1 - Introdução
O mundo corporativo tem, portanto, um papel fundamental na garantia de
preservação do meio ambiente e na definição da qualidade de vida das
comunidades de seus funcionários. Empresas socialmente responsáveis
geram, sim, valor para quem está próximo. E, acima de tudo, conquistam
resultados melhores para si próprias. A responsabilidade social deixou
de ser uma opção para as empresas. É uma questão de visão, de estratégia
e, muitas vezes, de sobrevivência.
Os assuntos ambientais estão crescendo em importância para a comunidade
de negócios em termos de responsabilidade social, do consumidor,
desenvolvimento de produtos, passivos legais e considerações contábeis.
A inclusão da proteção do ambiente entre os objetivos da administração
amplia substancialmente todo o conceito de administração Os
administradores cada vez mais têm que lidar com situações em que parte
do patrimônio das empresas é simplesmente ceifada pelos processos que
envolvem o ressarcimento de danos causados ao meio ambiente,
independentemente desses danos poderem ser remediados ou não.
Nesse cenário, é cada vez mais árdua a tarefa do administrador no
tratamento desses assuntos na Contabilidade e sua divulgação. A
complexidade da atividade de certas empresas muitas vezes é fator que
dificulta o tratamento a ser dado no registro e na divulgação de,
principalmente, os chamados passivos ambientais.
Este assunto envolve julgamento e conhecimento específico, daí a
necessidade de envolver não somente a alta administração e a classe
contábil, mas também engenheiros, advogados, juristas, etc.
Portanto, a participação da Contabilidade é de extrema importância, pois
vai despertar o interesse para as questões ambientais, ajudando a classe
empresarial a implementar, em sua gestão empresarial, a variável
ambiental, não apenas para constar na legislação, mas por uma verdadeira
conscientização ecológica.
Neste sentido, não podemos ficar para trás, não podemos perder mais esta
oportunidade de nos inserirmos no seio da sociedade, assumindo uma nova
postura como cidadãos e como profissionais perante a sociedade. Porém,
está aí o desafio para nós, contadores: fazer uma Contabilidade adequada
ao um modelo ambiental, integrada e competitiva, que compreenda
movimentos econômicos, movimentos operativos e movimentos ambientais.
2 - O despertar da consciência ecológica na Contabilidade
A Contabilidade, objetivando evidenciar a situação econômico-financeira
das empresas e o desempenho periódico destas, constitui um adequado
sistema de informações quanto à postura ambiental das entidades.
A 7ª Reunião da ONU evidenciou as normas contábeis sobre a
contabilização dos elementos de proteção e recuperação ambientais e
sobre o nível de divulgação adequado. IPECAFI apud Ribeiro (1992) faz a
seguinte observação sobre a evolução da normatização contábil: "É
interessante verificar a evolução das exigências com relação à
divulgação de informações sobre o que a empresa esteja gastando ou sendo
obrigada as gastar, quer na forma de investimentos ou de despesas com
relação ao controle do meio ambiente. Mais do que uma contabilidade de
gastos ambientais, é a idéia do 'environmental accountability'. Essa
'tomada de contas' dos gastos com o meio ambiente parece estar tomando
corpo nas sociedades de inúmeros países de várias regiões do mundo".
Portanto, propostas e recomendações existem no sentido de que as
companhias tornem públicos os efeitos de sua interação com o meio
ambiente. Os efeitos da interação da empresa com o meio ambiente, de
acordo com Ribeiro & Lisboa (1999), podem ser identificados mediante:
® os estoques de insumos antipoluentes para inserção no processo
operacional;
® os investimentos realizados em tecnologias antipoluentes (máquinas,
equipamentos, instalações, etc;
® o montante de obrigações assumidas pela empresa para recuperação de
áreas degradadas ou águas contaminadas e para pagamento de penalidades
ou multas decorrentes de infrações à legislação ambiental;
® as reservas para contingências constituídas com base na forte
probabilidade de ocorrência de perdas patrimoniais provocadas por
eventos de natureza ambiental;
® o montante de custos e despesas incorridos com vistas à contenção dos
níveis de poluição e/ou por penalidades recebidas por procedimentos
inadequados.
Essas informações traduzem o empenho prático da organização em melhorar
a qualidade ambiental do planeta e, por conseguinte, em demonstrar sua
responsabilidade social, além de servir de parâmetro para a melhoria de
suas congêneres.
O passivo, que representa as obrigações para com terceiros, devem ser
reconhecidos a partir do momento em que são verificados, mesmo que ainda
não haja uma cobrança formal ou legal. Esta identificação e a divulgação
do Passivo Ambiental são de grande relevância para avaliação das
condições de continuidade das empresas, além de serem úteis na
evidenciação da responsabilidade social.
Dentre outras forma de identificação do passivo ambiental temos o EIA (Estudo
de Impactos Ambiental) e o RIMA (Relatório de Impacto ao Meio Ambiente),
sendo que o EIA é elaborado na época de constituição da empresa e o RIMA
elaborado periodicamente, para acompanhamento, dos impactos dos
procedimentos operacionais das empresas.
O passivo ambiental tornou-se um quesito elementar nas negociações de
empresa, ou seja, na compra e venda, pois poderá ser atribuído aos novos
proprietários a responsabilidade pelos efeitos nocivos ao meio ambiente
provocados pelo processo operacional da companhia ou pela forma como os
resíduos poluentes foram tratados. Isto é corroborado por Ribeiro &
Lisboa (1999), ao dizerem que pode gerar significativos impactos no
fluxo financeiro e econômico da organização.
A identificação do passivo ambiental também tem grande relevância nos
processos de privatização e de compra. Nas negociações de valores das
transações e nos processos de incorporação de empresas com
características altamente poluentes, nos quais este item foi ignorado,
houve grandes prejuízos para a incorporação.
O desempenho das empresas, apurado pela demonstração de resultado, pode
mostrar com clareza o montante de recursos consumidos naquele período
específico para a proteção, controle, preservação e restauração
ambiental, identificando o montante de gastos com penalidade e multas.
A evidenciação dos fatores que refletem a interação da empresa com o
meio ambiente é fundamental. Qualquer que seja o usuário dessa
informação, poderá estar interessado na identificação dos riscos de
eventual descontinuidade e das perspectivas de continuidade, tendo em
meta as ações e pressões governamentais, da comunidade financeira, de
crédito e da sociedade em geral.
Outro enfoque importante que essas informações poderão trazer são as
instalações e manutenção de empresas, pois, por intermédio dessas
informações, pode-se analisar o custo-benefício dessas organizações.
Portanto, a Contabilidade poderá dar essas informações pois é
responsável pela identificação e apuração dos resultados econômico-financeiros.
Essas informações contábeis, conjugadas com dados físicos sobre os
poluentes produzidos comparativamente à quantidade e tipos produzidos no
período imediatamente anterior, bem como sobre os níveis permitidos pela
legislação ambiental, podem ser de grande valia no que tange à avaliação
da responsabilidade social de uma empresa.
2.1 – Contabilidade Ambiental com responsabilidade social
Sendo a Contabilidade um excelente instrumento de identificação,
registro, acumulação, análise, interpretação e informação das operações
empresariais aos sócios, acionistas e investidores em geral, além dos
administradores, obviamente, ela se configura, conforme Queiroz (2000),
como o melhor mecanismo de gestão disponível ao empresariado, cujos
resultados apurados podem ser tornados visíveis à sociedade, com
relativa facilidade, mediante a apresentação de balanços mais complexos,
que incluam, em seu corpo, as respostas aos questionamentos sociais.
Kroetz (2000) assinala que, entendendo a Contabilidade como uma ciência
social, é vital compreendê-la como um sistema aberto, sendo importante
verificar a caracterização e a evolução da teoria Geral dos Sistemas,
que nasceu da necessidade de se ter uma teoria maior, a da totalidade,
que pudesse não só aglomerar, de forma organizada, pequenas células, mas
também procurando situá-la num sistema maior, objetivando a resolução de
problemas.
A Contabilidade, esta enorme fonte de registro, interpretação e
informação de dados empresariais e governamentais, deve também passar a
preocupar-se com o retorno a ser dirigido a toda a sociedade, conforme
disse o presidente da França, Jacques Chirac, em seu discurso na sessão
plenária de encerramento do XV Congresso Mundial de Contadores, em 1997:
A profissão contábil desempenha um papel fundamental na modernização e
internacionalização de nossa economia. Isso porque vocês não se
restringem a cuidar de contas. Vocês são conselheiros e, às vezes,
confidentes das administrações de companhias, para que têm um importante
papel a desempenhar, especialmente em assuntos sociais e tributários.
Vocês orientam pequenas e médias empresas em sua administração,
simplificando as alternativas, que ainda são demasiado complexas. Vocês
desempenham, portanto, um papel no desenvolvimento das possibilidades de
emprego, o que merece um especial registro de reconhecimento[...]”
O propósito de toda ciência é produzir conhecimento e evidenciar sua
utilidade. Não obstante isso, Kroetz (2000) enfatiza que, nas ciências
sociais, a teorização do saber deve necessariamente transcender seu
objetivo, buscando o bem-estar social, isto é, agindo como uma mediadora
para que a sociedade se desenvolva, possibilitando a igualdade entre os
homens. Por sua vez, a Contabilidade traz essa preocupação por meio de
suas leis, princípios, teorias, métodos, instrumentos, buscando a
demonstração da realidade patrimonial e, principalmente, a relação dela
com o ambiente social.
A Contabilidade Ambiental surgiu em 1970, quando as empresas passaram a
dar um pouco mais de atenção aos problemas do meio ambiente.
Contabilidade Ambiental é a contabilização dos benefícios e prejuízos
que o desenvolvimento de um produto ou serviço pode trazer ao meio
ambiente. É um conjunto de ações planejadas para desenvolver um projeto,
levando em conta a preocupação com o meio ambiente.
Para Maior (2003), a idéia de fazer uma Contabilidade Ambiental dentro
das empresas, ou seja, medir gastos e recursos para a produção de bens
de consumo, veio com a crise do petróleo, em 1974, quando o produto
chegou a um altíssimo custo e estava em escassez. Diz ainda que parece
que, na época, as pessoas entenderam que não é porque uma matéria-prima
é um recurso natural que ela vai durar para sempre. A conscientização
foi ainda mais reforçada quando o Clube de Roma, um grupo formado por
cientistas de todos os países, preocupados em estudar o futuro do mundo,
divulgou um relatório chamado “Limites de crescimento”, que mostrava que
se continuasse não existindo uma preocupação com a natureza por parte
das pessoas e das empresas, o mundo entraria em estado de emergência
mais rápido do que se esperava.
A Contabilidade Financeira Ambiental passou a ter status de um novo ramo
da ciência contábil em fevereiro de 1998, com a finalização do
“Relatório Financeiro e Contábil sobre Passivo e Custos Ambientais” pelo
Grupo de Trabalho Intergovernamental das Nações Unidas de Especialistas
em Padrões Internacionais de Contabilidade e Relatórios (ISAR – United
Nations Intergovernanmental Working Group of Experts on International
Standards of Accounting and Reporting).
Junior (2000) diz que, paralelo a este trabalho, o ISAR vem coordenando
esforços com o Comitê de Práticas de Auditoria Internacional (IAPC –
International Auditing Practices Committee), no sentido de formalizar um
conjunto de padrões de auditoria voltado para a verificação do
desempenho ambiental relatado nas demonstrações contábeis.
A Contabilidade Financeira Ambiental tem o objetivo de registrar as
transações da empresa que impactam o meio ambiente e os seus efeitos na
posição econômica e financeira da empresa que reporta tais transações,
devendo assegurar, conforme o autor acima, que: a) os custos, ativos e
passivos ambientais estejam contabilizados de acordo com os princípios
fundamentais da Contabilidade, e b) o desempenho ambiental tenha ampla
transparência de que os usuários da informação contábil necessitam.
Continuamente, estão sendo feitos progressos no sentido de se proteger o
meio ambiente e reduzir, prevenir ou mitigar os efeitos da poluição e,
em conseqüência, há uma tendência das empresas em abrir para a
comunidade uma grande quantidade de dados sobre uma política ambiental,
seus programas de gerenciamento ambiental e o impacto de seu desempenho
ambiental em seu desempenho econômico e financeiro.
Uma empresa que reconhece suas responsabilidades ambientais deverá
diminuir seu risco financeiro futuro resultante de incidentes ambientais.
Ao mesmo tempo, esta empresa deverá pagar menores prêmios de seguro em
conseqüência do menor risco. Uma taxa de risco ambiental baixa também
pode assegurar à empresa menores taxas de juros na captação de recursos.
Portanto, a empresa que demonstrar que está avançada em termos de uso de
tecnologias ambientalmente amigáveis ou em relação à utilização de
processos produtivos sustentáveis poderá angariar benefícios adicionais,
tais como um aumento no comprometimento dos funcionários, menos taxas e
multas por danos ambientais, menores custos de produção e de disposição
de resíduos, além de ter acesso a melhores oportunidades de negócios.
Poderá inclusive explorar a vantagem competitiva de estar fornecendo
bens e serviços ambientalmente adequados.
Várias empresas já têm um profissional trabalhando com Contabilidade
Ambiental, como indústrias de cimento, usinas de asfalto e muitas outras.
É uma tendência com grandes previsões de crescimento. As empresas querem
economizar e, a partir do momento que tiverem um responsável para
contabilizar custos e benefícios de matéria-prima, ela estará
economizando. O consumidor, por sua vez, está cada vez mais inteligente
e hoje chega a fazer boicote, quando acha que está sendo lesado ou
quando reconhece que determinada empresa está prejudicando a natureza.
Agora, o desafio para a Contabilidade está na mudança de paradigma, para
um modelo contábil ambiental, uma Contabilidade integrada e competitiva
que compreenda movimentos econômicos, movimentos operativos e movimentos
ambientais.
3 – Contabilidade Ambiental – relatório para um futuro sustentável,
responsável e transparente
A preocupação mundial em torno do meio ambiente caminha para um consenso
em torno da adesão a um novo estilo de desenvolvimento que deve combinar
eficiência econômica com justiça social e prudência ecológica. A
combinação desses elementos somente será possível se houver um esforço
conjunto de todos com objetivo de atingir o bem-estar geral no futuro.
Os contadores têm um papel fundamental nesta perspectiva, uma vez que
depende desses profissionais elaborar um modelo adequado para esta
entidade, incentivar as empresas a implementarem gestões ambientais que
possam gerar dados apresentáveis contabilmente, nos balanços sociais,
além de criar sistemas e métodos de mensuração dos elementos e de
mostrar ao empresário as vantagens dessas ações.
Para Sá (2001), as exigências sociais e ambientais, aquelas do mercado,
a luta imperialista, a velocidade extrema das comunicações, o progresso
espantoso no processo da informação, as aplicações científicas cada vez
mais ousadas em quase todos os ramos do saber humano, foram os fatores
que inspiraram as modificações conceituais, também em Contabilidade.
As inovações trazidas pela Contabilidade Ambiental estão associadas a
pelo menos três temas:
® a definição do custo ambiental;
® a forma de mensuração do passivo ambiental, com destaque para o
decorrente de ativos de vida longa, e;
® a utilização intensiva de notas explicativas abrangentes e o uso de
indicadores de desempenho ambiental, padronizados no processo de
fornecimento de informações ao público.
Junto a essas variáveis, encontra-se ainda o respeito ao meio ambiente,
cuja incidência econômica, sócio-jurídica e cultural está fora de toda
dúvida e cujo impacto deve ser reconhecido na Contabilidade.
A Contabilidade não vai resolver os problemas ambientais, mas face à sua
capacidade de fornecer informações, pode alertar os vários atores
sociais para a gravidade do problema vivenciado, ajudando, desta forma,
na procura de soluções.
4 - Finalidade e destinatário da Contabilidade Ambiental
Existem três motivos básicos para a empresa adotar uma Contabilidade
Ambiental:
Razão de gestão interna – Está relacionada com uma ativa gestão
ambiental e seu controle.
Exigências legais – A crescente exigência legal e normativa pode obrigar
os diretores a controlar mais seus riscos ambientais, sob pena de
multas.
Demanda dos partícipes – A empresa está submetida cada vez mais a
pressões internas e externas. Essas demandas podem ser dos empregados,
acionistas, administração pública, clientes, bancos, investidores,
organizações ecológicas, seguradoras e comunidade local.
Convém especificamente saber por que a empresa quer um sistema de
Contabilidade Ambiental. Em outras palavras, que resultados espera obter
com isto. É importante conhecer quais são os objetivos.
® Saber se a empresa cumpre ou não com a legislação ambiental vigente.
® Ajudar a direção em seu processo de tomada de decisões e na fixação de
uma política e nos objetivos de gestão ambiental.
® Comprovar a evolução da atuação ambiental da empresa através do tempo
e identificar as tendências que se observam.
® Detectar as áreas da empresa que necessitam especial atenção (áreas
críticas) e os aspectos ambientais significativos.
® No caso de empresas com uma política ambiental já estabelecida,
conhecer se tem cumprido com os objetivos ambientais fixados pela
companhia.
® Identificar oportunidades para uma melhor gestão dos aspectos
ambientais.
® Identificar oportunidades estratégicas: como a empresa pode obter
vantagens competitivas graças a melhoras concretas na gestão ambiental e
quais são as melhoras que dão valor à companhia.
® Obter informação específica para fazer frente à solicitação dos
partícipes concretos.
Os partícipes (conforme figura 1) podem ser: diretores, empregados,
acionistas, comunidade local, administração pública, clientes,
fornecedores, investidores, bancos e entidades financeiras, seguradoras,
organizações ecológicas, universidades e centros de pesquisas e seus
interesses estão descritos no quadro 1.
Figura 1 – Partícipes envolvidos na responsabilidade social e ambiental

Fonte: Fenech (2002)
Quadro 1 - Interesses específicos de cada partícipe
|
PARTÍCIPE |
PRINCIPAIS
INTERESSES |
|
1
– Trabalhadores |
Garantia
de emprego. Salários. Orgulho e sentimento de dignidade. Saúde e
segurança no lugar no trabalho |
|
2
– Comunidade local |
Riscos
de saúde. Ruídos. Odores. Resíduos
expelidos no solo, água e ar. Conhecimento da atividade da empresa.
Riscos de acidente. |
|
3
– Clientes e fornecedores |
Qualidade
dos produtos. Preços. Segurança nos produtos. Garantia nos
produtos. |
|
4
– Administração pública |
Cumprimento
da legislação. Acidentes e denúncias. Consumo de recursos. Evidência
de que a empresa cumpre seus compromissos ambientais. |
|
5
– Entidades financeiras, investidores e acionistas |
Resultados
financeiros. Informações sobre responsabilidade ou obrigações
legais e respeito a terceiros. Custos ambientais e sua gestão.
Investidores ambientais. Vantagens comerciais relacionadas com a
gestão ambiental. Custo do não cumprimento legal. |
|
6
– Organizações ecológicas |
Informação
ambiental no âmbito local. Impacto nos ecossistemas. Impactos
ambientais do produto ou serviço. |
Fonte: Fundació Fórum Ambiental (1999).
5 - Áreas da Contabilidade Ambiental
As três grandes áreas que classificam os instrumentos da Contabilidade
Ambiental são produção (aspectos), direção (decisões) e meio ambiente
(impactos).
5.1 - Aspectos ambientais – são os elementos específicos das atividades,
produtos ou serviços da empresa que podem interagir positivamente ou
negativamente com o meio ambiente.
5.2 - Decisões ambientais – incluem todas as políticas, estratégias,
planos de ação e instrumentos de trabalho que a direção da empresa adota
para desenvolver uma gestão ambiental determinada da companhia.
5.3 - Impactos ambientais – definem-se como toda troca do meio ambiente,
seja adversa ou benéfica ao seu resultado, total ou parcialmente, das
atividades, produtos ou serviços da empresa.
6 - Momentos da Contabilidade Ambiental
Existem três momentos no processo definido de Contabilidade Ambiental,
de acordo com a Fundació Fórum Ambiental (2001).
6.1 - Medida – consiste na obtenção de dados relevantes. Para isto é
preciso ter definidas, antes, as áreas de influência ambiental e de
criação de valor que devem ser estudadas e os indicadores a utilizar
para obter a informação adequada de cada aspecto relevante dentro de
cada área.
Uma vez estabelecidas a finalidade, os destinatários e os critérios da
Contabilidade Ambiental, podemos entrar no detalhe de suas três etapas
principais: a medida, a avaliação e a comunicação.
O que é feito, neste estado, é transformar informações dispersas e
heterogêneas em dados úteis, comparáveis e analisáveis.
O principal instrumento de medida são os indicadores ambientais que
expressam informação útil e relevante sobre a atuação ambiental da
empresa e sobre seus esforços por influenciar em tal atuação.
6.2 - Avaliação – consiste na análise e conversão dos dados em
informação útil para tomada de decisão, assim como na valoração e
ponderação desta informação.
Uma vez medida a atuação ambiental da empresa, com a ajuda dos
indicadores, transformamos uma informação dispersa em um sistema de
dados. É o momento de avaliar e analisar estes dados, comparando a
realidade com os objetivos, políticas e recursos da empresa.
Nesta fase, há duas atividades importantes a realizar:
® analisar, depurar e explorar os dados para obter informação requerida,
de modo que se possam tomar decisões na empresa;
® avaliar tal informação através da comparação, da ponderação e a
análises da carteira ambiental.6.3 - Comunicação – da atuação ambiental
da companhia, tanto faz dentro como fora da empresa. Tal processo de
comunicação consiste na transmissão de informação sobre a atuação
ambiental da empresa e dos partícipes (stakeholders) externos ou
internos, sobre a base da valoração que a direção realiza sobre as
necessidades e interesses, tanto da empresa como dos diferentes
partícipes.
6.3.1 - Destinatário e motivos (para quem?) – A comunicação pode
interessar a um grande número e partícipes, com interesses e prioridades
distintos. A partir daí, deve-se estabelecer o conteúdo e a forma da
comunicação que mais convém aos interesses da empresa e das demandas dos
distintos partícipes. O quadro 2 discorre sobre os motivos pelos quais
os partícipes necessitam de informação ambiental.
Quadro 2 - Necessidade de informação ambiental
|
PARTÍCIPES |
POR
QUE QUEREM INFORMAÇÃO AMBIENTAL |
|
1
– Trabalhadores |
-Comprovar
que seu empresário é responsável e que qualquer risco ambiental
ou de saúde se administra eficazmente.
-Avaliar
como seu trabalho tem contribuído e a atuação ambiental do
conjunto da empresa.
-Compreender
quais as razões que levam a empresa a investir ambientalmente e
como estas ações podem afetar seus empregos e lugares de trabalho. |
|
2
- Comunidade local |
-Compreender
como as operações da empresa afetam a qualidade do ar, da água e
do solo no âmbito local.
-Conhecer
a existência de processos e programas em marcha para administrar os
riscos e os impactos ambientais. |
|
3
– Clientes |
-Avaliar
a conveniência da empresa como potencial fornecedor.
-Comparar
a atuação da empresa com a de fornecedores alternativos.
-Estar
informados sobre possíveis riscos e responsabilidades ambientais
potenciais.
-Estar
informados dos impactos ambientais associados com produtos e serviços
que eles compram. |
|
4
- Fornecedores |
-Compreender
o estabelecimento de seu cliente a respeito da gestão ambiental
-Conhecer
se seu cliente estabelece algum requisito prévio aos fornecedores
antes de contratar ou comprar. |
|
5
– Administração pública |
-Conhecer
com precisão o que a empresa está fazendo para administrar e
melhorar sua atuação ambiental.
-Assegurar
o cumprimento legal por parte da empresa.
-Tomar
idéias da prática empresarial para o desenho de novas normas
reguladoras. |
|
6
– Entidades financeiras, investidores e acionistas. |
-Avaliar
o risco financeiro para poder tomar decisões ponderadas nos campos
do seguro, crédito e investimento. |
|
7
– Entidades de promoção ambiental |
-Identificar
exemplos de boas práticas.
-Imitar
as melhores atuações ambientais |
|
8
– Organizações ecológicas |
-Conhecer
o impacto ambiental potencial da empresa no território.
-Ter
bases para intervir possíveis denúncias ou reclamações contra a
empresa ou outras empresas do mesmo setor ou território.
-Obter
evidência e pontos de referência para suas campanhas de
sensibilização e educação ambiental. |
Fonte: Fundació Fórum Ambiental (2001).
6.3.2 - Objetivos e tipologia da comunicação (para quê?) – A partir daí,
a empresa pode e deve estabelecer seus objetivos da comunicação
ambiental em cada caso, assim como a tipologia ou forma de comunicação
mais adequada.
Abaixo, resumimos alguns objetivos estabelecidos por cada partícipe,
assim como a mensagem a lançar por parte da empresa como instrumentos de
comunicação mais adequados (quadro 3).
Quadro 3 - Objetivos estabelecidos por partícipe, mensagem da empresa e
instrumento de comunicação.
|
PARTÍCIPES |
OBJETIVOS |
MENSAGENS |
MEIOS
DE COMUNICAÇÃO |
|
Trabalhadores |
-Informar
as boas práticas ambientais e seus motivos |
Política
ambiental, objetivos e resultados. |
Informe
ambiental, Informe social, Memorando anual, Boletim interno de
empresa. |
|
Comunidade
local |
-Melhorar
a compreensão sobre atividades ambientais na empresa.
-Prevenir
protestos e denúncias |
Limitação
da contaminação, gestão dos resíduos responsáveis, atenção
aos interesses da comunidade. |
Informe
ambiental, Visita à empresa, Boletim, Departamento de Comunicação,
Notas de imprensa, Grupos adhoc de estabelecimento de
problemas. |
|
Clientes
e fornecedores |
-Assegurar
novos contratos com eles.
-Aumentar
quota de mercado.
-Atrair
novos clientes |
Vendemos
produtos ambientalmente seguros, desejo de contribuir com a segurança
do consumidor, transparência ante problemas ambientais, desejo de
conhecer as demandas do fornecedor. |
Marketing,
etiquetas ambientais de produto, mala direta a clientes e a grande
fornecedores. |
|
Administração
pública |
-Informar
de nossas boas práticas de gestão ambiental. |
Atividades
ambientalmente responsáveis, resumo de custos e benefícios das
atuações ambientais. |
Informe
ambiental, Certificado ISO, negociação. |
|
Entidades
financeiras e investidores |
-Mudar
percepção de risco.
-Melhorar
a taxa de crédito.
-Atrair
investidores.
-Futuro
dos produtos. |
Gestão
do risco, economia de custos através de uma melhor gestão
ambiental. |
Informe
ambiental, Informe social, Memória anual, Boletim, Informação de
imprensa. |
|
Acionistas |
-Aumentar
o preço da ação.
-Reafirmar
os acionistas.
-Atrair
novos acionistas. |
Gestão
do risco, economia de custos através de uma melhor gestão
ambiental. |
Informe
ambiental, Informe social, Memória anual, Boletim, Informação de
imprensa. |
|
Organizações
ecológicas |
-Mudar
sua percepção da empresa.
-Dar
uma base de fato para as discussões sobre as atividades da empresa |
Melhora
da atuação ambiental, interesses em cooperar para melhorar os
temas ambientais |
Informe
ambiental, Visitas, Memorando anual, negociações, Boletim, Informação
de imprensa. |
Fonte: Fundació Fórum Ambiental (2001).
7 - Classificação da Contabilidade Ambiental
A EPA – Environmental Protection Agency (2002) classifica os tipos de
Contabilidade Ambiental conforme o quadro 4.
Quadro 4 – Classificação da Contabilidade Ambiental
|
Tipos
de Contabilidade Ambiental |
Enfoque |
Dirigido
a usuário |
|
a)
Contabilidade Nacional |
Macroeconômico,
Economia Nacional |
Externo |
|
b)
Contabilidade Financeira |
A
empresa |
Externo |
|
c)
Contabilidade Gerencial ou de Custos |
A
empresa, Departamentos, Linha de Produção, etc |
Interno |
Fonte: http://es.inel.gov/partners/acctg/acctg.htm
7.1 - Contabilidade Nacional – é uma medida macroeconômica. O termo
Contabilidade Ambiental está referido na Economia Nacional. Por exemplo:
o termo Contabilidade Ambiental pode ser usado em unidades físicas ou
monetárias de acordo com o consumo de Recursos Naturais da Nação, sejam
renováveis ou não renováveis. Neste contexto, a Contabilidade Ambiental
tem sido denominada “Contabilidade de Recursos Naturais”.
7.2 - Contabilidade Financeira – relacionada com a preparação dos
estados financeiros que estão baseados de acordo com os Financial
Accounting Standards Board (FASB) y a los Generally Accepted Accounting
Principles ( GAAP). A Contabilidade Ambiental, neste contexto, está
referida à estimação e informação das responsabilidades ambientais e os
custos do ponto de vista financeiro.
7.3 - Contabilidade Gerencial – é o processo de identificação,
compilação e análise de informação, principalmente para propósitos
internos. Está dirigida à administração dos custos, em especial para
tomada de decisões administrativas no âmbito da produção e outro.
Neste sentido, podemos determinar que existem três possíveis contextos
onde se aplica o termo Contabilidade Ambiental, um aplicado na
Contabilidade Nacional, englobando aspectos macroeconômicos, e os outros
dois relacionados mais à realidade microeconômica, com uma unidade
empresarial, que é a que nos interessa.
Posto isto, pode-se definir a Contabilidade de Gestão Ambiental como a
identificação, estimação, a análise, o relatório interno, e o uso dos
materiais e da informação do fluxo da energia, da informação ambiental
do custo, e de outras informações dos custos para a tomada de decisão
convencional e ambiental dentro de uma organização.
A aplicação da Contabilidade de Gestão Ambiental pode potenciar grandes
poupanças de custos na gestão de resíduos, dado que os custos de
manuseio e de deposição de resíduos são relativamente fáceis de definir
e de imputar a produtos específicos. Outros custos ambientais, incluindo
os custos da conformidade ambiental, custos legais, deterioração da
imagem da empresa e riscos e responsabilidade ambiental são mais
difíceis de avaliar.
A Contabilidade de Gestão Ambiental, segundo a EPA (2002):
® focaliza nos custos internos à companhia;
® não inclui custos externos à sociedade;
® dá ênfase particular na contabilidade para custos ambientais;
® abrange não somente a informação ambiental e outra do custo, mas
também informação explícita em fluxos do exame e os fatos dos materiais
e da energia;
® a sua informação pode ser usada para a maioria de tipos de atividade
ou de tomada de decisão da gerência dentro de uma organização, mas é
particularmente útil para atividades ambientais proativas da gerência.
Neste contexto, a Contabilidade de Gestão Ambiental incorpora e integra
dois dos três blocos de edifício do desenvolvimento sustentável:
ambiente e economia.
A informação da Contabilidade de Gestão Ambiental serve essencialmente
para ser utilizada internamente pela empresa nas suas tomadas de decisão.
A nível interno, os procedimentos incluem: medições físicas do consumo
de materiais e energia, fluxos de deposição e deposição final, avaliação
monetária de custos, poupanças e receitas relacionadas com atividades
que apresentam potenciais impactos ambientais.
8 - Benefícios da Contabilidade de Gestão Ambiental
8.1 - Benefícios potenciais à indústria
® identifica, estima, aloca, administra e reduz os custos,
particularmente os tipos ambientais de custos;
® controla o uso e os fluxos da energia e dos materiais;
® dá informação mais exata e detalhada para suportar o estabelecimento e
a participação em programas voluntários, custos efetivos para melhorar o
desempenho ambiental;
® informação mais exata e mais detalhada para a medida e o relatório de
desempenho ambiental, assim melhorando a imagem de companhia com os
stakeholders, tais como clientes, comunidades locais, empregados,
governo e fornecedores.
8.2 - Benefícios potenciais à sociedade
® permite o uso mais eficiente de recursos naturais, incluindo a energia
e a água;
® reduz os custos externos relacionados à poluição da indústria, tal
como os custos da monitoração ambiental;
® fornece informações para a tomada de decisão, melhorando a política
pública;
® fornece a informação ambiental industrial do desempenho que pode ser
usada no contexto mais extenso das avaliações do desempenho e de
condições ambientais nas economias e em regiões geográficas.
Os exemplos de muitas iniciativas ambientais que se beneficiam da
Contabilidade de Gestão Ambiental incluem:
® prevenção da poluição
® design e implementação do sistema de gestão ambiental
® projeto para o ambiente
® cálculo dos custos, poupanças e benefícios de projetos
®estabelecimento de metas quantificadas de desempenho
® divulgação ao exterior de despesas, investimentos e responsabilidades
em ambiente
® compra ambiental preferível
® avaliação anual dos custos/despesas em ambientes
® relatório externo na área do ambiente ou da sustentabilidade
® produção mais limpa, prevenção de poluição, gestão da cadeia de
fornecedores e projetos de eco-design
® avaliação de investimentos, cálculo das opções de investimento
® preço dos produtos
®elaboração de orçamentos
® avaliação do desempenho ambiental dos indicadores e benchmarking
® relatório ambiental do desempenho.
9 - Conclusão
Os objetivos da administração, tradicionalmente, eram quase
exclusivamente econômicos. No entanto, conforme Callenbach (19933),
desde a segunda guerra, com a crescente integração da dimensão social na
economia, o conceito de administração foi sendo gradualmente ampliado
até incluir a dimensão ecológica.
O mercado não mais aceita o descaso no tratamento dos recursos
naturais. Os consumidores estão interessados em produtos limpos. A
legislação torna-se mais rígida, imputando sanções aos infratores,
obrigando as empresas a encarar com seriedade e responsabilidade a
variável ambiental em sua estratégia operacional.
A empresa cidadã se desenvolve imersa na sociedade, na qual busca seus
clientes, funcionários e outros insumos necessários para sua operação.
Ela não se atém apenas aos resultados financeiros expressos em seu balanço, mas inova a formulação de um balanço social, em que avalia sua contribuição à sociedade.
Portanto, verifica-se que a sociedade é que dá permissão para a
continuidade da empresa, conforme Kraemer (2000), e que os detentores de
recursos não querem arriscar indefinidamente seus patrimônios em
companhias que se recusem a tomar medidas preventivas na área social e
ambiental. Posição semelhante assumem os consumidores. Profissionais
competentes não podem comprometer a saúde em função da permanência em
locais inadequados.
Logo, a empresa precisa se adaptar aos parâmetros exigidos para não
agredir ao meio ambiente e, por meio do reconhecimento e divulgação do
seu passivo ambiental e da evidenciação dos ativos ambientais e dos
custos e despesas com a preservação, proteção e controle ambiental, ela
torna claro para a sociedade o nível dos esforços que vem desenvolvendo
com vistas ao atingimento de tais objetivos.
O contador, como menciona Sá (2000), precisa comparecer nesse novo cenário, com a disposição e competências necessárias para cooperar com a preservação do planeta, prosperidade das sociedades e valorização do homem. Deverá ser o agente capaz de disseminar a responsabilidade social na sua organização e nas empresas a quem presta serviços.
É ele o detentor de informações ricas e privilegiadas, e capaz de
influenciar positivamente as organizações e contribuir para a tomada de
decisão.
Partindo dessa premissa, a Contabilidade não pode ficar fechada à
escrituração e mensurações quantitativas do patrimônio da empresa.
Ela deve estar aberta à evolução tecnológica e às mudanças
rápidas do mundo moderno, estar presente na luta pela preservação
ambiental natural, criando modelos contábeis eficazes e orientando o
empresário na aplicação destes modelos para satisfazer as necessidades
da riqueza da empresa com eficácia e também satisfazer com eficácia as
necessidades do meio ambiente natural.
Maria Elisabeth Pereira Kraemer beth.kraemerarrobaterra.com.br
Contadora, CRC/SC nº 11.170, Professora e Integrante da Equipe de Ensino e Avaliação na Pró-Reitoria de Ensino da UNIVALI – Universidade do Vale do Itajaí. Mestre em Relações Econômicas Sociais e Internacionais pela Universidade do Minho-Portugal. Doutoranda em Ciências Empresariais pela Universidade do Museu Social da Argentina. Integrante da Corrente Científica Brasileira do Neopatrimonialismo e da ACIN – Associação Científica Internacional Neopatrimonialista.
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