1 – Introdução
Como um bem humano, o capital intelectual nas empresas nos apresenta um
paradoxo, porque, apesar de ser reconhecido, por grande número de
organizações, como um de seus mais importantes patrimônios, não é
devidamente contabilizado.
Com a globalização e o avanço tecnológico, as empresas estão investindo
em capital humano, com o objetivo de ter retorno mais rápido. Neste
contexto, valorizar os recursos humanos é fundamental para a
competitividade empresarial, pois eles são os principais responsáveis
pelo desempenho das empresas e constituem vantagens competitivas num
mercado cada vez mais exigente.
Mas este capital – suas habilidades, competências e talentos –, ao
contrário dos investimentos dirigidos para o seu desenvolvimento e dos
encargos sociais para sua manutenção na empresa, não aparecem nos
registros contábeis. Para dar respostas à esta questão, a Contabilidade
precisa de ajustes, com objetivo de atender aos usuários das informações
nessa nova era que é a sociedade do conhecimento. Portanto, a
Contabilidade não pode deixar de fornecer, a esses usuários, informações
de natureza intelectual, ecológica, social e humana.
O capital intelectual não se enquadra nos moldes contábeis tradicionais,
por envolver inúmeras variáveis que não repercutem imediatamente nos
resultados das empresas e, portanto, não são consideradas pela
Contabilidade atual.
Os ativos intelectuais se tornaram os elementos mais importantes no
mundo dos negócios. O valor contábil, como referencial econômico-financeiro
das organizações modernas, está desatualizado, não diagnosticando
eficientemente o patrimônio empresarial, principalmente das empresas do
conhecimento, e, desta forma, não atingindo a finalidade maior da
Contabilidade: a informação com qualidade.
Entretanto, não se pode deixar de reconhecer a necessidade premente de
mudanças e alguns ajustes nos sistemas e práticas contábeis para que
essa nova realidade seja devidamente reconhecida e refletida nos
registros contábeis
2 – O conhecimento como gerador de riqueza das organizações
O novo milênio está desafiando todas as organizações a mostrarem suas
competências. Os sistemas têm que ser cada vez mais abertos,
igualitários e honestos. Os empregados têm que pensar em conjunto para
explorar as oportunidades, executar os serviços e resolver os problemas.
O estágio atual de preparação para o futuro envolve a educação das
pessoas, o treinamento de recursos humanos para desenvolver talentos,
enfim, envolve investimento da empresa em quem, de fato, vai fazer
transformações.
Segundo Crawford (1994), o conhecimento é a capacidade de aplicar
informação a um trabalho ou um resultado específico. Então, informação é
a matéria-prima do conhecimento. O autor diz que a sociedade passou por
quatro momentos econômicos diferentes.
√ O primeiro foi a sociedade primitiva, baseada numa visão natural do
mundo, cujas principais atividades econômicas eram a colheita, a caça e
a pesca.
√ O segundo momento foi à sociedade agrícola, formada num sistema
político feudal, baseada em crenças religiosas, quando o conhecimento
era concentrado em matemática e astronomia.
√ O terceiro momento foi a sociedade industrial, caracterizada pela
valorização do capital físico e da mão-de-obra com habilidades
específicas. A imprensa e a televisão eram os principais meios de
comunicação.
√ O quarto e atual momento é representado pela sociedade do conhecimento,
que compartilha ilimitados meios eletrônicos de comunicação e tem como
principal atividade econômica a prestação de serviços baseados no
conhecimento. Outra característica desta era é a valorização do
indivíduo, capaz de transformação contínua e de crescimento. O capital
humano é o recurso fundamental.
Para Drucker (1970), hoje o recurso realmente controlador, o fator de
produção absolutamente decisivo, não é o capital, a terra ou a mão-de-obra.
É o conhecimento. Ao invés de capitalismo e proletariados, as classes da
sociedade pós-capitalista são os trabalhadores do conhecimento e os
trabalhadores em serviços.
O conhecimento, material intelectual bruto, transforma-se em capital
intelectual, a partir do momento que passa a agregar valor aos produtos/serviços.
E esse capital é, em alguns casos, mais valioso do que o próprio capital
econômico
3 – Capital intelectual: principal fonte de intangíveis nas empresas e
um diferencial competitivo em relação aos concorrentes
O termo capital intelectual teve sua origem na propriedade intelectual.
Ele representa os componentes de conhecimentos de uma empresa, reunidos
e legalmente protegidos. É um conjunto de benefícios intangíveis que
agregam valor às empresas.
Segundo Brooking apud Antunes & Martins (2002), o capital intelectual
pode ser dividido em quatro categorias:
√ Ativos de Mercado: potencial que a empresa possui em decorrência dos
intangíveis que estão relacionados ao mercado, tais como: marca,
clientes, lealdade dos clientes, negócios recorrentes, negócios em
andamento (backlog), canais de distribuição e franquias.
√ Ativos Humanos: compreendem os benefícios que o indivíduo pode
proporcionar para as organizações por meio da sua expertise,
criatividade, conhecimento, habilidade para resolver problemas, tudo
visto de forma coletiva e dinâmica.
√ Ativos de Propriedade Intelectual: incluem os ativos que necessitam de
proteção legal para proporcionar, às organizações, benefícios como
know-how, segredos industriais, copyright, patentes e designs.
√ Ativos de Infra-estrutura: compreendem as tecnologias, as metodologias
e os processos empregados, como cultura, sistema de informação, métodos
gerenciais, aceitação de risco e banco de dados de clientes.
O capital intelectual, segundo o FASB apud Wernke (2001), pode ser
definido de duas formas:
√ ativos intangíveis combinados que permitem a companhia funcionar e
manter uma vantagem competitiva;
√ a diferença entre o valor real de mercado da companhia e o valor real
de mercado dos ativos tangíveis menos passivos da companhia.
Já para IFAC apud Padoveze (2000), pode ser pensado como o total de
estoque de patrimônios de capital ou baseados em conhecimento que a
empresa possui. Em termos de balanço patrimonial, os ativos intelectuais
são aqueles itens baseados em conhecimento que a companhia possui e que
produziram um fluxo futuro de benefícios para a empresa. Isso pode
incluir tecnologia, administração e processos de consultoria, bem como
pode ser estendido para a propriedade intelectual patenteada.
Os fatores que geram o capital intelectual, de acordo com Brooking apud
Antunes & Martins (2002), são:
√ conhecimento, pelo funcionário, de sua importância para os objetivos
da empresa;
√ funcionário tratado como ativo raro;
√ alocar a pessoa certa na função certa, considerando suas habilidades;
√ oportunizar o desenvolvimento profissional e pessoal;
√ identificação do know-how gerado pela pesquisa e desenvolvimento (P &
D);
√ avaliar o retorno sobre o investimento em P & D;
√ definir uma estratégia proativa para tratar a propriedade intelectual;
√ mensurar o valor de marcas;
√ avaliar investimentos em canais de distribuição;
√ avaliar a sinergia resultante de treinamento e os objetivos
corporativos;
√ prover infra-estrutura e adequado ambiente de trabalho;
√ valorizar a opinião dos funcionários;
√ oportunizar a participação dos funcionários na definição dos objetivos
da empresa;
√ estimular os funcionários para a inovação.
Fica, assim, clara a importância do capital intelectual para o
desenvolvimento das empresas, além de representar diferencial
competitivo em relação aos concorrentes.
Lopez (2000) classifica o capital intelectual em três componentes
estreitamente inter-relacionados: capital humano, capital estrutural e o
capital do cliente. Todos são intangíveis, mas descrevem coisas
tangíveis para os executivos. É o intercâmbio entre eles que cria o
capital intelectual.
3.1 – Capital humano – a mina na empresa
Constituem o capital humano o conhecimento acumulado, a habilidade e as
experiências dos funcionários para realizar as tarefas do dia-a-dia, os
valores, a cultura, a filosofia da empresa, e diversos ativos
intangíveis, ou seja, as pessoas que são os ativos humanos da empresa. A
principal estratégia da empresa será de atrair, reter, desenvolver e
aproveitar o máximo o talento humano, que será, cada vez mais, a
principal vantagem competitiva.
Segundo Duffy (2000), capital humano é o valor acumulado de
investimentos em treinamento, competência e futuro de um funcionário.
Também pode ser descrito como competência do funcionário, capacidade de
relacionamento e valores.
Para entender melhor o capital humano, é preciso entender as habilidades
que determinam qualquer tarefa, processo ou negócio. Silva (2002)
relaciona as seguintes:
√ Habilidade do tipo commodity: são as habilidades adquiridas, costumam
não serem específicas de uma empresa e podem ter o mesmo valor para
qualquer organização. É, por exemplo, a habilidade de atender ao
telefone.
√ Habilidades alavancadas: o conhecimento pode ser mais valioso para uma
determinada empresa do que para outra. São específicas a um setor e não
a uma empresa. Os programadores da Andersen Consulting, por exemplo,
podem alavancar essa habilidade enquanto os do Bank of America só
agregam valores aos seus funcionários.
√ Habilidades proprietárias: são os talentos específicos da empresa, em
torno dos quais uma organização constrói seu negócio. Podem ser
codificadas em forma de patentes, direitos autorais, expertise. O Ritz-Carlton
é o especialista em administração hoteleira.
Para que os recursos humanos desempenhem um papel real no
desenvolvimento e na gestão do capital humano, Silva (2002) diz que é
preciso investir em expertis na empresa, de alto valor, em áreas como
definição de fronteiras e habilidades de competência essencial,
melhorando o desenvolvimento dos executivos, promovendo a fertilização
cruzada entre os gerentes e especialistas de alto potencial em
tecnologias vitais e desenvolvendo sistemas de remuneração que
recompensem a melhoria de processos e disciplinas que fazem parte do
capital intelectual da empresa.
O mesmo autor coloca ainda que Bill Gates, por exemplo, abriu o capital
de sua empresa a seus funcionários, porque estes criaram a principal
propriedade das empresas: os códigos de software. Desse modo, ele
incentivou os funcionários no aspecto financeiro, ao invés de levá-los
para outras empresas.
A gestão do capital humano passa pelo levantamento do potencial humano,
pela identificação das potencialidades estratégicas a desenvolver e pela
capacitação necessária.
3.2 - Capital estrutural
Duffy (2000) diz que este capital é o valor que é deixado na empresa,
quando os funcionários – capital humano – vão para casa. Exemplos: bases
de dados, listas de clientes, manuais, marca e estruturas
organizacionais.
Compreende os ativos intangíveis relacionados com a estrutura e os
processos de funcionamento interno e externo da organização que apóiam o
capital humano, ou tudo o que permanece na empresa quando os empregados
vão para casa. Baum & Gonçalves (2001) dizem que no capital estrutural
se destacam dois aspectos, o tecnológico e a infra-estrutura.
√ O capital tecnológico é formado pelas patentes, marcas registradas,
banco de dados, softwares, copyrights, franquias, tecnologias de
processos e de produtos.
√ O capital relativo à infra-estrutura da empresa é representado pela
estrutura de comando, a filosofia e cultura da organização, processos de
gestão e sistemas de informação.
Edvinsson (1997) propõe a seguinte divisão para o capital estrutural:
√ Capital organizacional: abrange o investimento da empresa em sistemas,
instrumentos e filosofia operacional que agilizam o fluxo de
conhecimento pela organização, bem como em direção às áreas externas,
como aquelas voltadas para os canais de suprimento e distribuição.
√ Capital de inovação: refere-se à capacidade de renovação e aos
resultados da inovação sob a forma de direitos comerciais amparados por
lei, propriedade intelectual e outros ativos e talentos intangíveis
utilizados para criar e colocar rapidamente no mercado de novos produtos
e serviços.
√ Capital de processos: é constituído por aqueles processos, técnicas
(como o ISO 9000) e programas direcionados aos empregados, que aumentam
a ampliam a eficiência da produção ou a prestação de serviços. É o tipo
de conhecimento prático empregado na criação contínua de valor.
Stewart (1998) diz que o capital estrutural é o que transforma um monge
capaz de gerar uma caligrafia elegante no sorridente astro de um
comercial de televisão da Xerox, capaz de fazer muitas cópias de um
documento. Funcionando como uma espécie de amplificador, ele embala o
capital humano e permite seu uso repetido para a criação de valor, da
mesma forma como uma matriz pode estampar peça após peça.
3.3 – Capital do cliente
O capital do cliente é gerado quando o capital intelectual se transforma
em dinheiro.
É definido como o valor de sua franquia, seus relacionamentos contínuos
com pessoas e organizações para as quais vende.
É de vital importância para as empresas a gerência do capital do
cliente. Os investimentos no capital do cliente devem ser realizados em
conjunto com os clientes, buscando o benefício mútuo no que diz respeito
às informações e aos conhecimentos gerados.
Oliveira (2002) relaciona algumas maneiras de investir no capital do
cliente:
√ Inove com os clientes: independente de quem seja o seu comprador, ele
deseja obter o máximo do cliente dele. Os investimentos em pesquisa e
desenvolvimento podem ser muito mais produtivos, caso já se tenha um
cliente capaz de se beneficiar pelo fato de ser o primeiro a
experimentar a inovação.
√ Invista em seus clientes de empowerment: oferecer aos clientes a
oportunidade de acompanhar eletronicamente, passo a passo, a fabricação
de um produto, pode ter desvantagens com relação ao poder de barganha.
Entretanto, apresenta uma infinidade de vantagens, destacando-se a
possibilidade de se obter feedback do cliente, antes mesmo de se cometer
erros.
√ Concentre-se nos clientes como indivíduos: o empowerment, como
benefício, aumenta a capacidade da empresa em adquirir informações sobre
os seus clientes. Entretanto, transformar essas informações em capital
do cliente, um ativo duradouro, requer a capacidade de atender com
flexibilidade às necessidades dos clientes individuais. Isso torna
necessário que as informações a serem utilizadas possam ser extraídas de
bases de dados organizadas por clientes, onde constem cadastros
individualizados.
√ Divida os ganhos com seus clientes: o conceito de capital do cliente
só faz sentido quando o produtor e o cliente não lutam pelo excedente
que criaram juntos, mas concordam abertamente em possuí-los juntos.
Quanto mais estreitos os laços entre produtor e consumidor, maior é a
capacidade de se gerar excedente em forma
de capital do cliente.
√ Aprenda o negócio do seu cliente e lhe ensine o seu: afinal, quanto
melhor informado estiver sobre o negócio de um cliente, melhor poderá
servi-lo. Isso se dará através da identificação das necessidades não-expressas
do cliente, o que permitirá o desenvolvimento de produtos que os atendam.
√ Torne-se indispensável: as informações sobre o cliente podem e devem
ser utilizadas para que se busque ofertar um serviço vital para o
cliente, de difícil substituição por outro fornecedor. Por meio de
informações, é possível conhecer as características e especificidades de
determinado produto que o tornam especialmente atraente aos olhos do
comprador.
3.4 – Gestão do capital intelectual
Segundo estudo do Financial and Management Acconting Committee (Técnica
Contable) apud Baum & Gonçalves (2001), os conceitos básicos relativos à
medida e gestão do capital intelectual estão relacionados a três
aspectos:
√ Contexto econômico – o crescimento é maior nas indústrias e nações
voltadas à criação, transformação e capitalização dos conhecimentos do
que naquelas ligadas à exploração e utilização dos recursos naturais em
seus processos. O conhecimento é um diferencial de competitividade.
√ Contexto Contábil – a Contabilidade tradicional não está habilitada a
medir aspectos da empresa quanto à capacidade de dirigentes e pessoal, o
valor das informações, da capacidade tecnológica, potencial de mercado e
investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
√ Contexto Empresarial - a visão na gestão da empresa, a partir da atual
era do conhecimento em relação à era industrial, passa a ter o seguinte
enfoque, conforme o quadro 1.
Quadro 1 - visão na gestão da empresa a partir da atual era do
conhecimento em relação à era industrial
|
Aspectos |
Visão
da era industrial |
Visão
na era do conhecimento |
|
Percepção
do pessoal |
Fator
de produção e custos |
Conhecimento
como geração de riquezas |
|
Fluxo
de produção |
Baseado
sobre processos |
Baseado
sobre idéias |
|
Benefícios
s/ inversões |
Tendência
de baixa |
Tendência
de alta pela criatividade |
|
Base
de poder |
Posição
hierárquica |
Nível
de conhecimento |
|
Fluxo
de informações |
Hierárquica |
Redes
funcionais e operacionais |
Baum
& Gonçalves (2001)
Para Stewart (1998), os ativos intelectuais de uma corporação são
geralmente três ou quatro vezes mais valiosos que os tangíveis que
constam nos livros. Ele diz que os passos para administrá-lo são:
√ definir a importância do investimento intelectual para o
desenvolvimento de novos produtos;
√ avaliar a estratégia dos componentes e o ativo do conhecimento;
√ classificar o seu portfolio: o que você tem, o que você usa, onde eles
estão
alocados;
√ analisar e avaliar o valor do portfolio: quanto eles custam, o que
pode ser feito para maximizar o valor deles, se deve mantê-los, vendê-los
ou abandoná-los;
√ investir, baseado no que se apreendeu nos passos anteriores,
identificar espaços que devem ser preenchidos para explorar conhecimento,
defender-se da concorrência, direcionar a ação da empresa ou avançar na
tecnologia; e
√ reunir o seu novo portfolio de conhecimento e repetir a operação ad
infinitum.
O capital intelectual assume várias formas e por este motivo é difícil
de gerenciá-lo. A informatização crescente das empresas, a utilização de
sistema de informações em redes, a flexibilidade dos horários (trabalhos
feitos em casa), a terceirização dos serviços farão com que o ativo
tangível represente uma parcela decrescente em relação ao valor total do
patrimônio, acarretando uma diminuição do patrimônio físico tradicional.
Encontram-se em desvantagem, em relação às demais, as empresas que ainda
não se deram conta do seu capital intelectual, pois não encontraram a
importância do capital intelectual dentro do seu patrimônio. O primeiro
passo para o gerenciamento deste capital é identificá-lo, para depois
mensurá-lo.
Percebe-se, então, que o gerenciamento do capital intelectual é mais do
que apenas o gerenciamento de conhecimentos. Para Edvinsson (1997), é a
alavancagem do capital humano e do capital estrutural em conjunto.
Trata-se de um efeito multiplicador entre capital humano e capital
estrutural. Isso posto, capital intelectual é uma função de gênero e de
metas.
O desafio, para o mesmo autor, é a transformação desde a geração de
valores para a colheita, captação e rápido compartilhamento de
conhecimentos até a alavancagem e capitalização. O objetivo de
gerenciamento, via conhecimentos, pode ser definido como a melhora da
capacidade de geração de valores da organização via abordagem de
conhecimentos. A meta do capital intelectual é a de melhoria da
capacidade de gerar valores da empresa, mediante identificação, captação,
alavancagem e reciclagem do capital intelectual.
Desta forma, segundo Tinoco (1996), o valor gerado em decorrência do
trabalho humano se constitui em um ativo que precisa ser devidamente
contabilizado, mensurado, analisado e divulgado.
3.5 – Mensuração do capital intelectual
O maior desafio da Ciência Contábil é saber como avaliar e mensurar o
capital intelectual de uma entidade, pois, de acordo com Paulo (2000), o
ativo intangível tem relevância sobre o valor da empresa e influencia o
poder de geração de benefícios futuros do ativo tangível.
Entre os diversos instrumentos que buscam medir o capital intelectual da
empresa, destacam-se:
√ diferença entre o valor de mercado e o valor contábil;
√ razão entre o valor de mercado e o valor contábil;
√ “Q” de Tobim;
√ Modelo de Stewart;
√ valor intangível calculado;
√ Modelo de Edvinsson & Malone;
√ Modelo de Sveiby;
√ Modelo Heurístico.
3.5.1 – Diferença entre o valor de mercado e o valor contábil – (CI=VM-VC)
É determinado pela diferença entre o valor contábil e o valor de mercado
de uma empresa. Assim tem-se:
Valor de Mercado = preço por ação x nº total de ações
Capital Intelectual= Valor de Mercado (-) Valor Contábil (PL)
Capital Intelectual = Valor de Mercado (-) Valor Contábil
Se o valor de mercado de uma empresa é maior do que o seu valor contábil,
faz sentido atribuir a diferença ao capital intelectual. Paiva (1999)
diz que essa equação apresenta alguns problemas, devido às variáveis
exógenas que interferem no mercado, como por exemplo: se as taxas de
juros e as ações da Microsolf caem x%, isso significa que o valor do seu
capital intelectual também caiu? Se uma empresa é negociada abaixo do
seu valor contábil, isso significa que não tem mais ativo intelectual?
Outro ponto desfavorável é que tanto o valor contábil quanto o de
mercado podem estar subestimados, o que, em ambos os casos, interfere no
resultado.
3.5.2 – Razão entre o valor de mercado e o valor contábil (CI=VM/VC)
Este indicador elimina em boa parte os fatores exógenos que afetam todas
as empresas de um setor de forma mais ou menos semelhante. Segundo Paiva
(1999), os boatos – que influenciam o valor de mercado – são filtrados
pelo próprio mercado e por isso este indicador é adequado como base de
comparação e evolução ao longo de um determinado período ou mesmo como
base comparativa com os concorrentes.
Em ambos os modelos (CI=VM-VC e CI=VM/VC), existe uma simplificação, em
virtude de que a maioria dos ativos físicos ou financeiros está
representada no Balanço Patrimonial pelos seus custos históricos e não
pelos custos de reposição.
3.5.3 – “Q” de Tobim – (Q=VM/CR)
Desenvolvido pelo economista James Tobim, este método é a comparação
entre o valor de mercado e o seu custo de reposição dos ativos. Este
método prevê decisões de investimentos independentemente de influências
macroeconômicas. Mesmo não sendo uma medida desenvolvida para medir
especificamente o capital intelectual, é um bom referencial, ao comparar
o valor de mercado da empresa e o custo de reposição de seus ativos.
Stewart (1998) diz que: se o “Q” for menor que 1 – ou seja, se um ativo
vale menos que seu custo de reposição –, é improvável que uma empresa
compre novos ativos do mesmo tipo; por outro lado, se o “Q” for maior
que 1 – ou seja, um ativo vale mais do que seu custo de reposição –, as
empresas tendem a investir mais naquele tipo de ativo.
É possível calcular o “Q” de Tobim para ativos específicos, como
veículos, máquinas, edificações, ou para empresa como um todo. Nas
indústrias de software, onde o capital intelectual é abundante, o “Q” de
Tobim tende para um número igual ou superior a 7 (sete) ou mais e nas
companhias de capital físico, este indicador tende para valores
aproximados de 1 (um).
3.5.4 – Modelo de Stewart - Navegador do capital intelectual
Stewart (1998) entende que o capital intelectual deve analisar o
desempenho da empresa sob várias perspectivas. Para tanto, sugere um
gráfico circular, cortado por várias linhas, em forma de uma tela de
radar. Este gráfico tem a vantagem de poder agrupar várias medidas
diferentes (por exemplo: razão, %, valores absolutos, etc) num mesmo
quadro. O autor utiliza uma medida geral (razão valor de mercado/valor
contábil) e indicadores para cada um dos elementos que compõem o capital
intelectual: humano, estrutural e cliente.
Exemplificando o Navegador do capital intelectual, tem-se a figura 1,
onde a área do interior do polígono representa a situação atual,
enquanto a área externa indica a situação desejada. Em outras palavras,
alcançar a extremidade do círculo seria o ideal.
Figura 1 – Navegador do capital intelectual

Fonte: Stewart (1998)
Com base na figura acima, pode-se concluir que a empresa, em termos de "satisfação
de clientes", está quase atingindo as metas pretendidas. Entretanto, o
índice de "participação de novos produtos na receita total" está longe
do objetivado pela empresa. Pode-se concluir, neste exemplo, que a
empresa tem um desempenho satisfatório em medidas de capital do cliente,
entretanto um péssimo desempenho nos índices de medidas de capital
estrutural.
O Navegador do capital intelectual tem a vantagem da fácil visualização
e do acompanhamento da evolução do desempenho da empresa. Deve-se ter
cuidado especial na escolha dos índices de desempenho para que sejam
adequados à estratégia da empresa.
3.5.5. – Valor Intangível Calculado (VIC)
Stewart (1998) informa que a NCI Research em Evanston, nos EUA, afiliada
à Kellogg School of Business, na Northwestern University, montou um
grupo de projeto para encontrar uma maneira de medir intangíveis. O
valor dos ativos intangíveis foi definido como a capacidade da empresa
de superar o desempenho de um competidor semelhante. Então, calcula-se
primeiro o retorno sobre os ativos para uma empresa, no decorrer de três
anos, e apura-se a média para o setor. Baseado nos ativos da empresa, o
excesso (déficit) de ganhos é calculado e comparado com o que seria
produzido por uma empresa média. O imposto é deduzido e o resultado é o
prêmio de ganhos atribuíveis aos ativos intangíveis da empresa. Tal
prêmio é convertido em seu valor presente líquido para chegar a um valor
de capital.
3.5.6 – Grupo Skandia – Modelo de Edvinsson & Malone
O grupo Skandia identificou certos valores de sucesso que deveriam ser
maximizados e incorporados à estratégia organizacional. Estes fatores
foram agrupados em cinco áreas distintas que, de acordo com Edvinson &
Malone (1998), são: financeiro, cliente, processo, humano, renovação e
desenvolvimento, para avaliar o capital intelectual da seguradora e
emitir relatório. No quadro 2 são
transcritos estes indicadores.
Quadro 2 – Indicadores para avaliar o capital intelectual
|
FOCO FINANCEIRO |
FOCO NO CLIENTE |
|
Ativo
total/empregado ($) |
Participação
de mercado (%) |
|
Lucro/empregado
($) |
Número
de clientes |
|
Receitas
de novos clientes/receitas totais (%) |
Vendas
anuais/cliente ($) |
|
Valor
agregado/empregado ($) |
Número
de clientes perdidos |
|
Investimento
em Tecnologia da Informação (TI) ($) |
Índices
de satisfação do cliente (%) |
|
Receitas
resultantes de novos negócios ($) |
Despesas
de suporte/cliente ($) |
|
Lucros
resultantes de novos negócios ($) |
Contatos
de vendas/vendas fechadas (%) |
|
Valor
de mercado ($) |
Número
de visitas dos clientes à empresa |
|
FOCO
NO PROCESSO |
FOCO
DE RENOVAÇÃO E DESENVOLVIMENTO |
FOCO
HUMANO |
|
Custo
dos erros administrativos/receitas gerenciais (%) |
Índice
de satisfação dos empregados |
Índice
de liderança (%) |
|
Capacidade
da rede/empregado |
Horas
de treinamento (%) |
Índice
de motivação (%) |
|
PCs
e laptops/empregado |
Investimentos
em relacionamento/cliente ($) |
Número
de empregados |
|
Despesas
administrativas/empregado ($) |
Despesas
de treinamento/empregado ($) |
Rotatividade
dos empregados (%) |
|
Despesas
com TI/despesas administrativas (%) |
Investimentos
no desenvolvimento de novos mercados ($) |
Tempo
médio de casa |
|
Equipamentos
de informática adquiridos ($) |
Investimento
de P&D em pesquisa básica (%) |
Idade
média dos empregados |
|
Desempenho
corporativo/meta de qualidade (%) |
Patentes
em fase de registro |
Conhecimento
de TI dos empregados |
|
Tempo
de processamento dos pagamentos a terceiros |
Oportunidade
de negócios (%) |
Tempo
de treinamento (dias/ano) |
Fonte:
Edvinson & Malone (1998)
Os mesmos autores estabeleceram passos, a fim de criar uma equação que
traduzisse em um número o valor do capital intelectual da Skandia:
- Identificar um conjunto básico de índices que possa ser aplicado a
toda a sociedade com mínimas adaptações.
- Reconhecer que cada organização possa ter um capital intelectual
adicional que necessite ser avaliado por outros índices.
- Estabelecer uma variável que capte a não tão-perfeita previsibilidade
do futuro, bem como a dos equipamentos, das organizações e das pessoas
que nela trabalham.
Neste sentido, chegou-se à seguinte fórmula:
Capital Intelectual Organizacional = iC,
Onde: C = Valor monetário do Capital Intelectual
i = Coeficiente de Eficiência
De acordo com Antunes & Martins (2002), o valor monetário de “C” é
obtido com base numa relação que contém os indicadores mais
representativos de cada área de foco, avaliados monetariamente,
excluídos os que pertencem mais propriamente ao Balanço Social. Esses
indicadores se referem ao exercício social:
√ Receitas resultantes da atuação em novos negócios.
√ Investimento no desenvolvimento de novos mercados.
√ Investimento no desenvolvimento do setor industrial.
√ Investimento no desenvolvimento de novos canais.
√ Investimento em Tecnologia da Informação (TI) aplicada a vendas,
serviço e suporte.
√ Investimento em TI aplicada à administração.
√ Novos equipamentos de TI.
√ Investimento no suporte aos clientes.
√ Investimento no serviço aos clientes.
√ Investimento no treinamento de clientes.
√ Despesas com clientes não-relacionados ao produto.
√ Investimento no desenvolvimento da competência dos empregados.
√ Investimento em suporte e treinamento relativo a novos produtos para
os
empregados.
√ Treinamento especialmente direcionado aos empregados que não trabalham
nas instalações da empresa.
√ Investimento em treinamento, comunicação e suporte direcionado aos
empregados permanentes em período integral.
√ Programas de treinamento e suporte especialmente direcionados aos
empregados temporários de período integral.
√ Programas de treinamento e suporte especialmente direcionados aos
empregados temporários de tempo parcial.
√ Investimento no desenvolvimento de parcerias/joint-venture.
√ Upgrades no sistema.
√ Investimentos na identificação da marca (logotipo/nome).
√ Investimento em novas patentes e direitos autorais.
Quanto ao índice de coeficiência “i” do capital intelectual, este é
obtido, de acordo com Antunes & Martins (2002), por meio de indicadores
mais representativos de cada área de foco expressos em porcentagens,
quocientes e índices, cuja média aritmética dos índices permite colocá-los
em uma porcentagem única. Esses parâmetros,de acordo com os autores,
referem-se a:
√ Participação de mercado (%).
√ Índice de satisfação dos clientes (%).
√ Índice de liderança (%).
√ Índice de motivação (%).
√ Índice de investimento em Pesquisa & Desenvolvimento/investimento
total (%).
√ Índice de horas de treinamento (%).
√ Desempenho/meta de qualidade (%).
√ Retenção dos empregados (%).
√ Eficiência administrativa/receitas (%).
Portanto, a fórmula apresentada por Edvinson & Malone (1998) – Skandia
mede o capital intelectual em função da quantidade de investimentos,
medidos em termos monetários, realizados nos elementos que podem ser
mensurados objetivamente.
De acordo com Antunes & Martins (2002), este método não considera como
capital intelectual o valor total do investimento (valor de custo)
realizado, mas apenas a proporção que reverterá para a empresa, a médios
ou longos prazos, medida em função do índice percentual da satisfação
dos clientes (indicador não-financeiro).
3.5.7 –Modelo de Sveiby
Este modelo foi desenvolvido por Sveiby, na Swedish Comunity of Practice,
que através de relatório anual apresentou a evolução dos itens do
capital intelectual.
Sveiby (1998) dividiu os ativos em tangíveis e intangíveis,
classificando-os em três grupos: competências das pessoas; estrutura
interna e estrutura externa. Para avaliação, ele utiliza o Monitor de
Ativos Intangíveis, que é um formato de apresentação que exibe de forma
simples uma série de indicadores relevantes e, dependendo da estratégia
da empresa, estes são escolhidos. Este monitor (quadro 3) pode ser
integrado ao sistema de gerenciamento de informações, não devendo
ultrapassar uma página, mas ser acompanhado por diversos comentários.
Quadro 3 - Monitor de Ativos Intangíveis
|
Estrutura externa |
Estrutura interna |
Competência das pessoas |
|
Crescimento/Renovação |
Crescimento/Renovação |
Crescimento/Renovação |
|
Crescimento
orgânico do volume de vendas.
Aumento
da participação de mercado.
Índice
de clientes satisfeitos ou índice da qualidade |
Investimentos
em Tecnologia da Informação. Parcela de tempo dedicado às
atividades internas de P&D. Índice da atitude do pessoal em
relação aos gerentes, à cultura e aos clientes. |
Parcela
de vendas geradas por clientes que aumentam a competência.
Aumento
de experiência média profissional (número de anos).
Rotatividade
de competência. |
|
Eficiência |
Eficiência |
Eficiência |
|
Lucro
por cliente. Vendas por profissional |
Proporção
de pessoal de suporte. Vendas por funcionários de suporte. |
Mudança
no valor agregado por profissional. Mudança na proporção de
profissionais |
|
Estabilidade |
Estabilidade |
Estabilidade |
|
Freqüência
de repetição por pedidos. Estrutura etária. |
Idade
da organização.
Taxa
de novatos. |
Taxa
de rotatividade dos profissionais |
Fonte:
Sveiby (1998, p. 238).
Este monitor
foi desenvolvido com base na análise do capital intelectual de Sveiby e
esta forma de mensuração visa avaliar o crescimento do capital
intelectual sem efetuar uma avaliação de cunho financeiro do
conhecimento.
3.5.8 – Modelo Heurístico
Este modelo foi desenvolvido por Jóia (2001) e considera o vínculo entre
o capital intelectual e a estratégia empresarial, de modo que se avaliem
os ativos intangíveis da empresa ao longo do tempo, segundo a estratégia
de negócios implantada.
Jóia (2001) centra o modelo em dois pontos principais:
√ Considera possível inferir que a atribuição de valores ao capital
intelectual corporativo e seus componentes só vale a pena se houver uma
ligação com a estratégia empresarial da empresa. Para calcular a
intangibilidade, deve-se definir e classificar alguns indicadores de
acordo com os componentes do capital intelectual (capital humano e
capital estrutural) e também escolher os pesos associados a cada um
desses indicadores. Então, todo capital intangível pode ser calculado
pela combinação dos dados disponíveis para os indicadores e seus pesos.
√ Deve-se aplicar algum peso derivado da estratégia empresarial para
definir o capital intelectual em seu todo, esperando encontrar uma
grande correlação estatística entre os valores de capital intelectual e
de mercado, à medida que o tempo avança.
3.6 – Capital intelectual: o desafio para a Contabilidade
O capital intelectual proporciona uma vantagem competitiva, porque é a
soma do conhecimento de todos em uma empresa. Porter (1993) ressalta que
essa vantagem é superior, pois depende de investimentos constantes e
cumulativos, que criam bens concretos e abstratos, na forma de reputação,
relações com os clientes e conjunto de conhecimentos especializados. As
vantagens competitivas de ordem superior não só são mais sustentáveis
como também estão associadas a níveis superiores de produtividade.
Donkin apud Antunes & Martins (2002) afirma que as empresas vêm
percebendo que o valor contábil de seus ativos fixos está, em muitos
casos, diminuindo em relação ao seu valor de mercado, já que este valor
está sendo medido em termos de capacidade que possuem de exploração de
seu conhecimento.
A predominância da informação na cadeira de valor, o investimento em
equipamento capital da Sociedade do Conhecimento, a substituição de
materiais e ativos físicos pelo conhecimento, a iniciativa dos mercados
de trabalho em recompensar o trabalho baseado no conhecimento demonstram
claramente que, atualmente, quando alguém investe em uma empresa, este
suposto investidor está comprando um conjunto de talentos, capacidade,
habilidade e idéias.
Sendo a Contabilidade uma ciência social teria, forçosamente, de acordo
com Sá (2002), que acompanhar as transformações ambientais no que se
caracterizam como causas agentes no patrimônio celular. Diz ainda que o
estudo do “imaterial” agregado à riqueza já era feito há quase um século,
com grande seriedade, pelas correntes doutrinárias italianas e Fábio
Besta, em sua obra, do início do século XX, já as definia como sendo: “o
valor que a empresa próspera tem por si mesma independentemente dos seus
bens, ou seja, um maior valor que ela adquire [...]”
Sá (2002) continua, dizendo que a matéria não é nova, mas a séria
transformação econômica e social dos últimos vinte anos exigiu recente
postura na observação dos intangíveis agregados como capital, sugerindo,
inclusive, uma especialidade contábil para o estudo da questão.
Como a Contabilidade transforma os dados em informações úteis para a
tomada de decisão, faz-se necessário fornecer informações precisas em
tempo correto.
Na Contabilidade tradicional, o capital intelectual não se enquadra,
devido a variáveis que não repercutem no resultado de imediato da
empresa, como, por exemplo, citado por Paiva (1999), a lealdade da
clientela, desenvolvimento da competência dos empregados e satisfação
dos empregados. Correspondem a ativos de natureza intangível, que são a
categoria de ativos de mais difícil avaliação, por não possuírem
existência física, apesar de representarem valor patrimonial para a
empresa.
Não é novidade nenhuma para os contabilistas lidar com ativo intangível,
como, por exemplo, a contabilização de direitos autorais, marcas,
patentes, portanto, esses representam apenas parte do capital
intelectual.
Uma das grandes dificuldades encontradas pelos contabilistas é a
cumplicidade que se estabelece entre a empresa e o empregado. Sabe-se
que o capital intelectual é volátil, pois as empresas não podem contar
sempre com ele. As pessoas que detém o conhecimento podem amanhã ou
depois estar trabalhando para um concorrente da empresa, pois não são
propriedade da companhia, mas considerados ativos.
É interessante a colocação de Stewart (1998), ao dizer que é
característico das empresas do conhecimento eliminar de seus balanços os
ativos fixos. Quanto menos ativos, melhor; desde que tenha capital
intelectual, a empresa pode conseguir receitas, sem a carga e as
despesas de gerenciar os ativos e pagar por eles.
O estudo do capital intelectual é uma maneira de se tentar esclarecer,
conforme declaram Edvinsson & Malone (1998), as informações subjetivas,
semi-ocultas, sobre uma empresa, que se encontram escondidas nas notas
explicativas do Balanço Patrimonial.
Alguns princípios, normas e conceitos não são aplicáveis na Sociedade do
Conhecimento, pois precisam ser reavaliados, como, por exemplo citado
por Paiva (1999), o Princípio do Registro pelo Valor Original – custo de
aquisição de devidos ajustes: depreciação – pacificamente aceito para
avaliar os ativos da empresa, não se aplica aos ativos intelectuais. Um
sistema de custos contábeis, que considere apenas o custo do material e
da mão-de-obra, não mais responde adequadamente a essa nova realidade,
pois muitos dos componentes do custo de um produto se referem aos ativos
intelectuais.
Os relatórios financeiros não indicam o valor de quaisquer ativos de uma
organização. Como diz Flamholtz apud Pacheco (1996), eles reportam o
custo depreciado dos ativos como um substituto para valor.
Adicionalmente, relatórios financeiros não informam aos investidores os
investimentos feitos em ativos humanos por uma organização. A
Contabilidade convencional trata os investimentos em recursos humanos
como despesas em vez de tratá-los como ativos.
Então, isto significa uma distorção, porque empresa nenhuma investiria
em capital humano, um ativo com benefícios futuros esperados, que agrega
valor em seu produto e/ou serviço, gerador de Capital Intelectual. Valor
agregado para Maital (1996) é o valor, por exemplo, que um carpinteiro
agrega à madeira que comprou, depois que esta é transformada em uma
mesa. É a diferença entre o custo da madeira para o carpinteiro e o
valor da mesa quando ele a vende. O autor acrescenta que, no caso de
produtos baseados em conhecimento, por exemplo, o custo do silício e das
substâncias utilizadas na fabricação dos microprocessadores em relação
ao valor que possuem, assim como o custo dos disquetes em que um
software, é gravado em relação ao preço e ao valor desses softwares.
Neste contexto, verifica-se que valor agregado fornece informações
vitais sobre remuneração de empregados, que podem ser utilizadas por
eles mesmos e por outros usuários interessados na relação entre
atividades de recursos humanos versus desempenho e valor da empresa.
Portanto, a Contabilidade não tem levado em consideração, apesar da
grande repercussão patrimonial, esses ativos, como o faz com os demais
ativos, na avaliação patrimonial e divulgação de suas informações. Porém,
vários estudos estão sendo feitos, em busca de uma metodologia adequada
para mensurar este tipo de capital.
Paiva (1999) faz os seguintes questionamentos:
√ Será que o Capital Intelectual é totalmente quantificado?
√ Como avaliar e contabilizar adequadamente os ativos intelectuais – o
conhecimento em si -, considerados a principal parte do Capital
Intelectual?
√ Como demonstrar a valorização patrimonial que ocorre com o Capital
Intelectual?
√ Qual o efeito patrimonial acarretado pela saída de um grupo de
empregados envolvidos em pesquisas e desenvolvimento?
√ Como avaliar o retorno do investimento realizado no Capital
Intelectual?
São questionamentos para os quais ainda não se tem as devidas respostas.
A Contabilidade, segundo Sá (2002), como ciência do patrimônio, não
poderia estar alheia a todos esses câmbios de situações e esta é a razão
que justifica novas teorias e maiores e melhores tecnologias de
aplicação nas áreas dos elementos imateriais no capital.
Se a nova realidade demonstra que esses elementos agregam valor às
empresas, Antunes & Martins (2002) dizem que a Contabilidade deve
considerar tais ativos intangíveis e desenvolver uma forma de evidenciá-los,
se for esse o caso, mas não se pode esquecer que evidenciar o valor da
empresa não é objetivo do Balanço Patrimonial, pelo menos até o momento.
Portanto, fica claro que a mensuração das transações envolvendo o
patrimônio de uma entidade, cuja função pertence à Contabilidade, é
demasiadamente complexa e que as críticas ao Balanço
Patrimonial não procedem por inteiro.
Mas eis o grande desafio para a Contabilidade atualmente, ressalta
Straioto (2000): demonstrar a natureza dinâmica e intangível da criação
de valor da empresa moderna. Os profissionais da área contábil,
conscientes quanto a estas limitações, têm recebido influências de novos
conceitos, metodologias e modelos que visam acrescentar ao papel
informativo da Contabilidade, adequando-a às necessidades informativas
de usuários cada vez mais exigentes.
3.7 – Sugestão do Capital Intelectual No Balanço Patrimonial
O capital intelectual é definido por Stewart apud Padoveze (2000) como
sendo o domínio de conhecimentos, experiência acumulada, tecnologia da
organização, relacionamentos com clientes e habilidades profissionais,
de modo a dar vantagem competitiva para a empresa que detém um capital
intelectual diferenciado. Na realidade é um conjunto de talentos,
capacidades, habilidades e idéias.
Partindo da premissa que essa nomenclatura de capital intelectual é para
diferenciar esse ativo intangível dos demais ativos físicos da empresa,
o valor da empresa, então, é o somatório do capital intelectual mais o
capital físico, representado pelos ativos tradicionais.
Posto isto, como diz Padoveze (2000), a Contabilidade tradicional está
enfrentando um grande desafio, tendo em vista que seus proponentes
entendem que o capital intelectual é passível de mensuração econômica,
e, portanto, deve figurar no ativo da empresa, juntamente com os demais
ativos tradicionais.
A seguir, sugere-se como deve aparecer o capital intelectual no balanço
patrimonial.
CAPITAL INTELECTUAL NO BALANÇO PATRIMONIAL
Ativo Passivo
Balanço tradicional
Investimentos tangíveis Capital financeiro
Bens e direitos
Balanço intelectual
Propriedade intelectual
Goodwill
Tecnologia Capital
intelectual
Competência
Outros
Total do ativo Total do passivo
Balanço total
Valor da empresa
Fonte:Padoveze (2000; p. 8)
Sendo o capital humano um componente do capital intelectual, Leone apud
Straioto (2000) propõe a inclusão dos recursos humanos e seus
desdobramentos no ativo, bem como os gastos de investimentos em ativos
humanos e sua amortização no Balanço Patrimonial de uma organização,
como é demonstrado a seguir:
BALANÇO PATRIMONIAL – EMPRESA “X”
Incluindo os itens relacionados à Contabilização dos Recursos Humanos
1 - ATIVO
. Ativo Circulante
. Ativo Realizável a Longo Prazo
Ativo Permanente
. Ativo Imobilizado
Estrutura de apoio aos RHs.
Depreciação Acumulada
. Ativo de Investimento
Investimentos em RHs.
Avaliação
Reavaliação
Desvalorização
. Ativo Diferido
Gastos de Investimentos em RHs.
Amortizacão de gastos em RHs.
Fonte: Grupo de ativo - Leone, apud Straioto (2000)
Diz a autora que este modelo de Balanço de Recursos Humanos poderá ser
elaborado pela Contabilidade em conjunto com o departamento responsável
pela administração dos recursos humanos da empresa.
Outro modelo proposta por Straioto (2000) é a criação da fórmula para
mensurar o valor agregado ao valor da empresa em todos os seus níveis
(do chão de fábrica até os gerentes e ou executivos), onde cada nível
demonstrará o valor agregado ao valor da empresa e ao produto, conforme
o grau de escolaridade dos funcionários. Seria o capital intelectual
aplicado de cada nível ao produto ou serviço nas etapas do ciclo
operacional da empresa.
Para isto, seria necessário abrir a conta salários no plano de contas da
Contabilidade, também em níveis, como é demonstrado a seguir:
BALANÇO PATRIMONIAL – EMPRESA “X”
Incluindo os itens relacionados à Contabilização dos Recursos Humanos
2 - PASSIVO
Passivo Circulante
. Obrigações Trabalhistas e Sociais
01 Salários e encargos sociais nível 1 – (1ª a 4ª série Ensino
Fundamental)
02 Salários e encargos sociais nível 2 – (5ª a 8ª série Ensino
Fundamental)
03 Salários e encargos sociais nível 3 – (Ensino Médio e/ou Curso
Técnico)
04 Salários e encargos sociais nível 4 – (Graduação)
05 Salários e encargos sociais nível 5 – (Especializações em Geral)
Fonte: Grupo do passivo - Straioto (2000)
Depois, calcula-se o quanto em cada fase do processo produtivo cada
nível agrega de valor à empresa, conforme é demonstrado no quadro 4.
Quadro 4 – Agregando valor a empresa
|
ITENS |
VALOR
$ |
ANO
1% |
ANO
2% |
|
VENDAS |
|
|
|
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(-)
Compras de Bens/Serviços e Juros |
|
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|
|
(-)
Impostos |
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Municipais |
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Estaduais |
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Federais |
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