term of "
real rate of interest" which have to rule, consequently on a change in
the state of expectation as to the future value of money, in order that
this change should have no effect on current outputoutput", J.M. Keynes,
" The General Theory", CWJMK , vol. VII, p. 143.
[ix] Idem, p. 47
[x] Idem p. 49-50.
[xi] Não pode ser omitido o facto que um equipamento actual pode não
reflectir totalmente as expectativas passadas. No caso de excesso de
equipamento fazer à procura, os rendimentos futuros esperados que
levaram à decisão de adquiri-lo determinam decisões presentes de menor
produção, o caso complica-se se enfrentarmos um processo de
obsolescência tecnológica para equipamentos duradouros.
[xii] Idem p. 50.
[xiii] "cannot be checked in the light of realized results “. Idem, p.
51.
[xiv] Keynes escreve: "By very "uncertain" I do not mean tha same thing
as " very improbable". Esta advertência deriva-se do facto de este ter
desenvolvido um conceito de probabilidade no ´Treatise on Probability´,
que permite extrair de um argumento um grau de veracidade através da
observação dos factos.
[xv] Nesse sentido a bolsa se transforma, segundo Keynes, na Nemesis dos
comportamentos aberrantes. Se a bolsa for considerada como uma
instituição cuja finalidade social é guiar novos investimentos por
caminhos mais produtivos, em termos de rendimento social, então ela
deveria ser reformada com o fim de restituir o investimento de longo
prazo.
[xvi] Idem, p. 162-163.
[xvii] Existem empresas cujo rendimento provável está determinado pêlos
rendimentos do futuro próximo. Existem investimentos de longo prazo que
podem ser sujeitos a compromissos entre as partes interessadas, como no
caso da construção de habitação. Um outro caso o constituem os
investimentos de longo prazo do sector público, que garante os
rendimentos dada a posição de monopólio que ocupam, determinando as
margens necessárias ou estipuladas na consecução desses rendimentos,
para além de que baseiam-se em necessidades humanas crescentes, como a
energia, a agua, os transportes, as comunicações, os serviços públicos.
Por último, existem investimentos do sector público com carácter social,
independentemente da sua produtividade comercial, onde o cálculo dos
rendimentos não necessariamente iguala a taxa de juro, embora esta
última possa ser importante no papel sobre a determinação do volume de
operações de investimento que possa suportar.
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