Resumo
Produzidos em todos os estágios das atividades humanas, os resíduos, em
termos tanto de composição como de volume, variam em função das práticas
de consumo e dos métodos de produção.
As principais preocupações estão voltadas para as repercussões que podem
ter sobre a saúde humana e sobre o meio ambiente (solo, água, ar e
paisagens). Os resíduos perigosos, produzidos sobretudo pela indústria,
são particularmente preocupantes, pois, quando incorretamente
gerenciados, tornam-se uma grave ameaça ao meio ambiente. Neste
contexto, a Contabilidade deve evidenciar as medidas adotadas e os
resultados alcançados pela empresa no processo de proteção e preservação
do meio ambiente, já que ela é responsável pela comunicação entre a
empresa e a sociedade. A Contabilidade, principal sistema de informação
de uma empresa, não pode, nos dias atuais, desconhecer esta realidade,
não pode ficar à margem destas preocupações. Partindo desta premissa é
que este trabalho está enfocando como quantificar e contabilizar os
resíduos industriais.
1 – Introdução
A compreensão da problemática do lixo e a busca de sua resolução
pressupõem mais do que a adoção de tecnologias. Uma ação na origem do
problema exige reflexão não sobre o lixo em si, no aspecto material, mas
quanto ao seu significado simbólico, seu papel e sua contextualização
cultural, e também sobre as relações históricas estabelecidas pela
sociedade com os seus rejeitos.
As mudanças ainda são lentas na diminuição do potencial poluidor do
parque industrial brasileiro, principalmente no tocante às indústrias
mais antigas, que continuam contribuindo com a maior parcela da carga
poluidora gerada e elevado risco de acidentes ambientais, sendo,
portanto, necessários altos investimentos de controle ambiental e custos
de despoluição para controlar a emissão de poluentes, o lançamento de
efluentes e o depósito irregular de resíduos perigosos.
Os custos das empresas em proteção ambiental, incluindo redução da
poluição, gestão de resíduos, monitoramento, conformidade, impostos e
seguros, têm aumentado rapidamente nos últimos 20 anos com crescente e
mais exigente regulamentação ambiental.
Neste sentido, a Contabilidade, na condição de ciência social, passou a
ser questionada sobre o desempenho ecológico das empresas na sociedade,
tendo, com isso, uma nova perspectiva acerca de seu papel. Começa a ser
um elemento essencial na política ambiental, segundo refletem as
diversas propostas e normas contábeis que, tanto no âmbito nacional como
internacional, vêm se pronunciando.
Estas normas limitam geralmente sua atuação na informação financeira que
se apresenta nas contas anuais, especialmente nas obrigações e
contingências ambientais que afetam, ou podem afetar no futuro, a
posição financeira da empresa.
2 – Resíduos
A década de 70 foi a década da água, a de 80 foi a década do ar e a de
90, de resíduos sólidos, conforme Cavalcanti (1998). Isso não foi só no
Brasil. Nos Estados Unidos também se iniciou a abordagem relativa a
resíduos sólidos somente no limiar da década de 80, quando foi
instaurado o Superfund que era uma legislação específica que visava
recuperar os grandes lixões de resíduos sólidos que havia e ainda há
espalhados nos EUA. E essa abordagem propiciou a Agência de Proteção
Ambiental – EPA a fazer toda uma legislação sobre resíduos sólidos, que
constava no Federal Register nº 40.
Segundo Leripio (2004), somos a sociedade do lixo, cercados totalmente
por ele, mas só recentemente acordamos para este triste aspecto de nossa
realidade. Ele diz ainda que, nos últimos 20 anos, a população mundial
cresceu menos que o volume de lixo por ela produzido. Enquanto de 1970 a
1990 a população do planeta aumentou em 18%, a quantidade de lixo sobre
a Terra passou a ser 25% maior.
Nos Estados Unidos, de acordo com Leripio (2004) , o grande volume de
lixo gerado pela sociedade está fundamentado no famoso “american way of
life” que associa a qualidade de vida ao consumo de bens materiais. Este
padrão de vida alimenta o consumismo, incentiva a produção de bens
descartáveis e difunde a utilização de materiais artificiais.
Na Europa, a situação dos resíduos é caracterizada por uma forte
preocupação em relação à recuperação e ao reaproveitamento energético. A
dificuldade de geração de energia, devida aos escassos recursos
disponíveis e aliada a um alto consumo energético, favorece a estratégia
de reciclagem dos materiais e seu aproveitamento térmico. O autor acima
menciona que na indústria do alumínio, por exemplo, 99% dos resíduos da
produção são reutilizados, enquanto a indústria de plástico chega a 88%
de reaproveitamento de suas sobras. Do total de resíduos municipais
europeus, cerca de 24% são destinados à incineração, sendo 16% com
reaproveitamento energético.
Na China, país de extensão territorial considerável e com grande
contingente populacional concentrado nas cidades, o povo considera os
resíduos orgânicos como uma responsabilidade do cidadão, ou melhor, do
gerador. Este tipo de valor cultural facilita a introdução de métodos
mais racionais de controle dos resíduos sólidos, com participação ativa
da população. Há um envolvimento individual do cidadão chinês com vistas
à reintegração dos resíduos à cadeia natural da vida do planeta. A massa
dos resíduos sólidos urbanos é composta predominantemente de material
orgânico que é utilizado na agricultura. Assim, o resíduo não é visto
como um problema, mas sim como uma solução para a fertilização dos
solos, o que estimula a formação de uma extensa rede de compostagem e
biodigestão de resíduos. Esta diferença de tratamento fundamenta-se em
valores culturais totalmente diferenciados dos ocidentais, que
originaram outro paradigma para tratamento da questão.
Resíduos são o resultado de processos de diversas atividades da
comunidade de origem: industrial, doméstica, hospitalar, comercial,
agrícola, de serviços e ainda da varrição pública. Os resíduos
apresentam-se nos estados sólidos, gasoso e líquido.
3 – Resíduos industriais
As sociedades desenvolvidas precisam da indústria para produzir energia
e bens que mantenham seu estilo de vida. As atividades industriais
abrangem processamento de alimentos, mineração, produção petroquímica e
de plástico, metais e produtos químicos, papel e celulose, e a
manufatura de bens de consumo, como a televisão. Por sua vez, a
indústria necessita de matéria-prima, como o ferro, a água e a madeira,
para a produção desses bens. Esses processos de manufatura produzem lixo,
que pode ser inofensivo ou tóxico.
O lixo gerado pelas atividades agrícolas e industriais é tecnicamente
conhecido como resíduo e os geradores são obrigados a cuidar do
gerenciamento, transporte, tratamento e destinação final de seus
resíduos, e essa responsabilidade é para sempre. O lixo doméstico é
apenas uma pequena parte de todo o lixo produzido. A indústria é
responsável por grande quantidade de resíduo – sobras de carvão mineral,
refugos da indústria metalúrgica, resíduo químico e gás e fumaça
lançados pelas chaminés das fábricas.
Resíduo industrial é o lixo que resulta dos processos de produção das
indústrias. Ele varia de acordo com a indústria. Assim, indústrias
metalúrgicas, alimentícias e químicas têm um lixo bem diferente,
requerendo um tratamento especial. O site http://www.conhecimentosgerais.com.br
cita alguns exemplos: na indústria alimentícia os refugos (produção que
não pode ser aproveitada) são vendidos para fábricas de ração animal.
Indústrias metalúrgicas e de plásticos vendem seu refugo para ser
reciclado por outras empresas. As indústrias químicas, porém, precisam
tratar seus rejeitos, e isso muitas vezes requer altos investimentos. O
problema é quando ele não é tratado, sendo jogado em rios ou queimados,
o que polui o meio ambiente. Mas com investimento isso pode ser
revertido. Um exemplo bom é a cidade paulista de Cubatão que, na década
de 80, sofreu com a poluição e hoje, graças a investimentos e pesquisas,
está conseguindo reverter esse quadro.
O resíduo industrial é um dos maiores responsáveis pelas agressões
fatais ao ambiente. Nele estão incluídos produtos químicos (cianureto,
pesticidas, solventes), metais (mercúrio, cádmio, chumbo) e solventes
químicos que ameaçam os ciclos naturais onde são despejados. Os resíduos
sólidos são amontoados e enterrados; os líquidos são despejados em rios
e mares; os gases são lançados no ar. Assim, a saúde do ambiente, e
conseqüentemente dos seres que nele vivem, torna-se ameaçada, podendo
levar a grandes tragédias.
Cerca de 10 a 20% dos resíduos industriais podem ser perigosos ao homem
e ao ecossistema. Incluem produtos químicos, como o cianureto;
pesticidas, como o DDT; solventes; asbestos e metais, como o mercúrio e
o cádmio. O perigo está no solo, na água e no ar. Quando absorvidos pelo
ser humano, os metais pesados (elementos de elevado peso molecular) se
depositam no tecido ósseo e gorduroso e deslocam minerais nobres dos
ossos e músculos para a circulação. Esse processo provoca doenças.
O consumo habitual de água e alimentos - como peixes de água doce ou do
mar - contaminados com metais pesados coloca em risco a saúde. As
populações que moram em torno das fábricas de baterias artesanais,
indústrias de cloro-soda que utilizam mercúrio, indústrias navais,
siderúrgicas e metalúrgicas, correm risco de serem contaminadas.
Os metais pesados são muito usados na indústria e estão em vários
produtos. Apresentamos no quadro 1 os principais metais usados, suas
fontes e riscos à saúde.
Quadro 1 - Principais metais usados na indústria, suas fontes e riscos à
saúde
|
Metais |
De onde vêm |
Efeitos |
|
Alumínio |
Produção de artefatos de alumínio; serralheria; soldagem de medicamentos (antiácidos) e tratamento convencional de água. |
Anemia por deficiência de ferro; intoxicação crônica. |
|
Arsênio |
Metalurgia; manufatura de vidros e fundição. |
Câncer (seios paranasais) |
|
Cádmio |
Soldas; tabaco; baterias e pilhas. |
Câncer de pulmões e próstata; lesão nos rins. |
|
Chumbo |
Fabricação e reciclagem de baterias de autos; indústria de tintas; pintura em cerâmica; soldagem. |
Saturnismo (cólicas abdominais, tremores, fraqueza muscular, lesão renal e cerebral) |
|
Cobalto |
Preparo de ferramentas de corte e furadoras. |
Fibrose pulmonar (endurecimento do pulmão) que pode levar à morte |
|
Cromo |
Indústrias de corantes, esmaltes, tintas, ligas com aço e níquel; cromagem de metais. |
Asma (bronquite); câncer. |
|
Fósforo amarelo |
Veneno para baratas; rodenticidas (tipo de inseticida usado na lavoura) e fogos de artifício. |
Náuseas; gastrite; odor de alho; fezes e vômitos fosforescentes; dor muscular; torpor; choque; coma e até morte. |
|
Mercúrio |
Moldes industriais; certas indústrias de cloro-soda; garimpo de ouro; lâmpadas fluorescentes. |
Intoxicação do sistema nervoso central |
|
Níquel |
Baterias; aramados; fundição e niquelagem de metais; refinarias. |
Câncer de pulmão e seios paranasais |
|
Fumos metálicos |
Vapores (de cobre, cádmio, ferro, manganês, níquel e zinco) da soldagem industrial ou da galvanização de metais. |
Febre dos fumos metálicos (febre, tosse, cansaço e dores musculares) - parecido com pneumonia. |
Fonte: http://www.ambientebrasil.com.br/
A indústria elimina resíduo por vários processos. Alguns produtos,
principalmente os sólidos, são amontoados em depósitos, enquanto que
o resíduo líquido é, geralmente, despejado nos rios e mares, de uma
ou de outra forma.
Certos resíduos perigosos são jogados no meio ambiente, precisamente
por serem tão danosos. Não se sabe como lidar com eles com segurança
e espera-se que o ambiente absorva as substâncias tóxicas. Porém,
essa não é uma solução segura para o problema. Muitos metais e
produtos químicos não são naturais, nem biodegradáveis. Em
conseqüência, quanto mais se enterram os resíduos, mais os ciclos
naturais são ameaçados, e o ambiente se torna poluído. Desde os anos
50, os resíduos químicos e tóxicos têm causado desastres cada vez
mais freqüentes e sérios.
Atualmente, há mais de 7 milhões de produtos químicos conhecidos, e
a cada ano outros milhares são descobertos. Isso dificulta, cada vez
mais, o tratamento efetivo do resíduo.
A destinação, tratamento e disposição final de resíduos devem seguir
a Norma 10.004 da Associação Brasileira de Normas Técnicas que
classifica os resíduos conforme as reações que produzem quando são
colocados no solo:
perigosos (Classe 1- contaminantes e tóxicos);
não-inertes (Classe 2 - possivelmente contaminantes);
inertes (Classe 3 – não contaminantes).
Os resíduos das classes 1 e 2 devem ser tratados e destinados em
instalações apropriadas para tal fim. Por exemplo, os aterros
industriais precisam de mantas impermeáveis e diversas camadas de
proteção para evitar a contaminação do solo e das águas, além de
instalações preparadas para receber o lixo industrial e hospitalar,
normalmente operados por empresas privadas, seguindo o conceito do
poluidor-pagador.
As indústrias tradicionalmente responsáveis pela maior produção de
resíduos perigosos são as metalúrgicas, as indústrias de
equipamentos eletro-eletrônicos, as fundições, a indústria química e
a indústria de couro e borracha. Predomina em muitas áreas urbanas a
disposição final inadequada de resíduos industriais, por exemplo, o
lançamento dos resíduos industriais perigosos em lixões, nas margens
das estradas ou em terrenos baldios, o que compromete a qualidade
ambiental e de vida da população.
Para tratar a questão dos resíduos industriais, o Brasil possui
legislação e normas específicas. Pode-se citar a Constituição
Brasileira em seu Artigo 225, que dispõe sobre a proteção ao meio
ambiente; a Lei 6.938/81, que estabelece a Política Nacional de Meio
Ambiente; a Lei 6.803/80, que dispõe sobre as diretrizes básicas
para o zoneamento industrial em áreas críticas de poluição; as
resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA 257/263 e
258, que dispõem respectivamente sobre pilhas, baterias e
pneumáticos e, além disso, a questão é amplamente tratada nos
Capítulos 19, 20 e 21 da Agenda 21 (Rio-92).
Em síntese, o governo federal, através do Ministério do Meio
Ambiente – MMA e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis – IBAMA está desenvolvendo projeto para
caracterizar os resíduos industriais através de um inventário
nacional, para traçar e desenvolver uma política de atuação, visando
reduzir a produção e destinação inadequada de resíduos perigosos.
Com a aprovação da Lei de Crimes Ambientais, no início de 1998, a
qual estabelece pesadas sanções para os responsáveis pela disposição
inadequada de resíduos, as empresas que prestam serviços na área de
resíduos sentiram um certo aquecimento do mercado – houve empresa
que teve aumento de 20% na demanda por serviços logo após a
promulgação da lei – mas tal movimento foi de certa forma arrefecido
com a emissão da Medida Provisória que ampliou o prazo para que as
empresas se adeqüem à nova legislação.
Comparando as legislações francesa e brasileira, Groszek (1998) diz
que não há grandes diferenças. Tanto a legislação brasileira quanto
a européia têm os princípios da responsabilidade, que é do gerador
de resíduos. Na França e no Brasil o gerador tem a responsabilidade,
por exemplo, de escolher um centro de tratamento que seja adequado,
legal e ambientalmente, ficando essa escolha sob a sua
responsabilidade, e também de escolher um transportador que seja
credenciado.
O operador, por sua vez, tem a responsabilidade de cumprir as
obrigações legais em geral e aquelas decorrentes da licença que ele
possui, em particular.
A legislação francesa estabelece que a empresa deve, em primeiro
lugar, evitar a geração de resíduo; que, se houver geração, deve-se
primeiramente tentar o reaproveitamento do resíduo, recuperando a
matéria-prima; no caso do tratamento fora da usina, deve-se antes
buscar um tratamento que possibilite uma valorização térmica; e, em
último lugar, deve-se utilizar o aterro.
A esperança das empresas que investiram em tecnologia e instalações
para tratamento e disposição de resíduos industriais está na
disseminação da ISO 14000, pois as empresas que aderirem à norma
terão que gerenciar adequadamente seus resíduos, e numa maior
atuação fiscalizadora por parte dos órgãos de controle ambiental.
A soma das ações de controle, envolvendo a geração, manipulação,
transporte, tratamento e disposição final, traduz-se nos seguintes
benefícios principais:
Ö minimização dos riscos de acidentes pela manipulação de resíduos
perigosos;
Ö disposição de resíduos em sistemas apropriados;
Ö promoção de controle eficiente do sistema de transporte de
resíduos perigosos;
Ö proteção à saúde da população em relação aos riscos potenciais
oriundos da manipulação, tratamento e disposição final inadequada.
Ö intensificação do reaproveitamento de resíduos industriais;
Ö proteção dos recursos não renováveis, bem como o adiamento do
esgotamento de matérias-primas;
Ö diminuição da quantidade de resíduos e dos elevados e crescentes
custos de sua destinação final;
Ö minimização dos impactos adversos, provocados pelos resíduos no
meio ambiente, protegendo o solo, o ar e as coleções hídricas
superficiais e subterrâneas de contaminação.
Muitas vezes, de acordo com Tondowski (1998), uma empresa quer
tratar os seus resíduos e há uma consciência do gerador neste
sentido, mas todo tratamento de resíduos, ou grande parte dos
tratamentos de resíduos, representa custo. Mesmo a reciclagem gera
custo e isso significa que, se uma determinada empresa fizer o
tratamento e o seu vizinho ou competidor não o fizer, isto colocará
a primeira empresa numa posição de menos competitividade no mercado.
Então, só procura o serviço, seja de gerenciamento ou de destinação
de resíduos, aquele gerador que compete em termos globais e precisa
apresentar uma política clara de meio ambiente, porque ele está
produzindo algo aqui que será vendido, por exemplo, na Europa. Ele
estará competindo a partir de um produto feito aqui com um produto
feito em outro país, onde o seu competidor estará fiscalizando a
forma como o produto foi feito aqui.
Um resíduo não é, por princípio, algo nocivo. Muitos resíduos podem
ser transformados em subprodutos ou em matérias-primas para outras
linhas de produção.
A manipulação correta de um resíduo tem grande importância para o
controle do risco que ele representa, pois um resíduo relativamente
inofensivo, em mãos inexperientes, pode transformar-se em um risco
ambiental bem mais grave.
Muitos empresários bem que gostariam de colaborar, efetivamente,
para a despoluição não só por motivos éticos, mas, principalmente,
práticos. O que se joga fora ocupa espaço e leva embora muita
matéria-prima que poderia ser reaproveitada. Fala-se constantemente
em reciclagem de materiais, mas ocorre que ainda estamos no início
de um trabalho que demanda ousadia e paciência. E que nem sempre
custa uma exorbitância.
4 – Como quantificar e colocar os resíduos na contabilidade da
empresa?
Evento ambiental é qualquer interação da entidade com o meio
ambiente que gere conseqüências econômicas presentes ou futuras,
tendo em vista as normas regulamentadoras ou de responsabilidade
social às quais referida entidade está sujeita. Podemos citar como
exemplo a aplicação de recursos para pesquisa tecnológica, visando à
redução da emissão de resíduos.
Os efeitos da interação de uma entidade com o meio ambiente podem
ser identificados por elementos contábeis, tais como estoques de
insumos destinados ao tratamento de efluentes e resíduos,
resultantes do processo produtivo.
No ativo ambiental, temos o imobilizado, que são bens destinados à
manutenção do gerenciamento ambiental, tais como sistemas de
controle de resíduos, filtros de ar, instalações e equipamentos da
estação de tratamento de efluentes, entre outros.
Um passivo ambiental origina-se quando uma entidade, em decorrência
de suas operações, fica sujeita a obrigações legais ou reparatórias,
em função do uso do meio ambiente (água, solo, ar) ou da geração de
resíduos tóxicos.
Receita ambiental, podemos citar como exemplo a venda de materiais
gerados a partir de resíduos do processo de produção.
Gastos externos: referem-se àqueles que toda a sociedade suporta,
sem ser atribuível diretamente à entidade que os produziu. São
gastos invisíveis, mas reais, como, por exemplo, o custo de
tratamento de saúde em decorrência da poluição atmosférica provocada
por resíduos não adequadamente tratados.
No Plano de Contas temos, no Ativo Circulante (Estoques), Insumos de
Tratamento de Resíduos. Nas Contas de Resultados, Receitas (Vendas
de Resíduos) e na Redução de Custos e Despesas Ambientais (Recuperação
de Resíduos).
4.1 - Casos relevantes de resíduos
Na aquisição de bens ou serviços que serão utilizados na gestão
ambiental, debita-se o respectivo custo, despesa ou ativo e credita-se
a conta própria geradora dos recursos. Se a compra for a prazo,
credita-se especificamente a conta de fornecedores ambientais,
visando destacar o compromisso gerado em função da gestão do meio
ambiente.
Exemplo adaptado de Zanluca (2004): Serviços de recuperação de
resíduos, efetivada com terceiros, no valor de R$, sendo que tais
resíduos, após o processamento, serão destinados à venda. O PIS e
COFINS recuperáveis na compra correspondem a R$ e R$
respectivamente. Teremos como lançamento:
Ö Contabilização do serviço executado:
D – Resíduos Recuperados (Estoques – Ativo Circulante)
C – Fornecedores de Serviços Ambientais (Passivo Circulante)
Ö Registro do PIS e COFINS recuperáveis do serviço:
D – PIS a Recuperar (Ativo Circulante)
D – COFINS a Recuperar (Ativo Circulante)
C - Resíduos Recuperados (Estoques – Ativo Circulante)
Na venda de bens ou serviços ambientais, devem-se registrar os
tributos incidentes sobre tal operação:
Exemplo adaptado de Zanluca (2004): Venda de resíduos de materiais,
no valor de R$, verificando-se a geração dos seguintes tributos
sobre a venda:
PIS – R$
COFINS – R$
ICMS – R$
Ö Contabilização
D – Tributos sobre Receitas Ambientais (Dedução das Vendas – Conta
de Resultado) R$
C – PIS a Recolher – Operações Ambientais (Passivo Circulante) R$
C – COFINS a Recolher - Operações Ambientais (Passivo Circulante) R$
C – ICMS a Recolher - Operações Ambientais (Passivo Circulante) R$
4.2 - Custo dos subprodutos – resíduos e materiais reciclados
De acordo com Zanluca (2004), pode-se determinar contabilmente o
custo dos subprodutos (aqueles resultantes do processo produtivo que
são descartados), que posteriormente serão vendidos, tais como
resíduos e materiais reciclados, através do rateio comum dos custos
de produção ambiental.
O primeiro passo é determinar um padrão comum de rateio, que pode
ser: horas/homem aplicadas ou horas/máquinas, ou critério misto.
Os materiais diretos aplicados são atribuídos ao respectivo custo do
lote produzido. Mas não se transferem custos de materiais aplicados
da produção do produto principal. Entende-se que o rejeito ou
descarte na produção significa que o produto principal deve assumir
o custo atribuído da integralidade dos materiais e outros serviços,
não esquecendo que o descarte ou rejeito é um custo da produção do
produto principal, pois é elemento deste. Não se trata de um custo
do resíduo ou material reciclável. Pode-se medir tal custo, para
avaliar a redução do desperdício em decorrência da gestão ambiental,
mas atribuir este custo a um outro elemento produtivo, que não o
principal, é no mínimo questionável. Por isso, como contabilista,
este autor parte do princípio que os resíduos já foram custeados na
produção principal, não sendo cabível a transferência de tais custos
a uma operação secundária.
O que se transfere, isto sim, aos subprodutos resultantes, é o custo
de sua preparação, recondicionamento e demais etapas necessárias
para destiná-los à venda. Em resumo:
Ö Na fase principal da produção do produto, todos os custos são
alocados ao respectivo produto, incluindo os descartes de resíduos:
materiais, mão-de-obra e custos gerais de fabricação.
Ö Após o descarte, os resíduos e materiais resultantes que sofrerem
nova operação fabril irão receber os custos exclusivos sobre eles
aplicados, sejam novos materiais, mão-de-obra e os gastos gerais de
produção.
Exemplo adaptado de Zanluca (2004): A contabilidade de custos apurou
a seguinte composição dos custos de produção aplicados aos resíduos
X e Y, no mês de janeiro/2005:
|
Gastos Aplicados aos Resíduos |
|||
|
Mês de: |
Janeiro/05 |
||
|
Descrição |
Valores R$ |
||
|
Resíduo X |
Resíduo Y |
Total |
|
|
Insumos |
2.500,00 |
2.000,00 |
4.500,00 |
|
Mão-de-obra |
|
|
7.500,00 |
|
Gastos Gerais |
|
|
10.000,00 |
|
TOTAIS |
2.500,00 |
2.000,00 |
22.000,00 |
O critério de rateio da mão-de-obra é segundo o
número de horas/homem aplicada aos resíduos. Já para os gastos
gerais, o critério é de acordo com o número de horas/máquinas.
Fazendo-se o rateio de acordo com os apontamentos de produção do mês,
obteve-se o seguinte quadro:
|
Mapa de Rateio dos Custos Indiretos |
|||
|
Mês de janeiro/2005 |
Valores R$ |
||
|
|
Resíduo X |
Resíduo Y |
Total |
|
Mão-de-obra Aplicada: |
|
|
|
|
Horas/Homem Utilizadas |
250 |
300 |
550 |
|
Mão-de-obra R$ |
3.409,09 |
4.090,91 |
7.500,00 |
|
Gastos Gerais de Produção: |
|
|
|
|
Horas/Máquinas Aplicadas |
300 |
200 |
500 |
|
Gastos Gerais R$ |
6.000,00 |
4.000,00 |
10.000,00 |
Somaremos os custos de insumos aplicados para obter o custo total dos lotes de Resíduo X e Y processados durante o mês.
|
Custos dos Produtos Processados |
Valores R$ |
||
|
Mês de Janeiro/2005 |
Resíduo X |
Resíduo Y |
Total |
|
Insumos |
2.500,00 |
2.000,00 |
4.500,00 |
|
Mão-de-obra |
3.409,09 |
4.090,91 |
7.500,00 |
|
Gastos Gerais |
6.000,00 |
4.000,00 |
10.000,00 |
|
TOTAL |
11.909,09 |
10.090,91 |
22.000 |
|
Produção (unidades) |
1.200 |
800 |
|
|
Custo Unitário R$ |
9,92 |
12,61 |
|
Transferência dos custos para o estoque:
D – Estoque de Produtos Reciclados (Ativo Circulante) R$ 22.000,00
C – Transferência de Insumos (Custos de Produção) R$ 4.500,00
C – Transferência de Mão-de-obra (Custos de Produção) R$ 7.500,00
C – Transferência de Gastos Gerais (Custos de Produção) R$ 10.000,00
Admitindo-se que o estoque anterior de produtos reciclados era zero,
e que, no mês de janeiro de 2005 foram vendidas 500 unidades do
Resíduo X e 250 unidades do Resíduo Y, teremos os seguintes custos
dos produtos vendidos:
Resíduo X = 500 unidades x R$ 9,92 = R$ 4.960,00
Resíduo Y = 250 unidades x R$ 12,61 = R$ 3.152,50.
Total dos custos: R$ 8.112,50.
Contabilização do custo de venda:
D – Custo dos Produtos Vendidos (Conta de Resultado) R$ 8.112,50
C - Estoque de Produtos Reciclados (Ativo Circulante) R$ 8.112,50
5 - Conclusão
Todo processo industrial está caracterizado pelo uso de insumos (matérias-prima,
água, energia, etc) que, submetidos a uma transformação, dão lugar a
produtos, subprodutos e resíduos.
Quando se fala em meio ambiente, no entanto, o empresário
imediatamente pensa em custo adicional. Dessa maneira passam
despercebidas as oportunidades de uma redução de custos. Sendo o
meio ambiente um potencial de recursos ociosos ou mal aproveitados,
sua inclusão no horizonte de negócios pode resultar em atividades
que proporcionam lucro ou pelo menos se paguem com a poupança de
energia ou de outros recursos naturais.
Neste sentido, para proporcionar o bem-estar da população, as
empresas necessitam empenhar-se na: manutenção de condições
saudáveis de trabalho; segurança, treinamento e lazer para seus
funcionários e familiares; contenção ou eliminação dos níveis de
resíduos tóxicos, decorrentes de seu processo produtivo e do uso ou
consumo de seus produtos, de forma a não agredir o meio ambiente de
forma geral; elaboração e entrega de produtos ou serviços, de acordo
com as condições de qualidade e segurança desejadas pelos
consumidores.
Portanto, a Contabilidade tem que estar atenta ao avanço das
questões que se apresentam e incorporar as questões ecológicas e
ambientais nos seus registros, nas contabilizações e nas divulgações
aos usuários da informação contábil.
A Contabilidade apresenta-se como o sistema de informações que tem
como finalidade principal coletar, mensurar e evidenciar as
transações, visando exercer o importante papel de veículo de
comunicação entre a empresa e a sociedade.
Referência Bibilográfica
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Saneamento Ambiental – nº 54, p. 16-24, nov./dez. 1998. Acesso em 05
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http://www.conhecimentosgerais.com.br/preserveomundo/lixo-e-
reciclagem/lixo-industrial.html Acesso em: 30 dez. 2004.
Maria Elisabeth Pereira Kraemer - beth.kraemerarrobaterra.com.br
Contadora, CRC/SC nº 11.170, Professora e Integrante da Equipe de Ensino e Avaliação na Pró-Reitoria de Ensino da UNIVALI – Universidade do Vale do Itajaí. Mestre em Relações Econômicas Sociais e Internacionais pela Universidade do Minho-Portugal. Doutoranda em Ciências Empresariais pela Universidade do Museu Social da Argentina. Integrante da Corrente Científica Brasileira do Neopatrimonialismo e da ACIN – Associação Científica Internacional Neopatrimonialista.
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