O pensamento económico de J.M. Keynes

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O PENSAMENTO ECONÓMICO DE J.M. KEYNES
1. Introdução
A visão económica de Keynes sobre o capitalismo sustenta-se na precariedade da
acção de mecanismos reguladores que garantissem uma tendência re-equilibradora das
forças indutoras do investimento no sentido de um óptimo de produção e emprego.
Keynes admite que existem forças de reequilibro, mas contesta o seu carácter
automático e duvida que sem a utilização deliberada de mecanismos de intervenção
colectiva se consigam situações de equilíbrio, distinguindo entre situações de equilíbrio e
situações óptimas de equilíbrio. Contesta também que os teóricos do laissez-faire tenham
dado uma correcta visão do modo como essas forças actuam. Keynes escreveu que as
velhas receitas à la laissez-faire não servem:
“the doctrines of laissez faire have ceased to be aplicable to modern conditions"..." the
nineteenthcentury laissez-faire system was passing away”1.”The trouble today is that
we are violently out of equilibrium, and we cannot wait long enough for laissez-faire
remedies to bring their reward”2.
No `Historical Retrospect`, esboço escrito em 1932 de preparação da Teoria
Geral, Keynes escreve:
“The orthodox equilibrium theory of economics has assumed, or at least not denied,
that there is natural forces tending to bring the volume of the community´s output,
and hence its real income, back to the optimum level whenever temporary forces have
led it to depart from this level. ..it now seems to me that the economist, in their
devotions to a theory of self adjusting equilibrium, have been, on the whole, wrong in
their practical advice and the instinct of practical men have been, on the whole, the
sounder”3.
1J.M. Keynes, CWJMK, vol. X, pp. 329-330.
2 J.M. Keynes , CWJMK , vol. XIII, p. 198-199.
3..Idem, p. 406.
Keynes nega o carácter natural das forças do reequilibro e contesta a justeza dos
conselhos baseados na não intervenção. Numa esplêndida alocução radial para a BBC,
intitulada "Poverty in Plenty", Keynes delineia o mesmo argumento4
Keynes desmente a tendência inerente, natural ao reequilibro do sistema serva como
uma justificação apenas para os erros e omissões do sistema no longo prazo. Na Teoria
Geral esta visão manifesta-se na demonstração de que no mundo capitalista as decisões dos
agentes económicos são inevitavelmente tomadas na base de expectativas sobre o futuro
económico em condições de incerteza, que a instabilidade do capitalismo reside na
variabilidade da taxa de investimento, o que provoca em última instância a variabilidade do
nível do emprego:
it is an outstanding characteristic of the economic system in which we live that,
whilst it is subject to severe fluctuations in respects of output and employment, it is
not violently unstable. Indeed it seems capable of remaining in a chronic condition of
sub-normal activity for a considerable period without any marked tendency either
towards recovery or towards complete collapse”5.
A existência de um nível de equilíbrio com subemprego é uma característica do
capitalismo: Thus for a society such as we have supposed, the position the equilibrium,
under conditions of laissez-faire, will be one in which employment is low enough and the
standard of life sufficiently miserable to bring saving to zero. More probably there will be a
cyclical movement round this equilibrium position”6.
Associada a esta situação de persistência do desemprego está a impossibilidade da taxa
de juro descer o suficiente, quando a eficácia marginal do capital tende a zero:
“In fact, however, institutional and psychological factors which set a limit much above
zero to the practicable decline in the rate of interest. In particular the cost of bringing
borrowers and lenders together and uncertainty as to the future of the rate of interest
set a lower limit”...” than the rate of interest can fall in the face of the prevailing
institutional and psychological factor, can interfere, in conditions mainly of laissez-
4 J.M. Keynes , " Is The Economic System Self-adjusting: Poverty in Plenty", CWJMK , vol.XIII, p. 486-191.
5J.M. Keynes , " The General Theory", CWJMK, vol. VII, p. 249.
6 J.M. Keynes , " The General Theory", CWJMK, vol. VII, p. 218.
faire, with a reasonable level of employment and with the standard of life which the
technical conditions are capable of furnishing”7.
Se por alguma razão, sublinha Keynes, a taxa de juro não pudesse descer mais
rapidamente que a eficiência marginal do capital, de modo que a acumulação de riqueza
correspondesse àquela que coincide com a quantidade de poupança da comunidade à taxa
de juro que iguala a eficiência marginal do capital, o pleno emprego não pode ser atingido.
Sendo o capital escasso, o estado deve intervir de modo assegurar que o equipamento
produtivo atinja o ponto de saturação, e a taxa de juro deverá ser aquela que assegure o
investimento de pleno emprego, em tal situação, conclui Keynes.
A determinação do nível do output e do emprego como um todo é o objectivo da
Teoria Geral. O modo como se determina é independente da afirmação que esse nível pode
manter-se:
”round an intermediate position appreciably below full employment and appreciably
above the minimum employment a decline below which would endanger life”8.
Mas esta posição intermédia abaixo da posição de pleno emprego não está
determinada por tendências naturais nem existem princípios que impeçam que não se
tomem medidas a fim corrigir as falhas do sistema. Neste sentido, em consonância com a
sua previsão, Keynes propõe-se na Teoria Geral, não apenas estudar as determinantes do
nível do equilíbrio do output e do emprego, como elucidar porque a teoria dita clássica
ancorada nas ideias de laissez-faire não consegue ser uma teoria geral, i.e., porque o salário
monetário é rígido à baixa, o que invalida a política de redução dos salários nominais para
conseguir mais emprego e, porque a taxa de juro é recalcitrante, quando a eficiência
marginal do capital desce, o que reduz ou elimina as virtudes da política monetária.
Da visão da inexistência de mecanismos automáticos, forças, naturais re-equilibrantes
do sistema resulta um alento muito importante e positivo para a teoria de Keynes, permite-
lhe avançar para o estudo da capacidade inerente ao sistema económico de produzir em
condições de laissez-faire desemprego de modo permanente como uma característica
substantiva do capitalismo9.
7Idem, pp. 218-219.
8J.M. Keynes, " The General Theory", p. 380. Idem, p. 254.
9Ver " Economic Possibilities for our Grandchildren", in J.M Keynes CWJMK, vol. X, pp. 321-332.
O Fim do laissez-faire
Keynes descreve a Europa emergente da Primeira Grande Guerra, como uma Europa
do descalabro, da desorganização, da penúria e miséria dos povos. O fim do laissez-faire
aparece sobretudo como resultado do processo de involução da civilização contemporânea
Os políticos dos países vencedores que negociavam o futuro dos países vencidos não
mostravam preocupação com a vida económica, mas quase exclusivamente com as
indemnizações reparatórias e o botim de guerra. A guerra tinha desorganizado a frágil e
complexa organização económica europeia, desarticulado as finanças públicas e o comércio
entre as nações e sobretudo retirado a base de sustentação da vida nos territórios atingidos
pela guerra. Os seus alicerces: o carvão, o aço, os transportes, o comércio com produtos
têxteis e matérias primas, deixavam de ser a base de um nível de vida próspero para uma
boa parte dos cidadãos. Europa regredia em vez de progredir, sendo o problema da fome e
do emprego o que mais urgente se colocava10. Os novos fenómenos como o desemprego,
não encontravam resposta nem teórica, nem prática, deixando a sociedade capitalista sem
flexibilidade e prestes a sucumbir às hordas irracionais. Mas numa situação de nova crise os
trabalhadores estariam prontos para o assalto revolucionário antes que perecer de
fome:“Men will not always die quietly”11. A existência de um princípio válido que
garantisse a regulação automática do sistema económico, gerando desse modo coordenação
dos mecanismos económicos tem o seu mais claro desmentido no vasto e massivo
desemprego que afectou a Inglaterra nos anos 20`s.
Keynes, desde muito cedo, estava convencido que da mudança de século tinham
resultado novos comportamentos dos agentes económicos, pelo que as velhas receitas do
laissez-faire estavam caducas e as velhas instituições paralisavam a actividade. Em segundo
lugar, servindo-se do exemplo da deflação Keynes argumenta que os mecanismos
automáticos não tinham a supremacia reguladora anteriormente atribuída pelos políticos,
economistas e empresários. A a discussão sobre a re-introdução do padrão ouro põe em
10Estas ideias se encontram no seu primeiro livro de consagração pública "The Economic Consequences of the Peace". J.M. Keynes, CWJMK, vol. II. Tais factos estão bem relatados em R.
Harrod, The Life of J.M. Keynes, MacMillan, London , 1963 e também em R. Skidelsky, John Maynard Keynes: Esperanças Fustradas 1883-1920, Alianza Editorial, 1986.
11Idem, p. 144..
relevo que Keynes associava a falta de mecanismos automáticos com as consequências
económicas e sociais que o preocupavam: a ordem social e o desemprego. Este era um
problema britânico, derivado das condições de Inglaterra como praça financeira mundial,
que ao optar por uma libra forte, condenava a industria exportadora à recessão e os
trabalhadores ao desemprego.
A política económica de Keynes punha em causa teoricamente o laissez-faire, pois
admitindo que os ajustamentos no sentido do equilíbrio seriam muito lentos, a intervenção
externa ao sistema seria inevitável. Por exemplo, uma redução dos salários monetários iria
nesse sentido: "a reduction of money wages by 10 per cent will ease unemployment in five
year`s time. In the meanwhile you must grin and bear it”12, pelo que seria inevitável
implementar a crítica às hipótese que auxiliavam a aceitação dos tipos de ajustamentos
consentidos como válidos, no pressuposto que persistem forças que equilibrariam os
mercados. Essa urgência crítica permite o fabrico de um novo modelo teórico posto de
no lugar da velha teoria. Mas é preciso deixar claro quais alicerces estão podres para que
depois a nova arquitectura seja colocada em evidência. Bem no início da Teoria Geral
Keynes sublinha que a teoria `clássica` constitui um `caso especial` que não têm como
sustrato a sociedade em que actualmente vivemos, pelo que o seu ensino é desacertado e
desastroso quando se procura aplica-lo aos factos de post guerra13. Por isso a crítica à teoria
de juro e do mercado de trabalho representam um aspecto fulcral. Se a teoria clássica não
funciona é necessário uma outra teoria
2. A crítica ao mercado de trabalho neoclássico
12Idem, p. 199. A situação política na Inglaterra agravou-se com a queda do governo Laborista em Setembro de 1931, face a impossibilidade política de realizar eficazmente qualquer
medida e com o desemprego subindo acima dos 20%. Com a sustituição do governo Laborista por um governo de Unidade Nacional encabeçado por R. MacDonald, (Ver N. Kaldor, "
Keynes as an Economic Adviser", pp. 2-27, in A.P. Thirlwall, Keynes as a Policy Adviser, The MacMillan Press, 1982.) Inglaterra saiu do padrão internacional, Keynes escreve " we have
got the relief we needed and, at the same time, the claims of honour have been, in the judgement of the whole word, satisfied to the utmost"( J.M. Keynes , CWJMK , vol. IX, p. 245). As
tarifas não se justificavam e a taxa de juro não estava limitada às exigências do padrão ouro, pelo que o caso especial das obras públicas não era aplicável. Mas Keynes conti nua o seu
curso na direcção de uma nova teoria em que a intervenção do estado surge como garante do incentivo ao investi mento, não como caso especial mas como condição necessária para
estabilidade do sistema capitalista.
13Ver Teoria Geral, p.3.
Na período de preparação da Teoria Geral Keynes crítica a teoria clássica do mercado
de trabalho de modo enérgico, colocando em evidência o carácter desacertado de
determinado dos seus postulados.
Os argumentos clássicos sobre as forças que determinam o volume de emprego
assentavam em dois postulados: primeiro, o salário é igual ao produto marginal. O salário
de uma pessoa empregada é, em qualquer tipo de equilíbrio, curto ou longo, igual ao
produto que seria perdido se o emprego fosse reduzido em uma unidade; segundo, em
equilíbrio a utilidade do salário, quando é dado o volume de trabalho empregado, é igual a
utilidade marginal desse volume empregado14. O primeiro postulado dá-nos a função
procura de trabalho, o segundo a oferta. Quando a oferta Ns iguala a procura Nd o emprego
da teoria clássica é determinado.
O primeiro postulado significa que, dada uma técnica, existe uma correlação única
entre salários reais e o volume de emprego, de modo que um incremento no emprego pode
apenas resultar de uma descida da taxa de salário real. Isto não significa que para reduzir o
salário real se reduz o salário monetário e que por essa via se aumente o emprego.
A teoria clássica da determinação do volume dos recursos disponíveis empregáveis
não foi desenvolvida mais ela é óbvia, conseguintemente o aumento do emprego apenas é
possível se a) aumenta a produtividade marginal do trabalho, b) se diminui a desutilidade
do trabalho e c) se aumentam os preços dos bens não-salariais em relação aos preços dos
bens salariais do que resulte um aumento da procura das pessoas não-assalariadas de bens
não-salariais em relação aos bens salariais15. Certos tipos de desemprego são compatíveis
com estes postulados o desemprego friccional, desemprego voluntário e friccional, também
o sazonal ou casual. O desemprego é voluntário devido à recusa de uma unidade de
trabalho em aceitar uma recompensa inferior ao seu produto marginal.
A explicação da teoria clássica sobre o desemprego é baseada na suposição de que
uma redução do salário monetário é a mesma coisa que uma redução do salário real.
Keynes nega que o salário real seja determinado pelo salário monetário, alias ambos estão
14, J.M. Keynes , " The Parameters of a Monetary Economy", CWJMK , vol. XIII, p. 396-397.
15 Keynes escreve em Novembro de 1934 a G.B. Shaw: " To understand my stand of mine, however, you have to know that I believe myself to be writing a book on economic theory
which largely revolutionise, -not, I suppose, at once but in the course of the next ten years- the way the world thinks about economic problems, when my new theory has been duly
assimilated and mixed with politics and feeling and passions, I can predict what the final upshot will be in its effect on action and affairs. But there will be a great change, and, in
particular, The Ricardian foundations of Marxism will be knocked away. J.M. Keynes ," To a letter to George Bernard Shaw, 1 January 1935", in CWJMK , vol. XIII, pp. 492-493.
determinados por outras forças16. O verdadeiro teste não é saber se os trabalhadores aceitam
um salário monetário inferior, mas se abandonam o trabalho quando o salário monetário é
inferior ao seu produto marginal, considerando que no mundo actual os salários são salários
monetários. Os trabalhadores não abandonam o seu serviço quando o produto real dos seus
salários é inferior, uma redução dos salários não provoca uma descida da oferta de trabalho
existindo então desemprego involuntário.
Keynes não nega que uma diminuição dos salários reais afecte positivamente o
emprego, o que afirma é que os salários reais vem determinados por outras forças e que
essas forças determinam o volume de emprego apenas se os trabalhadores aceitam os
concomitantes salários reais.
Como a teoria clássica assume que a recusa em aceitar um salário monetário mais
baixo é a mesma coisa que a recusa em aceitar um salário real mais baixo, o trabalho como
um tudo pode fazer com que os salários reais desçam, comprimindo suficientemente os
salários monetários. Se não é o caso, argumenta Keynes, o volume do emprego não
depende do nível dos salários monetários.
O problema é que quando os lucros e os preços caem na mesma proporção que os
salários monetários, a menos que os empresários gastem mais dos seus rendimentos ou que
as condições no mercado monetário façam descer a taxa de juro( se os preços caem e a taxa
de juro desce, menos dinheiro é necessário para as transacções), acontece que o valor do
dinheiro muda sem nenhum cambio no salário real. Mas se o artifício de uma queda dos
salário monetários não resulta, o argumento formal de que uma queda nos salários
monetários é associado com uma queda dos salários reais não se mantêm .
A luta pêlos salários monetários é realmente uma luta pela distribuição do montante
total dos salários entre os assalariados. Os sindicatos opõem-se a uma descida dos salários
monetários, mas não se opõem a pequenas reduções nos salários reais através de um
aumento dos preços.
O argumento clássico pressupõe que os factores são remunerados em termos de uma
predeterminada parte do produto total da indústria, e não como sumas de dinheiro, a teoria
clássica pressupõe uma economia cooperativa. Numa economia cooperativa existe uma
16Keynes discute a posição clássica na base do livro de A. Pigou, " The Theory of Unemployment"; sobre a relação salários reais, monetários e emprego ver capítulo 10, parte II. Existe no
vol. XIII das CWJMK , pp. 311-326, um epistolário sobre este livro entre Keynes, Robertson e Shove. A resposta de Pigou à crítica de Keynes encontra-se no livro de Pigou " Full
Emploument and equilibrium".
tendência para uma recompensa óptima, as desviações são causa da intervenção do
sindicatos o falhas nos governos. Os economistas pensam em CMC1 enquanto que os
negociantes pensam MCM1. Isto é como M1 M tende para ser negativo, existirá uma
tendência para a deflação e o desemprego. Para a teoria clássica M1= M.
As flutuações na relação entre rendimentos obtidos através do output corrente e
rendimentos gastos em consumo pode-se chamar flutuações na procura efectiva. Um maior
gasto provoca um excesso de procura efectiva(inflação), um gasto menor gera um déficit de
procura efectiva(deflação). Se os factores são pagos em moeda e gastam todo o seu
rendimento monetário comprando o output corrente a economia é neutral. A essência de
uma economia neutral é de que os rendimentos que resultam do output corrente são
complemente gastos no output corrente. Numa economia neutral, não existe nem excesso
nem déficit, pelo que os preços, o emprego e os salários reais são estáveis.. Que a oferta
cria a sua própria procura é verdade, no pressuposto de uma procura efectiva constante O
problema está na flutuação da procura efectiva. Keynes emite a sentença: a despesa cria o
seu próprio rendimento
A teoria clássica apenas pode admitir que as não reduções do salário real são fruto das
acções combinadas dos sindicatos. Keynes rechaça que os trabalhadores possam determinar
o salário real através da negociação de diferentes salários nominais e por essa via mudar o
salário, admite pelo contrário que as pessoas se mantém a trabalhar aos salários actuais
Keynes rejeita que os trabalhadores possam determinar o salário real através da
negociação de diferentes salários nominais e por essa via mudar o salário real. Os
assalariados como um todo não podem fazer isso porque eles decidem do seu salário
nominal, e se os salários descem, descem os lucros e os preços, deixando a salário real
desafectado. Não existe nenhuma força no mercado de trabalho que faça com que os
salários reais igualem a desutilidade marginal do trabalho.
Quando Keynes escreve posteriormente a Teoria Geral reelabora a sua crítica sem
porém mudar o essencial. Continua aceitar sem grandes reparos o primeiro postulado dessa
teoria: o salário deve ser igual ao produto marginal do trabalho17. Isto pode interpretar-se
como aceitação e aplicação da análise marshalliana de curto prazo, em que as condições
17A crítica à teoria do desemprego clássica está identificada na obra de A. C. Pigou, Ver " The Theory of Unemployment", Macmillan and Co, Limited, London, 1939.
técnicas e a quantidade de meios de produção não mudam e, em que o produto marginal
diminui com o aumento do emprego
Mas Keynes rejeita de maneira definitiva a validade do segundo postulado, segundo o
qual a utilidade do salário, quando se usa um determinado volume de trabalho, é igual à
desutilidade marginal desse mesmo volume de emprego. Segundo a teoria clássica, o
trabalhador arbitra entre aceitar um salário que aumenta a sua utilidade marginal ou dedicar
mais tempo ao lazer se essa utilidade é inferior ao salário recompensado, em concordância
com a hipótese de agente maximizador18. Assim somente existe desemprego voluntário.
Keynes rejeita que uma descida do salário real, pelo aumento dos preços quando os
salários monetários permanecem inalterados, iria forçar uma descida da oferta de trabalho
disponível ao nível de salário corrente, abaixo do volume de emprego anterior à subida dos
preços. O postulado clássico sobre a conduta dos trabalhadores equivale a dizer que
aqueles desejosos de trabalhar ao salário corrente se retiram do mercado se o custo de vida
se eleva ligeiramente. Ele sublinha que no caso de descida dos salários nem os empregados
nem os desempregados diminuem a sua oferta de trabalho. O salário monetário equivalente
na forma de bens de consumo não representa a desutilidade do trabalho, pois os
trabalhadores estariam dispostos a trabalhar por um salário mais baixo19.
Keynes objecta fundamentalmente que os contratos e negociações entre empresários e
trabalhadores determinem o nível do salário real. Os trabalhadores não estariam contra a
redução do salário real, não fazem oposição à descida do seu salário real quando existe um
aumento do volume total da ocupação, a menos que exista uma ameaça extrema de uma
descida do salário real abaixo da desutilidade do trabalho do volume de emprego existente.
Isto implica que o sindicatos resistem à descida dos salários reais, mais que podem aceita-
los se isto contribuir para aumentar o emprego20, alias:
The traditional theory maintains, in short, that the wage bargains between the
entrepreneur and the workers determine the real wage; so that, assuming free
competition amongst employers and no restrictive combination among workers, the
18A existência deste postulado é o que permite explicar o desemprego segundo os autores clássicos, como sendo voluntário ou friccional, excluindo desse modo a existência do
desemprego involuntário
19Esta ideia de Keynes é atribuída geralmente como o reconhecimento da chamada ilusão monetária, o que não é caso, pois como veremos Keynes atribui aos diferencias relativos dos
salários reais o motivo da conduta dos trabalhadores. A demonstração de Patinkin de que não existe ilusão monetária na abordagem de Keynes é quanto a mi convincente, ver D. Patinkin,
"Keynes’ Monetary Thought: A study of its Development", Durham, New Caroline: Duke University Press, 1976, pp 98-107.
20Alias tem vindo a ser prática do movimento sindical actualmente não apenas em assegurar que os salários mantenham o custo de vida como o elevem, ressalvando as condições do
emprego.
latter can, if they wish, bring their real wages into conformity with the marginal
disutility of the amount of employment offered by the employers at that wage”21.
Este pressuposto não é consistente com a própria teoria clássica, que faz depender os
preços do custo primo marginal medido em dinheiro e do facto dos salários nominais
influenciarem esse custo. Se os salários monetários mudam, mudam também os preços,
deixando os salários reais no mesmo nível anterior, o que os clássicos não assentem, em
parte porque pressupõem que os trabalhadores fixam o nível de salário real compatível com
o pleno emprego nas negociações colectivas e em parte porque acreditam que os preços são
determinados pela quantidade de moeda. Seja dito que aqui Keynes esquece na Teoria
Geral de dizer que os lucros devem descer juntamente com os preços, apenas assim faz
sentido a sua afirmação de que quando descem os salário monetários e os preços, os
salários reais se mantêm inalterados. Esta falsa confusão criada por Keynes deixa inalterado
o facto que uma descida do salário nominal tem efeitos sobre as expectativas do consumo e
por essa via sobre a procura efectiva. Não existe um mecanismo que diminuindo os salários
reais aumente a procura efectiva, pois uma diminuição dos salários reais deveria provocar
uma descida da taxa de juro e incentivar o investimento. Keynes sabia da rigidez dos
salários monetários, admite que uma descida da unidade salarial aliviaria os custos primos
marginais, mas contesta que esse alívio levaria a taxa de juro a descer, pelo qual considera a
rigidez dos salários nominais menos importante que a rigidez da taxa de juro. A primeira
objecção é mais fundamental que a por Keynes chamada fundamental: os trabalhadores não
abandonam o seu emprego cada vez que o salário real diminui, i.e., quando a desutilidade
do trabalho é maior que o salário.
A objecção ao postulado clássico, mais teórica e fundamental, de que o nível dos
salários está directamente determinado pelas negociações colectivas, obrigará Keynes a
uma explicação teórica sobre as forças que determinam esse nível.
A atenção dos trabalhadores estaria mais centrada na manutenção dos seus salários
reais relativos ao salário de outras categorias profissionais. A razão é que não existe
mobilidade perfeita do trabalho que faça com que os níveis de salários se igualem, o que é
por si razão suficiente para opor-se à descida dos salários monetários.
21J.M. Keynes , " The General Theory", CWJMK , vol. VII, p. 11.
Keynes pretendeu sobre tudo demonstrar a existência do desemprego involuntário, que
os clássicos não admitiam:
“ Men are involuntary unemployed if, in the event of a small rise in the price of wage-
goods relatively to the money-wage, both the aggregate supply of labour willing to
work for the current money wage and the aggregate demand for it at that wage would
be greater than the existing volume of employment”22.
Esta definição coloca em relevo que tanto a oferta agregada de trabalho como a
procura agregada de trabalho aos níveis de salário corrente, estão acima do volume de
emprego23.
Para Keynes a teoria clássica representa um caso especial; os trabalhadores se
comportam de tal modo que um crescimento dos preços dos bens salários não induz uma
queda do desemprego. O paradoxo está em que os trabalhadores actuariam correctamente
ao abandonar transitoriamente o mercado de trabalho, contudo do abandono do trabalho
resultam enormes problemas, pelo que aplicar a teoria clássica às situações de desemprego
involuntário é um artifício.
Se o mercado de trabalho no sentido neoclássico explica apenas o desemprego
voluntário numa situação de desemprego massivo e persistente, tal implicará a adopção de
outras hipóteses sobre a conduta dos indivíduos e sobretudo discutir as causas do
desemprego e as forças que determinam o nível do emprego.
Keynes elabora a suas hipóteses como resultado da sua mudança de opinião relativa-
mente à doutrina ortodoxa, nomeadamente a sua apreciação contrária à possibilidade da
descida dos salários monetários e à eficácia da política monetária. Esta teoria formula a
teoria do emprego considerando que eficácia marginal do capital determina o investimento,
variável fundamental que juntamente com a propensão ao consumo determinam a procura
efectiva. O desemprego resulta de uma falta de procura efectiva num mundo de incerteza,
em que se conjugam a obstinação da taxa de juro de longo prazo, a desconfiança do mundo
dos negócios juntamente com a ineficácia da política monetária.
22Idem, p. 15.
23A conservação do segundo postulado implica que existe apenas desemprego voluntário e friccional, o que é consistente com uma teoria da distribuição dos recursos em condições de
ocupação plena . Se rejeita-se o segundo postulado, é necessária uma teoria dos salários, que Keynes trata no capitulo 19.
A Teoria Geral é uma teoria do emprego de todos os factores de produção, enquanto
que a teoria clássica analisa apenas um caso particular: o pleno emprego. Nesse sentido a
Teoria Geral é uma teoria que põe em evidência a relação entre teoria e política económica,
pelo que é um repto às concepções políticas ortodoxas.
A abordagem teórica de Keynes considera para além dos factores dados, as três leis
psicológicas fundamentais: a propensão psicológica a consumir, a atitude psicológica
referente à liquidez e a expectativa psicológica dos rendimentos futuros dos bens de capital(
a eficiência marginal do capital), a unidade salário, tal como se determina nos convénios
colectivos e, a quantidade de moeda, fixada pela acção do banco central. Estes factores
determinam o rendimento nacional e o volume de emprego.
Isto não significa senão que o objecto a descobrir, o volume de emprego, em cada
instante de tempo, depende do estudo de um complexo de factores nos quais se destacam
aqueles que principalmente mudam no tempo de análise, seleccionando finalmente aqueles
e as variáveis que se possam deliberadamente controlar ou regular por uma autoridade
central.
A Teoria Geral responde a um problema para o qual a teoria económica não encon-
trava uma resposta: o desemprego involuntário; formula um quadro teórico: uma teoria do
output e do emprego, e, um modelo que capta no essencial os princípios que pautam as
condutas dos indivíduos, grupos sociais numa economia monetária. Numa outra
circunstância, a relação entre as variáveis é determinada em consonância com o objecto a
estudar. No prefácio a Teoria Geral Keynes explica-se:
“This book, on the other hand, has evolved into a primary a study of the forces which
determinate changes in the scale of output and employment; and, whilst it is found
that money enters into the economic scheme in an essential and peculiar manner,
technical monetary details falls into the background”24.
A posição dos clássicos: A.C. Pigou
24 J.M. Keynes , The General Theory, CWJMK , vol. VII, p. xxii.
A posição dos clássicos assentava em que, em princípio, nada acontece aos
rendimentos não-salariais. Por hipótese, uma redução das taxas dos salários monetários de
W para WK e uma queda dos salário monetários no total de W×N, para (WK)×N, com N a
quantidade de emprego. Por hipótese os rendimentos monetários dos não-assalariados Q1 e
Q2 , Q2e a quantidade de rendimento dos não assalariados despendidos em bens-salários,
então, em princípio, os custos variáveis marginais dos bens de consumo cairão mais que os
preços. Os custos variáveis marginais cairão em W K/W. Na indústria de bens de capital,
os preços não caem enquanto Q1 é gasto em bens de capital. Na indústria de bens salários
os preços cairam em: [Q²+(W K/N)]/(Q²+W×N) e os custos em W K/W. Por conseguinte,
os preços não caem tanto como os custos marginais, pelo que pressupõe-se que o output
cresce, todavia existe pressão através a concorrência para uma queda dos preços na
direcção dos custos marginais. Pelo que: " the non-wage good industries receipt fall of.[ At
the outset], in the non wage industries there was a rise in profit of N1×K while in the wage
goods industries there was a fall in profits of N1×K...As prices begin to fall both sums are
reduced. The non-wage earners`income will have to fall off in the same proportion[as the
fall in money wages]”... " there is no reason to suppose that the second postulates would
arise in practice”25.
O paradoxo está em que os trabalhadores actuam correctamente ao abandonar
transitóriamente o mercado de trabalho, contudo do abandono do trabalho resultam
enormes problemas, pelo que aplicar a teoria clássica às situações de desemprego
involuntário é uma artimanha.
Keynes reitera a contestação ao principio de Say, o qual se define como o axioma das
paralelas clássico, em que todo acto de poupança individual conduz a um acto de
investimento, de que os custos de produção se cobrem exactamente com as vendas
derivadas da procura, que para um volume de produção considerado, o preço da oferta
global é sempre igual ao preço da procura global:
" Those who think in this way are deceived, nevertheless, by an optical illusion, which
makes two essentially different activities appear to be the same. They are fallaciously
supposing that there is a nexus which unites to abstain from present consumption with
25T. Rymes, " Keynes`s Lectures 1932-35: Notes of a Representative Student", MacMillan, 1988, p.91.
decisions to provide future consumption; whereas the motives which determine the latter
are not linked in any simple way with the motives which determine the former”26.
Se a lei de Say de que o preço de oferta é sempre igual ao preço de procura for
verdade, isto significa que não existe nenhum obstáculo para o pleno emprego. O resto da
história clássica também se mantém: a parcimónia privada e nacional tém vantagens
sociais, a actitude tradicional relativamente á taxa de juro é correcta, as vantagens do
laissez-faire em matéria de comércio livre é considerável, etc. Se o princípio de Say não for
verdadeiro, não for verdade que o preço da procura e da oferta global se igualam, existirá a
necessidade de desenvolver devidamente a teoria do emprego e reconsiderar as doutrinas
sobre a taxa de juro.
3. A teoria da procura efectiva
“This book, on the other hand, has evolved into a primary study of the forces which
determinate changes in the scale of output and employment; and, whilst it is found that
money enters into the economic scheme in an essential and peculiar manner, technical
monetary details falls into the background”27.
Keynes pretendeu construir uma teoria da procura efectiva como uma teoria das
expectativas dos rendimentos a receber a longo prazo, partindo de uma situação, que é
aquela que contempla a decisão de consumir ou poupar, ou de manter dinheiro líquido para
especular em títulos ou investir produtivamente. Discutiremos assim a seguir os conceitos
de oferta e procura agregadas e, em seguida, a relação entre estes e o volume de emprego.
3.1.1. A oferta agregada e a procura agregada
26Idem, p. 21.
Idem.
Idem, p. 135.
27 J.M. Keynes, The General Theory, CWJMK , vol. VII, p. xxii.
As decisões de investimento dos empresários, que proporcionam os rendimentos aos
produtores individuais, os quais por sua vez decidem sobre como empregar esses
rendimentos, e as decisões dos indivíduos trabalhadores que utilizam parte do rendimento
em consumo, determinam as condições de procura. O preço de oferta global da produção é
determinado pelo volume de emprego cujos custos serão cobertos pela expectativa dos
resultados a obter. O estado da técnica, o nível dos salários, os montantes dos meios de
produção e da mão- de- obra não- empregue e as condições da concorrência nos mercados,
determinam as condições de oferta para os produtores individuais e no seu conjunto. Assim,
se a técnica, os recursos e o custo dos factores por unidade de emprego forem conhecidos ,
o montante deste para a firma e a indústria no seu conjunto, dependerão do produto que os
empresários esperarem receber pela sua produção, dado que os empresários se esforçam por
fixar o volume da ocupação no nível em que a diferença entre o valor do produto e os
custos dos factores seja máximo. Encontramo-nos de maneira muito clara e inequívoca
numa situação de curto prazo28.
Designando por Z o preço de oferta global da produção que depende de N homens
empregados, a relação Z = F(N) representa a função de oferta global. Sendo D o montante
do produto que os empresários esperam receber pelo emprego de N homens, a relação D =
f(N) representa a função de procura global. Se D for maior que Z, existirão condições para
que os empresários ampliem a produção e o emprego, existirá o estímulo para que N cresça
para além do nível actual, mesmo em situação de concorrência pelos factores, até ao ponto
em que Z = D. O volume de ocupação será determinado pela intersecção de Z e D, quando
Z(FN) = Df(N), correspondente ao ponto em que as expectativas de lucro do empresário
sejam máximas:
The value of D at the point of the aggregate demand functions, where it is intersect
by the aggregate supply function, will be called the effective demand”29.
28Keynes assumindo que os empresários são agentes maximizadores, a pressupõe que as
decisões de investimento, dependem das expectativas de receitas, i.e., não apenas dos
preços esperados de procura como das quantidades esperadas procuradas.
29 J.M. Keynes , " The General Theory", CWJMK , vol. VII, p. 25.
Assim, a procura efectiva, em vez de ter um valor de equilíbrio único, tem uma escala
infinita de valores todos igualmente admissíveis consoante o ponto de intersecção entre Z e
D, que não é obrigatório ser Z = D, pelo que o volume do emprego fica indeterminado,
excepto no caso em que a desutilidade do trabalho marque um limite superior.
Se a um aumento de Z correspondesse um aumento em D, os empresários levariam a
produção e o emprego até ao ponto em que Z se tornasse inelástico. Quando um aumento
na procura efectiva não é acompanhada por um crescimento da produção e do emprego,
não há pleno emprego:
O nível de emprego não depende do nível preexistente dos rendimentos, mas sim das
decisões de investir e das estimativas actuais dos montantes de consumo correntes e
futuros. Este carácter antecipado e estimativo das decisões, unido ao carácter probabilístico
das previsões dos agentes sobre o futuro, representa uma inovação fundamental da teoria
da procura efectiva. Se em Walras as categorias têm um carácter ideal, em Keynes estas têm
um carácter antecipado.
A existência deste equilíbrio múltiplo é uma novidade teórica que decorre do carácter
antecipado das decisões dos empresários e da própria incerteza do volume do emprego a
utilizar. Uma vez determinado esse volume, o equilíbrio tornar-se-à único, embora possa
ser um equilíbrio de subemprego.
3.1.2. O volume de emprego
Dada a propensão ao consumo da comunidade, o nível de equilíbrio do emprego
depende exclusivamente da quantidade de investimento corrente, a qual por sua vez
depende do incentivo ao investimento, dependendo este da eficiência marginal do capital
em relação ao complexo de taxas de juro dos empréstimos de vários prazos e riscos.
Sendo assim, dada a propensão ao consumo e a taxa de novo investimento, não existirá
senão um nível de emprego compatível com o equilíbrio, pois um outro equilíbrio
produziria uma desigualdade entre o preço da oferta global da produção no seu conjunto e o
preço da sua procura global30. A procura efectiva de pleno emprego é um caso especial, que
30 Este nível não pode ser maior que o nível de pleno emprego, o salário não pode ser
inferior à desutilidade do trabalho, pelo que não existe razão para esperar que esse nível
seja igual ao de pleno emprego.
se realiza apenas quando a propensão marginal ao consumo e o incentivo ao investimento
se encontram numa relação mútua particular, óptima, como pressupõem os clássicos:
(...)it can only exist when, by accident or design, current investment provides an
amount of demand just equal to the excess of the aggregate supply price of the output
resulting from full employment over what the community will choose to spend on
consumption when it is fully employed”31.
O sistema económico pode encontrar-se num equilíbrio estável com o emprego
inferior ao pleno emprego. Isto é, ao nível dado pela intersecção da função de procura
global e da função de oferta global, que não corresponde ao pleno emprego excepto no
pressuposto, defendido pela teoria neoclássica, segundo o qual existem forças capazes de
fazer com que o investimento D2 cresça o suficiente de modo a que a poupança Z D1 seja
igual a zero.
Se a propensão ao consumo e a taxa de novo investimento se traduzir por uma
insuficiência da procura efectiva, o volume de emprego reduzir-se-á, permanecendo a um
nível inferior à oferta de mão-de-obra potencial disponível ao salário real actual, e o salário
real de equilíbrio será maior que a desutilidade marginal do nível de equilíbrio do emprego.
Uma insuficiência de procura efectiva travará o processo de produção, embora o produto
marginal da mão-de-obra exceda ainda em valor a desutilidade marginal do emprego, e,
nesse caso, os trabalhadores não terão opção de emprego.
A propensão ao consumo e a taxa de novo investimento determinam o volume de
emprego, ao qual se encontra associado um nível determinado de salários reais. Se o
volume de emprego for determinado pela procura efectiva, então não será fixado pela
desutilidade marginal, medida em salários reais, excepto no caso em que a oferta disponível
de mão-de-obra para uma dada magnitude de salários reais indique um nível máximo de
emprego.
Encarando os factos deste modo, as causas do desemprego estão dependentes das
flutuações na procura efectiva. Por que razões a procura efectiva flutua? Para Keynes, essa
flutuação parece ser uma doença do capitalismo da maturidade. O facto de uma
comunidade possuir uma riqueza considerável leva-la-á a aumentar a poupança, debilitando
31 Idem, p. 28.
a propensão ao consumo. Desse modo, as oportunidades de novos investimentos tornam-se
menores, a eficácia marginal do capital cai, a menos que a taxa de juro desça
suficientemente depressa a fim de amplificar o incentivo a investir, porque a natureza
capitalista começa a ficar corrompida e corroída pelo lucro fácil.
O facto da procura efectiva flutuar e não regressar aos níveis de pleno emprego
implica, para Keynes, que a lei de Say nem sempre se verifica, o que obriga a uma dupla
investigação. Em primeiro lugar, pressupõe esclarecer como se utiliza o rendimento em
consumo e investimento. Em segundo lugar, convida a encontrar uma explicão para a
despesa, i.e. explicar por que esta não se realiza em consumo e investimento, por que o não-
consumo não se transforma em investimento. Para Keynes, esta situação acontece apenas
numa economia monetária, onde a moeda, para além de servir como medida de troca e
circulação, serve como meio de pagamento, podendo ser entesourada.
A ideia de entesouramento ocupa, efectivamente, um lugar central na reflexão de
Keynes sobre as funções do dinheiro e a determinação da taxa de juro, embora seja apenas
uma das determinantes da incerteza sobre a procura de moeda ou a preferência pela
liquidez, problemas teóricos que estão associados ao comportamento de determinados
agentes.
A teoria de Keynes reflecte a tentativa de dar conta da mudança comportamental de
um grupo social que, na época da concorrência pura e perfeita, assegurava- aceitando como
convencionalmente ajustada a taxa de juro vigente- a acumulação necessária aos
investimentos. Numa economia monetária a moeda deve ter, por definição, a capacidade de
ser detida na qualidade de reserva de riqueza é não é a ligação perfeita entre Poupança e
Investimento.
O primeiro aspecto a investigar é a insuficiência de procura efectiva, pelo que a
construção do modelo de Keynes se concentra nos factores que induzem as flutuações da
procura agregada. Do estudo do consumo infere-se uma tendência de longo prazo que actua
no curto prazo, na qual a propensão marginal ao consumo é decrescente, embora o nível de
consumo possa ser estável, e da análise do investimento resulta o maior condicionamento
para a procura agregada, pois o investimento é instável, incerto e limitado pelas forças
egoístas da especulação.
A procura efectiva de pleno emprego é um caso especial que se realiza apenas quando
a propensão marginal ao consumo e o incentivo ao investimento se encontram numa
relação óptima, onde a utilidade do salário real é igual à desutilidade do trabalho. Tal
como numa economia de troca ou de moeda neutral, na qual o salário real e o emprego
estão correlacionados, os rendimentos gerados em pleno emprego permitem a realização da
procura, sob a vigência da lei de Say . Dada a propensão ao consumo e a taxa de novo
investimento, existe um nível de emprego compatível com o equilíbrio, pois um outro
equilíbrio produziriria uma desigualdade entre o preço da oferta global da produção e o
preço da sua procura global. Se esse nível puder ser inferior ao nível de pleno emprego, o
salário não poderá ser inferior à desutilidade do trabalho. Nesse caso, os preços da oferta
deverão descer e os rendimentos deverão adequar-se. Se isso não for possível, se o
ajustamento pelos preços não funcionar, o nível de emprego descerá, pressionando o preço
do trabalho a baixar e gerando desemprego involuntário.
4.2. A procura e o consumo
A procura global é constituída pela procura de bens de consumo, que é uma função
relativamente estável do rendimento, e pela procura de bens de investimento, que é uma
função da eficácia marginal do capital, o qual pelo contrário é instável, dependendo das
expectativas de longo prazo dos investidores relativamente aos rendimentos futuros, e da
taxa de juro. Embora Keynes considere que a função de consumo é estável, o seu estudo
está directamente relacionado com a poupança, pelo que, ao analisar brevemente esta
categoria e o seu relacionamento com outras, nos apercebemos das razões que levaram
Keynes a afirmar a importância da lei psicológica fundamental, uma espécie de lei
conducente a um estádio estacionário permanente (a menos que a vontade colectiva seja
dominada pela razão dos seus argumentos e pela persuasão).
4.2.1. A propensão marginal ao consumo decrescente e o rendimento.
. Keynes estava interessado em determinar qual é a soma despendida em consumo
quando o emprego está a um certo nível ou, dito de outro modo, como se relaciona em
sentido estrito o consumo com o volume de emprego32. Definindo a relação funcional α
entre Yw, um nível de rendimento dado, medido em unidades - salário, e Cw, a despesa em
consumo para um nível de rendimento, representa a propensão para consumir. Dito de outro
modo: Cw = α (Yw) ou C = S α( Y).
Existem duas classes de factores ou razões que impelem os indivíduos à despesa, os
factores subjectivos e os factores objectivos33. Os principais factores objectivos que
influenciam a propensão ao consumo são: 1) uma mudança na unidade - salário34; 2) uma
mudança na diferença entre o rendimento bruto e o rendimento líquido35; 3) as mudanças
imprevistas no valor dos bens de capital, não consideradas no cálculo do rendimento
líquido36; 4) as mudanças na taxa de desconto do futuro em relação à troca entre bens
32 O consumo designado por C é medido em termos de unidades salários, por isso
escrevemos Cw; o rendimento também é medido em unidades salários, designado por Yw,
e corresponde a um nível dado de emprego N. A relação entre Yw e N pode depender
provavelmente num grau muito menor da natureza precisa do emprego, i.e., das
distribuições desiguais de um emprego total determinado entre diferentes empregos, os
que conduziriam a diferentes valores de Yw. Mas em geral, diz Keynes, é uma boa
aproximação considerar Y= F(N).
33Os factores subjectivos incluem as características psicológicas da natureza humana e as
práticas sociais e institucionais, que sendo alteráveis, não são susceptíveis de modificar no
curto prazo, excepto em circunstâncias anormais ou revolucionárias. O mesmo pode ser
dito quando comparamos sistemas sociais diferentes, que implica estudar as influências
que estes exercem sobre a propensão ao consumo. Keynes supõe que em geral podem ser
considerados os factores subjectivos conhecidos, o que implica que a propensão ao
consumo depende apenas das mudanças nos factores objectivos.
34O consumo é assim uma função do rendimento real, mais do que rendimento
monetário. Numa situação dada da técnica, das preferências e das condições sociais que
determinam a distribuição do rendimento, o rendimento real de uma pessoa varia
conforme varia a quantidade de unidades de trabalho que pode dispor isto é, com o
montante do seu rendimento médio, em unidades de salários; embora, quando o volume
total de produção muda, o seu rendimento real crescerá menos que proporcionalmente
relativamente ao seu rendimento medido em unidades de salários( pela influência dos
rendimentos decrescentes). Por conseguinte, por aproximação, podemos dizer, que se a
unidade salário varia, a despesa em consumo correspondente a um nível dado de
emprego, mudará com os preços na mesma proporção.
35 O montante do consumo depende mais dos rendimentos líquidos, pois é este que
permite ao indivíduo tomar decisões referentes ao consumo.
36 O consumo das classes proprietárias é consideralvelmente sensível às mudanças
imprevistas no valor monetário da riqueza. Este deve classificar-se entre os factores mais
importantes susceptíveis de ocasionar mudanças no curto prazo da propensãoao
consumo.
presentes e futuros37; 5) as mudanças na política fiscal38; 6) as mudanças nas expectativas
sobre a relação entre o nível presente e o nível futuro do rendimento39. Assim, no
pressuposto de salários constantes, as variações no consumo dependerão de outros factores
que determinam a procura efectiva40. Um raciocínio tipicamente marshalliano.
Dada a situação económica geral, a despesa de consumo, medida em termos de
unidades - salário, depende principalmente do volume da produção e do emprego41.
Considerando que a propensão ao consumo é estável e que as variações na propensão ao
consumo são de importância secundária, o problema está em saber qual será a forma dessa
função, que lei expressa a relação entre C e Y. Keynes recorre a uma lei geral e de carácter
psicológico:
“(...)men are disposed, as a rule and on the average, to increase their consumption as
their income increases, but not by as much as the increase in their income. That is to
say, if Cw is the amount of consumption and Yw is income (both measured in wage
37 A taxa de desconto, não é o mesmo que a taxa de juro, pois esta considera as mudanças
futuras no poder de compra do dinheiro, na medida em que são previsíveis. Também
devem ser considerados os riscos, morte, tributação; pode identificar-se com a taxa de
juro. A teoria clássica da taxa de juro considera importante a influência entre a
propensão ao consumo e a taxa de juro, visto ser esta o factor de equilíbrio entre
poupança e investimento. Porém, diz Keynes, a relação entre o consumo e a taxa de juro é
complexa e incerta, pois nalguns casos, dada a propensão aoconsumo ser satisfeita com
subidas da taxa de juro, em outros casos será debilitada. No longo prazo, todavia, é
provável que mudanças substanciais na taxa de juro, modificando os hábito sociais
consideralvelmente, afectem a propensão subjectiva a gastar. Embora apenas a
experiência indicará a movimentação e a direcção da mesma. No curto prazo, todavia, é
provável que a taxa de juro tenha muita influência sobre os gastos, em qualquer sentido.
O efeito mais importante da taxa de juro opera-se sobre a valorização e desvalorização de
valores e de outros bens, sobretudo por razões inesperadas, pois estas podem influenciar a
despesa actual.
38 Se a política fiscal é utilizada como instrumento deliberado a fim de conseguir maior
igualdade na repartição dos rendimentos, o seu efeito sobre o aumento na propensão ao
consumo é tanto maior. Por isto, o consumo é uma função do rendimento e das
expectativas que os indivíduos tem sobre esse rendimento. Deve considerar-se, também, o
efeito sobre a propensão global ao consumo, as acções do governo tendentes a criar uma
poupança social, destinada ao pagamento de dívidas.
39 Pode-se considerar este factor em termos formais, pois se afecta a um indivíduo, pode
ser neutro em termos da comunidade.
40 A função consumo pode ser considerada estável, sempre que tenham sido eliminadas as
mudanças na unidade salários. As variações imprevistas no valor dos bens de capital
podem provocar uma variação na propensão ao consumo, e as modificações substancias
na taxa de juro e a política fiscal podem provocar também alterações. A soma que a
comunidade gasta em consumo depende de um conjunto de factores: 1) do montante do
rendimento; 2) outras circunstâncias objectivas que o acompanham; 3) das necessidades
subjectivas e as inclinações psicológicas e hábitos dos indivíduos, assim como dos
princípios segundo os quais, o rendimento se divide entre eles, as que sofrem
modificações quando aumenta a produção.
41 C = f(Yw,N).
unit ) Cw has the same sign as Yw but is smaller in amount, i. e. dCw/ dYw is positive
and less than unity”42.
Keynes não nos diz explicitamente se esta lei se aplica apenas a uma situação de
depressão do emprego, ou é valida também para o caso de expansão da produção. Se for
válida neste caso, o sistema será instável permanentemente, pois o aumento da propensão
ao consumo pressiona a oferta e o investimento, isto é, os preços e o output. Dado o seu
carácter psicológico, esta lei não depende de mecanismos económicos individuais, mas sim
de mecanismos colectivos de natureza variada.
4.2.2. O consumo e a poupança
Quando Y é incrementado, a comunidade no seu conjunto não gasta esse incremento
totalmente em consumo. Esta lei psicológica não é apenas importante para a estabilidade do
sistema, significa também que se a propensão ao gasto for de tal modo que C < Y, então
Y poderá ser positivo se I for positivo. Mas isso implicaria que o não C se
transformasse em I .
O argumento de Keynes para demonstrar a dificuldade derivada da conduta dos
consumidores, é de que um acto de consumo diferido não é um acto simultâneo de
poupança. A natureza da poupança supõe que: i) existe uma procura futura não
especificada, ii) existe uma data não - especificada de aceitação do reembolso e iii) não
existe garantia de que a procura se verifique. O efeito da poupança nos empresários é
negativa:
No equilíbrio, o rendimento é fixo na medida em que se poupa uma quantidade igual
àquela que se investe: Y = I + C e Y = S + C, pelo que Keynes observa que poupança e
investimento são sempre iguais. O sistema empresarial oferece a cada momento a quanti-
dade de emprego suficiente para criar uma quantidade de rendimento, o que faz com que as
42 Este raciocínio é valido no curto prazo, como no caso conhecido das flutuações cíclicas
do emprego . "The Fundamental psychological law, upon which we are entitled to depend
with great confidence both a priori from our knowledge of human nature and from
detailed fact of experience”, Idem, p. 96.
equações sejam verdadeiras. se altera o rendimento mudando as expectativas dos
empresários:
" This roughly gives the mechanics of the Entrepreneur economic system43.
O ponto de vista tradicional sobre a poupança é de que, quando se gasta menos que o
rendimento, a poupança aumenta, e existe um incremento da procura de meios de
investimento. Uma queda no consumo provoca um aumento do investimento porque os
preços dos bens de investimento aumentam. A ideia é que, se uma pessoa se abstém de
consumir, utiliza o dinheiro na compra de um título (Consols) o que conduz à descida da
taxa de juro. Essa abstenção de consumo hoje representa a substituição de um consumo
futuro, pelo que o incremento no investimento é feito em substituição de um consumo
esperado. Para além das mutações no curto prazo, uma variação positiva do rendimento
implicará uma variação do consumo no mesmo sentido, que a variação do consumo
implicará por sua vez uma variação da poupança mais do que proporcional. O aumento da
poupança absoluta é maior que o aumento do consumo absoluto, a menos que aconteça uma
variação inusitada dos outros factores.
Se a descida do nível de emprego implicar que o nível de consumo deverá baixar, mas
que a variação do consumo será menor que a variação do nível de emprego, ou da
proporção de rendimento real, devido à política dos governos ou à conduta habitual dos
indivíduos, será difícil o caminho a seguir para atingir uma nova posição de equilíbrio com
flutuações de pequena amplitude. Mas esta situação seria benéfica para o emprego, caso
contrário, a queda do nível de emprego e do rendimento poderiam ser maiores. Assim,
que reconhecer que, em situação de depressão, a rigidez das remunerações é estabilizante,
contrariando os que afirmam que uma descida dos rendimentos é um mecanismo de
ajustamento.
As oportunidades de emprego estão limitadas pela extensão da procura total. Estas
podem derivar do consumo presente e das reservas para o consumo futuro. O consumo que
se pode conseguir, na base do seu financiamento adiantado, não poderá perpetuar-se
indefinidamente no futuro. Não se pode financiar o consumo futuro através de expedientes
43 Idem.
financeiros, mas unicamente através da produção física corrente. O facto de a organização
social e económica separar as reservas financeiras para o futuro da sua provisão física, não
significa que as reservas transportem a existência das provisões físicas. Por outro lado,
quanto maior for a provisão adiantada para o consumo, maior será a dificuldade em
encontrar os meios de fornecê-la e mais forte será a dependência do consumo presente
como fonte da procura. Todavia, quanto maiores forem os rendimentos, maior será a
margem entre este e o consumo44.
O significado do multiplicador e o emprego
A ideia de recorrer ao multiplicador de Kahn permite a Keynes encontrar um
argumento técnico considerável para as políticas de emprego, particularmente na execução
das obras públicas, como medida para acrescentar ao emprego global o aumento do
chamado emprego primário. Não é possível um aumento do investimento medido em
unidades salariais, a menos que o público esteja disposto a aumentar as suas poupanças,
computadas em unidades salariais. Mas os indivíduos o farão quando o seu rendimento
aumentar.
Um aumento do emprego apenas ficaria restrito ao emprego primário, se a sociedade
mantivesse o mesmo nível de consumo, pela melhoria do emprego e, portanto, do
rendimento. Em termos normais, se a propensão ao consumo cair, produzir-se-à uma queda
do consumo. O multiplicador também nos diz que, se o incremento de rendimento for
totalmente consumido, não existirà estabilidade e os preços aumentarão (caetaris paribus).
O aumento do emprego por efeito das variações do investimento, estimula
necessariamente as indústrias que produzem para o consumo, ocasionando assim um
aumento no volume total do emprego, que é um múltiplo do emprego primário exigido pelo
investimento propriamente dito.
Se o multiplicador e a propensão ao consumo confirmam a regra geral, o aumento do
emprego incrementa a proporção do rendimento recebido pelos empresários, devido ao
44 A dinâmica para qual Keynes chama a atenção é a de um desequilíbrio permanente,
entre rendimento, consumo e investimento, sendo esta dificuldade crescente a medida que
aumenta o capital. É que os novos investimentos de capital apenas realizar-se-ão, como
excedente do desinvestimento, se se espera que a despesa de consumo aumente no futuro.
efeito dos rendimentos decrescentes; a propensão ao consumo dos empresários é menor que
a propensão ao consumo em média. Por outro lado, o desemprego diminui a poupança, seja
nos indivíduos, nas empresas ou nos governos, dado que o desemprego é financiado pelos
recursos resultantes da poupança de terceiros, próprios ou institucionais, ou pelos
empréstimos45.
O multiplicador pode ainda explicar como as flutuações no volume de investimento,
comparativamente pequenas face ao rendimento nacional, são capazes de gerar flutuações
no emprego total e no rendimento numa amplitude maior. Formulando a lei de que o
aumento do emprego, através do multiplicador, pode ser atribuída apenas às empresas que
produzem bens de consumo, o aumento do emprego pressupõe também que as antecipações
previstas das indústrias de bens de consumo contribuem para o aumento do investimento
total, e que não existem variações dos preços, mas sim um aumento nas quantidades
produzidas, em condições de rendimentos decrescentes.
A discussão sobre o multiplicador do emprego serve para demonstrar que, quanto
maior é a propensão ao consumo, maior é o multiplicador. Daqui se conclui que o
financiamento do emprego através de investimento público é positivo para o emprego total
e gera virtuosamente um emprego adicional..
Sendo o consumo uma função do rendimento, e o rendimento uma função do
emprego, a conclusão mais importante a retirar da teoria da propensão marginal ao
consumo decrescente de Keynes é que, com cada descida na propensão marginal ao
consumo de hoje, aumentando a poupança marginal, não se provoca uma subida do capital
no futuro; pelo contrário, cada debilitamento na propensão marginal ao consumo,
considerada como hábito permanente, faz quebrar a procura de capital e, portanto, do
consumo, do rendimento e do emprego46, uma espécie de destruição ex-post da poupança. A
45 Este último aspecto pode ter mudado porquanto hoje o financiamento do desemprego é
realizado com recurso a fundos de poupança forçada, que aumenta a poupança em vez
de diminui-la.
46 Sobre os factores subjectivos que impulsam os indivíduos a abster-se na despesa dos
seus rendimentos e portanto a formar poupanças, Keynes considera os seguintes: 1)
formar reservas para contingências imprevistas (motivo de precaução). 2) arbitrar entre a
estrutura das necessidades presentes e futuras, fornecidas pelo rendimento( motivo de
previsão). 3) abdicar do consumo imediato; menos consumo no presente, maior no futuro
(motivo cálculo). 4) gradualização das despesas prevenindo melhoramentos progressivos(
motivo melhoramento). 5) precaução não explicada ( motivo independência).6) para
efeitos de especulação ou negócios( motivo empresa).7) para heranças das futuras
gerações( motivo orgulho). 8) avarícia irracional( motivo avarícia). Outros motivos de
poupança derivam-se da conduta dos governos, instituições e sociedades de negócios, que
moral smithiana é posta em causa, a propensão à poupança como sentimento inato dos
indivíduos não conduz ao aumento da riqueza.
O multiplicador é um recurso técnico capaz de determinar as variações do rendimento
quando varia o emprego, pondo em evidência que, quanto maior for o consumo, caetaris
paribus, maior serão o multiplicador, o investimento, o rendimento e o emprego.
4.3. A incerteza do investimento e as expectativas da classe empresarial
Com a definição da eficiência marginal do capital, Keynes demarca-se da visão
estática da economia clássica, incorporando o futuro na avaliação do investimento. Keynes
utiliza uma definição que realça a relação em termos de expectativas dos rendimentos
prováveis e do conhecimento do preço de oferta corrente do bem capital. Deste modo
distancia-se dos conceitos de produtividade marginal do capital e de taxa natural de juro.
4.3.1. A eficiência marginal do capital
Keynes define a eficiência marginal do capital, como a relação entre o rendimento
provável de um bem capital e o seu preço de oferta ou reposição, i. e. a relação entre o
rendimento provável de mais uma unidade dessa classe de capital e o custo da respectiva
produção. Calcula-se a taxa de rendimento que se espera obter do dinheiro investido num
bem apenas produzido e não dos rendimentos históricos que um bem tem rendido sobre o
seu custo original.
levam a aumentar a poupança por motivos semelhantes, mas não idênticos aos dos
indivíduos. Podem-se sumariar os seguintes: 1) o motivo empresa a fim de aumentar o
autofinanciamento. 2) o motivo liquidez que assegure disponibilidades para emergências,
dificuldades e depressões. 3) o motivo melhoramento, praticado pelas administrações dos
negócios gradualizando a obtenção dos rendimentos, prevenindo-se das críticas. 4) a
prudência financeira, que cria reservas financeiras que excedam o custo de uso e o
suplementar, amortizando dívidas, adiantando-se na recuperação do custo do activo, em
relação a taxa real de depreciação e obsolescência. A força desta motivação dependerá da
quantidade e o carácter do equipamento produtivo e da rapidez das mudanças técnicas.
A força de todos estes motivos, variará conforme as mutações nas instituições e a
organização da sociedade económica que pressupormos, segundo os hábitos formados
pela raça, a educação, os convencionalismos, a religião e as correntes morais, segundo a
esperança e a experiência, segundo a escala e a técnica do equipamento produtivo, e
segundo a distribuição da riqueza e os níveis estabelecidos.
Utilizando um raciocínio muito clássico, Keynes considera que, de acordo com o
princípio dos rendimentos decrescentes, a eficiência marginal do capital virá a reduzir-se-à
consoante o aumento do investimento. Em parte porque o rendimento provável irá baixar,
se a sua oferta aumentar, e, em parte porque a pressão para produzir esse tipo de capital fará
com que o seu preço de oferta seja maior.
No curto prazo, a influência do preço de oferta predomina sobre a diminuição dos
rendimentos. Quanto maior o período a considerar, maior será a influência do segundo
factor. Assim, para cada classe de capital pode traçar-se uma curva que mostra em que
proporção terão deaumentar os investimentos durante esse período, de modo a que a
eficiência marginal do capital baixe até à cifra envolvida:
Thus for each type of capital we can build up a schedule, showing by how much
investment in it will have to increase within the period, in order that its marginal
efficiency should fall to any given figure. We can aggregate these schedules for all the
different types of capital, so as to provide a schedule relating the aggregate investment
to the corresponding marginal efficiency of capital in general which the rate will
establish. We shall call this the investment demand-schedule; or, alternatively, the
schedule of the marginal efficiency of capital”47.
Resultará evidente, que a taxa real de investimento corrente será puxada até o ponto
em que a eficiência marginal do capital não exceda a taxa corrente de juros para as
diferentes formas de capital. Sendo Qr o rendimento provável de um activo no tempo r, e
d é o valor presente de uma unidade monetária ao prazo de t anos, descontada a taxa
corrente de juro. O somatório Qtdt será o preço de procura do investimento, que será levado
a ser igual ao preço de oferta de investimento. Se Qr dr for menor que o preço de oferta,
não existirá investimento no bem de capital.
A inexactidão tradicional consiste em considerar a eficiência marginal do capital em
termos do rendimento corrente do equipamento de produção, o que apenas seria correcto
numa situação estática em que não existissem mudanças futuras que influenciassem o
presente. A curva de eficiência marginal do capital é de fundamental importância, porque as
47 Idem, p. 136.
expectativas do futuro influenciam o presente através deste factor, mais do que através da
taxa de juro.
Se a eficiência marginal do capital fosse reduzida ao estatuto da taxa da juro, que é um
fenómeno corrente, fechar-se-ia a possibilidade de considerar a influência do futuro na
análise do equilíbrio presente. A restituição dessa possibilidade faz-se considerando o modo
como as expectativas do futuro afectam o presente, através dos preços da procura do
equipamento duradouro.
Keynes clarifica, assim, que a decisão sobre a taxa de investimento depende da relação
que existe entre a curva de eficiência marginal do capital e a taxa de juro correspondente a
diversas escalas do investimento corrente. Como a eficiência marginal do capital mede a
relação dos rendimentos esperados de um bem de capital actual com o preço de oferta ou
reposição desse bem de capital, é necessário investigar mais profundamente os factores
esperados futuros que modificam essa relação presente, i.e. os factores que influenciam as
decisões dos empresários no sentido de ampliar ou reduzir a produção .
4.3.2. A eficiência marginal do capital e as expectativas dos empresários
A integração das expectativas é vital, como percepção por parte dos empresários sobre
os acontecimentos futuros do funcionamento económico48. Se considerarmos o efeito da
expectativa de descida do custo previsto de um equipamento sobre a eficiência marginal do
capital, sejam as expectativas produzidas por modificações no custo do trabalho, por
modificações na unidade de salários, ou por efeito da evolução tecnológica, a produção
resultante do equipamento actual terá que concorrer com a produção obtida com um
equipamento de menor custo, a qual poderá vender os bens mais baratos. Os lucros
48 Desenvolvendo a teoria das expectativas, Keynes agrupa as expectativas em dois grupos:
i) as expectativas de curto termo, são as expectativas que se reflecte nas previsões dos
produtores, considerando o tempo que decorre entre a iniciação da produção e as vendas
actuais dos bens acabados. Estas expectativas se referem à produção de bens de consumo,
enquanto que os produtores de bens de capital consideram as encomendas das empresas;
ii) as expectativas de longo prazo se relacionam com as compras de bens de capital e se
referem aos retornos esperados.
As realizações das expectativas devem ser consideradas na determinação de
expectativas e acções subsequentes, pelo que o estado do output corrente depende das
expectativas passadas. Uma mudança nas expectativas de curto prazo prova que pode ter
sido errado iniciar a produção, embora uma vez que teve início a produção e que se
incurriou em despesas, mas vale continuar.
provenientes das vendas do equipamento novo e antigo reduzir-se-ão, se toda a produção se
tornar mais barata, pelo que a eficiência marginal descerá.
A expectativa de uma descida no preço do dinheiro estimula o investimento e, por
consequência o preço do dinheiro influencia o nível do emprego, porque eleva a curva de
eficiência marginal do capital, deslocando a curva de procura de investimentos à alta. Pelo
contrário, uma subida no valor do dinheiro implica uma descida da curva de eficiência
marginal do capital.
A importância de tais alterações nas expectativas deriva dos efeitos que estas mutações
provocam sobre o desejo de produzir novos bens. Um efeito estimulante de preços maiores
nas expectativas, não é devido à diminuição da taxa de juros, mas sim ao facto de que se
eleva a eficácia marginal de um volume dado de capital.
Se a taxa de juro se elevar pari passu à previsão de aumentos dos preços, não existirão
efeitos estimulantes sobre a produção de novos bens de capital, porque o incentivo para a
produção dependerá de um aumento da eficiência marginal do capital relativamente à taxa
de juro, pelo que o efeito estimulante de expectativas de preços maiores apenas fará sentido
se a eficiência marginal do capital aumentar, e não porque uma variação antecipada no
valor do dinheiro modifique a taxa de juro monetária, pois nesse caso a taxa de juro subiria,
mantendo a situação inalterada:
“If the rate of interest were to rise pari passu with the marginal efficiency of capital,
there would be no stimulating effect from the expectations of rising prices”49.
A expectativa de uma descida da taxa de juro, pode fazer baixar a eficiência marginal
do capital, se a produção resultante do equipamento actual for concorrer com o
equipamento novo, o qual requer uma recompensa menor. Esta hipótese será valida se a
procura estiver a descer para esse tipo de bem.
É importante entender a dependência entre a eficiência marginal do capital de um
volume determinado de capital e as expectativas, pois é essa dependência que faz com que
a eficiência marginal do capital fique sujeita a certas flutuações violentas que explicam o
49 Idem, p. 143.
ciclo económico, na medida em que o auge e a depressão podem ser descritos como
flutuações da eficiência marginal do capital relativamente à taxa de juro.
4.3.3. A eficiência marginal do capital e o risco
Dois tipos de riscos afectam o volume do investimento. O primeiro é o risco do
empresário ou detentor efectivo do dinheiro, perante a possibilidade de obter realmente
rendimentos prováveis esperados. O segundo tipo de risco, num sistema de crédito, é o
risco do prestamista, pois se as expectativas do empresário não se verificam quando pede
dinheiro em empréstimo, este não cumprirá as obrigações contraídas. Uma terceira causa,
não mencionada como risco, mas que afecta o investimento, são as mudanças no padrão
monetário, que faz dos empréstimos em dinheiro um risco adverso, diminuindo a
segurança, pela eventual depreciação dos activos reais, embora estas mudanças possam
reflectir-se na alteração dos preços dos bens reais duradouros.
O primeiro dos riscos, como custo social real, diminui na média social, ou quando
aumenta a exactidão das previsões e da informação. O segundo é uma adição ao custo do
investimento, inexistente quando o prestamista e empresário coincidem. O risco duplica-se
pois o empresário agrega ao tipo de juro, o suficiente para obter um rendimento mínimo
provável, que o induzirá a investir. Este risco leva a aumentar a margem entre as
expectativas relativamente aos rendimentos e a taxa de juro à qual se pretende contrair uma
dívida. Por isso mesmo, as relações de força entre o empresário e o prestamista
determinarão essa margem de segurança. A apreciação desse risco dependerá do nível da
actividade económica.
4.3.4. As expectativas contraditórias dos investidores e produtores e o nível do
emprego
As expectativas são o modo como os agentes económicos interrelacionam o presente
com o futuro. Sendo a economia capitalista uma economia de mercado, em que a produção
é intertemporal - não apenas porque a produção leva tempo, mas sobretudo porque o
investimento em bens de capital reflecte necessidades futuras de consumo - as expectativas
de todos os agentes, mas sobretudo de empresários e investidores, são de vital importância
para o emprego.
Por outro lado, as expectativas são a forma como as previsões sobre o futuro incidem
sobre as decisões dos agentes económicos; nesse sentido, as expectativas dependem do
modo como as previsões sobre os negócios incidem sobre essas decisões e do modo como
elas se realizam.
Mas as expectativas exercem uma influência recíproca sobre as previsões não apenas
objectivamente, pela qualidade da informação, mas também psicologicamente, pela
relevância da informação. Como existem dois tipos de decisões básicas dos agentes
encarregues do investimento, a decisão de produzir com um determinado equipamento e a
decisão de adicionar equipamento ao existente, as expectativas serão de curto prazo, na
medida em que influenciam a produção corrente, ou serão expectativas de longo prazo, que
influenciam a produção futura, embora seja evidente que existem decisões na base de
expectativas de longo prazo que levam a modificar as decisões de produzir no presente,
pelo que a linha divisória entre os dois tipos de expectativas é difícil de traçar.
Um empresário que decida produzir um determinado bem ou ampliar a produção desse
tipo de bem, deverá considerar não apenas os rendimentos presentes da utilização de um
determinado equipamento, mas sobretudo os rendimentos futuros.
No presente, a produção de um bem deve considerar os custos de produção para uma
determinada procura, tomando em conta várias escalas possíveis de produção, assim como
o valor das vendas a realizar, e considerando a elasticidade da procura. As expectativas
reflectem essas previsões na perspectiva de que a situação manter-se-á como dantes. Por
isso o volume de produção e de emprego actual depende dessas expectativas. A realização
da produção e das vendas originará um processo de revisão ou confirmação das
expectativas que levará a novas previsões.
A formação das expectativas depende da efectivação da informação considerada
relevante, pelo que a produção e o emprego serão influenciados subsequentemente. As
expectativas que levaram a comprar um determinado equipamento ou à formação de
existências, podem não influenciar directamente a formação de novas expectativas sobre o
volume de produção a realizar e não terão consequências sobre o emprego.
O que quer dizer que não será das expectativas actuais que resultará uma mudança no
volume de emprego, mas será da mudança das expectativas de longo prazo que resultarão
variações no emprego. Assim, as variações de expectativas de curto prazo não tornam as
mudanças no emprego violentas ou rápidas, estas influenciam gradualmente a produção e o
emprego. Assim se explica a lentidão das mudanças no volume de emprego, em situações
de depressão ou de recuperação, pelo que, para cada estado das expectativas, existirá
sempre um nível variável da produção e do emprego. No entanto:
“(...) a mere change in expectations is capable of producing an oscillation of the same
kind of shape as a cyclical movement, in the course of working itself out.. But the
actual course of events is more complicated still. For the state of expectation being
superimposed long before the previous change has fully worked itself out”50.
O nível do emprego depende, em cada momento e situação, não apenas do estado
actual das expectativas, mas também das expectativas passadas, na medida em que estas se
reflectem na existência de um volume e qualidade do equipamento actual:
“(...) so that the economic machine is occupied at any given time with a number of
overlapping activities, the existence of which is due to various past states of
expectations”51.
O processo de formação das expectativas de curto prazo é gradual e contínuo, e a sua
realização depende quase exclusivamente dos resultados obtidos. Alias, é sensato que os
produtores determinem as suas decisões de produzir na base de expectativas de curto prazo,
quando não se esperam grandes mudanças que alterem as previsões sobre os rendimentos
futuros e sobre os custos dos factores, nem originem antecipações não esperadas.
Outro é o caso quando se trata de bens de equipamento, os quais serão produzidos,
seja quando a procura aumenta, o que implica antecipar rendimentos maiores esperados,
seja pelo aumento do rendimento por unidade de output, seja por aumento do emprego.
Neste caso, as expectativas dos produtores baseiam-se nas expectativas de longo prazo dos
50 Idem p. 49-50.
51 Idem p. 49-50.
investidores, as quais pela sua própria natureza não podem ser obtidas com a lucidez de um
determinado resultado, para além de que as expectativas de longo prazo podem ser revistas
imprevistamente52.
Posto isto, que considerar mais em detalhe o estado das expectativas de longo
prazo, as quais são vitais numa economia monetária em que as decisões do produtor e do
investidor são de natureza diversa e por vezes antinómica, sobretudo se os objectivos a
alcançar forem diferentes e contraditórios.
Keynes chama a atenção para os factores que determinam as previsões sobre os rendi-
mentos futuros, porquanto estão na base das decisões sobre a procura de investimentos em
bens de capital. Este é um exercício que os empresários realizam com base em factos que
podem ser previstos com maior ou menor certeza e em acontecimentos futuros sobre os
quais se pretende obter informação de relativa confiança. As expectativas de longo prazo
dependem das mudanças futuras de determinados acontecimentos, tais como as mudanças
futuras nas existências de tipo e quantidade de bens de equipamento, das preferências
intertemporais dos consumidores, da força da procura efectiva durante um determinado
período, sobre o qual incide a utilização de um equipamento, das mudanças nas unidades -
salário em termos monetários.
Na formação das expectativas, o empresário orienta-se por factos que inspirem certa
confiança, mesmo que esses factos tenham uma importância menor. Quando se planeiam as
expectativas não devem ser considerados os aspectos sobre os quais não existe um grau de
certeza. Deste modo, os factos do presente encontram uma congruência desproporcionada
na formação das expectativas, sendo hábito projectá-los no futuro, modificando-os
segundo os motivos que tenhamos para esperar alguma variação. As expectativas planeadas
baseiam-se, sobretudo, na confiança dos factos conhecidos, que servem como projecção
futura, e portanto, assentam na probabilidade e confiança na previsão.
O estado de confiança tem uma importância crucial sobre a curva de eficiência
marginal do capital, podendo ser considerado um factor que influencia a taxa de
investimentos, porque é um dos factores que determina a eficiência marginal do capital. O
estado de confiança, resulta da observação empírica dos mercados e da psicologia dos
52 "cannot be checked in the light of realized results “. Idem, p. 51.
negócios. O principal problema reside no facto de a base dos conhecimentos na qual
assenta a informação dos empresários sobre os rendimentos esperados futuros ser precária.
4.3.5. Os empresários e a incerteza
As mudanças institucionais que se operam nas empresas aumentam a incerteza
relativamente à infalibilidade dos cálculos provisionais, porquanto a natureza das empresas
se modificou: A socialização da propriedade, através da gestão repartida da propriedade,
se por um lado veio facilitar o investimento, por outro veio torná-lo mais instável. A
expansão do mercado financeiro, o surgimento da bolsa e outros mercados de investimento,
não possibilitou novos investimentos, implicou simplesmente o trespasse de propriedade
intangível com fins de lucro imediato.
Uma certa classe de investimento rege-se pela média das expectativas dos
especuladores da bolsa de valores, e não pelas expectativas genuínas do empresário
profissional, o que se manifesta no preço das acções. As avaliações e reavaliações sobre as
expectativas, e sobre o estado de confiança, implicam que a realização dos investimentos se
baseie no método convencional, o qual supõe que a situação existente dos negócios
continuará por um tempo indefinido; no entanto, a prática demonstra que esta não se repete
com probabilidade, i.e., as valorizações sobre os mercados realizam-se tomando em
consideração toda a classe de conjecturaa, que de modo nenhum se relacionam com o
rendimento provável.
Se existirem mercados organizados para o investimento e se se puder confiar em que a
convenção não irá variar, poder-se-à animar o investimento. A ideia de que o único risco
que se corre é o de uma mudança real das condições de futuro imediato, sobre cuja
probabilidade se pode tentar formar um juízo próprio, não é provável que seja muito
grande. O importante é não romper a convenção, pois o investimento será seguro: mesmo
para períodos curtos e numa sucessão dos mesmos poder-se-á rever as conclusões antes de
qualquer grande modificação. Deste modo, os investimentos tornam-se fixos para a
comunidade e líquidos para o indivíduo. A manutenção de uma convenção, mesmo
arbitrária, tem pontos frágeis, que precarizam a consecução de um volume de investimento
suficiente: i) o aumento global, proporcionalmente maior, dos títulos e valores de
rendimento variável na posse de especuladores sem ligações com os negócios concretos e
sem conhecimento dos rendimentos esperados futuros; ii) as flutuações diárias dos lucros
dos investimentos existentes, com carácter efémero e que tendem a influenciar
desproporcionadamente o mercado; iii) o facto de o mercado estar sujeito a ondas de
optimismo e pessimismo, sem ligação a cálculos razoáveis; iv) os agentes com maiores
conhecimentos não se preocuparem em ter um melhor cálculo provisional a longo prazo
dos rendimentos esperados, mas sim das variações nas bases convencionais, antecipando-se
às do público em geral, com grande influência da psicologia de massas do mercado; v) o
facto de o investimento baseado nas expectativas autenticas de longo prazo ser muito
difícil. É mais fácil adivinhar o que as massas pretendem do que investigar laboriosamente
o estado dos negócios, concluindo-se neste sentido que a experiência não provas claras
de que uma política de investimentos socialmente vantajosa seja a mais produtiva. Se os
homens se comportam de modo a procurar o lucro imediato, os lucros remotos são
descontados pelo homem médio a taxas muito altas, que acabam por inviabilizar as
expectativas de realizar investimentos. O investidor de longo prazo que promove o
interesse público, aquele que se opõe aos convencionalismos estagnantes e detém uma
conduta temerária aos olhos da opinião média, sofre o embate e a mudança dos tempos.
Keynes distingue claramente entre especulação, como actividade de antever a
psicologia do mercado, e actividade empresarial, associada à tarefa de calcular os
rendimentos prováveis dos bens no tempo futuro53. O autor evoca o papel histórico dos
empresários, cujo dinamismo, energia, espírito de jogo e de aventura contribuíram de forma
decisiva para o nascimento e desenvolvimento da moderna sociedade capitalista, sendo
depositada na sua confiança a aplicação dos recursos, sem que se conheçam muitas vezes
os reais resultados da arte de investir.
A iniciativa individual apenas será adequada quando o cálculo razoável for sustentado
pelos animal spirits, que actuam nessa base, a do espírito empresarial audaz e produtivo. O
enigma, segundo Keynes, é que a prosperidade económica depende exclusivamente do
ambiente político e social que agrada ao tipo médio de homens de negócios.
53 Nesse sentido a bolsa se transforma, segundo Keynes, na Nemesis dos comportamentos
aberrantes. Se a bolsa for considerada como uma instituição cuja finalidade social é guiar
novos investimentos por caminhos mais produtivos, em termos de rendimento social,
então ela deveria ser reformada com o fim de restituir o investimento de longo prazo.
Da incerteza relativamente à formação de expectativas, não deve concluir-se que os
negócios dependem exclusivamente de elementos psicológicos irracionais. Keynes expressa
a autêntica e firme convicção de que as expectativas de longo prazo são, com frequência,
firmes e estáveis:
“We are merely reminding ourselves that human decisions affecting the future,
whether personal or political or economic, cannot depend on strict mathematical
expectations, since the basis for making such calculations does not exist, and that it is
our innate urge to activity which makes the wheels go round, our rational selves
choosing between the alternatives as best we are able, calculating where we can, but
often falling back for our motive on whim or sentiment or chance”54 .
Essa convicção baseava-se na existência de alguns factores que diminuem a
ignorância sobre o futuro, ou dito de outro modo, em elementos de informação sobre os
rendimentos calculáveis futuros que permitem a formação de expectativas optimistas55.
A decisão de investir é a decisão económica mais importante que tomam os agentes
económicos, pois ela representa o elo entre o presente do consumo e o futuro do lucro. Mas
essa decisão depende, segundo Keynes, da eficiência marginal do capital, a qual mede a
relação dos rendimentos esperados, proporcionados pela utilização de um bem capital
actual na produção futura de outros bens, com o preço de oferta ou reposição desse bem de
capital e a taxa de juro. Os problemas com que se deparam os empresários para decidir o
investimento, são os problemas da resolução da contradição entre os vários interesses
presentes e provisionais de investidores, produtores, banqueiros.
O resultado mais importante do estudo sobre a empresa na óptica macro-económica, é
o de que o investimento influencia o rendimento e o emprego. Mas devemos encarar as
54 Idem, p. 162-163.
55 Existem empresas cujo rendimento provável está determinado pêlos rendimentos do
futuro próximo. Existem investimentos de longo prazo que podem ser sujeitos a
compromissos entre as partes interessadas, como no caso da construção de habitação.
Um outro caso o constituem os investimentos de longo prazo do sector público, que
garante os rendimentos dada a posição de monopólio que ocupam, determinando as
margens necessárias ou estipuladas na consecução desses rendimentos, para além de que
baseiam-se em necessidades humanas crescentes, como a energia, a agua, os transportes,
as comunicações, os serviços públicos. Por último, existem investimentos do sector público
com carácter social, independentemente da sua produtividade comercial, onde o cálculo
dos rendimentos não necessariamente iguala a taxa de juro, embora esta última possa ser
importante no papel sobre a determinação do volume de operações de investimento que
possa suportar.
expectativas dos rendimentos esperados como uma variável essencial a examinar. A
importância das alterações nas expectativas, deriva dos efeitos que estas mutações
provocam sobre o desejo de produzir novos bens. Um efeito estimulante de preços maiores
nas expectativas, não se deve a um aumento da taxa de juros, mas ao facto de se elevar a
eficácia marginal de um volume dado de capital ou de a expectativa de uma descida no
valor do dinheiro estimular o investimento; por consequência, o valor do dinheiro
influencia o nível do emprego, pois eleva a curva de eficiência marginal do capital,
deslocando a curva de procura de investimentos à alta.
A intervenção do Estado como agente catalisador do investimento, agente da confiança
na credibilidade da informação, de recuperação dos ´animal spirits´ que animaram o
crescimento capitalista do século XIX, não é apenas uma figura de retórica: é uma forma
de tornar o cálculo provável mais fiável e a confiança do investidor mais razoável. O
Estado deveria ser o garante do nível da despesa que assegure o pleno emprego - uma
conclusão não apenas económica, de certo modo também moral, correspondendo à visão
ética de Keynes.
Tendo determinado a influência que certas modificações de curto prazo exercem sobre
as expectativas de longo prazo, diferentes das provocadas pela influência das modificações
da taxa de juro, pode-se dizer que, em circunstâncias normais, as modificações nas
expectativas, provocadas pelas mudanças no estado de confiança, exercem uma grande
influência sobre a taxa de investimento. Apenas a experiência poderá dizer até que ponto a
intervenção sobre a taxa de juro será capaz de estimular continuamente o volume adequado
de investimento, mas, primeiro, é necessário conhecer a nova proposta teórica sobre a taxa
de juro.
4.4. A teoria da taxa de juro, a política monetária e o desemprego
“Monetary theory, when all is said and done, is little more than a vast elaboration of
the truth that `it all come out in the wash`. But to show this to us and to make it
convincing, we must have a complete inventory” 56.
As preferências psicológicas intertemporais de um indivíduo requerem dois tipos de
decisão: o indivíduo decide aparte do seu rendimento que vai destinar ao consumo
imediato e a parte que vai guardar como forma de manter poder aquisitivo no futuro. São
duas propensões determinadas pelo nível de rendimento adquirido, corrente e passado.
A questão importante a saber é qual será a forma de arbitrar entre o presente e o futuro
desses rendimentos: mantê-los sob s forma de dinheiro ou desfazer deles, deixando ao
mercado no futuro a forma que assumirá a transformação actualizada desses bens futuros.
Para Keynes, a determinação da taxa de juro resulta juntamente com a introdução da moeda
no sistema económico, completando-se assim os ingredientes necessários no seu modelo de
análise. Reforça-se em definitivo a ideia de que o emprego é determinado pelo investimen-
to, e que este depende de forças que encontram na moeda um factor de perturbação
característico de uma economia em que a dupla decisão de poupar e de determinar a forma
dessa poupança, gera expectativas sobre o valor da taxa de juro e da moeda, e em que o
efeito das variações da quantidade de moeda sobre a taxa de juro estão subordinadas pela
preferência pela liquidez do público o que pode obstruir a política monetária.
Se o entesouramento, característico de uma economia monetária, gerar expectativas
sujeitas a revisões contínuas dos produtores sobre o estado futuro do consumo, às quais se
adicionem as influências geradas pelas expectativas de incerteza sobre o futuro dos
investimentos, a incerteza sobre a taxa de juro resultante da conduta do público irá agregar
mais um elemento de instabilidade relativamente ao futuro do emprego.
A causa última do desemprego reside na incerteza gerada pelo facto de a moeda, para
além de ser um meio de transacção, ser uma forma de detenção de riqueza que induz à não
utilização desta em investimentos produtivos. Numa situação de variação da taxa de
investimento, esta desce ou sobe consoante a relação estabelecida entre a eficiência
marginal do capital e a taxa de juro. dado que a curva de eficiência marginal rege os termos
da procura, i.e. os fundos disponíveis para os novos investimentos, e a taxa de juro
56 Idem, p. 367.
comanda as condições de oferta desses fundos, devemos conhecer melhor as determinantes
da taxa de juro, começando pela preferência pela liquidez.
4.4.1. A preferência pela liquidez e a taxa de juro
A razão pela qual existe preferência de liquidez pelo dinheiro como meio de conservar
riqueza é a incerteza em relação ao futuro da taxa de juro, as reacções futuras em relação ao
complexo de taxas de prazos variáveis. Se pudessem ser previstas com certeza as taxas que
serão dominantes permanentemente no futuro, todas as taxas poderiam inferir-se das
presentes para as dívidas de diferentes prazos, as quais se ajustariam ao conhecimento das
taxas futuras:
“Thus if the need for liquid cash may conceivably arise before the expirity of n years,
there is a risk of a loss being incurred in purchasing a long-term debt and
subsequently turning it into cash, as compared with holding cash”57.
A dificuldade de determinar esta relação de modo absoluto advem das expectativas,
que são a manifestação psicológica no mercado sobre o futuro da taxa de juro, tomando em
consideração que esta reage sobre a preferência pela liquidez. Se existir alguém que pense
que as futuras taxas de juro estarão acima das supostas pelo mercado, terá motivos para
manter dinheiro líquido real, mas quem tiver uma opinião diferente terá motivos para
procurar dinheiro em empréstimo a fim de no curto prazo obter dinheiro para comprar
dívidas a prazos mais longos. O preço de mercado resulta assim do equilíbrio das
movimentações altistas e baixistas58.
4.4.2. A preferência pela liquidez, a quantidade de moeda e a taxa de juro
57 Idem, p. 169.
58 Keynes tinha produzido um argumento parecido no `Treatise`. A diferencia reside em
que enquanto no Treatise, a preferência pela liquidez, dado o sentimento bear(baixista),
que gerava a procura por motivos especulativos relacionava o preço dos activos e as
dívidas com a quantidade de moeda, na Teoria Geral relaciona a taxa de juro, o preço das
dívidas, com a quantidade de moeda.
Mas a preferência pela liquidez permite também estudar a relação entre a quantidade
de moeda e a taxa de juro. Definindo M a quantidade de dinheiro, r a taxa de juro e L a
função de preferência pela liquidez, temos M = L(r), i.e. a quantidade de dinheiro é
função da preferência pela liquidez e ambas determinam a taxa de juro59.
O aumento da quantidade de dinheiro provoca a descida da taxa de juro, a qual a
medida que desce, faz com que as preferências pela liquidez destinadas ao motivo
transacção absorvam mais moeda. No caso em que uma descida da taxa de juro permita o
crescimento do rendimento nacional, o montante de moeda que convém absorver por este
motivo deverá crescer na proporção do aumento do rendimento, ao mesmo tempo que
deverá diminuir o custo da conveniência de manter efectivo abundante, com perda de juros
60. Cada descida da taxa de juro pode fazer aumentar a quantidade de moeda que certos
indivíduos pretendem conservar, dado que os indivíduos podem ter diferentes pontos de
vista sobre o futuro da taxa de juro relativamente ao ponto de vista que prevalece no
mercado.
A introdução da quantidade de moeda na cadeia causal contribui para explicar o nível
do emprego, o que permite descobrir como as mudanças na quantidade de moeda actuam
no funcionamento do sistema económico:
“ For whilst an increase in the quantity of money may be expected, cet. par., to reduce
the rate of interest, this will not happen if the preferences of the public are increasing
more than the quantity of money; ...whilst a decline in the rate of interest may be
expected, cet.par., to increase the volume of investment, this will not happen if the
schedule of marginal efficiency of capital is falling more rapidly than the rate of
interest; ..whilst and increase of the volume of investment may be expected, cet.par., to
59 Keynes infere é que a quantidade de moeda é outro factor que combinado com a
preferência pela liquidez, determina a taxa real de juro em circunstâncias dadas.
Podemos dizer que Keynes resolve dois problemas: de uma parte estabelece a causa do
juro e a sua medida, e de outra introduz a quantidade de dinheiro no mecanismo
económico. Keynes afirma que existem pessoas que mesmo admitindo que a taxa de juro
nunca seja negativa mantém uma quantidade de liquidez, sacrificando assim a vantagem
de obter uma recompensa
60 Alias, o mesmo resultado pode ser visto se a preferência pela liquidez é medida em
unidades salários. Uma descida na taxa de juro que provoca um aumento do emprego,
pode fazer com que o valor da unidade de salários monetários aumente. i.e., uma
absorção de moeda maior para o motivo de transacção, diminui a quantidade de moeda
para outros motivos e faz aumentar a taxa de juro.
increase employment, this will not happen if the propensity to consume is falling.
Finally if employment increase, prices will rise in a degree partly governed by the
shapes of the physical supply functions, and partly by the liability of the wage-unit to
rise in term of money. And when output has increases and price have risen, the effect
of this on liquidity preference will be to increase the quantity of money necessary to
maintain a given rate of interest”61.
A taxa de juro não se reduzirá se as preferências do público pela liquidez crescerem
mais rapidamente que a quantidade de moeda, mesmo quando for esperada uma descida da
taxa de juro. O investimento não aumentará se a eficiência marginal do capital não
aumentar mais depressa que a descida da taxa de juro; se um incremento do investimento
espera-se vir a reduzir o desemprego, tal não acontecerá se a propensão ao consumo descer.
Se o emprego aumentar, aumentarão os preços, em parte através da função de produção,
em parte porque a unidade - salário mudará em termos de moeda. Se aumentar o output e os
preços, o efeito sobre a preferência pela liquidez exigirá uma maior quantidade de moeda
para sustentar a taxa de juro.
Repare-se que Keynes, nestes possíveis acontecimentos abre caminho a uma nova
posição de equilíbrio, onde a teoria quantitativa é apenas relevante quando a quantidade de
moeda exerce pressão sobre os preços, admitindo tal hipótese no caso de pleno emprego,
quando a oferta se torna inelástica. Existem circunstâncias em que mesmo uma forte
variação na quantidade de moeda não exerce uma grande influência sobre a taxa de juro,
que é o caso quando essa variação provoca tal incerteza sobre o futuro que um motivo de
procura de moeda se fortalece relativamente a outro.
Por outro lado não existem mecanismos automáticos que permitam que determinados
acontecimentos ocorram, tendo em conta que as expectativas dos agentes são
determinantes para que esses acontecimentos tenham lugar. A quantidade de moeda, porém,
é importante na determinação da taxa de juro, o que constitui uma novidade importante
relativamente ao pensamento clássico. A taxa de juro é, em definitivo, uma recompensa
pela renúncia à liquidez, um prémio ao não - entesouramento. É uma medida da renúncia ao
61 Idem, p. 173.
poder líquido que confere aos seus possuidores, pressupondo que os indivíduos consideram
a moeda um meio de riqueza:
“It is the price which equilibrate the desire to hold wealth in the form of cash with the
available quantity of cash”62".
Para cúmulo, se a taxa for menor ou a recompensa por se desfazer da riqueza moeda
for reduzida, o volume que as pessoas irão manteriam ou reter excederá a oferta
disponível, mas se a taxa se elevar, existirá um excedente que ninguém estará disposto a
manter.
A mais importante conclusão neste ponto é que a taxa de juro não se reduzirá se as
preferências do público pela liquidez crescerem mais rapidamente. Quando se espera uma
descida da taxa de juro, o investimento não aumenta se a eficiência marginal do capital não
aumentar mais depressa que a descida da taxa de juro. Se um incremento do investimento
esperasse vir a reduzir o desemprego, tal não aconteceria se a propensão ao consumo
descesse. Se o emprego aumentar, aumentarão os preços, em parte através da função de
produção, em parte porque a unidade - salário mudará em termos de moeda. Se aumentar o
output e os preços, o efeito sobre a preferência pela liquidez exigirá uma maior quantidade
de moeda para sustentar a taxa de juro.
4.4.3. A preferência pela liquidez e o comportamento especulativo
Para completar esta abordagem será preciso analisar as causas que levam
determinadas pessoas a preferir a liquidez, nomeadamente determinar a relação entre a
preferência pela liquidez suscitada pelo motivo especulação e a taxa de juro.
O efeito de um indivíduo decidir entre liquidez ou iliquidez, considerando as
poupanças acumuladas em vez de considerar os seus rendimentos63, não indiferente para a
62 Idem, p. 167.
63 A procura do dinheiro está relacionada com aquilo que se chama velocidade-
rendimento do dinheiro. Esta mede a proporção de rendimentos que o público determina
manter na forma de efectivo corrente, de modo que um aumento na velocidade-
rendimento pode ser a indicação de uma redução na preferência pela liquidez. Keynes
determinação do nível da taxa de juro. Na realidade, o dinheiro que se mantém para
determinados objectivos, não está necessariamente dividido de maneira hermética. Assim,
considera-se a procura de dinheiro do indivíduo, em determinadas circunstâncias, como
uma decisão única embora reservada a motivos diferentes: I) o motivo de despesa de
consumo: M-D-M64; ii) o motivo negócio. D-M-D65; iii) o motivo precaução: D-D66 e iv)
o motivo especulação: D-D67.
A procura de dinheiro para satisfazer estes motivos, geralmente, responde a mudanças
na actividade económica geral e no nível de rendimentos. A gestão monetária, ou, na sua
ausência, as mudanças nas quantidades de dinheiro que podem produzir-se por casualidade,
fazem sentir o seu efeito no sistema económico, pela sua influência sobre o motivo
especulação68.
Se, por um lado, a experiência indica que a procura de dinheiro total para satisfazer o
motivo de especulação oferece uma resposta contínua perante as mudanças graduais na
taxa de juro, por outro lado existe:
chama-nos a atenção para o facto do termo velocidade-rendimento conter implicitamente
un equivoco, pois pressupõe que a procura de dinheiro é, no seu conjunto, proporcional
ou têm uma determinada relação com os rendimentos. Se esse pressuposto fosse assim,
deveria aplicar-se apenas a uma parte das disponibilidades em efectivo do público. Do
que resulta que " it overlook the part played by the rate of interest, Idem, p. 194. No
Treatise, como vimos anteriormente Keynes estudou a procura total do dinheiro com o
nome de depósitos para despesa de consumo, depósitos para despesa de negócios e
depósitos de poupança.
64 Existe uma razão para conservar dinheiro, quando o intervalo que media entre a
recepção de dinheiro e a sua aplicação, induz os indivíduos a conservar um dado mon-
tante de rendimento. O conceito de velocidade-rendimento do dinheiro é pertinente a este
respeito.
65 O motivo negócio é similar ao anterior. Aplica-se ao intervalo entre a receita das vendas
e os custos do negócio. Trata-se do efectivo(cash) conservado para cobrir o intervalo entre
a compra e a realização. A força desta procura dependerá do valor da produção corrente
e dos intervenientes no processo de produção
66 É o motivo de resguardar-se face as contingências de gastos imprevistos ou
oportunidade imprevistos, ou conservar um activo com valor fixo em termos monetários
face a obrigações fixadas em dinheiro.
67 Este é um motivo, diz o Keynes, que necessita muita atenção, sobretudo, porque é
importante na transmissão dos efeitos nas mudanças na quantidade de dinheiro.
68 A força destes motivos depende do desenvolvimento do sistema financeiro e
bancário.Utilizando os efectivos de maneira mas eficaz aumenta a seguridade e diminui
custos. Em circunstâncias normais, o volume de dinheiro necessário para satisfazer o
motivo transacção (i+ ii) e o motivo precaução (iii) é principalmente o resultado da
actividade geral do sistema económico e do nível dos rendimentos monetários.
“(...) a continuous curve relating changes in the demand for money to satisfy the
speculative motive and changes in the rate of interest as given by changes in the price
of bonds and debts of various maturities”69.
Ao analisar o motivo de especulação, é importante distinguir entre as mudanças na
taxa de juro que se produzem pela via da modificação da quantidade de moeda, i.e. da
oferta de dinheiro disponível para satisfazer o motivo de especulação sem alterações na
função de liquidez M = L(r)), de aquelas que, ao modificarem as expectativas, modificam
essa função:
“Open market operations may, indeed, influence the rate of interest through both
channels”70
Em circunstâncias normais, o sistema bancário influencia o nível da taxa de juro
modificando a quantidade de moeda através das operações de compra e venda de títulos. As
operações de mercado aberto, podem influenciar a taxa de dois modos: modificando os
montantes de dinheiro oferecidos, e modificando ou dando origem a uma modificação das
expectativas relativamente à política futura do banco central ou do governo.
As alterações na função de liquidez, devido às modificações nas informações que
levam a uma modificação das expectativas, serão frequentemente erráticas, dando origem a
uma intermitência correspondente às alterações na taxa de juro. poderá haver um
aumento na actividade dos negócios no mercado dos valores, na medida em que as
mudanças sejam interpretadas pelos indivíduos de modo diferente ou que afectem de modo
desigual os interesses individuais.
Se a mudança no estado de confiança afectar a opinião e as necessidade de cada um do
mesmo modo, a taxa de juro ajustar-se-á à nova situação sem necessidade de nenhuma
operação de mercado71. A taxa de juro será modificada no grau necessário para
69 Idem, p. 197.
70 Será preciso saber a forma da função L(r) para determinar a taxa de juro. Em
correspondência a esses compartimentos de liquidez, teremos L1 e L2, as funções de
liquidez. Sendo L1=f(Y) e L2=f(r), onde L2 depende da relação entre a taxa de juro
corrente e o estado das expectativas. Temos: M= M1+M2 = L1(Y)+ L2(r). L1 é a função
correspondente ao rendimento Y que determina M1, e L2 é a função de liquidez da taxa
de juro r, que determina M2. Idem, p. 197.
71 No caso mais simples, em que todos os indivíduos reagem de modo semelhante e
ocupam uma posição similar, uma mudança nas circunstâncias ou nas expectativas
neutralizar o desejo de mudar as reservas de efectivo, em resposta a novas circunstâncias
ou expectativas que qualquer indivíduo sentia à taxa anterior. Se todos mudarem as suas
ideias no mesmo sentido respeitante à taxa que os faria alterar as suas reservas de liquidez,
então não se verificará nenhuma operação. Mas, em geral, uma alteração das circunstâncias
ou expectativas irá ocasionar uma alteração nas tendências dos indivíduos relativamente ao
dinheiro.
O que acontece é que uma alteração irá influenciar as ideias dos indivíduos de modo
diferente. Isto deve-se ao facto de que as condutas dos indivíduos dependem da existência
de diferenças no ambiente social, porque o motivo pelo qual se conserva o dinheiro é
diferente, de acordo ao conhecimento e a interpretação do novo estado das coisas.
Desse modo, a nova taxa de juro de equilíbrio estará ligada a uma redistribuição na
posse do dinheiro. Todavia, é uma mudança na taxa de juro mais que uma distribuição da
liquidez, que interessa tomar em atenção. A redistribuição da liquidez é acidental face às
diferenças individuais, enquanto que as modificações na taxa de juro actuam para
neutralizar o motivo ou preferência de liquidez.
O deslocamento da taxa de juro é, geralmente, a parte mais importante da reacção
perante uma mudança das informações, pois existem mais semelhanças que diferenças nas
reacções dos indivíduos perante as informações. A prová-lo está o facto de, em geral, os
valores dos títulos não manterem uma relação imediata com a actividade económica e
serem desproporcionados face ao valor dos activos das empresas.
A relação das mudanças de M referentes a Y e r, depende de como acontecem as
modificações em M, admitindo, como exemplifica Keynes, que M é formado por moedas
de ouro, e que as suas modificações apenas podem ser resultado do rendimento crescente na
actividade de produção de ouro. Nesse caso, as mudanças de M estão associadas
directamente às mudanças de rendimento Y, pois o ouro é o rendimento de alguém. Se o
governo imprimir dinheiro para atender às despesas correntes, então M mudará e por esse
facto alguém irá aumentar o seu rendimento.
O novo nível de rendimento, todavia, não continua a ser suficientemente alto para
que as necessidades de M1 absorvam todo o aumento de M : uma parte do dinheiro irá para
a compra de títulos ou bens, até que r tenha descido o suficiente para provocar um aumento
poderá não ocasionar o menor deslocamento na cedência de dinheiro.
de M2, e, ao mesmo tempo, venha a provocar uma mudança em Y, na magnitude
necessária para que M seja absorvido, quer por M1 ou por M2, correspondentes ao
crescimento de Y causado por uma queda de r :
“Thus at one remove this case comes to the same thing as the alternative case, where
the new money can only be issued in the first instance by a relaxation of the conditions
of credit by the banking system, so as to induce some one to sell the banks a debt or a
bond in exchange for the new cash”72.
Uma variação de M provocará uma variação de r. Uma variação de r levará a um
novo equilíbrio, em parte para modificar M2 e em parte, para mudar Y e, por conseguinte,
M1. A divisão da variação de M, o incremento de liquidez entre M1 e M2 na nova posição
de equilíbrio, dependerá da resposta no investimento à baixa de r e, da resposta de Y a um
aumento do investimento.
Como Y depende parcialmente de r, deduz-se que a variação de M tem que ocasionar
uma modificação suficiente em r, de modo a que a soma das mudanças resultantes de M1 e
M2 , corresponda às mudanças efectuadas em M, pelo que fica esclarecida a relação entre
L1 e M1 73.
Depreende-se que uma M1 dada não terá qualquer relação quantitativa directa com o r
dado, mas o seu grau de divergência referente ao que se considera como um nível aceitável
e seguro de r, considerando a probabilidade esperada, de modo a que para qualquer estado
das expectativas, uma descida de r será acompanhada por um aumento de M274.
Keynes esclarece este argumento. Primeiro, se o ponto de vista geral a respeito do que
é considerado um nível seguro de r permanece invariável, cada descida de r reduz a taxa
de mercado relativamente à "taxa segura", aumentando o risco de iliquidez; segundo, cada
72 Idem, p. 200.
73 É necessário esclarecer, diz Keynes, o conceito de velocidade- rendimento. Não está
claro se a velocidade-rendimento se define como a proporção entre Y e M, ou como a
proporção ente Y e M1. Keynes propõe toma-la neste último sentido, i.e., Y e M1. Sendo
assim, tomando como V a velocidade-rendimento do dinheiro teremos: L1(Y) = Y/V =
M1. Não existem razões para supor que V é constante. O seu valor depende do carácter
da organização bancária e industrial, dos hábitos sociais, da distribuição do rendimento
entre as classes e do custo de conservar liquidez ociosa. Mas no curto prazo pode ser
considerado constante
74 No capítulo XIII, Keynes referiu que a incerteza referente ao curso futuro da taxa de
juro é a única explicação inteligente da preferência pela liquidez L2 que conduz a
possessão de M2.
baixa de r reduz os lucros correntes derivados dessa forma de posse ilíquida, que existem
disponíveis como uma espécie de prémio de seguro a fim de neutralizar o risco da perda de
capital, numa quantidade igual à diferença entre os quadrados da taxa anterior e os da nova.
Este é o principal obstáculo para uma descida da taxa de juro a um nível mais baixo. A
menos que, por hipótese, se pense que existem razões para acreditar que a experiência
futura será muito diferente da passada, que uma taxa de juro de longo prazo mais baixa
deixaria maior campo para a desconfiança que para a esperança, oferecendo ao mesmo
tempo um rendimento corrente que apenas compensa um breve receio.
Mas se a taxa estiver acima da correspondente ao de pleno emprego, a taxa de juro de
longo prazo de mercado irá depender não apenas da política actual da autoridade monetária,
como também das previsões do mercado relativamente àquela=? que se seguirá no futuro.
4.4.4. O emprego e a insuficiência da política monetária: mudança e revisão de
expectativas, liquidity trap e taxa de juro positiva.
O problema que surge agora é o da determinação da oferta monetária. Se a autoridade
monetária controlar facilmente a taxa de curto prazo, quer porque os agentes estejam
convencidos de que no curto prazo não existirão alterações, quer porque as perdas de
capital sejam pequenas em comparação com o rendimento corrente, a taxa de longo prazo
poderá ser mais obstinada uma vez atingido um certo nível, pois o público pode considerá-
la insegura, apoiando-se na experiência transmitida e nas expectativas presentes face a uma
futura política monetária75, ou ainda porque o método convencional seja compatível com
uma considerável estabilidade nos negócios, enquanto se puder confiar na permanência e
continuidade da convenção.
Deste modo, uma política monetária que o público considere experimental ou
facilmente sujeita a modificações, poderá não conseguir o seu objectivo de reduzir
substancialmente a taxa de juro de longo prazo, porque a procura especulativa poderá
75 Por exemplo, num pais ligado a um padrão ouro internacional, uma taxa de juro mais
baixa da que prevalece em toda parte, será observada com desconfiança justificável;
todavia uma taxa de juro nacional levada a paridade com a mais alta que prevaleça em
qualquer pais pertencente ao sistema internacional, pode ser superior respeito àquela
compatível com o pleno emprego. Que era o caso da Inglaterra antes da saída do padrão
ouro em 1931.
tender a aumentar quase sem limite em resposta a uma queda da taxa de juro abaixo de um
certo nível. Contrariamente, a mesma política poderá ter êxito fácil se a opinião
predominante a considerar razoável, praticável e orientadora do interesse do público,
baseada numa convicção forte e promovida por uma autoridade que não corra o risco de ser
substituída.
Embora seja evidente, para Keynes, que a taxa de juro é um fenómeno psicológico,
esta pode não estar em equilíbrio a um nível inferior ao de pleno emprego, pois nesse nível
existirá um estado de inflação real, no qual a procura de moeda, pelo motivo rendimento,
irá absorver as quantidades sempre crescentes de efectivo. Nesse sentido, a taxa de juro
deriva num fenómeno convencional, porque o seu valor real é em grande parte
influenciado pela opinião que prevaleça sobre o seu valor futuro. Qualquer nível da taxa de
juro que seja aceite como duradouro, será provavelmente duradouro, mesmo que esteja
sujeito às flutuações em torno do normal esperado numa sociedade em mudança.
Mas se flutuar a um nível demasiado alto para conseguir atingir o pleno emprego, em
particular quando o aumento de M1 for maior ao aumento de M, a taxa de juro subirá e
vice-versa. Nomeadamente, se prevalecer a opinião de que o ajustamento da taxa de juro
será automático, de forma a que se acredite que o nível estabelecido pela base
convencional seja uma razão mais forte que o próprio convencionalismo, supondo que a
quantidade de moeda mude, quando o banco comprar títulos (criação de moeda).
Uma subida dos preços dos ´consols` equivale a uma descida das taxas de juro, o que
estimula o investimento e se repercute no motivo rendimento e no motivo precaução,
tendendo ambos os motivos a fazer com que a preferência pela liquidez aumente com uma
reacção no preço dos ´consols`76. Mas, observa Keynes, não existe situação na qual os
preços cresçam proporcionalmente. Existe apenas mais output e o equilíbrio com mais
moeda implica uma taxa de juro menor e um rendimento real maior77.
Não pode dizer-se que o público ou as autoridades estejam mentalmente associadas à
vigência de uma taxa de juro inadequada a um nível óptimo de emprego, mas:
76 Títulos de dívida pública britânicos.
77 I.e., pode haver uma taxa de juro menor. Este ´pode haver`, quer dizer que se a
preferência for absoluta, associada às expectativas de que os preços não vão subir, a
taxa de juro não desce. Mas isto Keynes irá explicar em detalhe na versão final.
“ The difficulties in the way of maintaining effective demand at a level high enough to
provide full employment, which ensue from the association of a conventional and
fairly stable long-term rate with a fickle and highly unstable marginal efficiency of
capital, should be, now, obvious to the reader”78.
As dificuldades que resultam de uma política monetária que não consegue, não pode
ou não quer, fazer com que a taxa de juro de longo prazo desça até ao ponto em que a
eficiência marginal do capital incentive o investimento, são um obstáculo à criação de uma
procura efectiva compatível com o pleno emprego. Essas dificuldades começam a ser
deslindadas se consideramos o entrave que provoca a taxa de juro convencional de longo
prazo que se situa demasiado acima de uma eficiência marginal do capital muito instável
e movediça.
A recomendação keynesiana é a de manter uma base convencional nova e sólida que
leve a opinião pública a adequar a sua preferência pela liquidez àquela que seja compatível
com o pleno emprego, através do incentivo provocado por informações credíveis e por
medidas destinadas a estabelecer ou restabelecer o estado de confiança79. A opinião de
Keynes é de que, em qualquer situação dada de expectativas, o público revela uma
inclinação a conservar mais moeda do que é necessário a fim de satisfazer, seja pelo motivo
de transacção, seja por precaução, uma posse real de moeda numa magnitude que depende
dos termos em que a autoridade monetária esteja disposta a criar liquidez80.
Consoante a quantidade de dinheiro criada pela autoridade monetária existirá,
caeteris paribus, uma determinada taxa de juro para dívidas com diferentes vencimentos.
Existe assim, acredita Keynes, uma relação especial entre as alterações em r e as alterações
na quantidade de dinheiro, assente no facto simples de o sistema bancário e a autoridade
monetária negociarem com dinheiro e dívidas e não com activos ou bens de consumo.
A relação entre o complexo de taxas de juro e a quantidade de dinheiro seria directa, se
a autoridade estivesse disposta, em qualquer sentido, a negociar em termos definidos as
dívidas de qualquer vencimento, ou ainda , se estivesse disposta a negociar dívidas de
78 Ibidem, p. 200 ?
79 A superação dessas dificuldades viu Keynes no abandono do padrão ouro que rigidizava
a oferta monetária e não assegurava a estabilidade do valor monetário, impedindo assim
a descida da taxa de juro de longo prazo.
80 Esta potencialidade é concentrada na função de liquidez L2.
riscos variáveis. O complexo de taxas de juro seria simplesmente uma expressão dos termos
em que o sistema bancário estivesse na disposição de adquirir ou se desfazer de dívidas. A
quantidade de moeda seria o montante existente na posse dos indivíduos consoante
preferissem o controlo da liquidez ou desligar-se desta, i.e. a troca de uma dívida nas
condições indicadas pela taxa de juro de mercado81.
Mas a autoridade monetária não está disposta, por regra geral, a negociar com
facilidade dívidas de qualquer vencimento. Na prática, concentra-se sobre as dívidas de
curto prazo e deixa que o preço das dívidas de prazo mais longo se submeta à influência
tardia e imperfeita das reacções procedentes do preço das primeiras.
Para se poder aplicar esta teoria a um caso concreto, adverte Keynes, deverá tomar-se
em consideração a influência que exerce o preço real e prospectivo de curto prazo sobre os
títulos de longo prazo, podendo estabelecer-se um conjunto de limitações à habilidade com
que a autoridade monetária estabelece qualquer complexo dado de taxas de juro para
dívidas de diversos prazos e riscos: i) existem limitações que surgem da prática da
autoridade monetária ao restringir as operações a títulos de tipo particular; ii) existe a
possibilidade de que, assim como a taxa de juro poderá ter descido até certo nível, a
preferência pela liquidez possa tornar-se absoluta, no sentido em que todos prefiram manter
efectivo a conservar uma dívida. Nesse caso, a autoridade monetária perde o controlo da
taxa de juro82; iii) no caso de ruptura completa da estabilidade da taxa de juro, pois a função
81 Keynes defendia uma reforma na técnica de gestão monetária, consistente numa uma
oferta complexa por parte do banco central, de comprar e vender a preços estabelecidos
valores de primeira classe e de qualquer prazo, em vez de um tipo único para os
documentos de curto prazo Esta é uma outra forma da proposta formulada no ´Treatise´
de operações de mercado ´au autrance. Na prática, a medida do que é o ´ cash current´
no mercado varia nos diferentes sistemas, no sentido de que o preço das dívidas que fixa o
sistema é a que determina o preço real do mercado.
Por vezes o preço é mais efectivo em uma direcção que em outra. Isto é, o sistema
bancário compromete-se à compra de dívidas a certo preço, mas não necessariamente as
vende a uma cifra que represente a diferencia com a compra, obtendo um lucro de
intermediação, embora não existem razões para que o preço não deva fazer-se efectivo
em ambos sentidos, com ajuda de operações de mercado aberto.
82 Este é um caso extremo, que nunca existiu na realidade, pela renuência das autoridades
monetárias a negociar com decisão em dívidas de longo prazo. O seu significado
implicaria que a autoridade monetária, poderia obter empréstimos em escala ilimitada a
uma taxa de juro nominal. Existe uma interpretação do desemprego involuntário que
reduz o problema a um chamado " caso keynesiano". Segundo Modigliani " we have the
keynesian case, when the full employment equilibrium rate of interest is less than r "
...e..."the demand for money as an asset is infinitely elastic ", " Liquidity Preference and the
Theory of interest and money". Esta interpretação recebe o nome de "keynesian case",
justamente porque vai ao encontro da ideia antevisionária de Keynes sobre o
comportamento da taxa de juro no longo período. Tratar-se-ia de um caso limite, o que
de liquidez esbate-se em qualquer direcção, produto da perda da confiança no valor da
moeda ou dos títulos; iv) a