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Palavras-chave: associativismo, cooperação, desenvolvimento local
INTRODUÇÃO
É bastante antiga a vontade de associar interesses e idéias para, a
partir da compreensão da realidade e com princípios deliberadamente
articulados e a constituição de forças aglutinadoras e iniciativas de
cooperação, ir em busca de ações para a concretização de interesses
comuns.
Presente entre os seres vivos desde os primórdios dos tempos, a prática
associativa vem se perpetuando, sustentando a sobrevivência e a evolução
das espécies.
O associativismo constitui-se numa exigência histórica e profunda de melhorar a qualidade da existência humana. O social é a ambiência normal do humano. O homem como um ser social se agrega.
O associativismo é tido como uma das melhores possibilidades, pois faz com que a troca de experiências e a convivência entre as pessoas se constituam em oportunidades de crescimento e desenvolvimento.
Entretanto, ao referir-se ao assunto, LINHARES ( apud Alvritzer, 1997, p.157) diz que “a sociedade latino-americana, no momento da independência, é débil devido às próprias concepções dos atores acerca das suas formas de ação, concepções essas, marcadas pelas formas específicas de organização societária prevalecentes naquele momento.
Será apenas a partir da segunda metade do século XX que ocorrerão os
primeiros indícios de constituição de um associativismo civil débil,
porém baseado em modernas formas de ação.”
A enorme diversidade cultural esteve presente na formação da sociedade
brasileira e como culturas diferentes podem dificultar o processo de
associativismo, iniciando pela própria comunicação a dificultar os
relacionamentos.
As especificidades regionais consolidadas passam a ter forte
influência sobre o associativismo, diante do que torna-se fácil associar
a lentidão da enargia do associativismo.
Os fundamentos de uma sociedade solidária se inscrevem dentro de um
movimento de ampliação da democracia e ganha novas nuances com formas
alternativas de organizações sociais, passando a ser também revigoradas
pela prática empresarial contemporânea num sentido reativo e defensivo
da eficiência produtiva, a congregar interesses diversificados,
aparecendo em todo o tempo agrupamentos específicos em forma de redes,
clusters e outros que ora concorrentes, ora parceiros, melhor permitem
intervenção na sociedade e junto dos poderes, especialmente de
situações bastante complexas.
Essa abordagem de estratégia do associativismo competitivo no
contexto do paradigma do desenvolvimento empresarial, não é aqui objeto
de exploração.
O período de redemocratização no Brasil, que se iniciou na década de 80,
trouxe intrínseco ao seu bojo e com vasto potencial, a emergência de
novas práticas associativas.
No Artigo 174, § 2º, da Constituição Federal Brasileira está consagrada a liberdade de associação quando estabelece que “a lei apoiará e estimulará o cooperativismo e outras formas de associativismo”.
Ela determina ainda em seu Artigo 5º - Inciso XVIII que a “a criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento.”
Como se vê o momento é favorável para a participação, pois o texto
constitucional também ampliou a possibilidade de participação da
sociedade civil na gestão pública, presente nos Artigos 194, 198, 204,
206 e 227, além de leis que regulamentam os diversos artigos, abrindo
espaços efetivos de decisão política acerca da gestão de determinada
política pública.
Com efeito, na atualidade o desafio é a inserção social do cidadão
e, como diz Rodigues ( 2004, p.1),
“os atores sociais mais importantes não são os cidadãos
individualmente, mas as corporações em que se envolvem e de cuja atuação
passam a depender em grande medida os interesses individuais.”
Entretanto, o desejo de ser ator se pauta “no desejo que todo indivíduo
e/ou grupo social tem de resistir ao seu próprio desmembramento num
universo em movimento, sem ordem ou equilíbrio.”(UNIRCOOP, p.14)
A vida associativa é presença em muitas áreas de atividades humanas,
mormente traduzida em condições que visam contribuir para o equilíbrio
e estabilidade social e a esse respeito cabe destaque ao que escreve
Frantz (2002. p.1),
“O associativismo, com o sentido de co-operação, é um fenômeno que pode
ser detectado nos mais diferentes lugares sociais: no trabalho, na
família, na escola etc. No entanto, predominantemente, a co-operação é
entendida com sentido econômico e envolve a produção e a distribuição
dos bens necessários à vida.”
A presente reflexão sobre associativismo e cooperação tem como
denominador comum o sentido humano, em que o espaço da participação, da
decisão responsável e sustentável representam novos paradigmas,
formadores de uma nova consciência de parceria e cidadania para a
construção compartilhada.
Dificuldades de se concretizar este discurso? Com certeza, mas é manifesto que o associativismo apresenta-se, não como uma panacéia, mas como possibilidade altamente valiosa aplicável em muitos casos e que, felizmente, vai já merecendo o interesse de numerosos atores da sociedade civil e mesmo da comunidade empresarial.
A. sustentabilidade social tem a ver com a relação que mantemos
conosco mesmos e, fundamentalmente, com os outros. Para Freire (1987) ,
a força do coletivo se faz com um sentimento social livre do
individualismo, em que cada um seja capaz de usar sua liberdade para
ajudar os outros a se libertarem, através da transformação global da
sociedade.”
O associativismo e sua relação com o desenvolvimento
Nesta discussão o associativismo se faz entendido como uma força
estratégica para a melhoria das condições locais de vida das pessoas e
de uma população, sob todas as suas dimensões, culminando com a idéia
de desenvolvimento.
A esse respeito observa Frantz ( 2002, p. 25), “(...) potencialmente, o associativismo, a cooperação, contêm o desenvolvimento local (...). A associação expressa uma relação dinâmica, uma relação em movimento, em direção a um lugar melhor pela cooperação”.
Acrescenta ainda que “o desenvolvimento é um processo também fundado em relações sociais associativas, das quais podem nascer formas cooperativas”.
Observa-se que aqui se revela um espaço à participação extensiva e
intensiva dos recursos humanos em que a co-responsabilidade remete a
parcerias estáveis e para relações mutuamente proveitosas, cujas
transformações não ocorre da noite para o dia, mas sim caminhando em
etapas, solidariamente, e sustentadamente, capturando a sinergia
liberada.
Sergio C. Buarque (2002, p. 25) conceitua desenvolvimento local “como um
processo endógeno de mudança, que leva ao dinamismo econômico e à
melhoria da qualidade de vida da população em pequenas unidades
territoriais e agrupamentos humanos”. O desenvolvimento posto como um
modelo que contém uma perspectiva nascida, fortalecida e sustentada na
auto-organização social é o aqui acolhido.
Considera Frantz (2002) que “desenvolver-se não significa seguir um rumo
previamente inscrito na vida social, mas exige a construção das próprias
condições dessa vida social pela ação dos homens.
No processo do desenvolvimento local é imprescindível o
reconhecimento da multiplicidade e diversidade das potencialidades
humanas.” Ao seu ver o nosso modo de ser e de fazer as coisas carrega
marcas profundas de uma cultura de competição e da lógica do mercado.
No reconhecimento dessas marcas está a raiz da discussão sobre
desenvolvimento local.
“A via do associativismo fomenta um debate permeado de pontos e
contrapontos onde o diálogo abre caminho para a reconstrução, para o
desenvolvimento” e onde, conforme salienta Arruda (apud Frantz, 2002, p.
29),
(...) a diversidade do conjunto de talentos, capacidades, competências
que constituem a singularidade e a criatividade de cada um.
O método é colocá-las em comum, buscando construir laços solidários
de colaboração no interior da comunidade, de modo a desenvolver quanto
possível os talentos, capacidades e competências coletivas.(...).
Trata-se, como no caso de cada pessoa, de desenvolver a comunidade no
sentido de tornar-se sujeito consciente e ativo do seu próprio
desenvolvimento"
O vigor do processo de aproximação e aprendizado mútuo aprofunda o
engajamento e as potencialidades humanas no conceito de desenvolvimento
e no processo de desenvolvimento local, são forças motoras da capacidade
endógena de transformação.
Na concepção de Souza (1993) é fundamental colocar o desenvolvimento
humano no centro de qualquer tipo de desenvolvimento e particularmente
do chamado desenvolvimento econômico. Não existe o econômico sem o
social, o social é fundante, determinante, o econômico é derivado,
resultado, subordinado.
“Reconhecer a agência humana como propulsora do desenvolvimento abre
espaço à cultura, à educação, aos valores. Como decorrência, recoloca o
problema do desenvolvimento nos espaços locais, nas proximidades
humanas, nas relações entre as pessoas, nos espaços do associativismo e
das práticas cooperativas.” ( Frantz, 2002, p.30).
Ao construir formas de compreensão, de estudo de significados e
transformações do trabalho associado percebe-se que ele assume diversas
facetas em uma ampla "família cooperativa" que inclui a recuperação de
empresas em crise, organizações associativas, cooperativas, várias,
onde emerge a valorização da autonomia do trabalho e da dimensão humana
como fator de paz e disciplina social.
(Tesh, 2004) Diante da importância de se destacar o papel da pessoa enquanto sujeito legítimo da transformação e da validação social de normas e valores, cabe destaque ao que diz Arruda (apud Frantz, 2002, p. 33)
"repensar, portanto, o mercado como uma relação social, entre seres
humanos, apenas mediada por dinheiros e produtos; repensar a empresa e
as instituições como comunidades humanas; deslocar o eixo da existência
humana do ter para o ser; identificar e cultivar a capacidade de cada
pessoa e comunidade de ser sujeito consciente e ativo do seu próprio
desenvolvimento, estes são alguns dos grandes desafios ligados ao
renascimento da humanidade no milênio que se avizinha.”
O associativismo é uma questão primária para o potencial emancipatório
e o desenvolvimento de qualquer comunidade ao articular o pontual com o
abrangente. “O processo do desenvolvimento local permite levantar a
hipótese da ampliação da dimensão humana da economia pela maior
identidade dos seus agentes.
” (Frantz, 2002, p.33). Com essa forma de representatividade abre-se a possibilidade de combinar o desenvolvimento coletivo e individual.
Enfatizar as associações tornou-se relevante à medida que a lógica
da ação coletiva acabou prevalecendo sobre a da ação individual, sem
contudo excluí-la, porque o coletivo contém o individual.
“A cooperação é uma maneira inovadora de lidar com as ‘imperfeições’ de
mercado: isto é, as relações de mercado são, por essência, baseadas nos
interesses individuais das empresas participantes, e portanto, são
antagônicas, não cooperativas.” (Coutinho, p.186). Da mesma forma em uma
sociedade desigual, o ativismo associativo, pelos relacionamentos e
através do aprendizado contínuo das pessoas, sinaliza um contrato
tácito que sustenta o comprometimento e a práxis da ação para mitigar
as imperfeições da trama social.
A organizações associativas abrigam um complexo sistema de relações
sociais que se estruturam a partir das necessidades, das intenções e
interesses das pessoas que cooperam no sentido de fazer frente a
naturais debilidades.
Da dinâmica dessas relações nascem ações no espaço da economia, da
política, constituindo-se em processos de aprendizagem e estruturas de
poder (Rodrigues, 2002).
Com certeza, essa aprendizagem os homens a estão fazendo, acima de tudo,
a partir das dificuldades, das contradições, inerentes a esse processo
social de desenvolvimento. “(...).
A aprendizagem acontece como um produto da divergência, pois na
concordância pouco se aprende.” ( Frantz, 2002 ).
Fica, pois, claro que o fomento do associativismo constitui a pedra
angular do desenvolvimento e cuja problemática está em captar as
contradições e organizar as pessoas, uni-las e engajá-las
harmoniosamente em torno de interesses comuns, dando atendimento às suas
necessidades coletivas e até individuais.
O associativismo cinge necessidades, interesses e vontades, é o lugar dos debates, das iniciativas, dos acordos.
A organização associativa instrumentaliza os mecanismos que dão
concretude às demandas sociais e que fazem dos homens, com tempo e
vagar, sujeitos de seu próprio destino, tornando-os mais próximos da
busca de autonomia na promoção do desenvolvimento local.
A cooperação passa a ser a força indutora que modifica comportamentos e
abre caminhos para incorporar novos conhecimentos, criando um tecido
flexível mediante o qual se enlaçam distintos atores, produzindo um
todo harmônico culminando no estabelecimento de uma comunidade de
interesses em uma estrutura que deve ser ajustada para refletir os
padrões de comunicações, inter-relações e cooperação, reforçando a
identidade do associativismo e a dimensão humana.
Neste ponto cabe resgatar que “nada é mais precioso que o humano.
Ele é a fonte das outras riquezas, critério e portador vivo de todo o valor. (..) é preciso ser economista do humano, (...) É necessário igualmente forjar instrumentos – conceitos, métodos, técnicas – que tornem sensível, mensurável, organizável, em suma, praticável o progresso em direção a uma economia do humano”.
Os instrumentos de construção da economia do humano deverão ser forjados pela via do associativismo, pela organização cooperativa, mais que pela competição.
A economia do humano pode ser entendida como uma. das expressões
mais próximas do desenvolvimento local. ( Lévy, apud Frantz, 2002, p.
17)
O quadro no Brasil, está representado por uma enorme a evolução do
surgimento de novas organizações associativas tanto no meio rural como
urbano e se dá de forma dispersa caracterizando o resultado das ações
de um conjunto de pessoas articuladas com vistas a superar dificuldades,
criando uma espécie de capital social sem mesmo que elas queiram ou
percebam, mas que já é um beneficio das relações estabelecidas.
Entretanto, no que diz respeito ao associativismo comunitário,
segundo Avritzer et al ( 2003) não teria havido, segundo os dados do
IBGE, crescimento significativo, apesar de dados de diferentes pesquisas
apontarem na direção do crescimento no número de associações
comunitárias e ligadas a luta pela melhoria das condições de vida e
pelo acesso a diversos bens e serviços públicos.
Percentual de filiação a movimentos associativos segundo o IBGE
|
Pertencimento a Associações |
1998 |
1996 |
|
Associação
de bairro |
2,3% |
2,5% |
|
Associação
religiosa |
3,6% |
5,0% |
|
Associação
filantrópica |
------ |
0,7% |
|
Associação
esportiva e cultural |
7,0% |
10,9% |
|
Não é
filiado |
85,7% |
87,9% |
|
Total |
100 |
100 |
|
N |
25.502 |
22.474 |
Fonte: Avritzer et al 2003, p. 2.
Tal situação foi atribuída a algumas associações no Brasil ainda não
manterem procedimentos formais de filiação como, por exemplo, uma grande
parte das associações comunitárias e das associações ligadas a saúde e a
moradia.
Esse também aparenta ser o caso de um contingente de associações religiosas. Essa hipótese veio a ser testada, no Estado de São Paulo, pelos autores em pesquisa, ao afirmar também que “a não formalidade, nesse caso, envolve forte caráter organizativo e de participação civil e social.
A partir disto, os resultados encontrados mostram uma realidade
associativa paulistana muito mais ampla e informal do que até aqui os
dados da PNAD vinham nos indicando.” Afirmativa esta que encontra
comprovação nos dados a seguir representados.
RELAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO: FORMAL x INFORMAL
|
|
TOTAL
|
Total de Participantes |
Vínculo com entidade |
|
|
Formal
|
Informal
|
|||
|
Base total da amostra
|
2.403
|
448
|
166
|
281
|
|
100%
|
19%
|
7%
|
12%
|
|
|
Participação em Entidades |
19
|
100
|
100
|
100
|
|
- religiosa |
10
|
51
|
38
|
59
|
|
- civil |
9
|
49
|
62
|
41
|
Fonte: Criterium 2003, apud Avritzer, 2003
A presença associativa representada é vigorosa, 19 %, mesmo incluindo a
força do associativismo de base religiosa.
Por outro lado há de se considerar a marcante presença do segmento
não participante do associativismo e aí persiste a questão: a não
participação é de interesse dessas pessoas ou está vinculada às raízes
históricas da baixa propensão associativa do país relatadas na
literatura?
Considerações finais
O ensaio apresentado tomou como princípio as diversas contribuições
sobre associativismo, sua obra em uma sociedade culturalmente
capitalista para destacar, num cenário mais amplo a realidade em que se
inscreve o caso brasileiro.
Os caminhos percorridos permitem perceber que a adesão ao associativismo, embora consistente, ainda se mostra insuficiente para conter desigualdades sociais e econômicas, e, em maior instância, desigualdade política.
Há necessidade de persistir nesse caminho soerguendo uma cultura de
jeitos próprios de solucionar problemas, de participação e mediação no
diálogo entre a comunidade e os poderes em todas as direções, ao
encontro de outras ações de enfrentamento às dificuldades, à apatia e
exclusão, visto ser na intensificação da resistência dos agentes
humanos que está a possibilidade de superar enfoques assistencialistas e
construir-se o poder propositivo de ação, estratégico da vida
associativa. para a melhoria da produtividade social.
A força social está na capacidade de, num processo de diálogo
construtivo, ampliar o conhecimento, daí a capacidade de ação do grupo
se estabelece e as atividades realizadas de forma comunitária e, em
essência, coletiva determinam um processo de cidadania emancipada,
fortalecem e estendem as discussões, induzindo e assentando o processo
de desenvolvimento, originalmente local.
Professora do Curso de Administração e Ciências Econômicas da Unioeste, Campus de Francisco Beltrão.
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