Universidade corporativa como alavanca da vantagem competitiva
03-2005
A educação formal para o trabalho, em nível superior, começa a enfrentar
uma concorrência inusitada: as universidades corporativas, surgidas das
experiências de programas de treinamento e desenvolvimento profissionais
corporativos e da constatação de que a universidade não prepara
adequadamente para o trabalho. O conceito de universidade corporativa
surgiu nos EUA, em 1995, quando a General Eletric criou a Cotronville.
Mas foi só a partir da década de 80 que se assistiu a um aumento
considerável destes novos espaços de formação. Outro componente que
contribuiu para o rápido crescimento das universidades corporativas é a
necessidade de contínua aprendizagem, como conseqüência das vertiginosas
mudanças no mundo do trabalho, em razão dos avanços tecnológicos
permanentes e do processo de globalização da economia. As universidades
corporativas surgem como solução para o alinhamento das iniciativas de
treinamento com a estratégia da organização e de criação de vantagem
competitiva, por meio de aprendizado permanente.
1 - Introdução
O mundo vem passando por constantes e significativas transformações que
colocam as empresas diante da necessidade de se adaptarem a um novo
ambiente bastante competitivo, veloz e permeado por incertezas. O grande
desenvolvimento tecnológico observado e vivido por todos nas últimas
décadas contribuiu para essa mudança.
O conhecimento está se tornando o fator de produção mais importante,
deixando para trás o capital e a mão-de-obra.
Diante disto, as organizações vêem-se obrigadas a alterar sua forma de
atuação para responder ao mercado. As empresas devem acompanhar as
mudanças com velocidade, o que significa dizer que os indivíduos que
fazem parte dessa organização devem acompanhar essas mudanças, na mesma
velocidade. Isto reflete-se no crescente investimento das empresas em
treinamento de seus profissionais, que tem um enfoque estratégico e
amplo, oferecendo a compreensão do contexto no qual a organização está
inserida.
Neste sentido, surgem as universidades corporativas como complemento
estratégico do gerenciamento, do aprendizado e desenvolvimento dos
funcionários de uma empresa. Uma vez que as organizações necessitam que
as pessoas aprendam mais rápido, acompanhando a velocidade da geração de
conhecimento do mundo atual, elas vêm com a missão de alinhar as
iniciativas de treinamento com a estratégia da organização, considerando
a cultura organizacional, o contexto organizacional (indústria,
fornecedores, mercado) e as competências essenciais.
Para Eboli (2003), a crença de que as competências, habilidades e o
conhecimento formam a base de vantagem competitiva reforça a necessidade
de intensificar o desenvolvimento dos funcionários nesses âmbitos e
justifica, portanto, a existência da universidade corporativa.
Na verdade, as universidades corporativas personificam a filosofia de
aprendizagem da organização, cuja meta é oferecer, a todos os
funcionários, o conhecimento e as competências necessárias para que os
objetivos estratégicos sejam alcançados. Elas também percorrem o
processo de seleção de parceiros de aprendizagem, que envolvem
profissionais de treinamento, consultores e instituições de educação
superior.
2 - O ensino superior em busca da excelência
O desafio do ensino superior será o do reconhecimento de sua
pertinência, segundo a UNESCO (1999), tendo em vista a rapidez e a
amplitude das mutações em curso e os desdobramentos esperados, tanto em
âmbito mundial como no âmbito de cada sociedade. A sociedade está se
tornando cada vez mais cognitiva e dependente, portanto, da qualidade do
ensino superior e de sua abertura internacional.
De acordo com a UNESCO (1999), a sociedade do século XXI será uma
sociedade da comunicação. A chegada dessa sociedade provoca inúmeras
conseqüências no mundo do trabalho: a tomada de decisão afasta-se cada
vez mais dos lugares de produção e pode se fazer, em tempo real, a
milhares de quilômetros de distância; o dinheiro circula não mais em
espécie nem em papel, mais virtualmente; as contabilidades tornam-se
cada vez mais deslocadas; os lugares de produção, de distribuição e de
pesquisa estão cada vez mais separados espacialmente, mais interligados
em rede, graças às novas tecnologias.
É um elemento essencial investir na formação superior, mas os governos
estão conscientes de que sustentar o ensino superior, que tem
necessidade de pesquisadores e professores de alto nível, é um esforço
que demanda recursos de longo prazo.
O documento da UNESCO, intitulado “Mudanças e Desenvolvimento no Ensino
Superior” (1995), dá uma idéia dos desafios que os governos e o ensino
superior devem enfrentar nos dias de hoje: “em nossa época, um país que
não dispuser de um sistema de formação e de pesquisa de qualidade no
nível superior, não pode assegurar um progresso suficiente para
responder às necessidades e às expectativas de uma sociedade em que o
desenvolvimento econômico respeita o meio ambiente e é acompanhado da
construção de uma ‘cultura da paz`, baseada na democracia, na tolerância
e no respeito mútuo, em suma, no desenvolvimento humano. O ensino
superior é chamado em todos os lugares a melhor adaptar e responder às
exigências de uma época em que as possibilidades novas que se abrem
seguem lado a lado com a emergência de novos desafios e profundas
perturbações. O ensino superior, como muitos outros graus e formas de
educação, é chamado a reexaminar, levando em consideração suas relações
com a sociedade, e em particular com o setor econômico, a forma como é
organizado e, especialmente no plano institucional, financiado e
administrado. É preciso que ele, com a ajuda de todos os seus parceiros,
chegue a uma visão global de seus objetivos, tarefas e fundamentos”.
Este mesmo documento diz que, no futuro, presume-se que o ensino
superior deve avançar para que possa responder aos desafios evolutivos
do mundo do trabalho de acordo com muitos experts no assunto, desde que:
- continue a considerar essencial a equidade de acesso em função das
origens sócio-biográficas; diversifique mais suas estruturas e,
portanto, as condições de estudos e os ensinos propostos; dê mais
atenção às competências genéricas, às qualificações sociais e ao
desenvolvimento da personalidade; prepare os estudantes para a
globalização e a internacionalização das dimensões econômicas e
societárias da vida; sirva aos estudantes, oferecendo-lhes, além do
ensino e da aprendizagem, serviços de comunicação e de aconselhamento
fora dos cursos, da oferta de diversas categorias de experiência de
trabalho e de vida, ou, ainda, apoio à busca de emprego, implementando
formas de comunicação regulares entre o ensino superior e o mundo do
trabalho.
3 - Da educação formal à evolução dos modelos de educação
A educação formal, em nível superior, dá-se em universidades, centros
universitários, faculdades integradas, faculdade e escola ou instituto
superior.
Com a profissionalização do ensino, as universidades identificaram
primeiramente as matérias básicas e, secundariamente, àquelas
específicas para a utilização no mercado de trabalho.
A educação formal pode oferecer, ao mundo empresarial, cursos e
programas destinados ao aperfeiçoamento e à especialização profissional,
em nível de pós-graduação (atualização, aperfeiçoamento, especialização
ou mestrado profissional), seqüenciais (para complementação de estudos
ou para formação para o trabalho) ou de extensão (cursos de duração
menor, com o objetivo de reciclagem/atualização profissional ou de
informação e atualização de conhecimentos gerais). Os programas podem
ser abertos à comunidade empresarial ou fechados, especialmente
planejados para determinada organização, levando-se em consideração as
necessidades do cliente e as características de seu negócio.
A educação superior deve decidir, segundo Meister (1999), se continuará
a dedicar-se apenas ao aluno tradicional (o jovem de 18 a 24 anos de
idade, que pode freqüentar a universidade em tempo integral) ou se
passará a considerar também, em seu modelo acadêmico, o público adulto
profissional e a necessidade de aprendizagem permanente, que já vêm
sendo atendidos não apenas pelas universidades corporativas, mas também
por consórcios (grupos de empresas que atuam como corretores de
treinamento, adquirindo conteúdo das instituições tradicionais ou
universidades corporativas para depois oferecê-lo no mercado aberto),
universidades virtuais (instituições de ensino a distância que oferecem
cursos de graduação) e empresas de educação com fins lucrativos.
Meister (1999) diz que a saída para as instituições tradicionais está em
repensar seu relacionamento com as empresas e reexaminar suas
metodologias, produtos, serviços e veículos de apresentação, pois, a
partir do momento em que assumirem seu papel de parceiros empresariais,
poderão adotar um leque maior de estratégias orientadas para os
mercados, que variam de uma presença de local em uma organização ao
licenciamento/merchandising de seu currículo.
A evolução no modelo educacional, proporcionado pelas empresas e pelo
mercado, passa do treinamento pontual, correspondente a um evento, para
um processo contínuo e sistemático.
4 - Tendências da educação superior para o século XXI
As tendências da educação superior, na economia do conhecimento e da
infovia[1], podem ser assim resumidas, segundo Monteiro (2003):
Ö Deverá ser centrada no educando e desenvolvida em ambientes e em
organizações diversificados, não sendo privativa da universidade ou de
outras instituições de educação formal.
Ö A participação das empresas na disseminação da aprendizagem, via
educação corporativa, será cada vez mais intensa.
Ö As parcerias entre as instituições de educação formal e as
organizações empresariais tendem a se ampliar, tornando-se rotina entre
entidades líderes nessas áreas. Será a sinergia da aprendizagem entre o
mundo empresarial e o acadêmico.
Ö A educação a distância será utilizada com mais intensidade,
universalizando o conhecimento. As universidades virtuais, com a
utilização de recursos multimídia, via rede ou satélite, farão surgir as
megauniversidades, com programas direcionados para todos os continentes.
Ö Uso mais intenso de tecnologias educacionais de ponta em apoio a
metodologias avançadas e mais atraentes, que facilitem o processo da
aprendizagem.
Ö Educação continuada; necessidade de aprendizagem permanente.
Ö Cursos sob medida, que tenham como foco as qualificações, o
conhecimento e as competências requeridas pelos profissionais ou pelo
mercado.
Ö Educação voltada para o mercado e para a empregabilidade, com foco na
conveniência, no atendimento individualizado do educando, em tempo real.
O educando como consumidor de conhecimento. Valorização do consumidor.
Ö Serviços educacionais com maior variedade de produtos e utilização de
estratégias voltadas para o mercado.
Ö Os programas de educação superior – os das instituições formais ou os
das universidades corporativas – voltados para a formação de talentos
humanos para o mundo do trabalho, devem desenvolver qualificações,
competências e conhecimentos básicos, no educando, para o ambiente de
negócios.
Ö Aprender a aprender. Ser responsável pela própria aprendizagem
contínua e saber qual é a maneira ideal de aprender novas qualificações.
Ö Comunicação e colaboração. Comunicar-se efetivamente com os colegas de
trabalho, saber trabalhar em grupo e colaborar com os membros da equipe
para compartilhar as melhores práticas.
Ö Raciocínio criativo e resolução de problemas. Saber identificar
problemas e ver a conexão que existe entre a solução proposta e
possíveis abordagens ao próximo problema.
Ö Conhecimento tecnológico. Usar as mais recentes tecnologias para
conectar-se com os membros de sua equipe em qualquer parte do globo.
Ö Conhecimento de negócios globais. Compreender o grande quadro global
de como as empresas operam através de um conjunto básico de técnicas
empresariais como finanças, planejamento estratégico e marketing.
Ö Desenvolvimento de liderança. Ter uma visão para sua equipe ou
departamento que seja compatível com a missão e as metas da organização.
Ö Autogerenciamento da carreira. Ter a capacidade de gerenciar a própria
carreira, identificando as qualificações e conhecimentos necessários
para que se tenha valor no ambiente de negócios e depois trabalhar para
adquiri-los.
5 - Educação corporativa
A educação corporativa, via universidades, institutos, centros ou
escolas de diversos tipos e estruturas, surgiu e está crescendo,
rapidamente, para atender às necessidades de educação continuada e,
segundo Meister (1999), para sustentar a vantagem competitiva,
inspirando um aprendizado permanente e um desempenho excepcional dos
valores humanos e, conseqüentemente, das organizações. Tem por
finalidade o desenvolvimento e a educação de funcionários, clientes e
fornecedores, com o objetivo de atender às estratégias empresariais de
uma organização como meio de alavancar novas oportunidades, entrar em
novos mercados globais, criar relacionamentos mais profundos com os
clientes e impulsionar a organização para um novo futuro.
Representa a energia geradora de sujeitos modernos, capazes de refletir
criticamente sobre a realidade organizacional, de construí-la e
modificá-la continuamente em nome da competitividade e do sucesso. Para
Eboli (2003), ela favorece a inteligência e o alto desempenho da
organização, na busca incansável de bons resultados. A figura 1 mostra
essa migração para um novo modelo de educação.
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Maria
Elisabeth Pereira Kraemer
beth.kraemerarrobaterra.com.br
Contadora, CRC/SC nº 11.170, Professora e Integrante da Equipe de Ensino
e Avaliação na Pró-Reitoria de Ensino da UNIVALI – Universidade do Vale
do Itajaí. Mestre em Relações Econômicas Sociais e Internacionais pela
Universidade do Minho-Portugal. Doutoranda em Ciências Empresariais pela
Universidade do Museu Social da Argentina. Integrante da Corrente
Científica Brasileira do Neopatrimonialismo e da ACIN – Associação
Científica Internacional Neopatrimonialista.