Resumo
Nas últimas décadas, marcadas, sobretudo, pela internacionalização da
economia, as organizações estão restringindo a ocupação de cargos e
funções à formação especializada, exigindo competências e habilidades
para as mais diferentes atividades. Mediante essas constatações, é
evidente que se deve discutir a formação do professor de Contabilidade e
isto poderá contribuir para a visualização do ensino da Contabilidade
como mediador entre a nova base da realidade social e as exigências de
profissionais especializados para atuarem na gestão de negócios da
organização. Neste sentido, refletir sobre o trabalho do professor de
Contabilidade como atividade social implica o comprometimento com a
melhoria desse nível de ensino.
1 - Introdução
O ensino superior enfrenta desafios cada vez mais consideráveis. Em sua
gestão, deverá dar provas de muita imaginação, criatividade,
inteligência e força de vontade. Segundo a Unesco – Organização das
Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (1999), deve igualmente
desenvolver capacidades adequadas de planejamento e análise das
políticas e estratégias, baseadas na parceria entre os estabelecimentos
de ensino superior, o governo e as instituições nacionais de
planejamento e coordenação. O objetivo principal da gestão deve ser o de
constituir-se em um instrumento de melhoria da pertinência e da
qualidade das instituições.
O ensino superior é chamado em todos os lugares a melhor se adaptar e
responder às exigências de uma época em que as possibilidades novas que
se abrem seguem lado a lado com a emergência de novos desafios e
profundas perturbações. Deve avançar para que possa responder aos
desafios evolutivos do mundo do trabalho.
Formar o cidadão, com a potencialidade de desenvolvimento social,
cultural, econômico e político da sociedade implica articular a
universidade com as demais instituições sociais. A universidade não pode
estar fora ou à parte da sociedade, ela é uma instituição social.
Para isto, requer-se um processo educacional diferenciado daquele que
estávamos acostumados a praticar. Hoje, o ensino-aprendizagem é
idealizado, planejado e é indispensável que seja efetivado através do
desenvolvimento das competências e habilidades de todos os envolvidos no
processo: professores e alunos.
Neste contexto, fizemos uma reflexão sobre o ensino da Contabilidade,
inserindo neste trabalho os quatro pilares da educação; o grande desafio:
ensino de Contabilidade; o professor de Contabilidade e sua formação;
metodologias no ensino de Contabilidade; formação continuada do
profissional da Contabilidade e estratégias interdisciplinares para o
ensino da Contabilidade.
2. Os quatro pilares da educação
Os Quatro Pilares foram definidos no merecidamente famoso Relatório da
Comissão Internacional sobre a Educação no Século XXI para a Organização
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (United Nations
Educational, Scientific and Cultural Organization – Unesco), do qual
formam o núcleo principal.
O Relatório, elaborado por uma comissão de quinze membros, sob a
coordenação de Jacques Delors, foi publicado na forma de livro com o
título Learning: The Treasure Within (Unesco, Paris, 1996), e foi
traduzido para o português por José Carlos Eufrázio, recebendo, no
Brasil, o título Educação: Um Tesouro a Descobrir (Unesco, MEC, Cortez
Editora, São Paulo, 1997, estando na 6ª edição 2001). Nesse livro, a
discussão dos "Quatro Pilares" ocupa todo o quarto capítulo, pp. 89-102.
O documento da Unesco se constitui em valioso instrumento norteador para
pessoas, instituições e nações que vêem na ação educacional o caminho do
real progresso das sociedades em particular e da humanidade. É rico
material para as reflexões tão necessárias em momentos tão graves como
os que vivemos, em que se impõe a urgência de uma educação para todos,
comprometida com o bem-estar sócio-moral de todos os habitantes da Terra.
A noção de educação como desenvolvimento humano define o objetivo maior
da educação como a construção, pelas pessoas, de competências e
habilidades que lhes permitam alcançar seu desenvolvimento pleno e
integral. Os Quatro Pilares servem, em seu conjunto, como princípio
organizador nesse processo de construção de competências e habilidades.
A comissão que o elaborou procedeu a um admirável exercício de reflexão,
identificando tendências e auscultando necessidades no cenário das
incertezas e hesitações que caracterizam este início de século. Segundo
Negra (2003), no quadro dessa diversidade contemporânea, complexa e
desafiadora, o relatório destaca os quatro pilares básicos essenciais a
um novo conceito de educação:
→ Aprender a conhecer
→ Aprender a fazer
→ Aprender a conviver
→ Aprender a ser
O primeiro deles indica o interesse, a abertura para conhecimento, que
verdadeiramente liberta da ignorância; o aprender a fazer, segundo item,
mostra a importância da coragem de executar, de correr riscos, de errar
mesmo na busca de acertar; no terceiro temos o desafio da convivência
que apresenta o respeito a todos e o exercício de fraternidade como
caminho do entendimento e finalmente o último deles, o aprender a ser,
talvez seja o mais importante. Está explícito aí o papel do cidadão, o
objetivo de viver de acordo com a figura 1
Figura 1 - Os quatro pilares da educação segundo a Unesco

Esses pilares podem ser apontados como um referencial importante para
ampliarmos nossa ação pedagógica. Os quatros pilares da educação devem
ser a base ao longo de toda a vida.
2.1 – Aprender a conhecer
O primeiro princípio se refere à necessidade de que o processo de ensino-aprendizagem
permita autonomia e criatividade e que seja contínuo, em função das
constantes transformações do mundo contemporâneo.
Delors (2001) diz que aprender a conhecer é combinar uma cultura geral,
suficientemente vasta, com a possibilidade de trabalhar em profundidade
um pequeno número de matérias, o que também significa aprender a
aprender, para beneficiar-se das oportunidades oferecidas pela educação
ao longo de toda a vida.
Para mostrar como devemos aprender a conhecer, o texto diz que este tipo
de aprendizagem tem a finalidade e o seu fundamento é o prazer de
compreender, de conhecer e de descobrir. Para isso, a educação deverá
criar formas para que a escolaridade tenha seu tempo prolongado, ou seja,
que o adulto, após concluir seus estudos, possa prosseguir com vontade
de fazer novos cursos, pesquisa etc., fazendo-o perceber que o aumento
do saber o leva a compreender melhor o ambiente, sob os seus diversos
aspectos, tornando-o, com isso, mais crítico e atualizado. Na criança,
despertá-la e aguçá-las para que tenha mais prazer de estudar, mas é
essencial que ela possa ter acesso às metodologias científicas e com
isso possa ser "amiga da ciência".
Neste primeiro princípio, no entanto, é importante ressaltar um aspecto
do que Morin (2000) denomina as “cegueiras do conhecimento”: os erros e
ilusões e a incerteza que o conhecimento comporta. Somos educados na
tradição científica marcada pelo positivismo e pelo método das ciências
naturais, portanto, pouco habilitados para questionarmos certezas,
valorizarmos erros e convivermos com interrogações (sem respostas
imediatas, ou mesmo, com certezas provisórias).
Uma educação que reconheça estas condições do conhecimento produz
abertura e respeito às diferenças culturais, nacionais, étnicas e
permite maior autonomia aos educandos, na medida em que educadores
tornam-se facilitadores da aprendizagem, parceiros na produção de um
saber que nasce do respeito à pluralidade e à diversidade. Deixando de
ser fonte de autoridade, pela certeza e controle, o educador pode ser
referência de humanidade: abertura, diálogo, falibilidade, fragilidade,
mas também apoio, segurança, companheirismo, estímulo, parceria.
Enquanto processo, sempre contínuo, aprender pode tornar-se uma bela
aventura.
O conhecimento contábil, para Negra (2003), apesar de datar de milhares
de anos, não é um conhecimento estático. A cada dia novos métodos, novas
técnicas e novas metodologias são incrementadas nos Sistemas de
Informações Contábeis de quaisquer organizações para melhor gerir seus
patrimônios.
Enfim, antes de aprender a conhecer, o indivíduo deve aprender a
aprender, para isso deverá até o final de sua vida estar sempre
atualizado, fazer cursos de especialização da sua profissão, exercitar a
leitura e as pesquisas, pois assim ele terá mais facilidade para encarar
todas as situações e será mais competitivo dentro da sociedade onde
vive. Também o indivíduo deverá exercitar a memória, pois a criança
aprende o exercício do pensamento com os pais, depois com os professores.
Então, aprender a conhecer é o mesmo que aprender a aprender, para se
beneficiar das oportunidades oferecidas.
2.2 - Aprender a fazer
É preciso aprender a fazer, a fim de adquirir, não somente uma
qualificação profissional, mas de uma maneira mais ampla, competências
que tornem a pessoa apta a enfrentar numerosas situações e a trabalhar
em equipe. Mas também é necessário aprender a fazer, no âmbito das
diversas experiências sociais ou de trabalho que se oferecem aos jovens
e adolescentes, quer espontaneamente, fruto do contexto local ou
nacional, quer formalmente, graças ao desenvolvimento do ensino
alternado com o trabalho.
Uma dimensão essencial do fazer, enquanto produção e função do
conhecimento, é o sentido deste conhecer, e também do como conhecer. Em
que medida nosso sistema educacional possibilita aos alunos e educadores
a percepção da realidade como uma trama complexa (enquanto tessitura) de
relações de interdependência, onde o particular e o global, entretecidos
nesta trama complexa, têm uma destinação comum?
O fazer, enquanto desenvolvimento técnico, é um aspecto da modernidade
industrial, desvinculado de suas conseqüências mutiladoras da realidade
econômica, social e ambiental. Como contextualizar o fazer, na
programação escolar, para re-significar o mundo do trabalho, um mercado
de extrema competitividade, uma produção tecnológica a serviço do lucro
e produtora de bilhões de excluídos de bens de consumo? Como educar para
a solidariedade em um universo econômico que valoriza o individualismo e
a competição?
O problema não está na especialização, mas na crença subjacente de que
esta especialização levaria às verdades definitivas pelo refinamento
cada vez maior das ciências. Segundo o texto, "aprender a conhecer e
aprender a fazer são em larga medida indissociáveis", porém, aprender a
fazer tem maior referência com a formação profissional. O indivíduo
aprende e põe em prática os seus conhecimentos.
Neste sentido, Negra (2003) diz que o pilar aprender a fazer aponta para
duas vertentes: a relação teoria e prática do ensino contábil e o
trabalho do contador do futuro.
Temos que perceber que aprender a fazer não pode ser apenas ensinar o
jovem para uma função onde fará uma tarefa material. Segundo Delors
(2001), para os dirigentes empresariais, as qualidades do "saber ser" se
juntam ao "saber" e ao "saber fazer". Isto fez com que a comissão
alertasse para a importância da ligação que a educação deve manter entre
os diversos aspectos da aprendizagem.
Qualidades como a capacidade de comunicar, de trabalhar com os outros,
de gerir e de resolver conflitos tornam-se cada vez mais importantes.
Aprender a fazer significa tornar as pessoas aptas a enfrentar numerosas
situações e a trabalhar em equipe, não somente ter uma qualificação
profissional.
2.3 - Aprender a viver juntos, aprender a viver com os outros
Para que todos possam aprender a viver juntos, e aprender a viver com os
outros, tem a educação um papel importantíssimo e um grande desafio, já
que a opinião pública toma conhecimento através dos meios de comunicação
e nada pode fazer.
Conforme Delors (2001), a história humana sempre foi escrita pelos
conflitos raciais e até mesmo religiosos. Portanto, cabe à educação
trabalhar para a mudança deste quadro desde a simples idéia de ensinar a
não violência, o não preconceito. Deve, porém, utilizar duas vias
complementares, primeiro, a descoberta progressiva do outro, segundo, ao
longo de toda a vida, a participação em projetos comuns que parece um
método eficaz para evitar ou diminuir conflitos latentes.
A missão da educação é, pois, transmitir conhecimentos sobre a
diversidade humana, bem como mostrar e levar as pessoas a se
conscientizar sobre as interdependências entre todos os seres humanos do
planeta. Baseado nisto, educando a criança desde pequena a descobrir a
si mesma, poderá ela se pôr no lugar dos outros, compreendendo-as e
respeitando-as.
Nas Diretrizes Curriculares dos cursos de Ciências Contábeis, de acordo
com o INEP (2000), encontra-se respaldado o quadro do perfil do
contador, onde destacamos: postura ética e profissional, com
responsabilidade social; capacidade de participação em equipes
multidisciplinares e capacidade de iniciativa e de interação com a
comunidade.
O professor não deve ter regras que mantém a curiosidade dos
adolescentes, porque, se assim o fizer, ele os prejudicará a vida
inteira, pois não aceitarão pessoas de outros grupos ou nações. Para o
século XXI é indispensável o diálogo e a troca de argumentos, aprender a
viver juntos, desenvolver a compreensão do outro e a percepção das
interdependências, realizar projetos comuns, nos valores do pluralismo e
da compreensão mútua de paz.
2.4 - Aprender a ser
Reafirmado pela comissão, a educação deve contribuir para o
desenvolvimento total da pessoa, espírito e corpo, inteligência,
sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal,
espiritualidade. Todos os seres humanos devem ser preparados, pela
educação que recebe, para agir nas diferentes circunstâncias da vida.
Para isso, cada um deverá ter pensamentos autônomos e críticos, ou seja,
personalidade própria. Deverá o ser humano estar preparado para as
mudanças e principalmente para evitar a desumanização do mundo
relacionado com a evolução técnica.
Para que o aluno de Ciências Contábeis aprenda a ser um profissional e
um cidadão do mundo, os professores, segundo Negra (2003), têm que lhes
mostrar referências intelectuais que lhes permitam compreender o mundo
que os rodeia e a se comportar nele como autores responsáveis e justos.
Delors (2001) deixa bem claro que o compromisso da educação do século
XXI, no que se refere ao pilar do aprender a ser, é fazer com que os
alunos estejam compromissados com sua completa realização como indivíduo,
membro de uma família, membro de uma coletividade, cidadão, produtor,
inventor de técnicas e criador de sonhos.
Portanto, a educação deve preparar as crianças e os jovens para
possíveis descobertas e experimentações, a aprender a ser, desenvolver
sua personalidade, maior capacidade e responsabilidade pessoal.
3 – O grande desafio – ensino de Contabilidade
O ensino superior de Contabilidade surgiu da necessidade de continuar o
processo de evolução do ensino comercial que tinha como primeira escola
a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado iniciada em 1902. A
criação do curso de Ciências Contábeis se deu através do Decreto-Lei
7.988, de 22/09/45, e foi tido como o marco da criação dos cursos de
Ciências Contábeis no Brasil, devendo se destacar que na realidade o
citado Decreto-Lei criou o curso de Ciências Contábeis e Atuariais,
conferindo aos formandos o grau de Bacharel em Ciências Contábeis e
Atuariais. Numa análise legal e crítica, a criação dos cursos de
Ciências Contábeis se deu efetivamente com o advento da Lei 1.401 de
31/07/51, que desdobrou o curso de Ciências Contábeis e Atuariais em
dois, possibilitando aos concluintes receberem o título de Bacharel em
Ciências Contábeis.
Os anos 60 reservaram profundas mudanças na postura educacional do país,
muito em função da ditadura militar de 1964. Em 1968, entrou em vigor a
Lei nº 5.540/68, que reformou o ensino universitário, criando a
departamentalização e a matrícula por disciplina. Por essa época,
segundo Coelho (2004), já existiam cursos de licenciatura em
Contabilidade que preparavam profissionais para lecionar nos cursos
técnicos em Contabilidade.
Na verdade, na maioria dos casos, não era interessante para grande parte
dos profissionais da área contábil direcionar-se para a educação em
Contabilidade, sendo-lhes mais rentável, ainda que com inúmeros
problemas, trabalhar em escritórios ou departamentos de Contabilidade
das empresas.
Na década de 70 e, principalmente, a partir da década de 80, os órgãos
de classe e associações ligadas à profissão tiveram uma maior atuação na
emissão de pronunciamentos sobre assuntos contábeis e também sobre os
profissionais e o ensino superior.
Foi na década de 90, conforme Silva (2001), que se evidenciaram questões
da educação continuada. A reforma do currículo de Ciências Contábeis,
através da Resolução 03/92, criou um currículo mínimo para o curso,
esperando com isso contribuir para uma melhor qualificação dos futuros
profissionais de Ciências Contábeis. Entre as determinações que emanavam
daquela resolução, estavam a inclusão no currículo de disciplinas como
Ética Profissional, Perícia Contábil, Monografia e Trabalhos de
Conclusão de Cursos, entre outras.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, de nº 9.394,
emitida em dezembro de 1996, trouxe profundas mudanças para a educação e
apresenta vários artigos que tratam especificamente dos profissionais da
educação para todas as áreas.
O grande desafio da educação contábil é adequar seus aprendizes à
demanda da realidade econômica com responsabilidade e competência. A
linha educacional que tem sido adotada impossibilita o aluno a criar e o
torna reprodutor de idéias entendidas como verdades absolutas. O
contador deve ser capaz de desenvolver, analisar e implantar sistemas de
informação contábil e controle gerencial e exercer com ética suas
atribuições. Além disso, deve estar integrado com os problemas da
sociedade e assumir uma postura de maior autonomia e participação na
sociedade.
A fim de formar profissionais capacitados a agregar valor no mercado de
trabalho, a universidade deve expandir sua intervenção para além dos
aspectos técnicos. O ensino deve, além de propiciar o aprendizado da
Contabilidade, quer a nível teórico, quer a nível prático, preparar o
profissional para enfrentar a realidade, através do desenvolvimento de
aptidões humanas, tais como criatividade, flexibilidade, capacidade de
relacionar-se, trabalhar em equipe, dentre outras.
O ensino, ao ser compreendido como um processo de dialogia, segundo
Laffin (2001), tem a intencionalidade de ajudar o aluno a entender as
diferentes relações de saberes dos sujeitos históricos. Nesta
perspectiva, inferimos que a intencionalidade do professor de
Contabilidade é a de ensinar e de aprender e, assim, consideramos como
atributos da identidade profissional desse professor:
→ o domínio dos conhecimentos específicos de sua área de atuação
apropriados na sua formação inicial e continuada para relativizar os
conhecimentos produzidos pela sociedade, tornando-se sujeito capaz de
transformar a realidade social;
→ o trabalho docente que enfatiza a articulação dos conteúdos contábeis
com as demais áreas do saber, superando a concepção meramente do saber-fazer;
→ a profissionalização que mantém implicações diretas com a formação do
profissional da Contabilidade com um perfil crítico ao novo contexto;
→ a inserção nas forças em favor da valorização de uma política
salarial, das condições de trabalho e com o vínculo na carreira de
formação inicial e continuada;
→ a compreensão do ensino-pesquisa-extensão-como indissociáveis do seu
trabalho.
Para o autor, tais atributos do professor de Contabilidade nos ajudam a
refletir sobre a formação do professor que ensina Contabilidade e a
destacar como primordial a necessidade do estabelecimento de um diálogo
entre a sua formação inicial e o caráter essencial da docência por meio
da reflexão-ação e da reflexão de sua ação docente.
A educação é um processo de desenvolvimento e formação da personalidade
humana, que atua sobre o ser humano em todos os aspectos, começando na
família, continuando na escola e se prolongando por toda existência. O
objetivo primordial da educação, conforme Brondani (2003), é dotar o
homem de instrumentos culturais capazes de impulsionar as transformações
materiais e espirituais exigidas pela dinâmica da sociedade. A educação
aumenta o poder do homem sobre a natureza e ao mesmo tempo busca
conformá-lo aos objetivos de progresso e equilíbrio social da
coletividade a que pertence. Portanto, é notável a importância do
docente na formação dos novos contadores, pois cabe a ele formar
profissionais críticos, motivados, criativos, com raciocínio contábil e
interesse pela pesquisa.
O professor de nível superior da formação profissional tem a
responsabilidade de formar pessoas com competências e habilidades para
dar a sua contribuição neste ambiente, quer atuando como docente, quer
como profissional, ou pesquisador, dentro de padrões técnicos nacionais
e internacionais. É claro que, sozinho, nenhum professor poderá ter
tanto poder, mas, através do trabalho interdisciplinar, os esforços de
toa uma equipe de profissionais altamente competentes poderão ser
somados para atingir esse objetivo. É necessário que o professor de
Contabilidade esteja inserido num projeto pedagógico participativo, no
qual seja possível reconstruir sua prática, seus saberes e sua
competência.
Verifica-se, então, que a melhoria dos cursos de Ciências Contábeis se
dá desde o início pelo compromisso e uma maior dedicação por parte dos
professores, tratando a docência com mais profissionalismo e não como
mero complemento do seu orçamento, como também uma participação mais
adequada das IES nos investimentos em recursos humanos e principalmente
na capacitação didático-pedagógica dos professores de Contabilidade.
4- Competências e habilidades no ensino da Contabilidade
A educação e o desenvolvimento de competências são processos que jamais
podem ser considerados plenamente ou definitivamente concluídos e são o
resultado do entrelaçamento das habilidades, conhecimentos e atitudes de
acordo com Ramirez (2000), conforme mostra a figura 2.
Figura 2 – A formação das competências

Fonte: Ramirez (2000)
Competências e habilidades são duas palavras muito importantes no
contexto atual, visto que a própria LDB e regulamentações complementares
trazem, por exemplo, uma definição de competência como sendo “capacidade
de articular, mobilizar e colocar em ação valores, conhecimentos e
habilidades necessários para o desempenho eficiente de atividades
requeridas pela natureza do trabalho” (Resolução CNE/CEB, nº 04/99, art.6).
As competências técnicas são conhecimentos que permitem a identificação
mais direta com uma profissão e podem ser adquiridas em parte no sistema
educativo e na formação profissional e, em parte, na empresa. Combinando
as competências transmitidas pelas instituições formais e as habilidades
adquiridas por sua prática profissional e por suas iniciativas pessoais,
em matéria de formação, o indivíduo torna-se agente e principal
construtor da sua qualificação.
No caso específico do papel do professor na formação profissional do
aluno, essa capacidade, segundo Giorgi (2001) adquire uma abrangência
que inclui: conhecimentos teóricos, pedagogia e experiência profissional,
o que é demonstrado no quadro 1, apresentado a seguir.
Quadro 1 – Uma análise dos níveis de competência do professor
|
Nível Global |
Áreas Principais |
Sub-áreas |
|
Competência global do professor |
Base de conhecimento explícito
|
1 – Recursos Curriculares; 2 – Recursos Pedagógicos; 3 – Experiência Profissional; |
|
Planejamento e preparação
|
4 – Conhecimentos claros a respeito de alunos, contexto e recursos; 5 – Média adequada de atividades e recursos para alunos; |
|
|
Ensino interativo
|
6 – Assistência inteligente e eficiente ao aprendizado do aluno, à organização e à pesquisa; 7 – Avaliação e monitoramento efetivo do aprendizado e progresso do aprendizado do aluno; 8 – Adequado relacionamento para influenciar alunos, seu comportamento, motivação e bem-estar; 9 – Avaliação e monitoramento efetivos do comportamento, motivação e bem-estar do aluno; |
|
|
Modelo profissional abrangente |
10 – Cumprir a tarefa de construir um modelo profissional abrangente, através da colaboração efetiva e vários outros; |
|
|
Auto-desenvolvimento profissional |
11 – Desenvolvimento de conhecimento básico específico da matéria, pedagogia e profissional; 12 – Melhoria da capacidade profissional, através de estudo, reflexão e mudança. |
Fonte: Giorgi (2001
Na área contábil, essas competências e habilidades foram encontradas nas
Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação de Ciências
Contábeis (MEC, 2004).
Art. 9º. O curso de graduação em Ciências Contábeis deve possibilitar a
formação profissional que revele, pelo menos, as seguintes competências
e habilidades:
I - utilizar adequadamente a terminologia e a linguagem das Ciências
Contábeis e Atuariais;
II - demonstrar visão sistêmica e interdisciplinar da atividade contábil;
III - elaborar pareceres e relatórios que contribuam para o desempenho
eficiente e eficaz de seus usuários, quaisquer que sejam os modelos
organizacionais;
IV - aplicar adequadamente a legislação inerente às funções contábeis;
V - desenvolver, com motivação e através de permanente articulação, a
liderança entre equipes multidisciplinares para a captação de insumos
necessários aos controles técnicos, à geração e disseminação de
informações contábeis, com reconhecido nível de precisão;
VI - exercer suas funções com o expressivo domínio das funções contábeis
e atuariais que viabilizem aos agentes econômicos e aos administradores
de qualquer segmento produtivo ou institucional o pleno cumprimento da
sua responsabilidade quanto ao gerenciamento, aos controles e à
prestação de contas da sua gestão perante à sociedade, gerando também
informações para a tomada de decisão, organização de atitudes e
construção de valores orientados para a cidadania;
VII - desenvolver, analisar e implantar sistemas de informação contábil
e de controle gerencial;
VIII - exercer com ética e proficiência as atribuições e prerrogativas
que lhe são prescritas através da legislação específica, revelando
domínios adequados aos diferentes modelos organizacionais.
Segundo Iudícibus & Franco (1983), há necessidade de se preparar
profissionais, não apenas com o domínio das mais avançadas técnicas
disponíveis, mas dotados de habilidades e do discernimento necessário
para além do como fazer, perseguirem o que fazer. Dominar a técnica não
é suficiente. O mais importante é estar preparado para perceber quando a
técnica precisa evoluir.
Para que um aluno, futuro profissional, saia da universidade com essa
ampla visão, Nossa (1999) diz que é necessário que se tenha uma
estrutura adequada funcionando, um currículo compatível implantado e
principalmente um corpo docente capaz de contribuir com essa formação. É
preciso que o professor de Contabilidade tenha uma percepção clara da
sociedade, que se encontra em rápida evolução. Deve compreender a
realidade em que vive, integrando diariamente os diversos fenômenos
sociais, políticos, econômicos e jurídicos. Em outras palavras, deve ter
conhecimentos técnicos da Contabilidade e de áreas afins, de metodologia
de ensino, de cultura geral e aptidões sociais.
Para tanto, o professor precisa mediar o processo ensino-aprendizagem de
forma competente, fazendo um papel muito mais de orientador do que de
transmissor do conhecimento. Dentre os aspectos de competência, deve ser
destacada a maneira pela qual o professor motiva os alunos para a
prática do conhecimento.
A seriedade e a dedicação do professor são competências que devem ser
desenvolvidas pelo professor na execução dos programas das disciplinas
sob sua responsabilidade e são condições sine qua non para o
funcionamento desta ferramenta de valor que é o currículo.
Isso requer uma nova visão do papel do professor, ratificando,
inclusive, a importância do planejamento de ensino, da utilização de
metodologias diversificadas, da revisão constante dos critérios de
avaliação, da correta utilização dos recursos da tecnologia.
Assim, os contabilistas têm que atuar nesse novo ambiente, que exige
informações úteis completas e corretas e em curto espaço de tempo. Seu
papel também deve passar por transformações de modo a tornar-se
compatível com os novos tempos. Deve ter competência para compreender
ações, analisando criticamente as organizações, antecipando e promovendo
suas transformações, compreensão da necessidade do contínuo
aperfeiçoamento profissional.
5 – Os dez mandamentos no ensino de Contabilidade
Silva (2004), em seu artigo publicado na Unisalle, diz que os dez
mandamentos no ensino de Contabilidade são:
“I – Exaltar permanentemente a profissão
O professor deve instigar, desafiar e entusiasmar o aluno através da
exaltação permanente da profissão, mostrando o quanto a Contabilidade é
importante ao bem estar do homem; afirmar que o mercado de trabalho
nesta área é amplo e indicar especializações contábeis que propiciam
remunerações melhores. A exaltação permanente da profissão é
indispensável para estimular os alunos.
II– Conduzir o respeito à ética profissional
Informar constantemente dos Deveres e das Proibições do Código de Ética
quando do exercício da profissão. ‘Exercer a profissão contábil com zelo,
diligência e honestidade, observada a legislação vigente e resguardados
os interesses de seus clientes e/ou empregadores, sem prejuízo da
dignidade e independência profissional’. (RES.CFC no 803 de 10 de
outubro de 1996, Capítulo II , Art. 20 ).
III – Alertar para os desafios da Contabilidade interativa
A transformação do conjunto de atividades humanas não deixará de
impactar profundamente a ciência e a prática contábil. Cabe ao professor
identificar no desenvolvimento dos conceitos, métodos e práticas da
Contabilidade, respostas progressivas aos desafios representados pelas
transformações que ocorrem na história dos negócios, das organizações,
da economia e da sociedade.
IV – Respeitar o aluno
Nunca ridicularize seus alunos, pois maltratar a auto-estima do aluno é
uma péssima idéia. Tenha sempre expectativas positivas acerca de seus
alunos, pois os alunos fracassam quando o professor acha que vão
fracassar. O bom professor consegue que todos aprendam o que têm de
aprender, que cada um aprenda quando está pronto para tal e que sejam
felizes.
V– Estimular o aluno a participar de exposições, seminários e palestras
e encontros das entidades de classe (CRC’s, CFC, etc.)
O professor deve motivar os alunos a visitar empresas, escritórios de
Contabilidade, bolsa de valores, etc., para que os alunos possam ouvir
os profissionais e conhecerem papéis, fluxo de documentos, formas de
execução, etc. Em seminários e palestras o aluno, além de ser motivado
profissionalmente, aprende a criar condições para discussões e debates.
VI – Enfatizar “prática x teoria”
A prática problematizadora dos conceitos contábeis é indispensável na
profissão para melhor sedimentação da aprendizagem. O professor deve
despertar situações-problema da prática, para depois expor a teoria em
sala de aula que explica aquela prática. O uso de softwares educacionais
que permitam diversas opções ao aluno e informações básicas importantes
facilitará a discussão da sala de aula.
VII – Praticar estudos de caso
Através do estudo de casos reais, o aluno terá um contato maior com o
dia-a-dia no mundo dos negócios. Os casos podem ser elaborados a partir
de situações-problema de jornais, revistas ou da própria experiência do
professor. Também o uso de jogos de empresas permitirá o desenvolvimento
de habilidades em tomar decisões baseadas em dados contábeis e de
mercado.
VIII – Incentivar a educação continuada do aluno
O estímulo à educação e treinamento on-line é matéria importante no
aprendizado dos profissionais de Contabilidade, para fazer frente ao
ambiente competitivo e de mudanças tecnológicas rápidas. Na educação
corporativa prevalecem as metodologias de aprendizado por meio de
atividades práticas, de exercícios, estudos de casos, simulações, jogos
corporativos e outros recursos didáticos baseados em multimídia e demais
recursos tecnológicos.
IX – Inovar as aulas expositivas – (auditivo e visual)
O professor deve transmitir conhecimento; apresentar um assunto de forma
organizada; introduzir os alunos em determinado assunto, respeitando os
conhecimentos prévios; despertar a atenção do aluno em relação ao
assunto; transmitir experiências e observações pessoais e sintetizar ou
concluir uma unidade de ensino ou um curso.
X – Revolucionar a sala de aula
Faça junto com seus alunos uma pequena revolução na sala de aula.
Coloque as cadeiras em semicírculo. Identifique um problema de sua
comunidade, de alguma empresa, da própria universidade, confronte este
problema com a teorização, então motive os alunos a levantar a hipótese
de solução e aplicação e transformação da prática. Para dinamizar a
metodologia do professor, o Arco de Charles Maquerez pode ser um
referencial muito significativo e prático: (Berbel, 1998, p. 27)”.
O objetivo desta cartilha, para Silva (2004), é condensar, de forma
estruturada, alguns métodos de ensino possíveis de aplicação às
disciplinas de Contabilidade. Os métodos apresentados nesta cartilha não
deverão ser considerados como sendo os únicos possíveis de serem
aplicados. A criatividade do professor em sala de aula, o conhecimento
adequado do conteúdo a ser ministrado e o perfil de aluno colocado à
mercê de sua sabedoria, são fatores que devem ser observados. Qualquer
que seja a metodologia de ensino aplicada à Contabilidade, o professor
deverá sempre propiciar “a chama da motivação” do aluno acesa.
6 - O professor de contabilidade e sua formação
Com a crescente tecnologia e sua rapidez, as coisas do mundo evoluíram e
a profissão contábil não pode continuar como anos atrás; ela tem que
evoluir tem que pensar e buscar além do que o cliente pede. Mas para
isso, Borges (2000) diz que é necessário que as faculdades se
conscientizem e busquem cada vez mais a qualidade em seu ensino;
precisam adequar e reformular bem sua grade curricular para que seus
“produtos” satisfaçam o mercado.
Diante desse contexto e partindo-se da premissa de que a Contabilidade
se desenvolve em um ambiente político, econômico e social, acreditamos
que o ensino deva levar em consideração esse ambiente, traduzindo para o
aluno a realidade dos momentos de desenvolvimento da Contabilidade.
Portanto, a escola, o aluno e o professor deverão desenvolver uma
metodologia para o ensino e aprendizagem, de maneira que a mesma aflore
a inteligência do sujeito inserido numa situação social.
O aluno, segundo Fazan (2001), deve ser preparado para possuir uma visão
crítica e ao mesmo tempo ser capaz de discernir e avaliar todo o seu
potencial de desempenho como forma de se ajustar de maneira competente a
estas vicissitudes contábeis que serão demandadas. Assim, o discente
deverá ter uma formação humanista que seja adequada ao desempenho
profissional, permitindo uma compreensão do meio ambiente em que vive,
nos aspectos social, político e econômico.
Ao professor cabe a tarefa de ser um facilitador da aprendizagem,
criando situações desafiadoras através de orientação dirigida para esse
objetivo, devendo também estabelecer condições de reciprocidade ente o
sujeito e o objeto, assumindo que o aprendizado será decorrente da
assimilação do conhecimento pelo sujeito e também da modificação de suas
estruturas mentais existentes. É preciso trabalhar o ensino contábil de
forma paralela, ou seja, teoria e prática, para que haja um entendimento
melhor e, conseqüentemente, rendimento eficaz, oferecendo laboratórios,
escritórios modelos, empresas júnior, para que enriqueça ainda mais a
aprendizagem do discente.
O professor precisa conhecer o todo que se leciona e não apenas parte do
todo. Neste sentido, Borges (2000) diz que vários professores somente
conhecem parte da disciplina, pois são especialistas; na verdade, o
professor tem que conhecer a área contábil de forma global. É
importante, também, que o professor esteja sempre atualizado, pois a
Contabilidade recebe muita influência das constantes mudanças fiscais.
A prática pedagógica, ou seja, a prática do trabalho do professor de
Contabilidade deve revestir-se da apropriação de conhecimentos que
promovam diferentes aprendizagens e o desenvolvimento dos alunos, porque
o seu trabalho também é marcado por possibilidades e dilemas, o que lhe
exige um constante processo de aprender que também é marcado por sua
subjetividade.
De nada adianta ter-se o melhor programa, a melhor infra-estrutura ou o
mais avançado processo de ensino se o professor não fizer uso destes
recursos ou o fizer de maneira inadequada. O oposto, entretanto, é
passível de ocorrer. Um professor competente, com técnica apurada e
dedicada, supera os inconvenientes de uma sub-infraestrutura ou processo
administrativo da instituição.
Outro ponto importantíssimo é o nível de sua graduação: devem fazer
mestrado, doutorado, para adquirir mais conhecimentos e dinamizar suas
aulas com informações extras para os alunos. Na realidade, é preciso
buscar diferentes didáticas para que todos os acadêmicos consigam
assimilar o que está sendo ensinado, através de diferentes técnicas,
pois entendemos o professor como sendo o mais importante fator crítico
de sucesso do ensino.
O professor de Contabilidade, segundo Laffin (2001), ao conhecer e
participar das discussões sobre o projeto pedagógico do curso, acaba por
apropriar-se de habilidades que favorecem a condução e discussão do
planejamento e a organização e avaliação do seu trabalho. Para tanto,
destacamos a seguir elementos que visualizamos como componentes da ação
do professor de Contabilidade inserido numa ação de comprometimento
social e que se constituem também como ações de formação continuada:
→ organizar situações de ensino e aprendizagem adequando objetivos,
conteúdos e metodologias com o projeto pedagógico do curso, contribuindo
com a qualidade do ensino, assim como estar atento às formas de
incorporar ao trabalho docente as novas tecnologias;
→ coordenar pesquisas e inserir-se em grupos de pesquisas de modo a
produzir conhecimentos teóricos e práticos;
→ possuir domínio sobre conteúdos e metodologias de maneira a converter
os conhecimentos científicos em conhecimentos curriculares, considerando
as suas condições materiais e de seus alunos.
Neste sentido, pode-se dizer que as atividades de professor são um
conjunto de ações que tem uma finalidade e, por isso, revestem-se de
intencionalidade. Para Laffin (2001), o professor precisa preocupar-se e
estar atento às práticas que dão conta de socializar aprendizagens,
porque não é possível abrir mão da responsabilidade do processo de
ensino, uma vez que se pressupõe o professor como um sujeito
culturalmente com mais experiências e conhecimentos sobre os fenômenos
contábeis e de mundo do que seus alunos.
No processo de comunicação, o professor deve ser verdadeiro e inspirar
confiança. Um dos problemas básicos que há na comunicação é que aquilo
que o receptor capta pode não ser exatamente o que o emissor de fato
quis transmitir. Esse caso pode ocorrer principalmente quando o
professor da área contábil está voltado totalmente ao ensino tecnicista,
esquecendo o lado humanista.
O processo motivacional compreendido pelo professor deve permitir aos
alunos a aquisição de comportamentos que assegurem um eficiente
ajustamento pessoal e sociocultural. Schwez (1997) destaca vários
estímulos para a motivação relacionados ao papel do professor na área
contábil:
→ apresentar de tal maneira sua disciplina que, ao aprendê-la, o aluno
esteja, ao mesmo tempo, aprimorando seus instrumentos de trabalho mental
(didática, planejamento, metodologia);
→ aceitar críticas e criticar-se a si mesmo; aceitar diversos pontos de
vista estruturados, lógicos, sólidos; reavaliar-se e atualizar-se;
→ aprender a ensinar a sua disciplina;
→ conhecer os conteúdos das disciplinas anteriores e posterior à sua;
→ aceitar que os alunos são indivíduos, e não números, e de diferentes
características, e saber agir para cada caso com bom-senso e coerência;
→ prover feedback imediato e específico às respostas do aluno;
→ dar ao aluno oportunidades de selecionar e sequencializar assuntos a
serem estudados, de maneira que ele se sinta o mais envolvido possível
na atividade educativa;
→ usar comunicação dinâmica, correta, facilitadora de compreensão e
motivadora;
→ usar somente aqueles itens de testes que sejam relevantes para os
objetivos, coerentes e claros;
→ expressar genuína satisfação em ver o aluno;
→ reconhecer que as respostas dos alunos, sejam corretas ou incorretas,
são tentativas de aprender, e acompanhá-las de comentários positivos;
→ propiciar ao aluno formas de autocontrolar a extensão da instrução
recebida;
→ permitir que o aluno movimente-se tão à vontade quanto suas
características de idade, desde que não atrapalhe suas aluas;
→ saber aprender com os alunos;
→desenvolver suas aulas demonstrando confiança, satisfação e segurança
→ ter boa apresentação pessoal.
Diante do exposto, exige-se que o professor seja muito mais do que um
animador, competente para expor, cativando a atenção do aluno. Ele
precisará, conforme Kuenzer (1999), adquirir a necessária competência
para, com base nas leituras da realidade e no conhecimento dos saberes
tácitos e experiências dos alunos, selecionar conteúdos, organizar
situações de aprendizagem em que as interações entre aluno e
conhecimento se estabeleçam de modo a desenvolver as capacidades de
leitura e interpretação do texto e da realidade, comunicação, análise,
síntese, crítica, criação, trabalho em equipe, e assim por diante. Enfim,
ele deverá promover situações para que seus alunos transitem do senso
comum ao comportamento científico. Para tanto, ao professor não basta
conhecer o conteúdo específico de sua área; ele deverá ser capaz de
transpô-lo para situações educativas, para o que deverá conhecer os
modos como se dá a aprendizagem em cada etapa do desenvolvimento humano,
as formas de organizar o processo de aprendizagem e os procedimentos
metodológicos próprios a cada conteúdo.
Para isto, Silva (2004) elenca os atributos a um bom professor de
Contabilidade:
→ boa condição sócio-econômico-cultural;
→ experiência profissional, especializações na área e produção
científica;
→ atualização permanente;
→ gozar de bom conceito junto aos alunos;
→ conhecer a origem e a dimensão histórica dos conteúdos;
→ abordar os conteúdos em forma de situações-problema.
7. Metodologias no ensino de Contabilidade
Na medida em que, nos tempos atuais, como diz Barbosa (2001), a
exigência de proporcionar aos estudantes de Contabilidade ensino de
elevado nível, porque cada vez mais o mercado exige profissionais com
sólida formação e, até por questão de sobrevivência da instituição, a
preocupação com o melhor preparo dos docentes em ministrar aulas
realmente eficientes e eficazes deve ser uma constante no meio acadêmico.
O professor de nível superior da formação profissional, de acordo com
Giorgi (2001), tem a responsabilidade de formar pessoas com competências
e habilidades para dar a sua contribuição neste ambiente, quer atuando
como docente, quer como profissional, ou pesquisador, dentro dos padrões
técnicos nacionais e internacionais.
O professor deve estar constantemente refletindo sobre sua ação
educativa, suas estratégias de ensino, e como refere Barbosa (2001), se
questionando sobre os resultados obtidos em cada técnica utilizada em
suas aulas. Para aplicar uma estratégia, o professor deve ter o domínio
da disciplina que leciona, do método ou técnica que irá utilizar.
Nérici (1993; p.109) define: “métodos e técnicas de ensino constituem
partes essenciais da metodologia didática de que se vale o professor
para conduzir o estudante a interagir no seu comportamento,
conhecimentos, técnicas, habilidades, hábitos e atitudes”.
Existem muitos métodos de ensino. Abaixo, comentamos alguns:
7.1. A pesquisa científica no ensino da Contabilidade
A universidade ou qualquer instituição de ensino superior é o local mais
adequado para a investigação científica, mas mesmo assim, com todo
ambiente apropriado para tal, isso não ocorre, pois segundo Marion
(2001), elas se propõem simplesmente a transmitir o conhecimento através
de mera cópia daquilo que já existe. Não criam, não inovam, não ensinam
os alunos a construir conhecimento.
Tal situação resulta no perfil profissional que o curso de Ciências
Contábeis forma, ou seja, pessoas com um grau de limitação muito grande,
que não repensam suas ações ou buscam novos horizontes para o exercício
profissional, desejam somente fazer concursos públicos ou montar um
escritório de Contabilidade.
Para Morais (2004), a ânsia de se descobrir coisas novas, o ato de
investigar determinado assunto, gera um crescimento cultural muito
grande, pois quando estamos pesquisando um assunto, deparamos-nos com
muitos outros que nunca imaginávamos existir ou que nunca havíamos
pensado sobre aquilo. A prática da leitura é algo que deve fazer parte
do nosso dia a dia e não somente leituras sobre legislação societária,
tributária e técnica, mas também na direção reflexiva e fora de nossa
área.
Claro está que, sem a prática da pesquisa, o profissional contábil
continuará reproduzindo ensinamentos ultrapassados. Para Cabello (2002)
algumas instituições de ensino já possuem núcleos de pesquisas, para
estimular os docentes a se dedicarem a fundamentar ou aumentar o poder
de informação da
Contabilidade. Dentre as preocupações de pesquisa, a questão didático-pedagógica
mereceria ser repensada ou, mais exatamente, os princípios contábeis
deveriam ser tratados em aulas mais atrativas e convincentes, no que diz
respeito à real importância da fundamentação teórica.
A pesquisa deve fazer parte da práxis pedagógica de todo professor e
compreende-se neste contexto pesquisa como qualquer atividade criativa e
sistemática realizada com o fim de incrementar o acervo do conhecimento
científico para a produção de novos conhecimentos e aplicações.
Algumas ações foram tomadas por parte das Instituições de Ensino
Superior – IES para incentivar a pesquisa científica, uma delas foi a
obrigatoriedade de entrega de uma monografia para conclusão do Curso de
Ciências Contábeis, mas na prática, Morais (2004) diz que pela falta de
tempo dos alunos para pesquisar e dos professores para orientar, esse
trabalho tornou-se mera cópia de trabalhos prontos disponibilizados ou
vendidos através da internet, uma verdadeira brincadeira de faz de conta,
onde em nome de uma formatura, são entregues trabalhos de qualquer
maneira, sem um critério mais apurado por parte de quem avalia essas
chamadas “pesquisas” no campo da Contabilidade. Nessa ordem, devemos
concordar com Marion (2001) que afirma, em relação às IES, que podemos
dizer que estas instituições deveriam ser verdadeiras usinas geradoras
de desenvolvimento contábil, de construção de conhecimento, de
competência contábil e, por que não dizer, da excelência contábil, mas
isso não existe, faltam pesquisas.
Devemos, como professores educadores, permear mudanças na metodologia de
ensino, oportunizando aos educandos processos educativos, induzindo-os a
constantes leituras e produções, pois não contribuiremos apenas
apontando as falhas sem buscarmos uma solução para o problema e sim a
partir de nossa postura como docentes universitários, de estarmos
envolvidos com a pesquisa e a educação continuada, aprimorando os nossos
conhecimentos para que possamos interagir com os educandos de forma
efetiva, eficiente e eficaz.
O processo de pesquisa por parte dos docentes e discentes, segundo Silva
(2002), é importante para vivenciar a construção do conhecimento
científico e para isso se faz necessário apropriar-se das formas de
conhecimento existentes, estabelecendo então um paralelo.
O conhecimento científico deve ser sistematizado e para isso precisa
seguir algumas etapas que são imprescindíveis, conforme Silva (2002):
→ construção do objeto de pesquisa;
→ contribuição do estudo realizado para o crescimento científico;
→ delimitação de um problema que necessite buscar soluções;
→ elaboração de hipóteses a respeito de algo;
→ traçar objetivos para testar as hipóteses;
→ associação de teoria e prática, ambos detendo a mesma relevância
científica;
→ apresentação dos resultados alcançados.
O despertar pela pesquisa científica em Contabilidade está ocorrendo
numa velocidade crescente e com isso surge uma necessidade de mudança no
Ensino da Contabilidade, para que possa ser desenvolvida uma autonomia
do ato de aprender dos discentes, porém, para que isso ocorra, faz-se
necessário um constante repensar das metodologias aplicadas pelos
professores de Contabilidade. O ensino precisa passar por algumas
modificações essenciais para que o espírito científico possa fazer parte
inseparável das Instituições de Ensino Superior.
Acredita-se que o aumento da pesquisa científica em Contabilidade
proporcionará um crescimento e uma valorização social da classe contábil.
Serão notórias as contribuições para a sociedade e o patrimônio das
empresas.
7.2. O método do estudo de caso
Foi desenvolvido em Harvard nos anos 20. A maioria das universidades
começou a utilizar este método nos anos 40, ao nível de pós-graduação.
Segundo Marion (1992), a Universidade de Kansas foi a pioneira nos
Estados Unidos em introduzir esta metodologia no curso de graduação.
Um aspecto importante deste método, segundo alguns professores na área
contábil, é que os estudantes aprendem sem receber tudo “mastigado”. Dá-se
ênfase ao desenvolvimento pessoal, compartilhando-se idéias e avaliando-se
outros pontos de vista.
Anthoni & Reece apud Marion (1992) dizem que os casos são de grande
valor no processo educacional como base de discussão em classe. Os casos
não são propostos necessariamente no sentido de ilustrar maneiras
corretas ou incorretas de administrar um problema. A habilidade no
tratamento da informação contábil pode ser adquirida somente através de
experiências, pensando num caso e levando-o para uma discussão informal.
Em grupo, na sala de aula, provoca-se a ação do estudante: analisar o
problema, avaliar os diversos fatores nele envolvidos, fazer cálculos,
tomar posição, e assim por diante.
O exercício desta prática ajuda a desenvolver a capacidade e o
entendimento do estudante; de fato, muitos educadores acreditam que
realmente partes importantes de uma matéria contábil só podem ser
aprendidas através de algum tipo de experiência concreta e não meramente
ouvindo ou lendo o assunto.
De acordo com Trigueiro (1995), o uso do método de caso começou
oficialmente em 1908, na Harvard Business Scholl, e foi muito difundido
após a Segunda Guerra Mundial, em decorrência dos planos de formação de
dirigentes de empresa, realizados pelo Plano Marshall, na Europa. O
introdutor da idéia foi o professor Edwin F. Gay, primeiro diretor da
Escola.
O emprego desse método contribuiu significativamente para aumentar o
conceito acadêmico da Harvard Business School e de toda a Universidade,
pois essa Universidade se destaca como o maior centro do mundo em
pesquisas e levantamentos de casos, os quais são usados também pelas
demais universidades americanas e por outras no exterior.
Trigueiro (1995) refere que empresários e estudantes de Administração de
todas as partes do mundo buscam essa instituição de ensino com o
propósito de beneficiar-se com o emprego do método de caso eficaz no
aprendizado.
Na década de 70, o método foi introduzido no Brasil pela Escola de
Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo.
Este método constitui um instrumental indispensável para o aprendizado,
pois proporciona aos executivos e estudantes oportunidades de se
colocarem no lugar de pessoas que resolvem problemas ou que tomam
decisões.
O método do caso representa uma inovação marcante no contexto do
processo educacional, implicando um novo tipo de relacionamento entre o
professor, ou instrutor, e os alunos, exigindo por parte dos estudantes
uma participação ativa no processo educacional. Os alunos são levados a
processar informações retiradas de fatos, interpretá-las e chegar a
conclusões.
O estudo de casos proporciona uma visão mais abrangente das atividades
desenvolvidas nas organizações, levando o aluno a se aproximar de
situações problemas que naturalmente vai enfrentar em suas atividades
profissionais. Este método tem o mérito de conciliar o desenvolvimento
cognitivo, ou seja, a aquisição de conhecimentos, a uma atividade
acentuadamente vivencial.
O caso é conceituado, no ensino de Administração, como sendo uma
descrição ou problema administrativo, objeto de decisão que foi
determinada, sendo um testemunho de um problema de negócios que foi
realmente enfrentado por executivos, juntamente com fatos, opiniões e
preconceitos circundantes, dos quais as decisões dependiam. É na
realidade uma espécie de elo que une a experiência do executivo em seu
trabalho, os executivos em treinamento, os executivos em potencial e o
pesquisador para compreender o processo de administrar.
O caso mantém a discussão de classe concentrada sobre alguns dos fatos
existentes, que devem ser enfrentados em situações da vida real dos
negócios. É habitualmente descrito do ponto de vista da pessoa envolvida,
que toma a decisão.
O autor de casos precisa relatar, com a máxima habilidade, os fatos
relevantes da situação ou problema na época em que a decisão foi dada ou
precisava ser tomada.
O que importa na aplicação do caso é o aprendizado educacional, isto é,
o aumento do relacionamento e envolvimento motivacional entre
professores e alunos em sala de aula, ocorrendo um eficaz aprendizado.
Com o caso, busca-se, através do diagnóstico e prognóstico, estudar
situações reais, onde os alunos desenvolverão sua capacidade de tomada
de decisão, análise e planejamento.
O método do caso é definido, conforme Trigueiro (1997) apud Harvard
Business School, como um método de instrução no qual os estudantes e os
professores ou instrutores participam ativamente das discussões de casos
ou problemas de negócios. Esses casos, geralmente preparados por escrito
e tirados da experiência real de executivos de negócios, são lidos,
estudados e discutidos por estudantes entre si, e constituem a base para
discussão de sala de aula, sob a orientação do professor ou instrutor.
Assim sendo, o método do caso inclui tanto um tipo especial de material
de instrução, como as técnicas especiais de se utilizar este material no
processo do aprendizado.
É estimulante o método do caso também para o professor, pois como coloca
Moreira (1997) apud Christensen, deixa o mesmo em novas situações de
aprendizagem, havendo um contínuo autodesenvolvimento. O que é bom para
o professor é, no limite, bom para a instituição à qual ele se
subordina. O método do caso coloca a escola em permanente contato com o
mundo exterior, da prática, havendo uma força de mudança vinda do
exterior encorajando uma cultura adaptativa.
7.3. Aula expositiva
Consiste numa preleção verbal utilizada principalmente para apresentação
de um conteúdo novo, para dar visão global de determinado assunto, para
motivar os alunos a estudarem determinados tópicos.
Para Barbosa (2001), muitos a criticam pela passividade que acarreta nos
alunos, pelo privilégio dado ao papel do professor e por visar à
aquisição de conhecimentos e à compreensão, deixando de lado níveis mais
complexos como aplicação, síntese e julgamento.
Na aula expositiva, a participação do professor é quase sempre
dominante, mas nada impede que o aluno não desempenhe um papel ativo.
Isto é corroborado por Carvalho (1976), quando afirma que se os alunos
estiverem em estado de alerta, concordando ou discordando intimamente,
procurando relacionar o que dizemos às próprias experiências pessoais,
empolgando-se pelo que ouvem, então a exposição transforma-se em um
procedimento ativo, apesar da quietude aparente dos ouvintes, pois gera
o mais alto tipo de atividade: a atividade intelectual, reflexiva,
crítica.
O professor, nesse tipo de aula, transmite conhecimentos, apresenta o
assunto de forma organizada, introduz o aluno em determinados assuntos,
despertando-o para eles, transmite também experiências e observações
pessoais não disponíveis em outras formas de comunicação. A principal
desvantagem desse método de ensino é que o professor passa a ser o
agente ativo, ao invés do aluno. Por isso se recomenda cautela no uso
demasiado do mesmo.
No ensino da Contabilidade, deve ser usada na fase preliminar da
aprendizagem, com o objetivo de introduzir e situar um novo tema que, de
acordo com Barbosa (2001), deve permitir uma visão global e sintética do
assunto, apresentar e esclarecer os conceitos básicos, com os quais se
vai lidar no estudo daquela unidade. Este procedimento pode gerar bons
resultados, na medida em que proporciona aos alunos embasamento teórico
para as atividades que virão posteriormente.
7.4. Seminários
É uma atividade didática específica dos cursos universitários e, como
diz Severino (2000), deverá levar o aluno ao contato íntimo com o texto,
à compreensão da mensagem central do texto, à interpretação do conteúdo,
numa perspectiva de julgamento e crítica da mensagem, à discussão da
problemática do texto.
É amplamente usado, com elevado índice de aprovação, pois reúne, entre
suas características, proporcionar aos estudantes o benefício da
colaboração intelectual, preparando ainda para o desenvolvimento da
capacidade de investigação. No ensino da Contabilidade, tem contribuído
de forma considerável para o desenvolvimento dos estudantes na sua
preparação para o exercício da profissão.
O contador, para obter a confiança dos seus clientes ou empregados,
segundo Barbosa (2001), necessita mostrar permanentemente que está
atualizado com as normas e técnicas inerentes ao seu trabalho e
demonstrar facilidade para expor seus pontos de vista e seus
conhecimentos quando solicitado. Para tanto, as atividades ligadas às
pesquisas, aos debates com outros estudiosos e o interesse em sempre
buscar novas fontes de informações, que fazem parte das preparações e
apresentações dos seminários, contribuirão sobremaneira para seu
treinamento.
7.5. Estudo em grupos (equipes)
Este método promove a vivência, a experimentação, a abertura de
pareceres e a síntese, partindo-se de vivências e aprendizagens a
respeito do sentir e viver cooperativamente, construindo e respeitando-se
o delicado equilíbrio entre necessidades e interesses individuais e as
exigências da comunidade, pela provocação e reconstrução crítica do
pensamento e da ação, num ambiente democrático de investigação e
aprendizagem. Exige uma organização que garanta o sucesso de cada um no
desempenho da tarefa, o alcance dos seus objetivos e a aprendizagem
pretendida.
Nos cursos de Ciências Contábeis, a aplicabilidade deste método pode ser
viável, conforme argumenta Barbosa (2001), embora, em alguns casos, com
classes muito numerosas, o professor possa ter dificuldade para
coordenar elevada quantidade de grupos e conduzir os trabalhos
ordenadamente.
Portanto, não deve ser descartada dos cursos, porque proporciona uma
visão do conjunto das matérias a tratar, aliado ao fato de que os alunos
irão perceber os diversos ângulos pelos quais o tema proposto pode ser
bordado.
7.6. Utilização de jogos de empresa
O jogo é uma atividade física ou mental, livre, envolvendo dois ou mais
participantes, organizada por meio de um conjunto de regras. As
características típicas dos jogos, tais como o divertimento, a alegria,
a tensão e a fascinação que exercem, constituem-se pontos básicos que os
diferenciam de outras atividades. Estas características levaram os
defensores de uma metodologia educacional e empresarial participativa a
incluir os jogos no rol de instrumentos eficazes para a formação de
gerentes e administradores, adaptando instrumentos já existentes,
criando novos jogos e estabelecendo uma metodologia própria para a sua
aplicação.
Caracterizam-se como técnica educacional alternativa, em que o
participante pode assumir um papel ativo, através do exercício virtual
de funções e papéis, desenvolvendo a capacidade intelectual, a
criatividade, a sociabilidade e a competência para estabelecer
estratégias empreendedoras e inovadoras. Reconhecidos como uma
ferramenta pedagógica altamente eficaz, são utilizados, atualmente, em
diferentes campos de atuação das empresas e da educação de adultos.
No ensino da Contabilidade, de acordo com Barbosa (2001), vários
professores têm-se utilizado desta metodologia. Um dos grandes
defensores é o professor Antônio Marcos Favarin, da Pontifícia
Universidade Católica de Campinas.
7.7. Escritórios, laboratórios e empresa modelo
Para aplicarmos corretamente um método, é preciso levar em conta os
objetivos que esperamos alcançar. Isto é corroborado por Pinheiro
(2001), ao dizer que no Curso de Ciências Contábeis os objetivos gerais
normalmente são expressos através de termos como “aquisição de
conhecimentos” “desenvolvimento de habilidades e atitudes”, “confronto
com a realidade” e “desenvolvimento da capacidade de trabalho em
equipe”.
O contato com as rotinas de um escritório ou departamento contábil
proporciona a vivência, a reflexão e a sistematização dos conteúdos
tecnológicos e científicos, favorecendo a incorporação das experiências
dos alunos às atividades educacionais, tornando-as significativas.
Cumpre lembrar que as estratégias, como defende Barbosa (2001), têm a
finalidade de direcionar o funcionamento dos processos de manutenção e
produtividade, facilitando a comunicação, a participação e a tomada de
decisões. São caminhos para o grupo realizar seus fins. Não são
absolutas nem intocáveis, mas meras ferramentas que o professor pode
modificar, adaptar ou combinar quando melhor lhe aprouver.
O laboratório possibilita uma experiência para os estudantes reforçarem
os conceitos apresentados em sala de aula. Dentro desta perspectiva, o
laboratório deverá ser usado para praticamente todos os pontos. Dessa
forma, Barbosa (2001) diz que a estratégia de utilização de escritórios,
laboratórios e empresa modelo, também chamada de técnica de demonstração,
propicia ao estudante:
→ articulação da prática com o conhecimento teórico;
→ ilustrar o que foi exposto, discutido ou lido;
→ aplicar técnicas de trabalho ou executar determinada tarefa ou
operação com o auxílio de ferramentas, instrumentos, máquinas ou
aparelhos diversos;
→ desenvolver habilidades psicomotoras necessárias às situações de vida
profissional.
8. Formação continuada do profissional da Contabilidade
O ensino continuado também é um fator de suma importância dentro das
estratégias de ensino. Professores que estão em determinada cadeira há
mais de um período, como diz Pinheiro (2001), devem sempre se atualizar
na tentativa de melhorar ao máximo seu desempenho, adquirindo domínio de
muitos métodos e técnicas de ensino. Isso possibilita uma grande
variação de exposições e maior motivação para o aluno, tornando sempre a
aula criativa e dinâmica. As ações que desafiam a inteligência e a
capacidade de inovar têm como aliado o professor, que desempenha um
papel fundamental neste processo de ensino e aprendizagem.
Para Sá (1998), amplia-se, a cada momento, a cada passo em frente que os
meios de comunicação realizam, a necessidade de transformações de
conceitos e de práticas no campo da informação sobre a riqueza. A
velocidade com que as decisões devem ser processadas mudou a atmosfera
administrativa de nossos dias e a Contabilidade, como fonte de
orientação de modelos de comportamento dos capitais, vem acompanhando
essa evolução. Isso, todavia, não só exige repensar os critérios
informativos, mas, especialmente, considerar como tais sistemas de
enquadram nas exigências doutrinárias científicas, sob pena de se
estabelecer o caos.
A Contabilidade, como ciência social, ao ampliar seus objetivos de
controle, análise e gestão do patrimônio das entidades, insere-se nesse
movimento interdisciplinar para contribuir com o processo de formação
continuada, visando com isso torná-la um diferencial competitivo do
profissional contábil.
Neste sentido, Laffin (2002) diz que é nessa perspectiva da profissão
contábil que a formação continuada precisa superar as formas
tradicionais de treinamentos aligeirados sobre temas contábeis. A
formação continuada do profissional da área contábil não pode apenas se
restringir aos cursos de atualização, mas necessita tornar próprios os
conteúdos e conhecimentos consistentes e abrangentes que envolvem a
legislação pertinente às normas técnicas e profissionais.
Conclusão
A globalização da economia evidencia a Contabilidade como único
denominador comum para mensurar as atividades econômicas, exigindo-se
homogeneidade universal de tratamento para registros e divulgação de
fatos contábeis de uma mesma natureza, portanto, o acompanhamento destas
mudanças deverá ser mais nas práxis pedagógicas do que nos resultados
repetidos de pesquisas, livros e artigos.
Num mundo com economia globalizada, formar profissionais da área
contábil, apenas com a visão de registrar os fatos contábeis ocorridos,
é muito temeroso, pois o profissional necessita buscar a
interdisciplinaridade com diversas áreas.
Neste contexto, a Contabilidade como ciência estruturada e com seu
objeto de estudo delineado deve utilizar métodos e conceitos para
alcançar resultados satisfatórios para as organizações, exercendo assim
o seu verdadeiro papel de ciência do patrimônio, capaz de contribuir
para o desenvolvimento da sociedade de um modo geral.
É aí que entram em jogo as instituições de ensino superior. Estas devem
preocupar-se com o tipo de profissional que estão formando, pois estamos
vivendo na era da informação, do conhecimento, das novas tecnologias,
onde o mercado consumidor da Contabilidade tem uma nova demanda por
profissionais contábeis e para isto precisamos de bons educadores.
Para Laffin (2002), ensinar exige responsabilidade porque, para além do
domínio de conteúdos específicos e de saberes de formação humana, assim
como de métodos adequados a promover essas apropriações no contexto no
qual está inserido, é preciso insistir na solidariedade humana, na
preservação do mundo humano. Essa sensibilidade coletiva será visível
nas atividades do professor de Contabilidade quando, em seu trabalho,
configurar-se um entendimento crítico e emancipatório da categoria
trabalho.
Referências
BARBOSA, C. F. SILVA, J. Estratégias de ensino – um estudo sobre suas
aplicações nas disciplinas de contabilidade. In FÓRUM NACIONAL DE
PROFESSORES DE CONTABILIDADE, 7.,2001, Rio de Janeiro. Anais do II Fórum
Nacional de Professores de Contabilidade. Rio de Janeiro: 2001. CD-ROM.
BERBEL, N. A. Metodologia da problematização: experiência com questões
de Ensino Superior. Londrina: Ed. UEL, 1998.
BONDANI, G. GRABNER, S. SILVA. T. M. Novos parâmetros de formação do
profissional contábil. In FÓRUM NACIONAL DE PROFESSORES DE CONTABILIDADE,
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Maria Elisabeth Pereira Kraemer - beth.kraemerarrobaterra.com.br
Contadora, CRC/SC nº 11.170, Professora e Integrante da Equipe de Ensino e Avaliação na Pró-Reitoria de Ensino da UNIVALI – Universidade do Vale do Itajaí. Mestre em Relações Econômicas Sociais e Internacionais pela Universidade do Minho-Portugal. Doutoranda em Ciências Empresariais pela Universidade do Museu Social da Argentina. Integrante da Corrente Científica Brasileira do Neopatrimonialismo e da ACIN – Associação Científica Internacional Neopatrimonialista.
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